Spurgeon e seu Tesouros de Davi

Spurgeon e seuTesouros de DaviNeste final de ano, a CPAD está lançando no Brasil, de forma inédita, a obra magna do pastor inglês Charles Haddon Spurgeon, denominado por muitos evangélicos “O príncipe dos pregadores” em sua geração. Trata-se da obra Tesouros de Davi, contendo milhares de páginas onde todos os salmos bíblicos são abordados versículo por versículo por esse célebre pregador batista. O empreendimento, por si só, já é um indicativo da grandeza da obra. No entanto, para compreender melhor a importância desta obra, é preciso conhecer seu autor.

Spurgeon nasceu em Kelvedon, Essex, Inglaterra, em 19 de junho de 1834, e converteu-se a Cristo aos 15 anos, em Colchester, no dia 6 de janeiro de 1850. Em 3 de maio do mesmo ano, foi batizado nas águas no Rio Lark, em Isleham. Desde cedo, Spurgeon manifestou sua vocação para a pregação e o ensino bíblico. Ele pregou seu primeiro sermão na casa de uma família rural em Teversham, quando contava com apenas 16 anos, ou seja, com um ano de fé. Em 12 de outubro de 1851, aos 17 anos, pregou pela primeira vez em um templo, na Capela Batista Waterbeach. Em 18 de dezembro de 1853, aos 19 anos, pregou pela primeira vez em Londres, na Capela New Park Street, igreja da qual assumiria o pastorado em 28 de abril do ano seguinte, dois meses antes de completar 20 anos. Na época, aquela igreja contava com 232 membros. Em 7 de janeiro de 1855, um dia antes de casar com Susanah Thompson, Spurgeon teve pela primeira vez um sermão seu publicado em jornal. Com o passar do tempo, se tornaria um hábito dos jornais londrinos publicar os sermões dominicais dele.

Nos anos seguintes, dois grandes projetos foram tocados pelo grande pregador inglês: a construção do Tabernáculo Metropolitano, iniciada em junho de 1856, já que sua membresia já passava dos 5 mil e os auditórios que vinham ouvi-lo chegavam a 10 mil pessoas; e a fundação do seu Colégio de Pastores, que fundou no mesmo ano, e cuja expansão começou em 1857. De 1856 a 1861, Spurgeon se dividiu entre pregações e a dedicação a esses dois grandes projetos, até que, em 18 de março de 1861, o Tabernáculo Metropolitano foi inaugurado, tendo como seu primeiro culto uma reunião de oração. A capacidade do Tabernáculo era de 6 mil pessoas, com 5,5 mil assentos e espaço para 500 de pé. Todo dia de pregação sua, as dependências do templo ficavam totalmente tomadas. Faltava agora apenas incrementar as áreas de educação teológica e ação social de sua igreja, por isso, nos anos seguintes, essas foram as áreas em que Spurgeon mais investiu.

Em 1865, ele começou a escrever sua obra magna Tesouros de Davi. Em 1866, fundou a Associação dos Colportores do Tabernáculo Metropolitano, cujo objetivo era disseminar a cultura bíblica na Inglaterra por meio da distribuição de sadia literatura evangélica. Spurgeon amava livros. Ele tinha uma biblioteca de mais de 10 mil livros e durante décadas manteve uma média de leitura de um livro por semana. Em março de 1868, Spurgeon inauguraria o edifício próprio do Colégio de Pastores e um ano depois, o Orfanato Stockwell para meninos.

Sem acomodar-se, Spurgeon resolveu ampliar seu Colégio de Pastores, lançando a pedra fundamental do novo prédio em 14 de outubro de 1873, que seria inaugurado poucos anos depois. Sua esposa, Susanah, também foi incentivadora da educação cristã. Em 1875, Spurgeon inaugurou o Fundo para Livros da Senhora Spurgeon. Em 1880, ele ainda fundou o Orfanato Stockwell para meninas.

