O selo da Torah arde em nossos corações

O selo da Torah arde em nossos corações“Levarei comigo, em meu coração, o selo da Torah de Moisés, e suas palavras pairarão para sempre diante de meus olhos”. A bela afirmativa, feita por um ancião de longas barbas brancas, fronte alta e olhos meigos pode parecer ter sido a expressão de um velho rabino, legando aos seus ouvintes o testemunho de sua fé pessoal. No entanto, quem a proferiu foi o imperador brasileiro Dom Pedro II, por ocasião de sua visita à sinagoga de Bruxelas, no ano de 1871. Não é de espantar que aquele que comandou o Império entre os anos de 1841 e 1889, ano da Proclamação da República, pudesse assim se expressar, em língua hebraica. Dom Pedro alcançou fluência em várias línguas, tornando-se imortal da Academia Francesa e membro da Liga dos Quarenta Sábios em Paris. Traduziu e publicou a tradução de canções tradicionais hebraicas, resgatando à comunidade alguns tesouros esquecidos. A fluência foi resultado de anos de dedicação nos estudos, iniciados com um professor judeu sueco de nome Akerblom, ao qual se seguiram outros, uma vez que o aprofundamento linguístico foi uma atividade que percorreu toda a sua vida.

Segundo Shlomo Haramati, professor de linguística aplicada na Universidade Hebraica de Jerusalém e pesquisador da UNESCO, “contam que, certa vez, Dom Pedro encontrou nos jardins do palácio uma Bíblia em hebraico que havia sido perdida por um pastor protestante. Esta descoberta provocou em Dom Pedro forte emoção, a ponto de levá-lo a tomar a decisão de estudar hebraico”. Ler a Bíblia no original – essa, talvez, tenha sido a motivação do então jovem D. Pedro II. Dizem outros que sua apreciação deveu-se à profunda culpa com relação à expulsão dos judeus da Península Ibérica e que o retorno aos textos ancestrais seria um resgate histórico, a título de reparação. Qualquer que tenha sido o motivo, embora estudasse sânscrito, árabe, grego, além de diversas línguas europeias, ao ser perguntado sobre qual atividade lhe provocava maior prazer, a resposta seria “hebraico”. São várias as testemunhas que o ouviram repetir a afirmação, mesmo quando, já avançado em dias, declarava seu querer de maneira um pouco ofegante: “hebraico”.

Historiadores relatam que a grande consolação do imperador deposto, em seu exílio, era passar longas horas absorto no estudo da língua e que na tradução de trechos da Hagadá de Pessach encontrou explicações para questões relativas à justiça, à vida e à morte. Em suas viagens, Pedro II esteve com hebraístas, talmudistas (dentre eles o tradutor judeu do Talmud, Julius Opert) e assiriologistas. Os diretores da Biblioteca de Oxford e da Biblioteca de Paris também contavam entre seus conhecidos. O contato com tal diversidade de pessoas ligadas aos livros sagrados facilitou o acesso de Ephraim Deynard, comerciante de manuscritos; mas foi na Terra Santa, em dezembro de 1876, que, provavelmente, o imperador adquiriu os rolos da Torah, arquivados no Museu Nacional, no Rio de Janeiro.

A descoberta recente da existência dos livros, ao total nove rolos da Torah, foi um precioso presente para todos nós, brasileiros. Em nota ao texto do professor Shlomo, encontramos a seguinte declaração: “pesquisadores consideram estes rolos da Torah como dos mais antigos existentes, remontando ao século XIV ou XV. Foram tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e encontram-se em exibição no Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro”. Na verdade, os nove rolos de couro da Torah Yvriim ficavam diante da múmia de Sha-Amun-En-Su, de cerca de 750 a.C., trazida ao Brasil em seu ataúde original, como um presente de Ismail Paxá, vice-rei do Egito, por ocasião da segunda visita do Imperador ao Oriente. Os rolos foram posteriormente transferidos para um cofre, na direção da entidade.

