O Espírito Santo e a Reforma

O Espírito Santo e a ReformaAs Sagradas Escrituras apresentam Deus como Aquele que faz história e que a controla. Nas palavras de Raabe, com precisão teológica, ela faz menção de Deus controlando todas as coisas, as que estão no céu e também na terra (Josué 2.10,11). O profeta Isaías, de modo lauto, deixa claro que Deus estava agindo na história em favor de Israel, por isso fez menção da escolha do rei Ciro, o qual iria servir aos propósitos divinos (Isaías 45.1; Esdras 5.13).Deus controla a história e a sucessão dos acontecimentos, então podemos crer que os fatos ocorridos no século 16, que serviram de elementos deflagratórios da Reforma Protestante, não foram mera casualidade. Se amealharmos cada situação, logo perceberemos que o Senhor estava dirigindo tudo perfeitamente bem.

Diversos olhares e opiniões surgem no tocante à Reforma. Os que desprezam o trabalhar divino na história afirmarão seguramente que ela se deu apenas por questões sociais e políticas. A Europa estava vivendo um novo momento histórico: impressão de livros, as descobertas de Copérnico, a descoberta das Américas, o crescimento da burguesia etc, e essa renovação atingiu também a Igreja.

A Reforma teria sido uma busca em reformar a Igreja Medieval, pois muitos estavam descontentes com ela. Os estudiosos afirmam que os acontecimentos do século 16 foram suficientes para que isso acontecesse. Dentre esses acontecimentos, podemos enumerar dois: o político e o nacionalismo. O político envolvia o imperador da Espanha, Carlos V, que reinava na Alemanha (1520). Ele era visto como um bom católico, porém, ao ser ameaçado pelos maometanos e com seu poder delimitado pelos alemães, isso favoreceu a Reforma.

Quanto ao nacionalismo, este foi um fator importante para a Reforma posto que nesse período começou-se a dar muita ênfase ao sentimento nacional. Esse sentimento partiu especialmente dos humanistas, que dirigiam à Igreja suas corpulentas críticas, no entanto muitos camponeses também estavam insatisfeitos com a instituição. O apóstolo Paulo falou que todas as coisas cooperam para o bem (Romanos 8.28), e é claro que não desprezamos os elementos sociais e políticos como fatores preponderantes para a Reforma, mas não vemos isso tão somente como acontecimentos normais; antes, todos eles estavam sendo controlados, monitorados por Deus, para que de fato acontecessem.

Os acontecimentos supraditos apenas favoreceram a Reforma, mas eles não foram a real causa dela. É bom entender que a Reforma foi, em todos os aspectos, dirigida pelo Espírito Santo. Isso podemos provar pela escolha do homem que será o protagonista principal desse acontecimento.

Matinho Lutero (1483-1546) era filho de um mineiro e tinha uma boa formação. Esse homem sofreu uma crise existencial, diversos acontecimentos, como a morte do seu grande amigo e por ter escapado de um raio, o que o levou a uma grande crise consigo mesmo. Ele procura encontrar a paz para a sua alma, razão pela qual começa lendo obras como a de Bernardo. Aplicou a si mesmo as pesadas regras de jejuns e orações, e logo foi buscar refúgio espiritual no Mosteiro Agostiniano, em 1520.

Lutero era um católico fiel, fazia tudo que a Igreja determinava, porém, a resposta que queria para a sua indagação, como encontrar um Deus gracioso? Continuava de modo pertinaz. Em crise consigo mesmo, com o seu coração, e sem encontrar resposta para sua pergunta, esse homem buscou ajuda nos seus superiores, nos sacramentos da Igreja, e entendia que tudo o que fazia tinha um fim em si mesmo; podemos dizer que esse homem estava como Paulo, em uma total crise existencial (Romanos 7.4).

Nem os sacramentos, nem seus superiores, nem a Igreja puderam dar a Lutero a resposta que buscava: Como encontrar um Deus gracioso? Na verdade, parece uma pergunta simples, mas veja, Lutero já era um sacerdote e teólogo desde 1512, mas por que então ele não pôde, com suas reflexões teológicas encontrar a resposta? Porque conteúdos de livros ou qualquer outro estudo não podem revelar profundamente as verdades divinas; destarte, as coisas espirituais só se discernem espiritualmente (1 Coríntios 2.14).

Jesus chamou Pedro de bem-aventurado porque recebeu capacitação divina para dizer que Ele era o Cristo, note que essa revelação não partiu da mente do apóstolo Pedro, nem de seus argumentos lógicos, mas diretamente de Deus (Mateus 16.17). Em se tratando de Lutero, a compreensão que ele vai ter sobre a justificação vem diretamente do Espírito Santo. Não temos dúvidas de que essa crise que Lutero sofreu foi algo providencial de Deus, pois caso ele vivesse no comodismo, como outros do seu tempo viviam, jamais iria levantar-se contra um poder tão forte da época.