Com o objetivo de impactar a sociedade de sua época com a mensagem do Evangelho, Spurgeon lançou em 1887 uma revista, intitulada A Espada e a Colher. Seus artigos, publicados a cada edição, tiveram repercussão tanto no meio cristão quanto no secular. Durante o pastorado deste grande pastor-pregador-ensinador, foram batizados e se uniram ao Tabernáculo 14.692 irmãos, frutos de um mourejar sincero e de dedicação à Palavra de Deus.

Grande evangelista, Spurgeon começou seu ministério como calvinista rígido, chegando a declarar, com 20 e poucos anos, que “O calvinismo é o evangelho e nada mais”, até que se viu combatendo colegas calvinistas na Inglaterra que eram frios na evangelização e seu radicalismo calvinista foi suavizado. De calvinista rígido nos anos 50 passou a ser um calvinista moderado já a partir dos anos 60 do século 19, defendendo, por exemplo, a Expiação Ilimitada; e, por fim, terminou seus dias de pregação se considerando um “calvinista arminiano ou arminiano calvinista”, como ele mesmo se intitulou certa vez em um sermão.

Em seu sermão “Aprouve a Deus”, com base em Gálatas 1.15, pregado em 19 de outubro de 1862 no Tabernáculo Metropolitano, Spurgeon já afirmava: “Há alguma verdade no calvinismo e algumas no arminianismo, e aquele que esposa toda a Verdade de Deus não deve ser limitado por um único sistema nem preso por outro, mas levar a Verdade onde quer que ele possa encontrá-la na Bíblia”. Em seu sermão de 2 de janeiro de 1876 no Tabernáculo Metropolitano, com base em 1 Coríntios 4.7, Spurgeon asseverará: “Estou persuadido de que só o calvinista é certo em alguns pontos e o só o arminiano é certo sobre os outros. Há uma grande verdade no lado positivo de ambos os sistemas e um grande erro no lado negativo de ambos”. Finalmente, em seu sermão de 19 de junho de 1881 no Tabernáculo Metropolitano, com base em Isaías 61.1, ele declarará: “Eu tenho sido chamado de calvinista arminiano ou arminiano calvinista, e eu sou bastante satisfeito com isso, desde que eu possa me manter perto da minha Bíblia”.

Ademais, nos anos de 1880, vemos Spurgeon, durante a “Controvérsia do Declínio” entre os batistas britânicos (ocasião em que se opôs intransigentemente à entrada de heresias dentro da Igreja Batista), cedendo o púlpito de sua igreja frequentemente a pregadores arminianos, como o célebre pregador metodista Mark Guy Pearce (1842-1930), que era seu amigo; e escrevendo que considerava hereges entre os protestantes apenas aqueles que negavam a expiação de Cristo, a inspiração plenária das Escrituras, a Trindade, a Queda, a personalidade do Espírito Santo, que chamavam a justificação pela fé de “imoral” e que pregavam a possibilidade de Salvação após a morte. Em nenhum momento ele cita o arminianismo como heresia (Ver SPURGEON, Sword and the Trowel, edição de novembro de 1887, artigo A Fragment Upon the Down-Grade Contreoversy). Lembrando ainda que o célebre pregador batista indicava fervorosamente aos membros de sua igreja e a conhecidos a leitura dos mais de 40 livros de Pearce.

A obra Tesouros de Davi é fruto da pena desse Spurgeon mais maduro. Ela foi lançada em artigos semanais durante 20 anos – de 1865 a 1885, ano em que o sétimo e último volume da obra em sua versão original em inglês foi publicada. Após a conclusão da obra – que traz também sugestões homiléticas para pregadores a cada versículo do livro de Salmos –, ela se tornou rapidamente um best-seller, vendendo, só nos primeiros dez anos de lançada, mais de 120mil exemplares. É esta obra incomum de um homem incomum que a CPAD traz ao Brasil neste final de ano. Imperdível.

Por, Silas Daniel.

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