Jeremias: um exemplo de resiliência

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Jeremias - um exemplo de resiliênciaA escolha soberana que o Senhor faz daqueles que Lhe servirão como profetas é um chamado ao martírio. Ao se revelar para Jeremias o comissionando para o exercício do ministério profético, e conhecendo as grandes pressões, ameaças e perseguições que geralmente culminam em martírio, o Senhor lhe dirige as seguintes palavras: “Não temas diante deles, porque eu sou contigo para te livrar, diz o Senhor” (Jeremias 1.8).

Desde o primeiro momento, é necessário entender que a ideia de livramento não implica necessariamente na ausência de sofrimento, principalmente quando confronto de poderosos e do povo está em vista. A posição de Jeremias naquele momento histórico seria de alguém levantado por Deus para ser contra as práticas abusivas do pecado (Jeremias 1.15-19)

Assim partiu Jeremias para a sua missão profética, com a palavra de encorajamento divino, mas com todos os temores e tremores humanos. Como o Senhor lhe mandara, ele convoca a todos ao arrependimento, e alerta quanto às consequências de se manterem rebelados contra Deus.

Não demorou muito para que o martírio de Jeremias fosse desejado e planejado por seus ouvintes, desta feita pelos homens de Anatote (Jeremias 11.18-19). Diante da real ameaça de martírio, o profeta clama a Deus por uma intervenção e livramento, no que é atendido (Jeremias 11.20-22).

Como predito pelo Senhor, até os sacerdotes se levantariam contra Jeremias. Quando profetizava no átrio da Casa do Senhor o juízo de Deus sobre a cidade, o sacerdote Pasur, filho de Imer, que ocupava o cargo de presidente da Casa, feriu a Jeremias e o colocou no cepo que estava na porta superior de Benjamim, na Casa do Senhor. Lá, Jeremias sofreu o martírio mediante a exposição vergonhosa e humilhante. No dia seguinte, quando retirado do cepo, longe de recuar em suas palavras, Jeremias não apenas reafirma o juízo de Deus, como declara a ruína do sacerdote Pasur e da sua casa, que culminaria com o cativeiro e a morte na Babilônia (Jeremias 20.3-6).

Diante da constante pressão, da possibilidade sempre presente do martírio, o profeta Jeremias, em sua plena humanidade, verbaliza e exterioriza os seus sentimentos e temores (Jeremias 20.7-10). A inconstância emocional é claramente percebida na fala de Jeremias, que em alguns momentos demonstra confiança, para logo em seguida amaldiçoar o próprio dia em que nasceu (Jeremias 20.11-18). A instabilidade emocional de Jeremias é o puro retrato de nossas instabilidades e oscilações de ânimo na realização da obra do Senhor, diante das dificuldades e das incompreensões que nela vivenciamos. Num momento estamos confiantes, firmes, exaltando e louvando a Deus, para logo em seguida cairmos em profunda angústia, desespero e crise depressiva.

Jeremias continua a sua missão profetizando contra a casa do rei de Judá (Jeremias 22.1-30), que era conivente com a idolatria, a injustiça, a violência e a opressão sofrida pelos estrangeiros, os órfãos e as viúvas. Os pastores que representam a liderança geral da nação (Jeremias 23.1-4), que dispersam as ovelhas do Senhor, e que não as apascentam, são também alertados. Os profetas de Jerusalém são denunciados e sofrerão também o juízo por cometerem adultérios, serem falsos e apoiarem os malfeitores (Jeremias 23.9-14). Os profetas são reprovados também por falarem de visões falsas e de ensinarem coisas vãs (v. 15-31).

No início do reinado de Jeoaquim, filho de Josias, rei de Judá (Jeremias 26.1), Jeremias foi orientado pelo Senhor a profetizar mais uma vez no átrio da Casa do Senhor (v. 2). Desta feita, a destruição da própria Casa seria anunciada, algo que para a liderança em Jerusalém, e para o povo em geral, além de inadmissível, soava a pura blasfêmia (v. 4-6). Mais uma vez, a possibilidade do martírio tornou-se muito real para Jeremias, mediante as ameaças e acusações por ele sofridas (Jeremias 26.7-11).

Diante da defesa de Jeremias (Jeremias 26.12-15), uma discussão sobre alguns casos semelhantes ao de Jeremias foi levantada. Dois casos foram citados, o do profeta Miqueias, o moratista, que profetizou nos dias de Ezequias, rei de Judá, e que não foi executado (v. 18-19), e o caso do profeta Urias, filho de Semaías, de Quiriate-Jearim, nos dias de Jeoaquim, onde neste caso o martírio se concretizou com a execução de Urias (v. 20-23). Ao final das discussões sobre Jeremias, a intervenção de Aicão, filho de Safá, lhe poupou da morte (v.24).

Outro episódio muito marcante em meio às dores, temores e tremores de Jeremias foi o do confronto com o profeta Hananias, que se levantou para se opor com uma falsa profecia (Jeremias 28.1-17). Apesar da superação, estes confrontos produzem um grande estresse na vida dos homens de Deus.

