“Nada além de Bíblias”

Nada além de BíbliasNo curso das muitas comemorações que tiveram lugar em Israel por ocasião de seu aniversário de fundação, destacaram-se as transferências das embaixadas dos EUA, da Guatemala e do Paraguai. O presidente do terceiro país a fazer o deslocamento, Horacio Cartes, assim se manifestou: “A decisão concretiza outro acontecimento histórico em nossos vigorosos laços de amizade, que coincide com a comemoração da criação do Estado de Israel, que meu país acompanhou nas Nações Unidas, decidida e decisivamente, há 70 anos”. O premier israelense, Benjamin Netanyahu respondeu com alegria que “este é um grande dia para Israel e um grande dia para o Paraguai, um grande dia para nossa amizade… nós lembramos de nossos amigos. Obrigado Horacio, obrigado Paraguai”. Lembrou, ainda, a maneira como aquele país ajudou judeus a escaparem da Alemanha nazista: “Vocês fizeram isso antes do Holocausto, durante o Holocausto e depois do Holocausto. Um ato de benevolência e misericórdia que estará sempre em nosso coração”.

Semelhantes atos de misericórdia têm sido feitos por cristãos evangélicos em todo o mundo no esforço de viabilizar o retorno de judeus a Israel. Tais ações revestem-se de especial importância nesse momento de antissemitismo crescente. O relatório global sobre antissemitismo (divulgado em 11/04 deste ano) feito pelo Kantor Center, da Universidade de Tel Aviv apontou o sentimento de insegurança nos judeus que vivem na Europa – alguns evitam usar símbolos religiosos ou frequentar sinagogas em feriados judaicas – tornado mais intenso após o assassinato de duas mulheres idosas em Paris. Uma delas, Mireille Knoll, judia francesa de 85 anos, foi o motivo para uma marcha silenciosa pelas ruas da cidade na quarta feira dia 28 de março. Uniram-se à passeata o ministro do Interior, Gérard Collomb, a ministra da Cultura, Françoise Nyssem e a prefeita de Paris, Anne Hidalgo. As atividades parlamentares foram suspensas para que os políticos pudessem participar, embora nem todos tenham sido benvindos. O presidente Macron compareceu ao funeral e classificou a agressão como ato “terrível”. Várias cidades francesas realizaram manifestações semelhantes. A senhora Knoll tinha 10 anos quando escapou à prisão de mais de 13 mil judeus pelos franceses por ordem dos nazistas. Ela e sua mãe fugiram para Portugal, retornando após a guerra. O crime está sendo investigado como sendo de motivação antissemita e alcançou enorme repercussão. O assassinato reviveu um outro, também ocorrido em Paris, em abril do ano passado. A judia ortodoxa Sarah Halimi, de 60 anos, foi jogada pela janela do apartamento por um vizinho, enquanto esse gritava “Alla huakhbar” (Alá é grande, em árabe).

A onda de antissemitismo não é exclusividade francesa, mas ganhou a Hungria, encontrou lugar entre políticos britânicos e faz ouvir sua voz nos jogos de futebol alemães, quando os membros de times adversários são chamados de “judeus”. O termo, aliás, passou à condição de palavra chula nas conversações e em abordagens racistas nas redes sociais. Nada, no entanto, que se compare à atual situação dos judeus na Ucrânia. E é nesse momento em especial que cristãos evangélicos estão se destacando como os maiores financiadores do resgate de judeus em perseguição e, particularmente, promovendo a aliá (literalmente subida – termo usado para descrever o retorno do judeu a Israel).

