Inverdades sobre Frida Vingren

Recentemente, a missionária sueca Frida Vingren, esposa de um dos fundadores da Assembleia de Deus no Brasil, Gunnar Vingren, foi mencionada de forma polêmica por uma conterrânea sua, a jornalista sueca Kajsa Norell, autora do livro Halleljua Brasilien!, lançado em 2011, que narra a história da fundação da Assembleia de Deus em terras tupiniquins. A sua versão da vida de Frida foi divulgada pela BBC Brasil e repercutida em vários sites de notícia no Brasil, como o G1, pertencente ao Grupo Globo, de modo que o mundo secular passou a conhecer Frida Vingren. Dentre outras informações, temos citações polêmicas, como a de que houve perseguição dela por parte de pastores e até mesmo um affair da missionária com um obreiro brasileiro. Mas tudo isso é verdade? A jornalista fez afirmações com base em provas documentais? Vamos examinar os fatos à luz de informações extraídas dos anais da Igreja Filadélfia de Estocolmo, na capital sueca.

Pelo fato de a missionária ser uma celebridade, há diversas informações em torno de suas atividades, mas algumas delas não podem ser confirmadas, porque é preciso analisar de forma científica todas essas informações, ou seja, analisá-las levando em conta fatos, as fontes – que podem ser primárias e secundárias – e as narrativas.

A nossa personagem acabou sendo assunto da primeira Convenção Geral das Assembleias de Deus realizada em Natal (RN), realizada em 1930. É que os pastores reuniram-se a fim de debater, dentre outros assuntos, a questão da ordenação de mulheres ao pastorado. Os pioneiros Gunnar Vingren, marido de Frida, e Samuel Nyströn defenderam suas ideias, com Vingren a favor e Nyström contra. Os argumentos do segundo venceu o debate.

Frida Vingren era enfermeira e teóloga formada na tradicional Escola Bíblica de verão realizada na Suécia. De acordo como próprio Vingren, uma profecia da parte de Deus vaticinara que o seu casamento seria com uma jovem sueca com sobrenome Strandberg, e a profecia cumpriu-se ao conhecer Frida Maria Strandberg (nome de solteira de Frida) ao viajar para Suécia logo depois de ter iniciado a obra no Brasil. O namoro entre os dois não demorou mais que dois anos. Frida Vingren era uma mulher com vocação missionária, de modo que houve uma afinidade entre ambos ao se conhecerem. Eles casaram-se em 16 de outubro de 1917, em Belém (PA), coma cerimônia celebrada por Samuel Nyström. Mas, antes de ser enviada ao Brasil, Frida participou do culto de despedida na Igreja Filadélfia de Estocolmo, na Suécia. Pude ter acesso ao conteúdo do jornal Evangelii Härold, edição 22, do dia 31 de maio de 1917, no qual foi publicada a ordenação dela como uma bibelkvinna (antiga palavra sueca para designar uma mulher que exercia o ministério de ensinadora da Palavra de Deus nas igrejas). Não temos como entrar em detalhes sobre como se desenvolvia a atividade feminina no movimento pentecostal na Suécia, porém, resumindo, podemos dizer que este título era delegado às mulheres que demonstravam conhecimento bíblico e capacidade para ensinar. Ela foi ordenada a fim de atuar no Brasil.

Naqueles tempos, ambos os sexos participavam da Escola Bíblica na Suécia. O curso estendia-se em torno de dois a três meses com as mulheres podendo ser ordenadas a evangelistas, a missionárias. Após o curso, as formadas poderiam ser deslocadas para uma determinada região e abrir um trabalho evangelístico, mas quem assumia o púlpito era um pregador do Evangelho, ou seja, um homem. Ademais, as próprias esposas dos missionários também frequentaram a Escola Bíblica, e a maioria foi consagrada a evangelista. Essas informações têm base nos históricos e reportagens dos periódicos da igreja sueca.

Frida sempre será lembrada como ensinadora, evangelista, musicista, compositora, redatora, poetisa, esposa, mãe e uma eficaz auxiliadora da obra de Deus, porém nunca como alguém que empunhava uma bandeira de militância ao engajamento feminino ao pastorado.

