Realidade e mitos sobre o Natal

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Realidade e mitos sobre o NatalO verdadeiro Natal é a celebração do dia do nascimento do Senhor Jesus Cristo. Essa festa é comemorada pelos católicos romanos, católicos ortodoxos e protestantes no mundo inteiro. Não se sabe quando essa comemoração começou na igreja e a sua legitimidade bíblica ainda é discutida por uma minoria devido a alguns fatores. Desde a antiguidade muitos costumes foram acrescentados ao evento que, às vezes, descaracteriza o espírito do autêntico Natal, também pelo fato de essa celebração aparecer tardiamente na história da Igreja e a incerteza quanto ao dia exato em que Jesus nasceu tem colaborado para a rejeição do evento por alguns grupos de cristãos.

Antes do ano 300, os cristãos da Ásia Menor e do Egito observavam o nascimento de Jesus numa festa conjunta com a epifania, evento celebrado a princípio em 6 de janeiro. Pouco depois, os cristãos de Roma passaram também a celebrar o Natal de Jesus. Só depois do ano 400 é que a maioria do mundo cristão passou a comemorar essa festa. Mas não há evidência bíblica e nem histórica sobre o dia exato em que Jesus nasceu, apesar das explicações e datas sugeridas na antiguidade. Clemente de Alexandria (150-215) em sua obra Stromata I diz que havia opiniões diversas entre os antigos clérigos sobre a data do nascimento de Jesus. Muitas datas já foram escolhidas na antiguidade como 2 de janeiro, 25 de março, 18 e 19 de abril e 20 de maio. Todavia, prevalecem ainda três datas conhecidas: 25 de dezembro, pelos católicos romanos e pela maioria dos protestantes; 6 de janeiro pelos ortodoxos; e, 19 de janeiro, pelos armênios.

A data de 25 de dezembro aparece pela primeira vez no Cronógrafo de 354, também chamado de Calendário Filocaliano (um calendário ilustrado de 354 organizado por um calígrafo chamado Fúrio Dinísio Filócalo), mas representando uma prática de Roma em 336. A data foi escolhida por razões práticas e teológicas. O dia 25 de dezembro era celebrado em Roma como o dia do renascimento do sol depois do solstício de inverno e era indicado no calendário romano civil com o título de NatalisInvicti, literalmente, “o Nascimento do Invencível”, referindo-se ao deus Sol. O imperador romano Aureliano, entre 270 e 275, cultor do deus Sol, introduziu a festa do Sol invictus, “o Sol invencível”, tornando o Sol como a primeira divindade do império. Assim ele conseguiu trazer os adeptos de outros deuses para o deus Sol. O imperador Constantino estimulava o encontro dos cristãos e cultores do deus Sol para essa celebração anual. A Saturnalia parece também inserir-se nesse contexto. Era uma festa dedicada a Saturno, deus romano da agricultura, realizada durante sete dias em dezembro a partir do dia 17, segundo a Enciclopédia Britânica, ou três dias, segundo Mário da Gama Cury em seu Dicionário de Mitologia Grega e Romana. Era uma festa licenciosa e permissiva, nesses dias subvertiam-se as classes sociais, os escravos mandavam nos seus senhores e estes serviam à mesa. Quando o cristianismo se tornou a religião oficial do império romano, existiam duas opções: suprimir essas festividades ou transformá-las.

A escolha de 25 de dezembro para celebrar o nascimento do Cristo foi baseada numa ideia de opor-se à festa pagã do Sol Invictus, na verdade, Jesus, ao nascer, é o Sol da Justiça e a Luz do Mundo (Malaquias 4.2; João 8.12). Foi assim que a Igreja substituiu o Natalis Invicti dos pagãos pelo Nalis Christi.

Há, no entanto, interpretações diversas sobre 25 de dezembro, entre elas, a de que a concepção virginal de Jesus teria ocorrido em 25 de março e nove meses depois, portanto, 25 de dezembro, seria o dia do seu nascimento. Agostinho de Hipona (354-430) em sua obra A Trindade, cita tal pensamento como parte da tradição cristã. Dionísio Exiguus (500-545) em Argumenta Paschalia, diz que a aparição do anjo Gabriel à virgem Maria aconteceu em 25 de março, que somando nove meses, 25 de dezembro, Jesus nasceu. Nenhum estudo acadêmico confirma tais ideias e os estudiosos da atualidade não levam essas declarações a sério.

