Ser bom para com os maus

Ser bom para com os mausJesus não ama apenas os bons, ele também é cheio de misericórdia e amor para com os maus. “Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos” (Mateus 5.45). Somente um Deus que ama assim tem autoridade para exigir de nós um padrão de amor que supere o comportamento dos corruptos e incrédulos. É claro que esta afirmação é chocante para os judeus exclusivistas contemporâneos de Jesus, como para muitos religiosos legalistas de nossos dias.

Nesse contexto imediato, da narrativa do Sermão da Montanha, Cristo está confrontando os padrões da sociedade judaica de sua época os quais, alicerçados numa interpretação literalista e formal da Torá, concedia legalidade para o ódio. Segundo Jesus defenderá veementemente, não há nenhum tipo de argumento que justifique a aprovação ou reprodução do ódio.

Como cristãos, somos vocacionados para amar, nunca para odiar. Não existe positividade alguma na ação de odiar, ela é sempre destrutiva e negativa. Por isso podemos compreender que a bondade de Deus não é seletiva ou restritiva; como afirma-nos o evangelista, ele estende sua benevolência para com toda a humanidade. A constatação deste fato deixa mais sinistra a compreensão de quão danosa é a maldade humana, uma vez que a bondade de Deus é abundantemente distribuída sobre a terra e mais especificamente sobre toda a humanidade. O que podemos testemunhar ao longo dos séculos, desde Caim – o primeiro homem a deixar-se dominar pela inveja e pelo ódio – até os nossos dias, é que uma ação movida pelo ódio dispara um ciclo de maldade e violência que se retroalimenta. Dito de outra forma: O ódio só produz mais ódio. Qual então a única esperança de vencermos e superarmos o ódio estrutural que se enraizou em nossa sociedade? O amor.

A postura assumida por Deus, de abençoar bons e maus, de fazer com que sua bondade não seja restrita aos bons, tira quaisquer justificativas dos perversos para desprezar o Senhor, pois não lhes faltam as oportunidades que os bons recebem. Eles não podem alegar que seu comportamento nada mais seria que a reprodução em pequena escala – local, interpessoal – daquilo que Deus faria em amplo espectro – atingindo grande parte da humanidade. Como a generosidade do Criador é extremamente abrangente, recai exclusivamente sobre os malvados o ônus de sua condição miserável e decadente. Mesmo diante da bondade de Deus universalmente distribuída, eles insistem em permanecer maus.

Deus não se torna mau por ser bom para com malvados. Seria um absurdo achar que a prática do bem poderia ser avaliada negativamente pelo fato de se dirigir a alguém que, em última instância, não é merecedor. O bem-amar – duas faces de uma mesma moeda – é sempre a coisa certa a fazer, não havendo medida de saciedade, nem para o bem, muito menos para o amor. Mas, e se alguém insistisse no infundado argumento de que nunca se deve ser bom aos cruéis e impiedosos? Bem, se fosse assim, por exemplo, como poderíamos ser salvos? Como poderíamos ser objeto da graça salvadora de Cristo – nós, os mais miseráveis de todos os homens, dentre os quais não foi encontrado um justo sequer?

Em sua soberania, Deus é livre para amar e abençoar quem Ele bem entender. Se até quando se refere ao sol Deus pode utilizar-se de pronomes possessivos, de tal modo a se dizer “seu sol”, quanto mais ao que se relaciona com as nossas humildes e frágeis vidas. Sendo Senhor de tudo, Ele organiza o universo conforme a compreensão que Ele tem. E pela sua perfeita moralidade e onibenevolência, o faz de tal modo a sempre fazer o melhor para todos. Se o Senhor determinou derramar sua bondade sobre os que insistem em não adorá-lo, quem somos nós para dizer que existem “outras prioridades”? Em Cristo, as desigualdades e injustiças sociais são todas superadas.

Deus, que é a fonte da justa moralidade, jamais cometerá injustiça alguma ao abençoar as pessoas que insistem em agir perversamente, pois cada um é responsável por seus atos e pela intencionalidade que os motivou. Quando Deus resolve fazer o bem a alguém Ele não espera retorno ou reconhecimento do outro; ele simplesmente faz aquilo que deve ser feito, isto é, o certo, o justo e o bom. Por fim, ao ser bondoso com os maquiavélicos, Deus manifesta a sua natureza, que é a de um ser todo de benevolência. O Senhor não se nega ou contradiz-se por seus atos misericordiosos para com os malvados; ao contrário, Ele faz o bem porque é de seu ser; Ele não poderia existir de outro modo. O fundamento de toda e qualquer ação de Deus é o bem. Se somos incapazes de enxergar quais as repercussões deste bem, e de como um aparente mal torna-se bênção, esta é outra questão.

Não sejamos daqueles que – assim como o irmão do pródigo (Lucas 15) – se irritam com a generosidade e misericórdia do Pai. Alegremo-nos pela restauração dos caídos, o perdão dos arrependidos e a libertação dos oprimidos.

Que haja menos ódio e mais amor no mundo, e que tal ação revolucionária ocorra através de cada um de nós, em cada pequeno ato que realizamos no cotidiano. E se ainda assim existirem pessoas más que serão abençoadas, nossa oração deve ser para que eles despertem do mundo de pecado e descubram que para além das bênçãos materiais do mundo que Deus distribui indistintamente a todos, existem ainda bênçãos espirituais, reservadas aos santos. Assim, segundo esta economia da bondade do Senhor, deve-se reconhecer que o justo é duplamente abençoado: em primeiro lugar, pela benevolência universal de Deus; e por último, mas não menos importante, pelo privilégio de reconhecer-se individualmente como bendito em Cristo.

Por, Thiago Brazil.

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