Transferência de Poder às Gerações

Transferência de Poder às GeraçõesNada mais me espanta ou me escandaliza no evangelicalismo brasileiro. Parece que tudo facilita a fabricação, invenção ou produção de modismos e heresias em nosso meio. Bem verdade, que todas as igrejas são vulneráveis a ação de heresias e modismos, todavia, tem sido no meio neopentecostal que elas têm encontrado mais facilidade em adaptarem-se as práticas litúrgicas e virarem “doutrina”.

Nosso movimento pentecostal só não tem aderido às estranhas práticas modernas de “unções” por ação dos líderes que tem valorizado a apologética e a teologia ortodoxa na exposição da Bíblia Sagrada. A mais recente moda evangélica é a “transferência de poder as gerações”.

O que é “transferência de poder as gerações”?

É um aludido “ato profético” onde se transmite ou passa poder espiritual ou unção de  determinadas pessoas, a outras pessoas nascidas em datas diferentes. Seria uma espécie de transferência virtual de unção. Tal modelo é uma heresia distorcida, ferindo alguns princípios bíblicos.

Os chamados atos proféticos

No modelo evangélico em voga nos dias atuais tudo parece ser ou ter condição profética: são orações proféticas, palavras proféticas, atitudes bizarras proféticas. O profetismo virou moda e banalizou-se. O grande dilema é que se tudo é profético, a quem se profetiza? No padrão bíblico Deus fala a um profeta e esse profeta comunica ao povo a mensagem recebida. Por outro lado, na Bíblia parece ter sido usado alguns ditos “atos proféticos”, senão vejamos:

– Deus mandou que Jeremias atasse canzis (cangas) ao pescoço como símbolo do cativeiro do povo de Israel (Jeremias 27.2);
– Deus mandou que comprasse um cinto de linho e enterrasse às margens do Eufrates até que apodrecesse, como símbolo também da futura deportação dos judeus para a Babilônia (Jeremias 13.1-11);
– Deus determinou que Jeremias comprasse uma botija de barro e quebrasse na presença do povo, para simbolizar a mesma coisa (Jeremias 19.1-11);
– Deus mandou que Isaías andasse nu e descalço por três anos, como símbolo do castigo de Deus contra o Egito e a Etiópia (Isaías 20.3-4);
– No Novo Testamento, vemos o exemplo do profeta Ágabo, que usando um cinto, amarrou seus próprios pés e mãos para simbolizar a prisão de Paulo (Atos 21.10-11).

Todavia, todos estes atos tinham a intenção de dramatizar a mensagem profética jamais de criar ou supor pontos doutrinários baseados supostamente nos ditos “atos proféticos” dos shows da fé dos dias modernos.

Transferência de poder as gerações

Parece que os únicos textos bíblicos que poderiam provar o “ato profético da transferência de poder” são os textos de Números 11.16-30, onde Deus designa setenta anciãos para ajudarem Moisés, e Lucas 10.19, onde o Senhor Jesus designa uma missão específica.

Números 11.1-30

Aparentemente há uma queixa de Moisés quanto a sua responsabilidade pesada pelo povo devido à queixa deste pela falta de carne. A resposta de Deus (Números 11.16-20) trata de ambos os aspectos do problema. Segundo a direção divina setenta anciãos deveriam receber parte do Espírito que estava em Moisés e desta forma serão capacitados para compartilhar da sua pesada responsabilidade. Visto que os deveres administrativos já estavam sendo compartilhados por outros homens (Êxodo 18.13 ss), esses anciãos deveriam dar-lhe sustento espiritual (cf. Êxodo 24.9).

Como cumprimento da promessa divina, o Espírito do Senhor, que estava em Moisés, é distribuído aos anciãos que passaram a profetizar. Em toda a Bíblia Sagrado o ato de profetizar é oriundo do Espírito de Deus (1 Samuel 10.6-13; 19.20-24; Joel 2.28; Atos 2.4; 1 Coríntios 12.10). No caso de Moisés, não partiu dele a decisão de outorgar o poder do Espírito aos setenta anciãos, mas do Senhor.

Lucas 10.19

O texto por si só diz tudo: “Eis que eu vos dou poder para pisar serpentes e escorpiões, e toda a força do inimigo,, e nada vos fará dano algum” (grifo meu). No caso de Jesus ele é o Emanuel. Deus conosco. Não carecia de receber permissão do Pai, nessa questão. Assim, essas duas passagens bíblicas não apoiam a dita “transferência de poder às gerações”.