Antes de essa festa ser transferida para 25 de dezembro em 354 por decreto do imperador romano Justiniano, essa comemoração era realizada no dia 6 de janeiro. Data mantida ainda hoje pelos ortodoxos. Mas, os armênios comemoram atualmente o Natal em 19 de janeiro, isso porque eles não observam o calendário gregoriano como o Ocidente. O ano do calendário juliano, criado por Júlio César em 46 a.C., consta de 365 dias, 5 horas e 49 minutos. Isso significa que cada ano solar, 365 dias e 6 horas, acumula 11 minutos, ou seja, em 1582 somam 10 dias. O papa Gregório 13 corrigiu esse calendário de modo que no dia 4 de outubro de 1582 as pessoas foram dormir, mas na manhã seguinte, quando acordaram, estavam em 15 de outubro, 11 dias depois. Os armênios, porém, escolheram manter o calendário juliano e não fizeram essa correção. Assim, o dia 6 de janeiro do calendário juliano corresponde hoje a 19 de janeiro do calendário gregoriano.

Ninguém sabe o dia exato do nascimento de Jesus, mas é possível afirmar com certeza que ele não nasceu no inverno, pois em dezembro e janeiro é inverno em Israel, e a descrição do relato de Lucas parece mostrar um cenário de primavera. A Bíblia relata que o nascimento de Jesus aconteceu durante um “decreto da parte de César Augusto, para que todo o mundo se alistasse” (Lucas 2.1). José e Maria residiam em Nazaré, cerca de 160 quilômetros de Belém, mas José era da família de Davi e precisava regressar a Belém, assim como os demais davídicos espalhados pelos país, para o recenseamento. Em razão dessa viagem, Jesus nasceu em Belém (Lucas 2.3-7). O contexto de Lucas revela que não seria possível colocar em prática o recenseamento determinado por César Augusto numa época de inverno. Afinal, o deslocamento das massas humanas de um local para outro não era algo apropriado para uma estação de frio. Além disso, os pastores de Belém: “guardavam durante as vigílias da noite o seu rebanho” (Lucas 2.8), isso não era prática típica de inverno. Não há como saber o dia do seu nascimento, o mais provável é que tenha sido no mês de abril, e desde a antiguidade se dizia que o nascimento e a morte de Jesus se deram por ocasião da páscoa. Se isso puder ser confirmado, o Senhor Jesus completou 2020 anos em abril de 2015, visto que há um erro em nosso calendário de quase cinco anos.

Os tradicionais presépios que geralmente se veem hoje é uma mistura da realidade com mitos. Os magos do Oriente não encontraram o menino Jesus na manjedoura, mas na casa (Mateus  2.11). Quando eles se encontraram com Herodes, Jesus já havia nascido (Mateus 2.1, 2); assim, os magos só viram Jesus com José e Maria algum tempo depois do seu nascimento. Os pastores de Belém sim estiveram no local e viram o menino Jesus recém-nascido na mesma noite (Lucas 2.15, 16), mas não os magos. Mateus não confirma quantos eram, nem diz que eram reis e o relato dos magos não tem paralelo nos demais Evangelhos. O número três talvez seja uma dedução com base nos três tipos de presentes ofertados: “ouro, incenso e mirra” (Mateus 2.11). A ideia de reis parece ser proveniente de uma interpretação das profecias messiânicas que anunciam que reis trarão presentes para o Messias (Salmos 68.29, 31; 72.10, 11). No final de século VI eles foram chamados Melquior, Baltazar e Gaspar. Os magos são geralmente identificados como mágicos ou patifes e charlatões (Daniel 1.20; 2.2; Atos 8.9; 13.6-8), mas aqui se trata de sábios e, pelo que parece, especializados em astronomia ou astrologia, pelo que se pode concluir da frase: “Porque vimos a sua estrela no Oriente” (Mateus 2.1). Era o cumprimento de uma profecia do Antigo Testamento (Números 24.17). Convém salientar que naquela época não havia diferença entre ciência e misticismo. Por isso é importante estar atento aos acréscimos dados aos presépios que não encontram base no relato bíblico.

Com o passar dos séculos o Natal de Jesus Cristo ficou eivado de inovações, Papai Noel, trenó, rena, árvore de natal, além de consumismo, glutonaria e luxúria. Alguns chamam isso de natal secular, para distinguir do natal religioso, que geralmente se celebra nas igrejas. O importante é que Deus cumpriu a sua promessa nos dando o Salvador (Lucas 2.11; João 1.14; Gálatas 4.4). Jesus nasceu e viveu como personagem da história e nasceu em nosso coração. Nós comemoramos o acontecimento e não o dia, pois para nós, os cristãos, cada dia do ano é Natal. O Natal e a Páscoa são os dois maiores dias da história da humanidade. É, portanto, o Natal, uma festa de caráter espiritual.

É verdade que a Bíblia não manda celebrar o Natal, mas também é verdade que ela não proíbe. Quem primeiro comemorou o Natal de Jesus Cristo foram os próprios anjos: “E nos mesmo instante, apareceu com o anjo uma multidão dos exércitos dos celestiais, louvando a Deus e dizendo: Glória a Deus nas alturas, paz na terra, boa vontade para com os homens” (Lucas 2.13, 14). Desejo a todos um feliz Natal e um ano novo de êxito!

Por, Esequias Soares.

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