Israel e os habitantes do deserto

Habitantes dos desertos do Oriente Médio e do norte da África, os beduínos têm seu nome derivado das palavras al bedu, habitantes das terras abertas, ou al beit, povo da tenda. Provavelmente surgiram na Antiguidade remota e habitavam o norte da África. Dispersaram-se após a expansão árabe do século . Na Arábia viveram seus grupos principais, sofrendo com conflitos pelos poços e pastagens. Cada grupo é composto por várias famílias, compondo uma tribo, ou hamula, sob a liderança de um xeque. Conforme a importância de seus ancestrais, dividem-se em mais ou menos nobres. Os grupos nobres criam camelos, sendo a presença desses animais um símbolo de status social e importância econômica. Em suas tendas, anteriormente tecidas em pelo de cabra, dedicam-se à conservação de suas tradições, à prática do islamismo e aos negócios.

A imagem do beduíno romantizado nas telas de cinema, no entanto, não condiz com a realidade dos povos dos caminhos áridos e semiáridos. A Primeira Guerra Mundial trouxe importante mudança ao modo de vida, pois o fortalecimento de governos locais e a delimitação de fronteiras nacionais dificultaram sua peregrinação. Foram alterando seu estilo de vida, tornando-se cada vez mais sedentários em todos os países pelos quais transitaram. Hoje são reconhecidos como povo seminômade. Sua territorialização aumentou a partir de 1950 e 1960. A Arábia Saudita e a Síria cedo nacionalizaram as terras usadas pelos beduínos, apesar de seu sistema de posse de terras ter sido reconhecido pelo Império Otomano (1299 – 1922) e pelo Mandato Britânico (1922 – 1948). De qualquer maneira, hoje discute-se a legitimidade de Israel repetir o procedimento.

Israel é um país cuja extensão territorial é de 20.770 km, politicamente organizado, possuindo uma população de cerca de 8.547.000 de habitantes; os idiomas oficiais são o hebraico e o árabe. Parte de sua população antecedeu a oficialização do Estado e a vida política vem sendo marcada por conflitos, disputa territorial e pela forte presença de imigração – a imigração em Israel é bem vista, uma vez que o fenômeno é constitutivo de sua sociedade. Trata-se, portanto, de um país multiétnico, de uma sociedade multicultural. Multiculturalismo, porém, também significa desafios e esforços de adaptação. Os beduínos são um entre uma grande multiplicidade de grupos e, para eles, a vida nas cidades trouxe problemas como a pobreza, a criminalidade e os conflitos com o governo. O impasse entre o estado nacional e o nomadismo beduíno não é original, e somente aspectos imperiosos fariam o governo local manter-se permanentemente em oposição a um grande número de ONGs e à mídia internacional, sobre o assunto em pauta. Se pudermos deixar um pouco de lado pressupostos como ‘expansão imperialista’, ‘limpeza étnica’ e, até mesmo, o romântico argumento de um possível apagamento de raízes ancestrais, considerada a vida nômade do patriarca Abraão, poderemos tentar chegar ao cerne desta investigação: afinal, o nomadismo beduíno em Israel é compatível com a segurança do estado nacional? Dito de outra maneira, um estilo de vida tradicional que não reconhece limites territoriais (ainda que reivindique milhares de hectares de terra), não se submete à autoridade local (diferentemente dos drusos, que estão sujeitos por tradição ao governo do país onde estiverem residindo), resiste à documentação, à escolarização de suas crianças e à chegada de recursos e infraestrutura pode afetar de alguma maneira a segurança de uma sociedade estatal já estabelecida? Afinal, é dever do Estado, ao mesmo tempo, zelar pelo bem-estar de seus integrantes e pela manutenção de sua própria existência, antecipando, corrigindo e descontinuando os comportamentos e ações que coloquem em risco tais objetivos. Em Israel, as tensões arrastam-se há anos.

