Igrejas na Venezuela sofrem com crise e pedem clamor pela sua nação

Até as igrejas venezuelanas foram impedidas de oferecer ajuda humanitária à população; entenda como o país vizinho chegou a essa terrível crise

A crise na Venezuela é uma das maiores tragédias do século 21. Há dez anos, o país sofre gravemente com escassez crescente de alimentos, remédios e demais itens básicos, de maneira que, segundo dados de entidades internacionais de direitos humanos, hoje cerca de 70% das crianças venezuelanas com menos de 5 anos de idade estão desnutridas; cerca de 75% dos adultos do país perderam, só no ano de 2018, em média, 8,5 quilos devido à fome, o que tem sido chamado pela população de “Dieta Maduro”; e mais de 800 mil venezuelanos abandonaram o país desde 2014, com muitos deles fugindo para o Brasil via fronteira com Roraima.

Dentre os que ficaram no país, há gente comendo lixo, cães, gatos, pombos e até animais de zoológico para tentar sobreviver (há dezenas de vídeos na internet mostrando isso, feitos pela população comum e por jornalistas), e muitos, mesmo assim, não conseguem sobreviver, ficando doentes e morrendo nos hospitais aos milhares. Recentemente, centenas de bebês morreram em hospitais depois de um blackout no país que durou do dia 7 de março à madrugada do dia 10 de março. Só na UTI Neonatal do Hospital Universitário de Maracaibo, 80 bebês morreram nesses três dias devido ao apagão. Há imagens de vídeo de uma mãe que, durante o apagão, ficou horas intermináveis na fila de um hospital com sua filha de 19 anos gravemente enferma, mas ela não conseguiu ser atendida devido à falta de medicamentos e de energia elétrica, e acabou morrendo ali, e a mãe ainda teve que levar a filha nos seus braços para o necrotério de Valência, no estado de Carabobo, porque não havia condução. São cenas aterradoras.

Em apenas cinco anos, a crise fez desaparecer 44% da economia venezuelana e, em 2018, o país registrou a maior queda do PIB em todo o mundo. A inflação passou a ser hiperinflação no ano passado e o FMI estima que ela chegará a 10.000.000% no final deste ano.

Diante dessa situação, em vez de reconhecer o caos, o ditador Nicolás Maduro tresloucadamente nega a crise. Em fevereiro, a sandice de Maduro chegou ao seu ápice, quando o ditador mandou impedir a entrada de caminhões da Colômbia e do Brasil com alimentos e medicamentos para a população venezuelana. Como os noticiários denunciaram, alguns desses caminhões chegaram a ser queimados pelos agentes do regime e alguns opositores do ditador que tentavam liberar a entrada dos caminhões ou fugir do país foram mortos em confronto na fronteira, o que chocou o mundo.

As ditaduras de Cuba, Rússia e China estão entre os pouquíssimos apoiadores de Maduro. Até o fechamento desta edição, mais de 80 países já haviam se manifestado contra o regime e a favor de eleições novas e limpas, sob a égide do legítimo presidente interino (pela própria Constituição do país) Juan Guaidó, líder do parlamento venezuelano (Lembrando que Maduro criou um parlamento paralelo ilegítimo para chancelar sua recondução ao cargo e refazer a Constituição – veja mais detalhes no final desta matéria).

Igrejas impedidas de ajudar humanitariamente

Mas, antes mesmo dessa tentativa frustrada de Brasil e Colômbia de fazer entrar ajuda humanitária no país vizinho, as próprias igrejas evangélicas e católicas da Venezuela haviam sido impedidas pelo ditador, no final do ano passado, de ajudar seu próprio povo. Pastores chegaram a ser presos em outubro do ano passado ao tentarem distribuir artigos de necessidade básica à população. Foi o caso do pastor Marcelo Coronel, da Igreja Rey de Paz, na cidade de Mérida, e de alguns membros de sua equipe ministerial, presos pela entrega de alimentos e medicamentos que receberam como doação. Até uma médica evangélica foi presa quando fazia atendimentos e ministrava remédios aos necessitados.

Em fevereiro, a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid) anunciou que estava trabalhando para mandar ajuda humanitária à Venezuela, porém Maduro recusou o apoio. Entre os católicos, a organização católica Cáritas, do Chile, enviou medicamentos ao país ano passado para ajudar a população, mas todos foram confiscados pelo governo. Enquanto isso, as igrejas evangélicas e católicas estão cada vez mais vazias, porque devido à redução drástica de água, energia elétrica e de transporte coletivo em todo o país imposta pelo governo, as pessoas estão encontrando dificuldade de ir para a igreja e a frequência aos cultos tem diminuído.