Alguns perguntam quem são esses cristãos, quais suas motivações e se esse é um movimento recente. Na comunidade judaica são chamados “cristãos da verdadeira Torah”, em paralelo à expressão “judeus da verdadeira Torah”, usada para se referir ao judeu professo e apegado às Escrituras. São pessoas que acreditam que a aliança que Deus estabeleceu com Abraão permanece válida, nos termos descritos na Palavra, sendo os judeus herdeiros das promessas bíblicas, tendo um papel importante a desempenhar no futuro da humanidade, quando do restabelecimento do Reino Messiânico. Entre as instituições envolvidas nesse movimento estão o John Hagee Ministries, a Christians United for Israel, a Embaixada Cristã Internacional em Jerusalém, o ministério Bridges for Peace e muitos outros, trabalhando em cooperação. Um exemplo citado por David Parsons, da Embaixada Cristã de uma possível rota de Aliá russa seria: “Bridges for Peace pode leva-los [judeus necessitando de ajuda] em um trem da Sibéria para Moscou, depois um ônibus [talvez do ministério Êxobus] para um navio em Odessa, que pode ser pago por outro ministério. A ida para Israel pode ser responsabilidade de outro ministério ainda”. Para Rebecca Brimmer, presidente e diretora internacional da Bridges for Peace, é um privilégio ser instrumento de Deus em Seu plano de levar o povo judeu para Israel. O ministério já ajudou a levar quase 2000 judeus somente da Ucrânia. A Embaixada ajudou mais de 115 mil judeus a fazer Aliá. Tais organizações não visam o proselitismo, mas encontram seu papel numa participação profética de restauração e retorno. Segundo o fundador da Return Ministries, outro importante ministério promotor da Aliá, quando é acusado de proselitismo responde: “Você não me circuncida e eu não vou te batizar”. A importante pregação aqui contida é a do amor incondicional, ao qual muitos não conseguem resistir.

Quanto à suposta “novidade” da aproximação entre evangélicos e judeus, ela pode ser respondida pela própria história, num sem número de casos de cooperação, proteção mesmo que a preço de morte e compaixão mútuas. Vencidas as marcas terríveis deixadas pela teologia da substituição e revisto o nascedouro da igreja evangélica – não na Reforma, mas no Cenáculo – muito se poderá ver, ainda, ao longo dessa caminhada que tem em comum o mesmo Deus e os fundamentos de Sua Palavra. Conforme se pronunciou um líder judeu: “Prefiro lidar com os evangélicos que amam Israel, apesar de nossas discordâncias. Na minha opinião, Israel precisa de todos os amigos que puder ter”.

Theodore Herzl, pai do sionismo moderno, tinha um amigo e confidente: o pastor anglicano William Hechler. O líder evangélico foi o responsável por apresentá-lo à família real alemã e foi a porta de entrada para os tribunais europeus. Para ele, era vontade de Deus que o povo judeu retornasse a Ele através do retorno às Escrituras até que percebesse que esse Messias que vem em glória já veio em sofrimento e morte. Em 1896 escreveu: “Somente na terra de Israel o povo judeu novamente encontrará Deus e seus profetas, bem como viverá uma profunda nostalgia pelo Messias”. Quando encontrou Herzl, declarou-lhe: “Dr. Herzl, espero por você há quatro anos. Por quatro anos eu o anunciei a príncipes, estadistas e dignitários eclesiásticos que conheci. Eu preparei o caminho para você. A hora chegou e a sua ideia terá sucesso. Considere-me como a seu serviço, ao serviço da nossa causa!”. Para o jornalista judeu vienense Theodore Herzl, a figura “improvável” (palavras dele) do ministro de Deus chamou atenção. Foi no dia 15 de março de 1896 sua primeira visita àquele que se tornaria seu grande amigo e incentivador. As paredes do local estavam cobertas de livros, Bíblias e documentos até o teto. Havia um gráfico que percorria as eras desde Adão até o ano de 1897 – este estava grifado em vermelho. Hoje, o ano de 1897 é considerado o início do movimento Sionista, ano em que Herzl marcou o primeiro Congresso Sionista, passo fundamental para o estabelecimento do Estado de Israel. Em seu diário, Herzl revelou que Hechler via o movimento como profético, mas que ele permanecia racional e focado em suas ações. Quando desanimado, o amigo confortáva-o através de cartas repletas de amor e de esperança. Além disso, ficou impressionado em sua primeira visita àquele homem simples. Ele encontrou as tábuas da lei escritas. Herzl admirou-se de, naquele singelo lugar que era a moradia de um homem de Deus, não haver encontrado nada de precioso, nada que ressaltasse aos olhos, “nada além de Bíblias”.

Por, Sara Alice Cavalcanti.

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