Pré-tribulacionismo e pré-milenismo

Pré-tribulacionismo e pré-milenismoA doutrina do Arrebatamento secreto e pré-tribulacional, defendida pelos dispensacionalistas clássicos, tem sofrido muita oposição por parte dos proponentes das demais escolas. Alega-se, por exemplo, que o termo “arrebatamento” sequer aparece na Bíblia. Mas essa contestação é frágil, já que o vocábulo deriva da frase “seremos arrebatados” (1 Tessalonicenses 4.17). Aqui, o verbo“arrebatar” (gr. harpazō) tem o sentido de“raptar” (cf. Mateus 13.19; João 6.15; 10.12,28,29), à semelhança do que aconteceu a Filipe (Atos 8.39,40). Críticos do pré-tribulacionismo dizem que o Arrebatamento secreto é um contrassenso, pois “todo olho o verá” (Apocalipse 1.7). No entanto, a quem Jesus dirigiu as palavras contidas em João 14.3? A todo o mundo ou à Igreja? À Igreja, que começou com os doze apóstolos, à qual prometeu “Virei outra vez e vos levarei para mim mesmo, para que, onde eu estiver, estejais vós também”. Aqui, o verbo “levar” (gr. paralambanō) também denota“raptar” (cf.Mateus 2.13,14; Marcos 9.2; Mateus 24.40,41).

O rapto dos salvos vivos é análogo à ressurreição dos mortos em Cristo, visto que esses dois grupos subirão juntos ao encontro do Senhor, nos ares (1 Coríntios 15.51,52; 1Tessalonicenses 4.16,17). À luz de Lucas 20.35 e Filipenses 3.11, a ressurreição dos salvos, chamada, literalmente, de ressurreição“dentre todos os mortos”(gr. ek tonnekron), será secreta e seletiva. Por que a transformação e o arrebatamento dos salvos vivos seriam públicos? Portanto, assim como os mortos em Cristo ressuscitarão dentre os mortos, os salvos vivos também serão arrebatados dentre os vivos.

Quando examinamos Hebreus 9.28, se torna mais firme nossa convicção de que a transformação, num abrir e fechar de olhos, e o rapto dos salvos ocorrerão de modo secreto. Ali é dito que “aparecerá segunda vez aos que o aguardam para a salvação”. O verbo“aparecer” (gr. horaō) aqui denota“ser visto”.Nesse caso, por quem Jesus será visto no Arrebatamento? Pelo mundo todo? Não! Pelos que“o aguardam para a salvação”, o que se coaduna com João 14.3. Examinemos o uso do mesmo verbo em 1 Coríntios 15.5-8. Paulo afirma que o Cristo ressurreto, antes de sua ascensão,“foi visto”(gr.horaō) pelos apóstolos, por Tiago, irmão do Senhor, e mais de 500 irmãos. Todas essas reuniões ocorreram de modo secreto. Aliás, reuniões secretas de Jesus com os salvos não é novidade (Atos 1.3; João 12.28,29; Atos 22.9). Assim, por ocasião do Arrebatamento, só os salvos o verão!

Outro texto significativo, nesse sentido, é Atos 1.9-11, no qual se menciona que Jesus há de descer do céu assim como subiu. Na sua ascensão, somente os seus discípulos o viram subindo até as nuvens. Por que, no Arrebatamento, todo o mundo haveria de vê-lo? Portanto, somente os salvos verão o Senhor descendo até as nuvens, pois Ele “há de vir assim como para o céu o vistes ir” (v. 11; cf. ZIBORDI, 2012).

Pré-tribulacionistas creem que a Segunda Vinda terá duas etapas. Por isso,não se incomodam com a ênfase de que“todo o olho o verá” (Apocalipse 1.7). Na primeira etapa, o Arrebatamento, os salvos irão ao encontro do Senhor nos ares, antes da Grande Tribulação (1 Tessalonicenses 4.16,17; 5.3-8). Na segunda, no fim desse período de sete anos, Ele se manifestará diante de todos, para destruir o império do Anticristo, o que é corroborado pela linha do tempo de Apocalipse 19-22, trecho desse livro que está, rigorosamente, em ordem cronológica.