Os beduínos representam um quarto da população do Neguev e o seu crescimento atinge a marca de 5,5 % ao ano. Cerca de 70 mil beduínos vivem nas regiões do centro e norte de Israel e diferenciam-se dos beduínos do Neguev política e historicamente. O número é sempre incerto, pois os censos esbarram no costume de beduíno de apenas relatar a quantidade de filhos e ignorar as filhas. Devido ao casamento entre tribos ser proibido, a consanguinidade resulta em múltiplos problemas genéticos, atingindo a taxa de 70% dos neo nascidos. Conselheiros procuram desestimular a prática, mas ela persiste para preservar o poder das tribos. O planejamento familiar é refutado. Já que o governo concede uma renda mensal para ajuda no sustento de cada criança que nasce, uma família beduína com dez filhos pode chegar a ganhar 650 dólares por mês, somente pela existência das crianças. As mulheres têm procurado o Centro Médico Soroka, em Beer-Sheva para os partos, chegando o número de beduínas a 60% do total de mulheres atendidas pelo hospital. Se portarem carteira de identidade (muitas não possuem registro), têm direito a uma bolsa de 250 dólares como auxílio maternidade. O resultado disso é que mulheres atravessam a fronteira e usam a identidade de outra mulher, israelense, obtendo atendimento médico de qualidade e recompensa financeira.

As mulheres são afetadas pelo fim do nomadismo. Quando se territorializam, novos desafios se abrem. A beduína Amal-el Sanna, cuja família chorou quando nasceu, pelo fato de ser mulher, venceu barreiras de proibição e estudou, alcançou a universidade, e fugiu de uma estatística avassaladora: “Onde quer que os beduínos vivam, nossa maior necessidade é a educação; 99% das mulheres com mais de 40 anos são analfabetas”. Em reuniões, associações de artesãs, centros de apoio, acampamentos para crianças e trabalhos que possam gerar renda, as mulheres beduínas ganham espaço, num movimento que é chamado de “a silenciosa revolução das mulheres”. São louváveis seus esforços, mas não podem prescindir da infraestrutura que lhes permita o acesso aos meios de transporte, às escolas, à segurança para que possam ficar firmes em sua decisão de estudar ou trabalhar sem que suas famílias tenham seus bens destruídos e sem que sua integridade esteja em risco. Há que se manifestar a ação do estado.

A situação da escolaridade entre os meninos, embora seja diferente, também não revela um quadro muito animador, pois mais da metade dos alunos abandona os estudos ainda no que seria o ensino fundamental. A identificação dos beduínos com o fundamentalismo islâmico é crescente e quase que metade dos adolescentes declara que Israel não tem direito de existir como nação. A atual situação distancia-se da cooperação beduína inicial ao Estado, com a inestimável ajuda que prestaram, pelo conhecimento que tinham do deserto e de suas trilhas. A cooperação foi marcadamente dos beduínos do Norte, que vivem na Galileia e no Vale de Jezreel, onde possuem propriedades, juntam-se em defesa de Israel e consideram o serviço militar uma tradição. Atualmente, no entanto, quando um soldado beduíno é morto em combate, a família costuma sofrer o distanciamento de outros beduínos, violência ou recusa de sepultamento.

Os representantes de grupos fundamentalistas participam dos conselhos municipais e hostilizam os jovens que tenham servido ao exército. Sem essa opção profissional, os jovens partem para a delinquência, aumentando o número de roubos, alcoolismo e drogas. A facilidade de deslocamento, tornou-se agente propiciador do ilícito. “Beduínos foram apanhados contrabandeando prostitutas, armas e narcóticos através das fronteiras com Cisjordânia, Gaza e Egito. (Há um ditado beduíno que diz: ‘Deus e o Estado existem até Beer–Sheeva, o deserto não conhece a lei’”. Grupos promovem manifestações contra a existência de Israel, erguendo bandeiras palestinas e do Hezbollah. Com o tráfico de drogas, mulheres e armas, jovens enriqueceram e desafiam às leis e à autoridade estabelecidas. Querer que o Estado se ausente da correção dos que promovem a desordem e prejudicam os cidadãos pacíficos, colocando em risco a própria segurança estatal é esquecer ou negar a identidade do estado nacional. O nomadismo beduíno tornou-se incompatível, irreconciliável com o moderno estado de Israel. Tornou-se dificuldade a ser vencida para que as injustiças sociais vividas pelos antigos habitantes do deserto sejam, também elas, derrotadas. Todo o peregrino anseia, em algum momento, pelo suprimento, pela segurança e por algum espaço para sonhar o futuro. O Estado, mesmo não sendo o oásis idealizado, pode oferecer algum refrigério.

(O presente artigo é uma compilação de trechos do trabalho Aoliabe – impasses entre o Estado e o nomadismo beduíno em terras israelenses, apresentado pela autora por ocasião do cumprimento do curso MBA em Relações Internacionais pela Fundação Getúlio Vargas, aqui apresentados pela presente pressão midiática contra Israel acerca do assunto).

Por, Sara Alice Cavalcanti.

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