Segundo o governo venezuelano, há hoje 15.017 templos evangélicos no país e 247 templos católicos, não obstante a maioria da população do país se declarar católica.

Desde o ano passado, em carta aberta, líderes de igrejas evangélicas do país pedem ajuda aos cristãos de todo o mundo para que orem pela Venezuela. No documento, os pastores criticam diretamente o governo, inclusive comparando Maduro a Adolf Hitler. A carta é assinada pelos pastores Moisés Betancourt, Jesús Pinto, Carlos Vielma e Elías Hernández.

O documento foi publicado na página “Cristianos por Venezuela”, no Facebook. O texto ganhou imediatamente grande repercussão na mídia de países de língua espanhola.

“Nós, pastores cristãos, pela graça de Deus, em Caracas, pedimos aos conservos em todo o mundo que sejam nossa voz diante do Pai e diante deste mundo. O que está acontecendo nessa nação não tem precedentes históricos. Na Era Moderna, apenas Adolf Hitler demonstrou tamanha crueldade”, diz o documento, que esquece, por exemplo, dos demais regimes comunistas da história, em que tal crueldade também pode ser vista.

No texto, os pastores listam uma série de problemas que a população venezuelana tem vivenciado, com destaque para a fome. “É muito doloroso observar com impotência a morte contínua e constante de seres humanos. Parte nosso coração e tentamos fazer todo o possível para ajudar a todos. Essas mortes ocorrem principalmente por causa da escassez de alimentos. Estamos em um país onde inúmeras pessoas morrem de fome, principalmente crianças. É doloroso ver as pessoas procurando nas lixeiras algo para comer! Esse nunca foi o desejo de nosso Senhor!”, denunciam os pastores.

Outro destaque no documento é a denúncia sobre os problemas de saúde. De acordo com os líderes, várias pessoas já morreram por falta de medicamentos, o que é agravado pela situação econômica do país, que se afunda cada vez mais: “É impossível para qualquer ser humano viver sob essa inflação desproporcional. Os preços podem subir até 50% no mesmo dia, isso se você conseguir achar o produto”.

O documento denuncia ainda o desaparecimento e a execução de pessoas dissidentes, com destaque para o caso o militar dissidente Oscar Pérez, que foi executado com um grupo de pessoas no ano passado. Convictos de que se tratou de uma execução clara, os pastores disseram que decidiram se manifestar sobre o fato mesmo sabendo que passam a correr risco de vida por assinarem o documento.

Embora não exista uma perseguição declarada aos evangélicos na Venezuela, eles dizem que há pastores sendo ameaçados. “Estamos fazendo isso porque nosso Senhor nos deu o exemplo em Jesus Cristo, que estava disposto a morrer na cruz para resgatar a vida dos outros. Nós acreditamos firmemente que o Senhor está no controle. Embora não tenhamos ideia de qual será o impacto desta carta, estamos convencidos de que nossas vidas e esta nação pertencem ao Senhor Jesus Cristo”, afirmam os líderes no documento. Os pastores encerram a carta pedindo que sua mensagem seja divulgada para que o mundo saiba o que ocorre na Venezuela e clamam pela intercessão dos cristãos de todo o mundo em favor de seu país.

No final de janeiro deste ano, em uma mensagem de vídeo compartilhada nas mídias sociais, o pastor Samuel Olson, presidente do Conselho Evangélico da Venezuela, convidou a nação inteira a orar. “Juntos como uma família, pediremos a Deus que, através do Seu Espírito Santo, cuide, dirija e abençoe nossa nação nesta hora crítica de sua história”, disse. Orações pela democracia e por um futuro melhor têm sido feitas pelos evangélicos em reuniões públicas.

Enquanto isso, os pastores da União Confederativa de Igrejas Cristãs da Venezuela foram mais enfáticos em uma declaração pública reconhecendo o presidente do Parlamento e líder da oposição Juan Guaidó como o novo chefe do país “chamado a conduzir a nação neste período de transição”. Eles também pediram pelo “fim da usurpação da presidência da República” e ainda que seja levantado “um governo urgente de transição e eleições livres no contexto de um grande acordo nacional”.

Como a Venezuela chegou a essa situação

Muitos se perguntam: como a Venezuela conseguiu chegar a uma crise tão profunda como a atual? Para entender como isso aconteceu, é preciso remontar à história daquele país desde os anos 50 até hoje.