A Bíblia ensina a busca pessoal e não a transferência virtual

Não há na Bíblia nenhuma referência à experiência do tipo transferência mística de unção e poder espiritual entre homens e mulheres, idosos ou novos. Entendemos que o recebimento de poder dá-se através de uma busca pessoal e constante pelo poder do alto através da prática da oração e do jejum e de uma vida santificada à luz da Palavra de Deus.

Ao invés disso, o que há na Bíblia é a advertência aos pais para que estes transmitam aos seus filhos o conhecimento que possuem a respeito do Deus verdadeiro (leia Deuteronômio 6.6-7; Provérbios 22.6). Assim temos uma transmissão de conhecimento empírico (Empírico é aquele conhecimento adquirido durante toda a vida, no dia-a-dia, que não tem comprovação científica nenhuma), e não uma transferência virtual de unção. Tal transmissão é exposição clara da história de Deus às futuras gerações e não a relação de nossas experiências espirituais. Leia os exemplos bíblicos de transmissão de conhecimento nos seguintes textos: Êxodo 12.21-23; Josué 22.10-34.

Fatos objetivos e não proposições subjetivas

O cristianismo é uma religião de fatos objetivos e não comporta proposições subjetivas. Como alguém pode atestar que de fato recebeu o poder transferido por outra pessoa? Isso mais parece um procedimento tecnológico da área da informática do que verdadeira manifestação de poder. A regra divina é trabalhar com elementos objetivos e não subjetivos.

Acredito que a unção do Espírito seja resultado de uma vida aos pés do Senhor e não de momento de êxtase ê emocional barato. Reduzir a unção do Espírito Santo a esse nível é profanar sua ação no meio da Igreja. É abdicar da verdadeira experiência de maturidade espiritual progressiva e assumir um modelo estereotipado barato, fútil e profano de espiritualidade.

Ministério é aproximação de Deus e não estrelismo público, é vida com Deus e não fruto de imposição de mãos de gente que julgo ser mais ungido que eu. Até por que, eu não tenho condição nenhuma de medir a unção dada por alguém. O “ato profético” aqui criado parece querer impor uma espécie de senha divina para conferir legitimidade aos atos dos líderes, das estrelas do evangelicalismo moderno.

Acredito que o movimento evangélico brasileiro esteja viciado em fórmulas mágicas, óleos ungidos, mantras de fé, apetrechos sagrados, gestos animalescos (unção do urro do leão) e outras bizarrices mais. Para satisfazer essa busca frenética pelo êxtase proporcionado pelo vício, os “artistas da fé” fazem de tudo para gerar popularidade: gesticulam urram, ungem, passam unção, etc.

Ao longo da história do Cristianismo, muitas pessoas trouxeram ações do Espírito Santo. É claro que não temos que acreditar em cada uma dessas ações, mas é impossível negar sua realidade em geral. O que importa é que essas ações sempre foram regidas por certos princípios: 1) elas não podem pretender acrescentar nada ao que já foi exposto na Bíblia; 2) mesmo sem pretensão, não pode ser obrigatório crer nelas (todo revelação atual é “privada”); 3) deve ser medida por seus frutos, de verdadeira piedade e conformidade com o Evangelho, não de bizarrices e histeria.

Esse tipo de comportamento descrito acima é bizarro, deriva de irracionalismo dominante nos arraiais de muitas igrejas no Brasil afora. Por isso não pode ser aceito jamais. É fácil dizer que mediante ritual e invocação ao Senhor um suposto poder espiritual de pessoas está sendo transferido a outras. O difícil e impossível é provar isso. Até onde, nós cristãos que conhecemos o Evangelho verdadeiro, vamos suportar este “circo” herético es esta palhaçada dessa nova geração?

Assim, sem medo de errar, acredito que tal “transferência de poder às gerações” faz parte de um grupo de artimanhas evangélicas do neopentecostalismo com vistas ao engodo em nome da fé. Não tem base bíblica, não tem lógica, mero protagonismo revestido de falsa piedade, em alguns casos, ignorância bíblica e falta de razão. Estamos vivendo dias de um conhecimento raso das Escrituras (Oséias 4.6; Mateus 22.29). Precisamos voltar ao Evangelho verdadeiro e abandonar este “evangelho místico”.

Por, Sérgio Pereira.

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