Na catalogação do IPHAN, o registro do Tombo Histórico tem inscrição no. 553, de 4 de março de 1999. Segue a descrição do registro do tombamento: “O Processo do Tombamento dos Pergaminhos da Torah, manuscritos históricos escritos em hebraico bíblico, datados entre 400 e 1000 anos atrás, adquiridos por Pedro II no século XIX, e pertencentes ao acervo do Museu Nacional, ocorre a partir de 1997 quando há o desmembramento de processo anterior que buscava o tombamento de material que compunha o acervo histórico e científico do Imperador. Este é o exemplo de tombamento de bem móvel, entretanto algumas características permanecem próximas aos outros processos. Apesar de não ser um material produzido no Brasil ou protagonista de fatos históricos brasileiros foi aprovado, como consta na ata do Conselho Deliberativo, por sua importância histórica nacional, considerando o impulso científico e cultural do Imperador, assim como singularidade arqueológica e bibliográfica universal. Sendo ainda relatado a representação da multiculturalidade brasileira pelo objeto religioso judaico em questão, e também as ações de preservação de bens móveis pelo IPHAN. Seu tombamento é aprovado em novembro de 1998. Fonte: Martins, Dantas, p.9.

Hoje, dia 4 de setembro de 2018, quando faço este registro jornalístico, estamos – todos – ainda sofrendo o luto pela destruição de 20 milhões de peças pertencentes ao patrimônio nacional pelo incêndio que consumiu um acervo de 200 anos, domingo, dia 2 de setembro, no Museu Nacional do Rio de Janeiro. Choram administradores e pesquisadores. Lamentam famílias que gostariam de passar aos seus filhos a mesma experiência com a história e com vida que tiveram, como eu tive, ao percorrer os salões da antiga residência imperial. Lamentamos a perda de todo o conjunto. Alguns dedicarão mais lágrimas a algum recorte do acervo para o qual tenham dedicado talvez anos ou mesmo décadas de pesquisa. Portanto, ninguém se espante ao saber que as lágrimas de alguns, ao verem as chamas crepitando, eram vertidas por saber que ali, alimentando as chamas, talvez estivessem (pois cremos na intervenção do Eterno para tê-las guardado) as letras sagradas que foram amadas por um homem chamado Pedro e são amadas por tantos de nós. Na oportunidade e responsabilidade que me é dada através do Mensageiro da Paz, sinto-me devedora aos meus irmãos no sentido de colaborar para que a existência da Torah em nossas terras, em texto tão antigo, trazido de forma tão cuidadosa e tratada com todo o zelo por aquele que amou suas linhas não se apague. Pois a Torah não se apaga. A Torah consome. Ainda, ousadamente apresento minha pessoal discordância quanto ao registro do tombamento dos rolos do imperador, pois, na verdade, a Torah não apenas foi protagonista de fatos históricos brasileiros, não fosse a nação formada por milhões de descendentes de judeus europeus, como ainda é, pois está gravada na tradição dos brasileiros, marcou nossas leis pelo decálogo, e ainda fala constante e diariamente àqueles que avivam a sensibilidade de suas consciências pela perfeição da Lei.

Uma vez que a tragédia aconteceu, tornamo-nos, agora, os fiéis guardadores, tanto do texto, quanto do registro de sua permanência entre nós como um fundamento de fé e de amor a Deus. Faço menção aos trabalhos de pesquisa feitos sobre o texto destruído, que agora ganham peculiar valor, e peço aos irmãos leitores que não permitam o esquecimento do percurso das sagradas letras entre nós. Quem sabe, em algum momento de descuido, deixemos o Livro Sagrado cair nas mãos de um governante que passeie entre nós e isso, certamente, mudará o curso da História Nacional.

Terça-feira, 4 de setembro de 2018 – Matéria assinada pela jornalista Marina Caruso, do Jornal “O Globo” anuncia que os rolos da Torah foram preservados. Rabinos dedicaram-se a buscar informações a respeito do lugar onde estavam guardados os importantes manuscritos da Lei. Segundo Wagner William Martins, diretor administrativo do museu, “antes de o fogo lamber praticamente todo o acervo da instituição, no último domingo, ela havia sido transferida para a biblioteca central do museu, em prédio anexo, que não foi atingido”.

Glórias ao Verbo Vivo, a quem clamamos que ainda nos permita conhecer os detalhes desse tão grande livramento. Honras ao Deus que é zeloso dos Seus e de Sua Palavra livrando das chamas, apesar das chamas ou em meio às chamas.

Por, Sara Alice Cavalcanti.