A última ditadura na Venezuela teve fim em 1958, comandada pelo general Marco Pérez Jiménez (1952 – 1958). O regime se assemelhava mais ao de Getúlio Vargas no Brasil (1930 -1945) e ao de Juan Domingo Perón na Argentina (1946 -1955) do que às ditaduras militares anticomunistas que surgiriam nos demais países da América Latina nos anos 60 em diante, em resposta aos movimentos políticos internos de esquerda desses países que, com apoio de guerrilhas, tentavam reproduzir a Revolução Cubana nessas nações. General Jimenez caiu depois de tentar continuar no poder através de um plebiscito fraudulento. Após sua queda, líderes políticos venezuelanos firmaram um pacto de estabilidade.

Nessa época, a Venezuela contava com a quarta maior renda per capita do mundo, devido à descoberta de petróleo no país desde o início do século 20, o qual foi explorado livremente desde 1914 até o final dos anos 50. No referido pacto político de 1958, porém, foram estabelecidas a estatização gradual do setor petroleiro, além da realização de grandes obras públicas e da implementação de políticas governamentais de bem-estar social, medidas que geraram um aumento crescente do tamanho do estado e dos gastos públicos nas décadas seguintes.

Enquanto isso, começavam a surgir, inspiradas na revolução cubana, grupos guerrilheiros de esquerda no país, como as Forças Armadas de Libertação Nacional (FALN), criadas em 1962 pelo Partido Comunista da Venezuela (PCV). Em 1969, objetivando a legalização do Partido Comunista no país, os membros das FALN negociaram o abandono das armas para entrar na vida política. Nesse período, muitos ex-guerrilheiros ou simpatizantes das FALN entrariam nas Forças Armadas venezuelanas, criando um novo movimento lá dentro, chamado “Terceiro Caminho” – a esquerda dentro do exército venezuelano.

Um dos nomes ligados ao movimento pró-guerrilha que passaram para a vida política após o fim das FALN foi Adán Chávez, o qual é membro do Partido Socialista Unido da Venezuela e irmão mais velho e mentor ideológico de Hugo Chávez. Adán não seguiu carreira militar, mas seu irmão Hugo seguiu, e sem abandonar seu compromisso com a ideologia socialista. Tanto que, em 5 de julho de 1975, como o próprio Hugo Chávez contava orgulhosamente, ele foi promovido a subtenente com “um fuzil em uma mão e um livro de Che Guevara debaixo do braço”. E ao relembrar esse episódio, Chávez ainda completava: “Eu já saí convertido em um soldado rebelde”. Realmente, pois onze anos depois, em 1986, ele criaria seu próprio movimento político revolucionário ainda como militar: o MRB-200 (Movimento Revolucionário Bolivariano 200).

Nos anos 80, a Venezuela já havia estatizado totalmente sua indústria de petróleo, de maneira que a queda do preço do petróleo ocorrida naquela década em todo o mundo acabou afetando fortemente a economia do país pela primeira vez. Logo, em 1989, a situação da economia se tornou insustentável, ao ponto de o então presidente venezuelano Carlos Andrés Pérez ser forçado a tomar medidas austeras para tentar estabilizar o país, dentre elas um profundo corte nos gastos públicos. Os extremistas de esquerda do país não aceitaram e começaram um protesto contra o governo, o chamado “Caracazo”, liderados pelos movimentos Terceiro Caminho e MRB-200, de Chávez. Houve confronto nas ruas, ônibus queimados e depredação do patrimônio público. O exército foi chamado pelo governo para pôr fim ao caos.

Em fevereiro de 1992, com o apoio da ala esquerdista do exército, Chávez liderou um golpe militar para deposição do governo, mas o movimento fracassou e ele acabou preso. Após dois anos, saiu da cadeia e ingressou no movimento internacionalista latino-americano Foro de São Paulo, fundado e liderado por Luiz Inácio Lula da Silva, líder do PT, e Fidel Castro, ditador de Cuba. Hugo Chávez aderiu às estratégias do Foro e, em 1997, criou o Movimento 5ª República (MVR), uma aliança entre partidos de esquerda no país para lhe dar suporte para disputar as eleições presidenciais. No ano seguinte, devido à perda de credibilidade da classe política no país naquela época, Chávez foi eleito com 56% dos votos.

