Refletindo a formação teológica

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Refletindo a formação teológicaHá um apelo para a renovação da educação teológica, um vocativo que trata dos objetivos, dos propósitos deste patrimônio cristão. Para alguns, o seu atual padrão é falho. No entanto, bem poucos cristãos querem modificar essa herança. Quem está certo: alguns acadêmicos ou muitos crentes? Se entendermos o propósito de ser da formação teológica, compreenderemos porque ela é um tesouro cristão, e para permanecer assim, deve manter-se como é.

O essencial para a educação teológica não é mudar, mas, sim, recuperar e manter sua singularidade e distinção. Do ponto de vista bíblico, portanto, ela consiste na formação do povo de Deus na verdade de Deus, com a finalidade de pessoal renovação e participação no cumprimento da missão da Igreja. Logo, a educação teológica é a formação que gera transformação por meio do povo de Deus. Se esse é o certo, e é, ao invés de apostarmos em uma renovação, deveríamos acreditar no poder de um avivamento educacional pela Palavra. Essa deve ser a nossa meta!

Mas quais seriam as mudanças mencionadas no primeiro parágrafo? São, na verdade, duas: uma conjuntural, a outra conteudista.

Conjunturalmente, deseja-se fazer da formação teológica não algo formal, mas estatal. Aos olhos de alguns, esta pode ser uma argumentação exagerada, mas não levará tempo até que alguém sugira uma reserva de mercado para a atividade teológica. Ora, não é o que pretendem os conselhos e confederações de teólogos que estão em toda parte? Esquecem-se o que isso propõem que Teólogo não é profissão, é função, e como tal não é regulada porque é fruto da consciência espiritual, e não da chancela do estado.

Se você tiver curiosidade (e estômago forte), vá ao Google e busque por “conselho de teólogos”. Incrível não? A já incalculável quantidade de instituições do gênero sugere que esse é o caminho, a tendência. De fato, esse é o caminho do desastre e a tendência do ego. Algumas dessas organizações cometem o absurdo de travestirem-se como oficiais, usando as insígnias da República e nomenclando-se Federais. Mas no que depender deste articulista, elas nunca serão, pois se um dia isso acontecer, só mesmo nosso Senhor poderá defender-nos dos malefícios do monopólio da Palavra.

A Teologia é nossa, e Teólogo não é título, ao contrário do que se escreve nos certificados que sábios aos seus próprios olhos confeccionam para si e para os incautos de  egos inflados que os seguem. Teólogo é função. Não é posto nem é cargo. É trabalho, apenas. É labor. É ideia e ideal. Teólogo é coisa que todo e qualquer crente pode ser, pois a Teologia não é propriedade intelectual de alguns, é patrimônio da Cristandade. Quando vejo os títulos carimbados, as carteirinhas de associações, os anéis ostentando o saber que não houve, só consigo lembrar-me do que disse Paulo, o fazedor de tentas: “virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências” (2 Timóteo 4.3).

Qual a diferença entre um título e uma função? O título é algo que se conquista a partir de um esforço acadêmico. A função é aquilo que a sociedade ou os grupos sociais notam e reconhecem no indivíduo. Quem completa a faculdade de História é Bacharel naquela matéria. Daí a ser reconhecido como historiador há um abismo. Por ganância e arrogância, porém, malvados que fingem piedade, mas negam a eficácia do amor, querem fazer da função social e, principalmente, espiritual, da Teologia propriedade de uma entidade de classe na qual se entra não pelo desempenho aprovado pela cristandade, mas pelo pagamento de uma anuidade. Prezado leitor, se você entrou em uma coisa dessas, saia. Se considerava entrar, desista. Isso não é para os servos.

A mudança conteudista tem a ver com a inserção de grande carga filosófica no currículo teológico, como se a Rainha de todas as Ciências necessitasse de muletas para manter-se em pé. Esquecem-se os que assim querem que a filosofia é das mais voláteis ciências, o que não combina com a certeza do pensamento teológico, que em dois milênios fez amadurecer, mas não transmutar-se

Manter a educação teológica como herança e patrimônio cristão requer uma meta, um objetivo. Em tempos de relativismo, no entanto, a nossa missão pode soar idealista demais e pouco prática. Isto é, porém, uma armadilha pós-moderna, pois nosso ideal não é um devaneio divorciado da realidade, mas um manifesto bíblico. Logo, a educação teológica, bem como os educadores e os educados, devem ter só e somente um propósito (qual é ele, veremos adiante). Assumi-lo impede que a educação teológica se subverta em meio sem objetivos, em um fim em si mesmo.

