Houve sacrifício humano no voto de Jefté?

“Se Deus é contra o sacrifício humano, como entender o voto feito por Jefté em Juízes 11?”

Houve sacrifício humano no voto de JeftéNo caso do sacrifício de Isaque, Deus não o permitiu; tratava-se apenas de uma prova e um tipo que representaria o Seu Filho mais adiante no projeto de salvação. Já no caso de Jefté, Deus não pediu nada. Foi um voto pessoal que o nobre escritor Antonio Neves de Mesquita chama corretamente de “voto louco”. Por outro lado, note a expressão: “…assim ela jamais foi possuída por varão…” (Juízes 11.39). Não há indicação precisa de sacrifício humano, no caso morte, mas de castidade até a morte física, no caso do voto.

Em Juízes 11.31 temos o seguinte registro: “Qualquer que, saindo da porta da minha casa, me vier ao encontro, quando eu, vitorioso, voltar dos amonitas, esse será do Senhor; eu o oferecerei (ofertarei) em holocausto (oferta)”. Verbo ‘alah significa “subir”, “escalar”, “ofertar”, “sacrificar”, “ser oferecido”. O termo derivado ‘ola (este é o derivado que está em questão no texto) quer dizer “holocausto” ou “oferta”. O ‘ola era oferecido por diversos motivos específicos. E, ao que parece, o ‘ola de Jfté foi um caso diferente.

Um voto feito na pressão de uma situação deveria ser cumprido. Alguns interpretam essa passagem como se ele tivesse “consagrado” sua filha em um voto (oferta) perpétuo de dedicação de sua virgindade a servir ao Senhor e, com isso, extinguiu a sua descendência. Outros sustentam que ela foi oferecida num sacrifício humano. Nesse caso, não cremos que Jefté aceitou isso, nem o próprio Israel, pois desde os dias do “Pai Abraão” se conhecia que Deus não aceitava sacrifícios humanos. Portanto, esse não seria um voto válido para Deus, mas uma ofensa e abominação diante do Senhor, que condenou esse tipo de sacrifício (Levíticos 18.21). Jefté conhecia esta Mitsivot (mandamento).

A sua filha permitiu-se um período de dois meses para se lamentar, não pela sua morte, mas pela sua virgindade. “Disse mais a seu pai: Concede-me somente isto: deixa-me por dois meses para que eu vá, e desça pelos montes, chorando a minha virgindade, com as minhas companheiras” (v. 37). O versículo 39 diz: “E sucedeu que, ao fim dos dois meses, tornou ela para seu pai, o qual cumpriu nela o voto que tinha feito; e ela não tinha conhecido varão. Daí veio o costume em Israel”. Ambos, o pai e a filha, choraram a sua virgindade. Portanto, fica muito difícil de acreditar, mediante os fatos contidos na história e no próprio texto, que houve um sacrifício humano.

É improvável e contrário as tradições dos hebreus afirmar que, afinal, Jefté sacrificou sua filha, por causa da legislação proibir sacrifícios humanos. Havia uma flagrante proibição contra os sacrifícios humanos dentro do código mosaico. Portanto, mesmo que o seu voto tenha sido referência a um holocausto, e não a uma oferta genérica, ao ver que seria um sacrifício humano, o que Deus não aceita, tudo indica que o voto de sacrifício foi convertido no sacrifício da virgindade da moça. Daí por diante se tornou costume de ano em ano as moças saírem em romaria, por quatro dias, em memória a filha de Jefté. É esse um modo plausível de se interpretar o texto. O voto de Jefté é um exemplo de voto imprudente. Deus não aceita o sacrifício humano.

Por, Germano Soares Silva.

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2 Responses to Houve sacrifício humano no voto de Jefté?

  1. Elisabete disse:

    Bom dia, na verdade o voto de Jefte não sacrificou sua filha, mas ela permaneceu virgem para o Senhor. O voto foi Oferecer/Ofertar (é igual o mesmo que Ana fez com Samuel), então se Jefte tivesse visto primeiro alguém do sexo masculino, este teria que obedecer e se tornaria um Nazireu (do hebraico nazir נזיר da raiz nazar נזר “consagrado”, “separado”), dentro da Torá é o termo que designa uma pessoa que faz um voto de estar a serviço de Deus por um tempo determinado ou por toda a vida). Primeiro Deus não aceitava sacrifício humano, segundo porque Deus só aceitava sacrifício de primogênitos machos (então, mesmo que Deus tivesse aceitado Isac, não aceitaria a filha de Jefte). O fato da filha de Jefte querer uma festa de três dias para ela e suas amigas, com direito a “vestido de noiva”, se deve que ela pediu a festa de casamento para o pai (algo que toda jovem sonha e sonhava), o pai deu a ela a festa de casamento e ela celebrou com suas amigas, depois disso, ela obedeceu o voto do seu pai e entregou sua virgindade a Deus, não se casando. De ano em ano, ela se reunia com suas amigas para “chorar”, pois por obediência ao pai ela não realizaria seu sonho e suas amigas lamentavam com ela. O fato de Jefte ter ficado muito triste pode se dar ao fato que ele sabia do sonho da filha ou que ela já gostava de alguém com planos de casamento. Que foi interrompido pelo voto do seu pai. Nunca foi intenção de Jefte matar uma pessoa e oferecer para Deus.

  2. Roberto disse:

    Excelente artigo

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