João avista a Igreja glorificada no Céu, nas Bodas do Cordeiro, durante a Grande Tribulação (Apocalipse 19.1-10). Logo depois, vê Cristo descendo do céu coma Igreja (vv. 11-16). Em seguida,mencionam-se: a batalha do Armagedom (vv.17-19); a vitória de Cristo sobre o Anticristo e o Falso Profeta (vv. 20,21); a prisão de Satanás (20.1-3); a ressurreição dos mártires da Grande Tribulação e o Milênio (vv. 4-6); a liberação do Diabo após mil anos, e sua condenação (vv. 7-10); o Juízo Final (vv. 11-15); e a eternidade (caps. 21-22).

Para os amilenaristas, a discussão sobre a possibilidade de a Igreja passar pela Grande Tribulação é inócua, pois eles sequer acreditam que esse período ocorrerá. Preteristas, hermeneuticamente falando, dizem que esse grande evento — para os pré-milenaristas, que são futuristas — já aconteceu por ocasião da destruição de Jerusalém em 70d.C., e que o Anticristo foi o imperador Nero (37-68d.C.). Essa tese não se sustenta, visto que a maioria dos historiadores afirma que Apocalipse foi escrito no fim do século I, entre 90 e 95d.C., nos últimos dias de Domiciano (51-96d.C.). Por que Jesus, cerca de vinte anos depois da destruição de Jerusalém, diria a João: “Escreve as coisas que […] depois destas hão de acontecer” (Apocalipse 1.19)? Ademais, ao discorrer sobrea Grande Tribulação, Ele disse que esta será sem precedentes e incomparável (Mateus 24.21).

Pós-tribulacionistas afirmam que o Arrebatamento e a Manifestação do Senhor são o mesmo evento. Acreditam, portanto, que a Igreja continuará passando por tribulações cada vez mais intensas até a Segunda Vinda. Já para os mesotribulacionistas, Cristo livrará a Igreja em meio à Grande Tribulação, permitindo,inclusive, que ela sofra os vis ataques do Anticristo constantes de Apocalipse 13. Essas duas escolas acusam o pré-tribulacionismo de se apegar exageradamente à simbologia profética, ao afirmar que a Igreja não passará pela Grande Tribulação. No entanto, além das conhecidas analogias (arrebatamento de Enoque, livramento da família de Noé etc.) pelas quais defende-se a ideia de que a Igreja escapará dos juízos tribulacionais (Lucas 21.36, ARA), há passagens que confirmam tal livramento de modo eloquente. Apocalipse 4 talvez seja o capítulo bíblico mais emblemático quanto ao rapto pré-tribulacional da Igreja, no qual o Senhor revela a João, de modo profético, através de símbolos, o futuro glorioso da Igreja. Esse apóstolo vê“uma porta aberta no céu”e 24 anciãos ao redor do trono de Deus, os quais não são anjos, pois em nenhum lugar do Novo Testamento seres angelicais são chamados de “anciãos” (gr. presbyteros). Esses “presbíteros” estão assentados em tronos, o que é curioso, pois Jesus tinha acabado de prometer isso à Igreja (Apocalipse 3.21; cf. Mateus 19.28). Eles usam vestes brancas e coroas de ouro, o que o Senhor também acabara de prometer aos salvos (Apocalipse 2.10; 3.4,5,11). Têm harpas e salvas de ouro cheias de incenso, que são as orações dos santos (5.8). E cantam um novo cântico, que dá ênfase à morte expiatória do Senhor (v. 9). Ora, se não são uma categoria angelical, só podem ser um novo grupo no céu!