Nas eleições, ele disse que não ficaria no poder mais de um mandato e que seu governo seria de respeito total à democracia, mas já falava em fazer uma profunda reforma constitucional. Inclusive, em seu juramento de posse, chamou a Constituição do seu país de “moribunda constituição” e anunciou que a mudaria em seu governo. Com 70% de apoio em referendo, ele convocou uma assembleia geral constituinte dominada por seus partidários, os quais, em 1999, em apenas 100 dias, redigiram a nova carta, na qual o país passava a se chamar República Bolivariana da Venezuela. Na reforma, ele acabou com o sistema bicameral (Câmara e Senado), passando a haver apenas uma casa legislativa.

Em 2002, após Chávez ser reeleito de forma apertada, grande parte da população, insatisfeita com as mudanças na Constituição, se revoltou e houve confronto nas ruas entre apoiadores e opositores de Chávez. Militares contrários ao presidente, vendo que o país caminhava para uma ditadura e instabilidade, tentaram depor Chávez do poder, mas o golpe falhou, fortalecendo a narrativa dos apoiadores do regime, que se intitularam os verdadeiros democratas.

Chávez, então, radicalizou, levando o país à ditadura de fato: fechou canais de televisão, prendeu opositores, demitiu milhares de funcionários da PDVSA por realizarem greve e ampliou a Suprema Corte venezuelana de 20 membros para 32, sendo estes 12 fiéis apoiadores escolhidos a dedo por ele. E em 2004, com a criação da empresa Smartmatic, para garantir que não perderia as próximas eleições, passou a usar os serviços suspeitos dessa empresa, fraudando o resultado das eleições com urnas eletrônicas manipuláveis, segundo denúncias de opositores e de entidades internacionais. Assim, em 2006, Chávez foi reeleito com 63% dos votos e anunciou a criação do “socialismo do século 21”. Nesse período, ele criou uma milícia com dezenas de milhares de soldados cubanos trazidos para o país e colocados dentro das Forças Armadas Venezuelanas, depôs e prendeu opositores entre os militares, multiplicou o número de generais e passou a sustentar com altos salários os generais apoiadores do regime.

Enquanto isso, a crise econômica na Venezuela, que já havia recomeçado anos antes, se agravou desde 2007, chegando ao ponto de começar a faltar itens essenciais para a população nos supermercados. Em consequência, protestos de rua cresceram no país, mas todos foram respondidos com violência pelo governo. Pouco tempo depois, Chávez, que havia ido tratar sua saúde em Cuba, morre de câncer em 2013 e seu fiel vice, Nicolás Maduro, assume o poder em eleição apertada naquele ano (50,6% dos votos, com denúncia de fraude nas eleições de novo). A grande massa da oposição, que havia tolamente se omitido dos pleitos nos últimos anos, frustrada e desiludida desde a fraude nas eleições de 2006, resolveu renovar suas esperanças em 2013, indo às urnas novamente empeso após 7 anos. E mesmo após a vitória fraudulenta de Maduro, não desiste e vai às urnas novamente motivada em 2015, ganhando a maioria dos assentos nas eleições legislativas daquele ano. Assustado, Maduro reage, convocando, sem referendo, nova assembleia constituinte. A assembleia convocada, que é obviamente totalmente pró-Maduro, passa a funcionar paralelamente ao parlamento oficial, tentando deslegitimar todas as decisões do parlamento oficial.

Em meio a essa crise institucional, o governo realiza novas eleições, convocadas pela assembleia ilegítima, não aprovadas pelo parlamento oficial e, consequentemente, com alta abstenção. Considerado fraudulento por Brasil, União Europeia e EUA, o pleito ilegal dá, obviamente, a vitória a Maduro (67% dos votos). Entretanto, devido à sua ilegalidade, o parlamento oficial não aceitou a posse de Maduro e o presidente da Suprema Corte, que a considerou ilegal também, fugiu do país para não ser preso. O presidente do parlamento, Juan Guaidó, chegou a ser preso, mas, por pressões internacionais, foi solto.

Pouco tempo depois de solto, invocando a Constituição do país, Guaidó se declarou, como presidente da casa legislativa, novo presidente interino da Venezuela, responsável por convocar novas eleições ainda este ano, estas legítimas. Ele teve apoio da maioria esmagadora dos países da América Latina, dentre eles o Brasil, além dos EUA e da União Europeia. Ao todo, mais de 80 países o apoiam até agora.

O impasse foi criado. E, paralelamente a tudo isso, tem havido, desde 2007, um agravamento progressivo dos problemas econômicos, com crise de desabastecimento e alto índice de desemprego e de criminalidade, levando a um êxodo constante da população nos últimos cinco anos. Assim, a Venezuela chegou ao caos em que está. Oremos por nossos irmãos venezuelanos.

image_printImprimir

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Google Translate »