Sobre teologia e prosperidade

Já há algum tempo que muitos teólogos e cristãos em geral têm demonstrado seu descontentamento, sua revolta e condenação contra o que se convencionou chamar de “teologia da prosperidade” ou “doutrina da prosperidade”: aquela velha crença/concepção, modernamente revigorada com outra maquiagem doutrinal, de que riqueza é sinal de se estar na presença de Deus, com alguns até fazendo “poupança” aqui na terra objetivando lograr passaporte para o paraíso. Esse tipo de teologia norteia a conduta de alguns crentes, impulsionando-os a ganhar dinheiro, armazenar bens e a objetivar sempre o lucro, mas nunca, jamais, o bem da comunidade dos irmãos; e o que é bem pior, a sua real salvação segundo o Evangelho.

Ora, nada mais falso, enganoso e sem fundamento! Trata-se, obviamente, de uma teologia sem prosperidade. A verdadeira prosperidade é a prosperidade da salvação em Jesus Cristo. Todas as vezes, em qualquer situação, em que uma igreja faça pregação exagerada e famigerada apenas com o objetivo de recolher dinheiro e bens materiais em forma de arrecadação (exploração da fé) e ofertas milionárias, que só enriquecem a elite dirigente, mas nunca a comunidade de crentes (Igreja), fica evidente que tal teologia não passa de suborno espiritual por meio do engodo e da falsificação da fé.

Não é demais relembrar que Jesus Cristo, em nome de quem sempre esses arautos pregam, postulou biblicamente, só para dar quatro exemplos:

1) O Verdadeiro Tesouro: “Não junteis para vós tesouros na terra, onde a traça e o verme os consomem, e onde os ladrões penetram e roubam. Mas ajuntai para vós tesouros no céu, onde nem traça nem vermes os consomem…” (Lucas 12,33s).

2) A não se servir a Deus e ao dinheiro: “Ninguém pode servir a dois senhores: ou odiará a um e amará ao outro, ou se afeiçoará ao primeiro e desprezará o segundo. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro.” (Lucas 16,13).

3) Que o seu “reino não é deste mundo”.

4) E que “é mais fácil um camelo passar no fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus” (Mateus 19.23-24).

Questiona-se: Como é possível crer num deus de uma religião que executa uma intensa pregação teoeconômica, vive armazenando bens materiais sob abjeta ganância, mas que jamais, pratica solidariedade com o semelhante? Como tolerar na igreja o objetivo de lucro privado em detrimento do bem público coletivo? O que dizer da desenfreada competição consumista enquanto bilhões de irmãos miseráveis são excluídos e marginalizados, passando fome?

É necessário não olvidar que o Cristianismo somente penetrou massivamente no meio popular e historicamente tem perdurado por mais de vinte séculos devido a dois princípios doutrinários de extrema relevância: no plano espiritual, o instituto do perdão; e, no plano social, o princípio ético da solidariedade, que é aplicação do “Amai a vossos semelhantes como a vós mesmos!”.

Agora, um fundamento histórico-sociológico da maior envergadura, desconhecido, ignorado pelos “crentes de mentalidade do senso-comum” é o que se encontra no principal escrito do grande sociólogo alemão Max Weber (1864-1920). Em sua monumental obra “A ética protestante e o espírito do capitalismo” (1904-5), Weber postula que uma análise estritamente econômica (como é o caso da postulação de Karl Marx, 1818-1883), seria insuficiente para explicar o surgimento do capitalismo, devendo ser levados em conta também elementos éticos, religiosos e culturais. Esclarecendo: deve-se levar em consideração, além dos elementos econômicos, isto é, “materiais”, que são logicamente importantes e iniludíveis, os elementos considerados e critérios culturais, valorativos, axiológicos.Segundo Weber, o capitalismo não poderia ser compreendido sem uma análise de suas relações com as transformações espirituais da passagem da Idade Média para a Idade Moderna, época em que esse sistema econômico e social surgiu.

Assim, Weber foi conduzido a relacionar o “espírito capitalista” à ética protestante calvinista (OLIVEIRA, 1999, p. 40). Ao estudar a origem do capitalismo, Weber rejeita a ideia de uma causa histórica determinada (econômica). As causas econômicas e tecnológicas são incapazes de explicar tudo por si só. É preciso que se lhes acrescentem tipos de condutas particulares, ligadas a certas motivações culturais. O “desbloqueio mental”, que torna possível a acumulação primitiva, o ascetismo secular (éthos/ascetismo protestante), que leva a que o homem erija a atividade de trabalho em “valor supremo”, e a continência em virtude, é o protestantismo. O protestantismo não é a causa do capitalismo, mas o sistema de valores que guiou os homens, em determinadas condições históricas (GAZENEUVE; VICTOROFF, 1982, p. 123-124).

Impossível “tapar o sol com uma peneira”. O protestantismo/ evangelismo é mesmo uma forma de liberalismo, isto é, uma filosofia política própria do regime capitalista. Não é por acaso que, historicamente, os dois movimentos surgiram exata e coincidentemente no início do século XVI: Capitalismo Comercial ou Mercantil (Expansão Comercial Marítima Européia: Fernão de Magalhães e Sebastião del Cano partem para a primeira viagem de circunavegação, 1519; Gil Eanes dobra o cabo Bojador, 1434; Bartolomeu Dias dobra o cabo da Boa Esperança, 1488; Vasco da Gama descobre o caminho marítimo para as Índias, 1498; descoberta da América, 1492; e descoberta do Brasil, 1500); Reforma Protestante (Martinho LUTERO, 1483-1546; e, João CALVINO, 1509-1564…). Além disso, em outra dimensão, que é a teórica, complementar, é exatamente no século XVI, com MONTAIGNE, que se inicia a concepção do mundo ‘individualista liberal capitalista burguesa’ que, dá-lhe respaldo doutrinal.

A Teologia da Prosperidade deve, necessariamente, ser combatida nas escolas bíblicas dominicais, nos cultos de ensinamento, nas reuniões de ministério e, consequentemente, até nas escolas teológicas e convenções de ministros, simplesmente por se tratar de uma “teologia” manipuladora e sedutora, onde o senhorio de Cristo é posto sob a ótica do capital, sob a negação da graça.

Por fim, o que deve ser pregado em nossas igrejas é uma teologia sem “prosperidade”, uma teologia da cruz, uma teologia da graça, o verdadeiro Evangelho de Jesus Cristo.

Uma leitura mesmo superficial dos evangelhos (Mateus e João, por exemplo) mostra a total despreocupação de Jesus em relação aos bens materiais. Mesmo o reino de Jesus não era desse mundo. A Quem quisesse segui-lo aconselhava a vender seus bens e dá-los aos pobres. A Bíblia diz que o amor à riqueza dificulta a entrada no Reino de Deus. Aos pobres, famintos e sofredores, recomendou paciência. É evidente que essa doutrina é diametralmente oposta à teologia da prosperidade. Isso não significa que a riqueza, a saúde e o bem estar devam ser repudiados pelo crente em Jesus, pois que são necessárias, mas não pode fazer disso a razão principal da sua fé. Buscai, em primeiro lugar, construir o reino de Deus dentro de vós! (Mateus 6.33). No mundo pós-moderno, o evangelho, às vezes , tem sido interpretado como economia dos bens terrestres, a exemplo das teologias neopentecostais , enquanto que , com certeza bíblica , a verdadeira doutrina de Cristo só é lembrada pelos cristãos autênticos.

Por, Roberto dos Santos.