Parashiot e haftarot: leituras em paralelo para uma perfeita consolação

Parashiot e haftarot - leituras em paralelo para uma perfeita consolaçãoFoi durante o governo de Antíoco Epifanes, entre os anos 175 e 164 AC, que os judeus começaram a fazer a leitura regular de trechos dos profetas no serviço a Deus nas sinagogas. A medida deu-se em resposta à tentativa frustrada do governador de origem greco-síria de impedir a leitura da Torah. Diante da proibição desse homem que tanto afrontou Israel, os líderes religiosos passaram a selecionar porções dos profetas que contivessem mensagens próximas àquelas que teriam sido levadas ao povo não fosse a proibição. Há, portanto, um paralelismo entre a porção da Torah, e a leitura dos profetas. Mais tarde, quando do fim da proibição da leitura da Lei, o estudo dos profetas permaneceu como uma leitura complementar.

As porções da Torah são chamadas parashah (plural parashiot – significa pedaço, divisão, segmento ou porção – são 54 no total) e não seguem necessariamente a marcação dos capítulos, atendendo mais ao conteúdo das narrativas. Gênesis, por exemplo, tem 50 capítulos, mas apenas 12 parashiot. Cada pedaço é, então, dividido em sete partes, que são lidas durante a semana. No Shabat, pela manhã, durante o Avodah(trabalho, serviço) Torah, sete pessoas são chamadas para fazer a aliah (subida) ao bimah (púlpito) e proceder a leitura de toda a porção, embora de forma encurtada. Dessa maneira, mesmo as pessoas que não podem estar na sinagoga durante a semana participarão da leitura ordenada. O propósito é que, ao final de um ano, a começar aproximadamente pelo mês de outubro, durante a celebração da Sinchat Torah (alegria da Torah) toda a Lei de Moisés tenha sido estudada. As pessoas chamadas à leitura serão, primeiramente, selecionadas dentre os cohanim (descendentes da família sacerdotal), depois dentre os demais levitas e, finalmente, dentre as demais tribos de Israel. Fazer a leitura de uma parashah constitui o ato cerimonial mais importante na vida comunitária, tanto que o convite honrado marca a ascensão do menino judeu à idade adulta.

As porções dos profetas são chamadas de haftarah (plural haftarot – significa conclusão, finalização, complementação de algo, livrar-se de algo) e, conforme citamos, guardam relação de similaridade temática com a parashah lida, exceto em situações festivas ou memoriais, quando a haftarah é selecionada especialmente para a ocasião. Foi a maneira encontrada, em dias de cruel perseguição, de continuar ‘lendo a Torah sem ler a Torah’. Uma tabela antiquíssima (para alguns rabinos, foi Esdras, o escriba, quem organizou as sequências textuais da Torah) orienta a leitura que deve ser feita, correspondendo cada parasha a uma haftarah. Dessa forma, conhecendo uma delas, podemos chegar à outra. Quando os soldados de Antíoco passavam nas sinagogas para fiscalizar e pegar algum judeu em falta, encontravam-nos lendo um trecho dos profetas e não tinham autorização para prendê-los – o fiel, então, havia sido livrado da punição. Com o tempo, mesmo depois que a dinastia dos Hasmoneus ascendeu ao governo, liberando a leitura da Torah, o costume prevaleceu e, até os dias de hoje, permanecem as duas leituras cerimoniais.

O costume das duas leituras já estava implantado nos dias de Jesus. Quando dirigiu-se a uma sinagoga em Nazareth para orar, Jesus fez a leitura da haftarah do dia. Lucas registrou que Jesus levantou-se para ler (fez a subida à bimah) “e foi-lhe dado o livro do profeta Isaías, então, quando abriu o livro, achou o lugar onde estava escrito: ‘O Espírito do Senhor está sobre mim, pois que me ungiu para evangelizar os pobres, enviou-me para curar os quebrantados de coração, para pregar a liberdade aos cativos, conceder a restauração da vista aos cegos, por em liberdade os oprimidos e anunciar o ano aceitável do Senhor’. E, fechando o livro, devolveu-o ao ministro e assentou-se, e os olhos de todos na sinagoga estavam fitos nele. Então começou a dizer-lhes – Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos” (Lucas 4.14-21).