Ao longo de sua trajetória, a missionária jamais escreveu sobre – ou estimulou as demais missionárias ou mesmo mulheres nativas a – trabalharem para tornarem-se pastoras. Ao contrário, ela conclamava as mulheres apenas a serem atuantes na Seara do Mestre, inclusive existem artigos de sua autoria que trazem essa proclamação. É absolutamente indevido usar a figura de Frida para uma causa pela qual ela, até onde se sabe, não lutou.

Quanto aos momentos finais de sua vida, há momentos realmente tristes. A família instalada em Estocolmo, Suécia, sofre a perda de seu patriarca: o veterano missionário Gunnar Vingren morre no dia 29 de junho de 1933, devido ao enfraquecimento do organismo pela ação das doenças tropicais e malária. Frida também contraíra a doença enquanto esteve atuante junto aos nacionais em terras brasileiras.

A missionária contraíra a doença por duas vezes permanecendo 100 dias enferma, como agravante de que os hospitais da Suécia não reuniam informações acerca das doenças tropicais, por total desconhecimento. É verdade que os hospitais onde Frida acabou sendo internada também funcionavam como sanatórios, mas o conceito de “sanatório” não era o de “hospício”, lugar onde os loucos ficam internados, que fique bem claro.

Quanto à manutenção da viúva e dos órfãos, a Igreja Filadélfia em Estocolmo era uma das maiores da Europa, com 100 funcionários inscritos, mantenedora de alojamentos e hotéis. Antes de seu passamento, Gunnar Vingren foi deslocado para um desses locais de repouso para ficar aos cuidados da igreja sueca. Como seu passamento, a família não ficou desamparada: a igreja sueca estava preparada a fim de cuidar da viúva e dos filhos.

Mas é verdade que Frida acalentava o desejo de voltar ao Brasil? É verdade, mas ela encontrou resistência na pessoa do líder da igreja sueca, pastor Lewi Pethrus, que pontuou as causas de sua negativa: Frida estava viúva e os cinco filhos do casal precisavam de sua total atenção, e estamos falando também de crianças pequenas. O primogênito, Ivar Vingren, já estava no Exército, e um dos meninos, Rubens, teve o seu ensino mantido por uma família. Porém, quanto aos demais, permaneciam em um orfanato da igreja. A ajuda dispensada à família Vingren não foi por causa da pobreza que bateu à porta da casa deles, mas pela responsabilidade da igreja em sustentar as famílias de seus missionários.

A descrição de Kajsa Norell dá conta de um episódio no qual a missionária acabou sendo detida com camisa de força e que não estaria totalmente de posse de suas faculdades mentais. O que aconteceu foi que os pastores suecos contribuíram com a divulgação dessa informação equivocada. A filha de Frida, Margit (inmemorian), explicou para mim que em um desses insistentes pedidos de voltar ao Brasil, Frida tentou ir, mas encontrou resistência pelos motivos acima pontuados por Lewi Pethrus e depois foi encaminhada ao hospital vestindo camisa-de-força, sim, mas não foi diagnosticada nem internada como louca. Não há nenhum documento que comprove insanidade mental.

E quanto aos rumores de que ela teria tido um affair com um obreiro brasileiro, trata-se apenas de boato. A própria Norell reconhece em depoimento à BBC que não há como provar isso, que é opinião dela apenas. No Rio de Janeiro, quando Gunnar estava enfermo, Frida dirigia a igreja, sendo auxiliada por um obreiro, e porque ambos trabalhavam juntos na Seara do Mestre, esse fator serviu de combustível para a formulação de comentários maliciosos. Quando vamos às fontes da jornalista, ela afirma que a história circulou através de cartas de pessoas que espalhavam boatos, e a própria não consegue afirmar com segurança pela inconsistência do conteúdo, isto porque não há comprovação. Então, levanto a seguinte pergunta: Com que objetivo alguém força essa conclusão? Não desejamos esconder o passado, mas daí a partir para especulações infundadas e maliciosas não é possível.

Por, Isael de Araujo.

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