O cristão e a “marca da promessa”

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O cristão e a “marca da promessa”Deve estar ínsito em nossa mente que a teologia e a vida da igreja não se evidenciam apenas nos grandes tratados ou colóquios teológicos, antes as mais diversas formas literárias eram usadas pelos apologistas com o fim de transmitirem sua fé em Deus.

A Igreja Primitiva fez uso da arte para manifestar o seu crer no Deus verdadeiro. No quarto século, formas de poesias latinas passaram a ser usadas na proclamação do Evangelho de Jesus Cristo; um gênero que se destacou fortemente nesse período foi a biografia dos santos.

Podemos dizer que desde os tempos veterotestamentários o som foi usado como meio para se proclamar a grandeza e a fé dos santos em Deus. Segundo a história, a Igreja da Síria avulta-se pela composição de belos hinos feitos por Bardesana e Ephrem. Gregório de Nazianzo tornou-se bem conhecido por usar melodias comuns para composição de hinos.

Uma prova clara de que o hino faz teologia, é que no presente momento estamos lidando com algumas canções ábsonas, fora do real contexto bíblico e de sua interpretação, o que tem gerado confusão em muitas igrejas, produzindo teologias estrábicas, daí a necessidade dos compositores atentarem bem para o texto bíblico, e julgarem suas letras relacionadas com a exegese e a hermenêutica, mas não podemos abjurar que existem composições que de fato exaltam o nome de Jesus, e que expressam fé no seu sacrifício, produzindo gozo no nosso coração. O uso da expressão a marca da promessa, tratado aqui, tem sido comum em muitas canções do meio evangélico atualmente.

No aspecto teológico, a palavra “marca” tem seus aspectos bem polissêmicos. É claro que para nós cristãos, leitores da Bíblia, entendemos que a marca, no seu sentido espiritual, não se trata de um sinal visível, mas subjetivo. Mas uma leitura elementar dos textos veterotestamentários faz com que a ideia subjetiva da marca seja bem objetiva.

No texto hebraico, a ideia de marca nasce com o próprio Deus, foi ele quem primeiramente pôs uma marca em Caim, do hebraico é oth, ela tinha dois propósitos, primeiro, distingui-lo dos demais homens, identificando-o como homicida. Em segundo lugar, ela era protetiva, pois como Deus o havia condenado a uma sentença severa, lhe concedendo momento de mais sofrimento, o protegeria de quem tentasse tirar-lhe a vida.

Outro tipo de marca que era posta na testa ou na mão, e que servia para diferenciar o santo do profano, segundo o contexto bíblico, está presente no texto de Ezequiel 9.4, 6. Do hebraico é bin. Existe também no texto hebraico a marca que um homem recebe da parte de Deus como alvo de sofrimento, no hebraico é miphga (Jó 7.20).

No livro de Levítico, capítulo 19, versículo 28, aparece a palavra hebraica qaaqa; ela fala de marca, sinal, incisão, tendo o significado de tatuagem, que era feita pelos ímpios em homenagem aos seus deuses. Deus exigiu que os israelitas não fizessem marcas nos seus corpos para não seguirem o modelo pecaminoso desse povo, que por meio dessas tatuagens, em honra aos seus deuses, estariam cometendo o pecado de idolatria.

O Novo Testamento faz uso de quatro palavras gregas referindo-se a marca ou sinal, a primeira é semeion, é um sinal visível no corpo (Mateus 12.38,39). A segunda palavra é skópos, quer dizer alvo (Filipenses 3.14). A terceira palavra é charagma, trata-se de uma inscrição gravada, seu uso é bem presente no Apocalipse, e direciona-se especificamente à marca da besta (Apocalipse 3.16.17). A quarta palavra é stigma, essa era feita em escravos para mostrar a quem de fato ele pertencia; seu uso foi feito por Paulo em Gálatas 6.17.

Analogicamente, é bem assertivo que no uso das palavras marcas os homens de Deus faziam uso delas levando seu sentido para o campo espiritual, por exemplo, o semeion, que era um sinal visível, foi usado por Paulo para falar das línguas estanhas como um sinal (1 Coríntios 14.22). Paulo, para deixar claro que pertencia a Cristo, disse que trazia em seu corpo as suas marcas, isso no aspecto espiritual, ele usou também a palavra marca como alvo para dizer que sua visão e vocação estava voltada para os céus.

A marca do Apocalipse, conforme escreve João, tratando-se do sinal da besta, muitos têm defendido que se trata de um número na testa ou na mão, todavia, podemos dizer que na verdade isso é apenas simbólico, o que tal expressão denota é que aqueles que não são os verdadeiros filhos de Deus serão identificados pela subordinação ao anticristo.

Pelo teor bíblico, no tocante à marca, entendemos que de diversas formas Deus queria que o Seu povo fosse identificado na terra, assim, quem tratará dessa questão de modo claro é Paulo, é dele que vem a expressão: “Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa” (Efésios 1.13).

Nesse texto Paulo fala da benção que o Espírito Santo concede aos crentes, através dEle somos esfragísthete selados. Veja que aqui o verbo é passivo, o sujeito está sofrendo uma ação. Do grego, a palavra selar tem variados significados. Literalmente quer dizer colocar uma marca (Mateus 27.66), identificar (Efésios 4.30), atestar, certificar (João 3.33), por em segurança.

O cristão que tem o selo do Espírito como a marca da promessa passa a ser consciente de duas verdades bíblicas: Certeza de que pertence a Deus (Romanos 8.15); e a garantia de que tudo será cumprindo.

Paulo diz que o Espírito Santo nos foi dado como penhor, que quer dizer garantia, segurança, prova. Ele habita em nós como consolador e Mestre, deixando claro que somos propriedades de Deus comprados com o Seu sangue (Atos 20.28; 1 Pedro 1.18,19), e que brevemente Jesus virá para buscar o que de direito real é Seu.

A questão da marca é algo antigo, diversas marcas eram feitas para se identificar objetos (1 Reis 21.8), animais, inclusive os impérios usavam selos ou marcas em cartas, moedas, como acontecia no império romano. Os escravos recebiam uma marca na testa para expressar a quem pertenciam, e que eles viviam para servir de modo escravizado, o quem não expressava lealdade. Em nossos dias, diversos documentos, para provar sua real identidade, segurança, legitimidade, recebem carimbos, chancelas, um sinal que identifique tal documento como verdadeiro.

Podemos afirmar que a Igreja tem a marca da promessa, o que lhe dá garantia da certeza de ser propriedade de Deus (1 Pedro 2.9), e que as promessas divinas, feitas por Cristo, logo se cumprirão.

Essa marca na vida do crente é para que o mesmo possa manter um bom testemunho e ser sempre fiel a Cristo neste mundo (2 Timóteo 2.19), jamais abrindo mão daquilo que recebeu (2 Coríntios 1.22), ela não se trata de um amuleto da sorte, uma varinha de condão que exime você de todo problema e luta, mas dá a certeza de que as bênçãos espirituais podem ser desfrutadas (Efésios 1.3).

No livro do Apocalipse, querendo imitar a Cristo, o inimigo lançará sua marca, o que permitirá aqueles que fizerem aliança com a Besta e o Falso profeta terem acesso a tudo, mas não demorará para desencadear uma perseguição contra os que não adorarem nem servirem a Besta e o falso profeta.

A marca da promessa não se trata de uma imagem colocada no corpo, mas é a real presença do Espírito Santo em nossas vidas, que nos ensina constantemente tudo aquilo que Jesus ensinou, para que possamos viver segundo o Seu querer (João 14.26).

Por, Osiel Gomes.

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