O trecho lido por Jesus corresponde à sétima haftarah de consolação. Durante sete semanas seguidas declara-se “consolai, consolai meu povo”. Jesus chegou àquela sinagoga em Nazareth no sétimo sábado de consolações, sendo Ele a perfeita consolação de Israel. Ele veio consolar todos aqueles que choram. Hoje em dia é comum que sejam lidos os versículos 61.10 a 63.9 de Isaías, mas nada impede que a leitura foque numa passagem próxima, antecipando alguns versículos e suprimindo outros, desde que dentro do propósito e ocasião. Uma vez que essa haftarah foi lida, concluímos que a porção da Torah lida naquele dia foi a Parashah Nitzavim (significa ‘em pé’) que se encontra em Deuteronômio 29.10 a 30.20. Sua leitura é feita nos princípios do mês de Setembro. A leitura seguinte a essa Parashah marca o início do ano novo judaico (civil). Jesus anuncia um ano novo, de libertação e de cura, de restituição e de justiça, através da fé em seu sacrifício – o ano aceitável do Senhor.

A perfeita conciliação entre a leitura de Deuteronômio e a leitura de Isaías 61 é mais uma prova do amor de Deus, preparando os corações e falando-lhes de várias e diversificadas maneiras, e de do uso que fez dos cerimoniais existentes para, através deles, manifestar Sua graça. Numa linguagem que o povo daqueles dias pudesse compreender, utilizando-se das leituras programadas, inserindo-se na meditação diária, ali estava a revelação, a Palavra viva, diante do povo ‘em pé’.

Com um pouco de imaginação podemos, agora, retroceder àquele sábado para nos sentirmos sob os efeitos da brisa outonal, numa pequena sinagoga em Nazareth, reunidos a uma congregação atenta às palavras sagradas da Torah, exortando-nos a escolher servir a Deus, sendo lembrados de que ela, a própria Palavra, “está mui perto de ti, na tua boca e no teu coração”. Sem saber o quão perto estavam do Verbo Vivo, os presentes viram levantar-se o jovem Rabi, (filho de José, não é mesmo?). Podemos imaginar o encadeamento da revelação daquele dia, com o anúncio, a exortação ao arrependimento, as promessas e o cumprimento da consolação perfeita oferecida pela mensagem da salvação materializada no próprio Salvador.

Quanto mais retrocedemos à beleza daquela manhã mais nos espantamos com a furiosa recusa dos nazarenos à mensagem pregada. Paralelamente, quanto mais nos deparamos com as variadas maneiras pelas quais o Senhor protege e cria situações para que a moderna nação de Israel seja guiada, mais nos espantamos com a recusa de alguns judeus em se renderem ao único e verdadeiro Deus. O endurecimento dos corações, a secularização, a resistência ao toque do Espírito do Senhor parece ecoar desde a reação daquele grupo na antiga Nazareth. Consola-nos saber que, diante de qualquer um que se ponha de pé, buscando em Deus o perfeito dirigir de seus passos, coloca-se o Senhor, pronto a falar, pronto a curar, pronto a libertar.

Esta meditação é um pedido aos intercessores por Israel, pela descendência de Abraão espalhada por toda a Terra, para que chegue (certamente chegará) o dia de sua rendição ao Eterno, quando não restarão dúvidas de que a intelectualidade vazia, o poder material ou a força tecnológica não são suficientes como vias do consolo que somente Deus pode oferecer. Para Israel, como para os nazarenos da antiguidade, autossuficiência é, sem dúvida, mais perigoso artefato bélico das armas de seus muitos adversários. Consolemos Israel com palavras de salvação. Incentivemos Israel a voltar ao verdadeiro Deus. Oremos por seu levantar, que outra coisa não será para nós do que a ressurreição dos mortos.

Por, Sara Alice Cavalcanti.

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