Quanto ao número24, no próprio livro de Apocalipse explica-se, indiretamente, que alude às 12 tribos de Israel e aos 12 apóstolos do Cordeiro (cf. 21.12-14). Estas e todas as outras características citadas não deixam dúvida de que esses anciãos representam a Igreja, formada pelos salvos de todas as épocas. E, nesse caso,não resta mais nenhuma dúvida de que ela estará no céu antes da aberturados sete selos, que aludem aos primeiros juízos, logo no início da Grande Tribulação (caps. 4-6). Se voltarmos ao capítulo anterior de Apocalipse, veremos o Senhor prometendo guardar a igreja de Filadélfia “da hora da tentação que há de vir sobre todo o mundo” (3.10). Aqui, o sentido é de“guardar da”, e não “guardar através da” (HORTON, 1995, p. 62). Jesus não prometeu àqueles crentes — e a nós, por extensão (vv. 13,22) — que não morreriam, e sim que seriam guardados de algo que virá“sobre todo o mundo”, que só pode ser a Grande Tribulação, da qual todos os arrebatados serão guardados.

O capítulo 4 de Apocalipse se conecta perfeitamente ao 19, passagem que também não deixa dúvida quanto ao fato de que a Igreja estará nas Bodas Cordeiro durante a Grande Tribulação. João vê os salvos, que formam os exércitos do Senhor, vindo à terra com Ele (19.1-14). A Nova Jerusalém é chamada de Noiva (vv. 9,10), o que é uma metonímia em referência aos moradores dessa gloriosa Cidade, “inscritos no livro da vida do Cordeiro” (v. 27; 22.3-5).

Paulo era pré-tribulacionista. Em 1 Tessalonicenses 5.3-9, logo após mencionar o Arrebatamento, ele diz que“sobrevirá repentina destruição”aos filhos das trevas, que“de modo nenhum escaparão”; quanto aos salvos, como filhos da luz, não serão surpreendidos por “aquele Dia”, que virá “como um ladrão”, pois “Deus não nos destinou para a ira” (cf. 1.10). Pré-tribulacionistas interpretam 2Tessalonicenses à luz da primeira carta e de tudo o que o Jesus ensinou em Apocalipse e no sermão profético (Mateus 24-25). Por isso, não supervalorizam a tese, baseada em2 Tessalonicenses 2.3 (fora de contexto), de que não haverá Arrebatamento pré-tribulacional e secreto, visto que a Volta de Jesus só ocorrerá após a manifestação do Anticristo.

Em 2 Tessalonicenses 2, evidentemente, Paulo dá sequência ao assunto apresentado na primeira carta e alude à Manifestação do Senhor após a chegada do “homem do pecado”. Ao citar a“apostasia”, ele faz uma conexão coma “operação do erro” (v. 11), que já é uma realidade nos dias de hoje (cf. 1Jo 4.3),mesmo antes da manifestação pessoal e visível do Anticristo, o que se constitui, nesse caso, um sinal dos “últimos dias”, inclusive do Arrebatamento (cf. 1 Timóteo 4.1-5).

Aliás,em 2Tessalonicenses 2.6-8, Paulo assevera que“o iníquo”só se manifestará em pessoa depois que for tirado “o que o detém”. Este, segundo alguns dispensacionalistas, é o Paráclito, que sairá da terra junto com a Igreja. Mas essa tese não parece muito lógica, já que desconsidera a onipresença e a imensidade do Espírito Santo. O mais coerente seria afirmar que esse que impede a manifestação do Anticristo é o próprio povo de Deus, que será arrebatado antes da “ira futura” (1 Tessalonicenses 1.10). Maranata!

Referências Bibliográficas

1 BOCK, Darrell L. O Milênio: 3 pontos de vista. Editora Vida, 2001.
2 GILBERTO, Antonio. O Calendário da Profecia. CPAD, 1989.
3 HORTON, Stanley M. A Vitória Final. CPAD, 1995.
4 JONES,Timothy Paul. Guia Profético para o Fim dos Tempos.Rio de Janeiro: CPAD, 2016.
5 LAHAYE, Tim; HINDSON, Ed. Enciclopédia Popular de Profecia Bíblica. CPAD, 2008.
6 ZIBORDI,Ciro Sanches. Erros Escatológicos que os Pregadores Devem Evitar. CPAD, 2012.
7_____. Escatologia: a doutrina das últimas coisas. IN: GILBERTO. Antonio et al. Teologia Sistemática Pentecostal. CPAD, 2008.

Por, Ciro Sanches Zibordi.

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