Um evangelho apócrifo de evangélicos

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Um evangelho apócrifo de evangélicosEm uma bela manhã de domingo de um passado não tão distante, eu e alguns irmãos nos deslocamos para outro estado da nossa Federação para uma cidade vizinha ao nosso. Fomos ver ali um judeu convertido pregar o Evangelho! A minha curiosidade de conhecer aquele judeu havia sido despertada por alguns irmãos da nossa congregação que possuíam dezenas de mensagens em vídeo do mesmo. A pedido deles assisti alguns daqueles vídeos, mas o meu pouco tempo me impediu de vê-los na sua totalidade. O pouco que assisti aguçou a minha curiosidade e produziu algumas perguntas. A curiosidade veio por conta do judaísmo tardio usado como fundamento de suas mensagens. Não era um judaísmo bíblico, mas talmúdico e medieval. As perguntas vieram por conta da sua imprecisão na citação de alguns termos hebraicos. Eu havia sido professor de introdução ao hebraico bíblico e possuo familiaridade com essa língua.

Isso apenas reforçou o que eu já vinha pensando: Hoje o que está na moda no meio secular e também evangélico não é o que Jesus disse, mas o que Ele não disse. O que mais fascina hoje nas mensagens evangélicas não é aquilo que está escrito na Bíblia, mas o que não está. Nunca lendas judaicas e tradições apócrifas causaram tanto interesse como no atual momento. O que impressiona é que não são somente os pagãos, críticos e ateus que estão à procura das palavras perdidas de Jesus, mas os próprios evangélicos. Cresce a cada dia o número de pregadores que se valem de textos apócrifos como base para seus sermões.

Narrei em um dos meus mais recentes livros que certo dia me encontrava manuseando um livro em uma livraria em Curitiba, Estado do Paraná. Ali um senhor se aproximou de mim. Cordialmente se identificou e tomou a iniciativa na construção de um diálogo. Através de sua fala tomei conhecimento que possuía uma sólida formação teológica, visto ter se formado em um conceituado Seminário evangélico brasileiro. Contou-me que a sua fé estava sofrendo uma reviravolta porque, segundo disse, estava convencido que o ministério de Jesus não havia se limitado às terras bíblicas, mas Jesus teria de fato ido até a Índia. Ali ele teria estudado com os monges e trabalhado a sua espiritualidade. Perplexo, perguntei-lhe em que se baseava para fazer uma afirmação tão ousada. Procurando ali mesmo nas prateleiras daquela livraria, ele encontrou o livro que o havia convencido a mudar de ideia. O livro falava algo tipo: “Os Anos Perdidos de Jesus”.

É bem verdade que sempre houve na história do cristianismo uma batalha pela verdade. Os quatro primeiros séculos da história da igreja, por exemplo, foi marcado por uma disputa acirrada acerca da verdadeira identidade de Jesus Cristo. Quem de fato era Ele? Nomes como Ário de Alexandria, Nestório e Pelágio, apenas para citar os mais famosos, despontam nesse cenário como construtores de verdadeiros sistemas heterodoxos. São repelidos duramente pelos apologistas cristãos por causa da cristologia deformada que tentaram defender.

Em tempos mais recentes despontou no meio evangélico americano o evangelho da saúde e da riqueza, também denominado de Teologia da Prosperidade ou Confissão Positiva. Esse sistema teológico, valendo-se de princípios alegóricos de interpretação e um literalismo extremado, simplesmente negou dois mil anos de tradição cristã para se impor como a única verdade teológica válida. Como aconteceu nas outras vezes, esse sistema teológico encontrou nos apologistas cristãos uma resposta à altura. Davi Hunt, um dos mais famosos apologistas norte-americanos, provou por A + B, em seu livro A Sedução do Cristianismo, que longe de se fundamentar na Bíblia, esse sistema teológico na verdade era uma síntese de elementos vindos do Xamanismo e da Ciência Cristã. Uma heresia grosseira que deveria ser extirpada como se extrai um câncer.

O que é que tem acontecido no meio do universo evangélico brasileiro que tem causado espanto até mesmo entre aqueles que não fazem parte dele? Há uma nova forma de adoração? O que ela tem de tão diferente que faz os seus críticos taxá-la de idólatra? Há uma idolatria evangélica? Um suposto ataque à pessoa de Maria, mãe de Jesus, por parte de alguns protestantes fez com que um padre católico produzisse um dossiê evangélico. Ele está convencido que há uma idolatria evangélica. É isso que tenta provar o seu dossiê. Nele há a denúncia àquilo que classifica como “heresias evangélicas”. De fato o que o padre denunciou vai muito além de simples heterodoxia – são heresias travestidas de ensino bíblico! Em alguns cultos a uma volta completa ao culto do Antigo Testamento, sendo isso facilmente comprovado pela presença da antiga Arca da Aliança na liturgia do culto.