Para muitos a finalidade da educação teológica é acadêmica. Se o objetivo é intelectual apenas, então estamos diante de uma disciplina qualquer, uma ciência a mais no caleidoscópio do saber. Mas seria somente isso a formação teológica, um diploma a mais, apenas mais uma cátedra entre tantas? É lógico que não! A Teologia é muito mais que uma área do saber humano; ela é a própria sede humana do saber. Ela é a sede e a fome de Deus. Como dito, a Teologia é um patrimônio da cristandade, e não algo que possa ser regulamentado pelos governos e homens. A Teologia é um direito de todo cristão, e não um assunto de estado. Ela não deve ser regulamentada porque deve ser vivida.

Nota-se um recente esforço estatal pela regulamentação do ensino teológico. Que o estado queira interferir nisso, não é novidade. Na verdade, é mister. O impressionante é a velocidade com que muitos cristãos cedem a isso, imaginando que seu conhecimento bíblico terá mais valor quando chancelado pelo Ministério da Educação. Não entendem eles que isso significa desvirtuar completamente o propósito da formação teológica? É transformar a herança que há dois milênios está em nossa família em um transitório patrimônio acadêmico, que gradativamente será assemelhado a todos os outros. Aceitar que uma chancela do governo valide o estudo sobre Deus é rebaixar a Teologia de Rainha das Ciências à condição de mera princesa, talvez duquesa, certamente súdita.

Esse texto não é um manifesto qualquer contra a integralização de créditos teológicos livres pelo MEC. É muito mais que isso. É um alerta a todos os estudantes de teologia, para que não se percam na grande jornada teológica, para que não se desviem no caminho que se estende da mente ao coração.

A finalidade da formação teológica não é saber pelo saber, mas o saber sobre Deus, para servir a Deus e ao povo de Deus. Precisamos nos render a isto: a educação teológica é a obra do Espírito Santo. A educação geral exige um desempenho eficiente de tarefas, mas  a educação teológica vai além e exigir um desempenho do espírito.

Em minha infância conheci grandes teólogos. Nas últimas vezes que acompanhei meu pai à Casa Publicado das Assembleias de Deus, eu os vi trabalhar, produzir, escrever, comentar e debater. As suas escrivaninhas eram típicas dos intelectuais em atividade, com livros que se empilhavam, papéis que se amontoavam e itens outros esparramados sobre elas com um desjeito que parecia calculado. Computadores? Não havia. Apenas as antigas e elegantes Remingtons, robustas como a Teologia que diariamente grafavam. Quem visse Geremias do Couto, Jefferson Magno da Costa, Joanir de Oliveira, Antônio Gilberto ou Claudionor de Andrade, absortos em pensamentos e ilustrações, os chamaria de teólogos. E eles eram.

Desta mesma época, trago, ainda, duas outras recordações. Estas sem papel, sem livros, sem anotações, sem óculos ou escrivaninhas. Estes teólogos não duelavam epifanias ou debatiam metafísica. Usavam palavras simples e preferiam os testemunhos aos conceitos. Uma delas é do meu avô materno, Leonildo Doreto. Descendente de italianos, ele demorou a libertar-se da idolatria e encontrar-se com a mensagem da cruz. Mas quando finalmente aconteceu, por seu testemunho, a esposa e os nove filhos também se entregaram ao Salvador. O que ele fizera foi boa teologia, teologia de resultados. Afinal, somos todos teólogos!

A outra grande lembrança teológica que trago da infância não é de um pesquisador, mas de minha primeira ensinadora, a minha mãe – sem dúvida, a maior teóloga que conheci. Em um dia muito quente de verão, que no subúrbio carioca parecia ainda mais cáustico, ao chegar da escola eu a encontrei no quintal de casa, pendurando nossas roupas no varal. Roupas que foram lavadas a mão. Ela estava cansada e mesmo com os cabelos presos em um arranjo improvisado, o seu rosto suava muito. Graciosa, mas sem interromper os afazeres, ela olhou-me e disse “Sabe o que eu faço quando o tanque está cheio como agora? Peço a Deus que me dê forças. E Ele dá!”. Isso é teologia da boa!

Por, Gunnar Berg.

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