Uma visita à Igreja do Anjo Nu

Uma visita à Igreja do Anjo NuNo término de minha visita à Igreja do Púlpito de Ouro (tema de artigo anterior), o Velho Teólogo instou-me a conhecer a Igreja do Anjo Nu. A princípio, imaginei tratar-se de uma daquelas catedrais da Renascença, famosas por seus anjinhos rechonchudos, cuja nudez reveste-se de uma doce inocência. Meu amigo, porém, assegurou-me que, nas congregações da Ásia Menor, eu jamais encontraria resquícios da arte florentina. Ali, não veria eu quadros, nem estátuas, pois os templos são ainda sóbrios e despidos de ornamentos. Não obstante, a Igreja do Anjo Nu já começava a desgastar a proverbial modéstia da Anatólia.

– Bem, onde fica a tal igreja? E o seu anjo, onde está? Num ícone? Ou num bloco de mármore?

Com a paciência tão comum aos médio-orientais, o Ancião assegurou-me que o anjo, em tela, não era nenhuma obra de arte. Mais arteiro que artista, vinha ele, porém, inspirando afrescos e murais. Vendo-me curioso e um tanto impaciente, meu amigo revelou-me, então, que o tal anjo era, na realidade, um rico e imperial clérigo. Não obstante, fazia questão de andar nu. Ainda bem que eu estava só. Nessas horas, não dá para fazer-se acompanhar da esposa, da filha e das netas.

Em silêncio, limitei-me a seguir o Velho Teólogo. Este, frugal nas palavras e comedido nos gestos, mantinha a cadência do passo. Depois de uns quarenta minutos, paramos em frente a um templo, que destoava dos demais santuários da Ásia Menor. Detivemo-nos à porta da belíssima nave, e vimos que uma pantomima ensaiava-se em seu interior. Mas, para mim, o espetáculo estava mais para presepada do que para drama.

Reparando que o Anjo Nu não se atinava nem com os corredores, nem com a bancada do templo, perguntei ao Ancião: “Este homem é cego, ou estou vendo mal?” Ele, depois de um curto proêmio, respondeu-me com uma dicção entre profética e lamentosa: “ Sim, ele é cego, mas finge tudo ver. Os outros veem que ele nada vê, mas fazem de conta de que ele é o homem de visão do ano. Aqui, ninguém tem senso de ridículo. Nem o solista, nem os que lhe fazem o coro”.

Em seguida, o Ancião resumiu-me a história daquela igreja. No princípio, era a Palavra de Deus proclamada ousadamente de seu púlpito. De triunfo em triunfo, o rebanho pôs-se a prosperar a olhos bem vistos e invejados. Junto com a bênção espiritual, a material não demorou a chegar. Mas o seu anjo, imaginando que tudo era mérito seu, veio a substituir a teologia que faz a alma prosperar, por um arremedo, que, apesar do nome, misera a alma.

Retorcendo narrativas e proposições da Palavra de Deus, veio ele a acumular prata e ouro. Agora, com a boca daquele pequeno chifre, visto um dia por Daniel, e que falava grandes coisas, o anjo dizia a todos que de nada ressentia. Na encenação desse embuste, transformou o púlpito num picadeiro. Despojou-se da armadura espiritual. Tirou a vestimenta branca. E, sem pejo algum, pôs-se nu diante da congregação. O interessante é que ninguém jamais teve coragem de denunciar-lhe as vergonhas. Então, que o rei fique nu.

Atrevendo-me, perguntei ao Velho teólogo: “Nem o senhor? Afinal, todos lhe conhecem a idoneidade espiritual. Quem não lhe respeitaria os cabelos brancos e sofridos?” Fitando-me os olhos, meu amigo foi gentil e firme: “Se o Anjo Nu não deu ouvidos ao Cordeiro, como ouviria a mim?” A seguir, mostrou-me a carta que o Filho de Deus endereçara ao Anjo Nu:

“Ao anjo da igreja em Laodicéia escreve: Estas coisas diz o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus: Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente! Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca; pois dizes: Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu. Aconselho-te que de mim compres ouro refinado pelo fogo para te enriqueceres, vestiduras brancas para te vestires, a fim de que não seja manifesta a vergonha da tua nudez, e colírio para ungires os olhos, a fim de que vejas. Eu repreendo e disciplino a quantos amo. Sê, pois, zeloso e arrepende-te. Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo. Ao vencedor, dar-lhe-ei sentar-se comigo no meu trono, assim como também eu venci e me sentei com meu Pai no seu trono. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas” (Apocalipse 3.13-22).

Ao ouvir o texto, indaguei do Ancião: “O Anjo Nu não se curvou nem mesmo a esta intimação?” Sim, vestira-se ele de tanto orgulho e soberba, que nem caso fizera do ultimato do Cordeiro. E, para agravar a situação, o seu rebanho passou a ser conhecido como a igreja conceito. Dispensando a autoridade das Escrituras e a direção do Espírito Santo, aquela congregação, dantes tão humilde e tão humilhada, já oferecia uma série de produtos sem qualquer intermediação. Céu na Terra. Pecado sem culpa. Vida cristã sem compromisso. Sua lista de modismos e futilidades não tinha fim. Por essas quinquilharias, havia muita gente empenhando a alma e penhorando o destino eterno.

– Como trazer esta igreja à vida? Perguntei-lhe. O Velho Teólogo passou a dar-me uma receita simples, mas completa, de como avivar um rebanho naquele estado tão decadente e tão miserável.

– Em primeiro lugar, que o Anjo Nu tenha vergonha das próprias vergonhas. Que se vista dos trajes alvejados pelo sangue do Cordeiro. Que o seu castelo se faça manjedoura, e abra-se para receber o Crucificado. Que use o colírio do Nazareno, a fim de que veja a glória de Deus. Às suas feridas, chagas e lacerações, eis as águas de Hierápolis: saudáveis e terapêuticas. À sua alma sedenta, aqui estão as águas de Colossos: potáveis e frescas. Quanto à sua pobreza, compre ele, sem dinheiro algum, o ouro que exalta o pobre e humilha o rico aos pés da cruz.

Por que trazer águas de tão longe? Perguntei ao Ancião. Não há, em Laodiceia, fontes, cisternas ou represas? Vendo-me a perplexidade, pôs-se ele a explicar o porquê dessa estranha prescrição.

– As águas de Laodicéia são impróprias ao consumo humano. Mornas, servem apenas para provocar vômitos. É o que o Anjo Nu dá às suas ovelhas. Elas vêm, enchem-se dessa beberagem. Todavia, o seu organismo espiritual a rejeita. Veja de onde manam as águas eméticas e vomitivas. Sim, elas brotam no púlpito, mas não saltam para a vida eterna.

Mas o avivamento ainda é possível. E a receita é simples. Colírio para ver a glória de Deus. Ouro para enriquecer-nos de Cristo. Vestiduras brancas para andarmos como santos. Águas termais para curar-nos as feridas da alma. E água potável e fria para nos mitigar a sede do espírito.

Antes de nos despedirmos, o Velho Teólogo convidou-me a visitar, dessa vez, a Igreja do Anjo Pobre.

Por, Claudionor de Andrade.

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