Como uma radiografia, o sacerdote católico destaca: “A nova ‘moda’ das novas comunidades ditas ‘evangélicas’ é a produção de réplicas da Arca da antiga Aliança (descrita no Antigo Testamento da Bíblia). Tais arcas são expostas durante os cultos e literalmente adoradas pelos pastores e pela assembleia reunida. Espanta ver o povo que tanto calunia os católicos, chamando-os de ‘idólatras’ por conta do uso das imagens na igreja, agir dessa maneira! Parece que, na mentalidade de tais ‘pastores’, a reprodução de imagens dos personagens do Novo Testamento, conforme a Tradição cristã legítima, é proibida e pecaminosa; mas a reprodução de imagens dos símbolos do Antigo Testamento é permitida! Suprema contradição, já que a partir de Jesus Cristo foram renovadas todas as coisas, e estabelecida a Nova e Eterna Aliança entre Deus e os homens: ‘Se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que tudo se fez novo’ (2 Coríntios 5.17).

E mais uma vez constatamos que os autodenominados ‘evangélicos’, na verdade, nada entendem da Bíblia Sagrada: se as próprias Escrituras proclamam a renovação de todas as coisas, porque renegar os símbolos da Nova e Eterna Aliança e usar símbolos da Antiga Aliança, das coisas que já passaram e não têm mais nenhum sentido sagrado, como é o caso da Arca? Mais: na Bíblia Sagrada, ainda no Antigo Testamento, o próprio Deus decreta o fim do culto à antiga Arca. Vejamos (atenção para os destaques): ‘Convertei-vos, ó filhos rebeldes, diz o SENHOR; pois eu vos desposei; e vos tomarei, a um de uma cidade, e a dois de uma família; e vos levarei a Sião. E dar-vos-ei pastores segundo o Meu Coração, os quais vos apascentarão com ciência e com inteligência. E sucederá que, quando vos multiplicardes e frutificardes na terra, naqueles dias, diz o SENHOR, nunca mais se dirá: ‘A Arca da Aliança do SENHOR’, nem ela lhes virá mais ao coração; nem dela se lembrarão, nem a visitarão; nem se fará outra. Naquele tempo chamarão a Jerusalém o trono do SENHOR, e todas as nações se ajuntarão a ela, em nome do SENHOR, em Jerusalém; e nunca mais andarão segundo o propósito do seu coração maligno.’ (Jeremias 3.14-17)

Não somos judeus, somos cristãos resgatados pelo Sangue do Cristo Jesus, o Cordeiro de Deus, que nos livra dos nossos pecados! Temos visto o Evangelho sendo deturpado, esculhambado e distorcido por falsos profetas que chamam a si mesmos de ‘pastores’ e até de ‘apóstolos’! Esses verdadeiros lobos em pele de cordeiro são incansáveis na criação de todo tipo de heresia e falso misticismo, que vendem como ‘cristianismo bíblico’. Estão cegos, loucos, alienados, e pior: guiam outros cegos!”

Parece que estou vendo a “jumenta de Balaão” falando neste texto! É lamentável que de fato haja entre os evangélicos um culto idólatra aos utensílios da Velha Aliança. Muitos desses utensílios são usados apenas para produzir uma fé sensorial e arrancar dinheiro dos fiéis. Todavia isso de modo algum valida as práticas católicas, mas serve para mostrar que a Bíblia que muitos grupos evangélicos estão lendo não é a mesma que Jesus, Seus apóstolos e nem tampouco os reformadores leram. Muitos crentes já tombaram por tropeçarem nesses utensílios!

O que, portanto, o judaísmo talmúdico e as práticas judaizantes possuem em comum com a adoração em muitas igrejas evangélicas? Todas fazem parte do Evangelho Apócrifo que está sendo ressuscitado com força e hoje está sendo pregado nos púlpitos dessas igrejas! Há muito mais Evangelho Apócrifo sendo pregado por aí, mas citei apenas esses casos como ilustrações do entulho que está sendo despejado dentro de nossos templos. Infelizmente por ser o nosso povo por demais apegados a esse tipo de mensagem sensorial, nada disso é percebido de imediato. Quando as primeiras denúncias aparecem, o número de seguidores, adeptos e defensores desse tipo de mensagem já se multiplicou de forma exponencial.

A guerra pela verdade tem que continuar, mesmo nos dando conta que muitos crentes já se renderão a esse tipo de culto. Cabe, pois, aos que creem ainda na veracidade do texto bíblico pregar a verdadeira mensagem da cruz!

Por, José Gonçalves.

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