No que tange ao elemento espiritual, esse incômodo por querer saber sobre o Deus gracioso, levou Lutero a ir direito às páginas do Evangelho. Lecionando na Universidade de Wittenberg: Salmos, Gálatas, Romanos, Hebreus, o Espírito Santo conduziu esse homem à resposta tão desejada, pois foi nas lenitivas páginas dessas cartas que ele encontrou o Deus tão gracioso, mas não somente isso, também sobre a obra maravilhosa da salvação que mitigou toda a sua crise espiritual.

Lendo Romanos 1.17, logo Lutero pôde entender como é que Deus revela sua justiça, e que ela não era algo para ser temida. Lutero ficou maravilhado com esse assunto introduzido por Paulo, por isso o aplicou ao seu estudo e logo chegou à essência da questão: A justiça de Deus revelada no Evangelho é aquela justiça que Deus nos dá em Cristo.

Entendendo o que é realmente a justiça de Deus, e que a graça é a capacitação para se viver a vida cristã, então Lutero tornou-se realmente um convertido, um homem pronto para alçar a sua voz a favor da justiça presente no Evangelho. Sem que isso acontecesse em sua vida, Lutero seria não mais que um sacerdote apenas cheio de teorias, concepções, coadunando-se com o sistema da época, aderindo às confortáveis vantagens religiosas.

Somente homens espirituais, ou seja, transformados de fato pelo Evangelho é que podem se levantar contra aquilo que contraria o Evangelho de Cristo. Paulo agiu contra o judaísmo porque sabia que seu sistema era falido, mas se manifestou favorável ao Evangelho por saber que Ele era o poder de Deus para a salvação dos pecadores (Romanos 1.6).

Lutero não era nenhum um líder desordeiro, ele não buscou uma reforma porque tivesse uma nova visão espiritual ou desgosto com a Igreja porque não conquistara alguma posição. Na verdade, a reforma que ele estava propondo é que todos se voltassem para o Evangelho, pois nele estava escrito que só a justiça que vem de Deus é que pode salvar (Romanos 5.1).

Ao perceber o desvio do Evangelho, quando alguns estavam ensinando que uma alma deixaria de sofrer no purgatório caso comprasse uma indulgência, que era a remissão das penas ou o perdão, Lutero bateu de frente, pois sabia de fato o que estava por trás de tudo, não somente a busca pelo perdão, mas era um projeto que tinha como objetivo pagar a dívida do Arcebispo e financiar a construção da basílica de São Pedro, e para tal fim estavam usando meios comprometedores, contrariando o Evangelho de Jesus Cristo.

A revolta de Lutero contra a venda de indulgência era enérgica, pois ele não suportava ouvir João Tetzel, caminhando pelas ruas da Alemanha a dizer: “No momento em que uma moeda bater no fundo da caixa, a alma solta-se do purgatório”. Obviamente estava claro, para fins particulares, financeiros, a verdade do Evangelho tinha sido adulterada pela Igreja, pois Lutero entendia que o perdão dos pecados é somente através da justiça que vem de Cristo Jesus, a qual é de graça e pela fé (Efésios 2.8.9).

A proposta de Lutero para a Reforma não partiu de uma decisão vinda do Papa, nem de orientações ou estudos dados por um Concílio. Antes, sua autoridade para iniciar uma reforma na igreja vem da Bíblia Sagrada, ela é superior à voz de quem quer que seja, pois a Igreja deve ser dirigida por Ela.

O ponto central da reforma proposta por Lutero está no Evangelho, pois nele consta a mensagem de salvação que o pecador precisa: a justificação pela fé. Lutero desejava tão somente que a Igreja voltasse à doutrina certa, mas isso não aconteceu, pois de imediato a Igreja o condenou e ele foi excomungado, e o imperador Carlos V o condenou.

Enquanto Lutero estava propondo uma reforma que não foi aceita, não demorou para que a Igreja Ocidental se separasse. Nela a Palavra de Deus não tem vez, então a divisão é certa. Podemos dizer que outros homens tentaram fazer essa reforma, mas coube a Lutero esse privilégio da parte de Deus.

Portanto, celebremos a Deus por ter levantado um homem que foi tocado pelo Evangelho a fim de mostrar que a salvação não é por obras, mas, sim, pela fé em Cristo. A reforma de Lutero não tinha nada a ver com divisão de igreja, busca por cargo, poder, dinheiro, mas somente com a questão doutrinária. Quando alguém tenta fazer reforma sem a ação do Espírito Santo o estrago é grande, mas quando tudo é dirigido por Ele, então as coisas dão certo, por isso sempre é bom lembrar o que disse o profeta Zacarias: “Não por força nem por violência, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos” (Zacarias 4.6).

Por, Osiel Gomes.

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