No ano quarto de Jeoquim, filho de Josias, rei de Judá, o Senhor orientou a Jeremias que escrevesse no rolo de um livro todas as palavras que lhe tinha falado sobre Israel, e sobre Judá, e sobre todas as nações, do início do seu ministério até aquela data (Jeremias 36.1-2). Seguindo todas as orientações dadas pelo Senhor, Jeremias chamou a Baruque, filho de Nerias, que escreveu as palavras ditadas pelo profeta, para em seguida lê-las na Casa do Senhor (v. 5-19).

Temerosos diante do que ouviram, os príncipes foram até ao rei, no átrio, depositando o rolo escrito por Baruque na câmara de Elisama, o escriba (v. 20). Ouvindo o que os príncipes lhe relataram, o rei enviou a Jeudi, para que trouxesse o rolo que estava na câmara de Elisama, o escriba, que foi lido para o rei e aos príncipes presentes (v. 21-22). Com a leitura de três ou quatro folhas, em vez de temer e se arrepender de seus pecados, Jeoaquim, mesmo sendo aconselhado por Elnatã, Delaías e Gemarias, com um canivete de escrivão cortou o rolo, para em seguida lançá-lo no fogo, onde foi totalmente consumido (v. 23-26). Achando pouco, o rei ainda deu ordem para que Baruque e Jeremias fossem presos, o que não aconteceu por intervenção divina (v.26). Jeremias sofria agora a dor da rejeição da palavra falada e escrita. Esse sofrimento de Jeremias, que escreveu sob a inspiração do Senhor, serve de exemplo e consolo para tantos outros mártires em potencial, que sofrem por aquilo que falam e escrevem na direção do Espírito. Longe de desistir da sua tarefa, Jeremias recebe ordens de Deus e pede que Baruque, filho de Nerias, o escrivão, escreva novamente, com alguns acréscimos, todas as palavras contidas no primeiro rolo (v. 27-32). Não há Jeoaquim algum, que mesmo rasgando, queimando, engavetando ou tratando com descaso os escritos de um profeta de Deus (revelação no caso da Escritura, e iluminação no caso da interpretação da Escritura), possa frustrar os planos do Senhor na vida deste.

Em pleno processo de cumprimento da Palavra do Senhor que veio a Jeremias, ainda houve acusações contra o profeta, que partiram de Jerias, um capitão da guarda, filho de Selemias, acusando-o de traição (Jeremias 37.11-13). Mesmo negando veementemente a acusação lhe feita, sob a ira dos príncipes Jeremias foi ferido e preso na casa de Jônatas, o escrivão, por muitos dias (v. 14-16). O rei Zedequias, desejoso e esperançoso de ouvir uma palavra que lhe agradasse, mandou soltar a Jeremias, que mesmo em sua condição humana, temendo a possibilidade do martírio em forma de execução, manteve-se firme e fiel naquilo que o Senhor lhe mandara falar (v. 17-20). Sua súplica é comovente (Jeremias 37.20). Em consequência disso, Jeremias foi posto no átrio da guarda, onde comia um bolo de pão por dia, até o tempo em que o pão da cidade se acabou (v. 21).

Cegos e obstinados em não dar ouvidos às palavras de Jeremias, os príncipes Sefatias, filho de Matã, Gedalias, filho de Pasur, Jucal, filho de Selemias, e Passur, filho de Malquias, pedem a morte do profeta (Jeremias 38.1-4) ao rei Zedequias, que enfraquecido moralmente e politicamente, o entrega nas mãos dos seus acusadores (v. 5), que em seguida o lançam no calabouço de Malquias, filho do rei, que estava no átrio da guarda; onde desceram Jeremias com cordas, atolando-o em lama. Era literalmente o fundo do poço naquele martírio (v. 6). Mas uma vez a providência divina em favor de Jeremias é manifesta, que através dos conselhos de Ebede-Meleque, um etíope, dados ao rei, livra Jeremias da morte (v. 7-13).

Levado mais uma vez diante de Zedequias, que insistia na possibilidade de uma mudança no quadro da cidade e da nação, e sob o juramento do rei de que não o mataria, Jeremias dá conselhos da parte do Senhor ao rei (v. 14-16). Seguindo as orientações do próprio rei, que lhe escutou as palavras, Jeremias obteve proteção até o dia em que Jerusalém foi tomada (v. 24-28). Diante de todas as tentativas de lhe tirarem a vida, Jeremias testemunhou a fidelidade de Deus, que conforme lhe falara, esteve com ele promovendo livramentos de morte, e confirmando a palavra que saia de sua boca sob a orientação do Senhor.

O sofrimento de Jeremias provocou marcas em seu corpo e em sua alma, pertinentes aos frágeis, mas sinceros servos do Altíssimo, que militaram, e que ainda militam em nome, e para a glória de Deus.

Por, Altair Germano.

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