O lugar das Sagras Escrituras e dos livros em nossa vida

O lugar das Sagras Escrituras e dos livros em nossa vidaDesfruto da companhia dos livros desde os verdes anos de minha juventude. Sou um leitor voraz desde aquela época, hoje mais seletivo, com certeza, ao mesmo tempo em que dediquei a eles grande parte da minha vida profissional como editor. Sem me esquecer, também, que tenho tido o privilégio de ser considerado um escritor. Valorizo sua importância como um meio legítimo para adquirir conhecimentos e para a formação espiritual, moral e social do indivíduo. E estimulo a todos a desenvolverem o hábito da boa leitura.

Mas, atualmente, tenho duas graves preocupações: uma é com a qualidade das escolhas quanto ao que lemos e a segunda, quanto à tendência bastante generalizada de se trazer a Bíblia para um plano inferior e se dar aos livros a primazia da Palavra de Deus. Ou seja, eles se tornaram mais importantes do que as Escrituras.

Preocupa o lugar que a Bíblia passa a ocupar nas prioridades de leitura. Lemos tudo quanto se escreve sobre ela, ouvimos as mais diferentes opiniões e seu respeito, mas dela pouco ou nada nos ocupamos, a não ser meras consultas ocasionais. Mesmo levando em conta a grande diversidade de Bíblias de estudo à nossa disposição.

Sobre a qualidade de nossas escolhas, devo, de antemão, estabelecer que não sou adepto do Index Librorum Prohibitorum e rechaço qualquer hipótese de se criar alguma coisa parecida. Não é pela imposição da censura que se aprimorará a qualidade do que se lê. Ao contrário, ela é, via regra, instrumento de  opressão para restringir o aceso ao conhecimento, como tentou fazer a igreja romana com a sua lista de livros proibidos, no período do obscurantismo, sob o argumento de que tinha de “zelar” pela vida espiritual de seus fiéis. Não é por aí que se chegará a esse objetivo, como foi provado. Fica, portanto, esclarecida a minha posição.

No entanto, acredito que, na qualidade de leitores, sem que seja por causa de qualquer pressão legalista e impositiva, precisamos tomar algumas precauções sobre aquilo que estamos lendo, pois há muito “lixo” sendo vendido em muitas livrarias evangélicas como se fosse o supra-sumo da literatura evangélica. São livros que não prestam (esse é o termo), mas tem forte apelo comercial, na linguagem dos marqueteiros, e lá estão como chamariz para as pessoas pouco acostumadas com o rigor da interpretação e com a pouca ou nenhuma base bíblica para avaliar o conteúdo de uma obra.

O bom leitor há de considerar, primeiro, que não é simplesmente um colecionador de livros para formar uma vistosa biblioteca, ou para se agarrar a alguma nova onda, mas alguém que busca crescer em conhecimento para melhor exercer o ofício da própria vida. O livro é, para ele, uma ferramenta de indispensável valor para que seja tratado como algumas mal traçadas linhas que nada dizem ou como produto para ocupar espaço nas prateleiras. As escolhas, portanto, devem ser bem feitas até porque, por mais que seja um leitor voraz, não conseguirá ler tudo que chega ao mercado, mesmo que viva 100 anos!

Isso implica em que nós, leitores, sejamos seletivos e estabeleçamos prioridades, sem cair no conto da sereia do que se nos oferece pela vida da publicidade nem sempre honesta. Falo por experiência, pois fui um consumidor contumaz de livros por muito tempo. Gastava boa parte do meu salário em livrarias. Adquiria tudo que via, e se alguma coisa tinha de deixar para trás, era com muita dor no coração. Quase uma compulsão. No entanto, muito do que comprei ainda não li (e não terei tempo para ler) por não ter sido seletivo em consequência da falta de prioridade. Hoje, minha relação com os livros é outra. Adquiro apenas o necessário, procuro fazer boas escolhas e considero as minhas prioridades na hora da compra. Não saio por ai gastando com obras de pouco lustre que nada me acrescentarão.

Acredito também que o bom leitor há de valorizar as obras densas, perenes, mesmo devocionais, que sobrevivem ao tempo, sem se preocupar tanto com as sazonais, cujo teor se esgota quando o tema sai de pauta, ainda que algumas cumpram algum papel construtivo. Hoje, ninguém mais fala no assunto abordado nelas, a safra já foi consumida, porque outras ondas já o superaram e se encontram nas prateleiras à espera do próximo leitor que só vive de palha. Palha, porém, não alimenta.

Uma boa maneira de se reconhecer uma grande obra, ainda que venhamos a discordar de suas ideias, é saber que ela normalmente pereniza o nome do autor. As pessoas não mais dizem: eu leio a obra de fulano de tal, mas eu leio fulano de tal. Quando, por exemplo, se pronuncia Myer Pearlman, no meio pentecostal, seu nome é automaticamente associado ao grande clássico Conhecendo as Doutrinas da Bíblia, a primeira teologia sistemática que li ainda quando criança. Abrão de Almeida, por sua vez, sempre será lembrado pelo tratado escatológico Israel, Gogue e o Anticristo, enquanto Antonio Gilberto pelo Manual da Escola Dominical e por ser o editor da edição brasileira da Bíblia de Estudo Pentecostal. E se sairmos dos círculos pentecostais, quem não associa Schaeffer à sua trilogia: Tge God Who Is There, Escape from Reason e He Is There and He Is Not Silent, ou, um pouco mais atrás na história, Calvino às suas  Institutas?

Uma regra áurea do mercado é que a demanda determina o tipo de produto que queremos. Enquanto o interesse for consumir livros de pouca qualidade, livros de pouca qualidade serão produzidos. Mas a partir do momento em que o enfoque for outro, teremos com certeza mais obras de qualidade à nossa disposição, ainda que uma ou outra editora insista em prosseguir no mesmo rumo. Todavia, a capacidade de provocar mudanças está em nossas mãos, desde que saibamos fazer boas escolhas sobre o que queremos ler. Graças a Deus, a CPAD sempre tem se preocupado em publicar obras de qualidade e de referência.

Convém, por último, reafirmar a nossa fidelidade às Escrituras, pois muitos leitores estão lendo de tudo sobre a Bíblia, mas nenhum pouco do que ela diz. É apenas uma peça decorativa. São especialistas nos mais variados assuntos apresentados pelos autores de sua predileção, alguns com linhas esdrúxulas, mas analfabetos da Palavra de Deus. Esta é a razão pela qual reina essa “anarquia” em boa parte do meio evangélico, onde tem de tudo, desde elementos da cultura judaica introduzidos no culto até elementos da Nova Era. Primeiro a Bíblia, depois os livros.

Por, Geremias do Couto.

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