Governo quer banir História do Cristianismo

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Governo quer banir História do CristianismoNo início deste ano circulou pela Internet a notícia de que o Governo Federal estaria arquitetando um plano para banir do currículo escolar do país a história do Cristianismo. O alerta teria partido do professor e historiador Marco Antônio Villa, em sua coluna no jornal ´O Globo´.

Mas, ao ler o artigo “A revolução cultural do PT” percebi que Villa chamava a atenção para uma certa “Base Nacional Comum Curricular” (BNC), um plano do Ministério da Educação que pretende reformular a matriz educacional do país. De acordo com o historiador, o documento está recheado de equívocos e de desconhecimento da História. Isso porque, só para ficar em alguns exemplos do ensino médio, o novo currículo não contempla o ensino da História Antiga englobando-se aí estudo da Mesopotâmia, Egito, cultura grega, Império Romano e, é claro, o nascimento do Cristianismo. A História Medieval também foi desprezada, desconsiderando-se a expansão do Cristianismo e seus reflexos na cultura ocidental; as transformações econômico-políticas, especialmente a partir do século XI.

A afirmação de que governo estaria idealizando um plano para banir a história do Cristianismo do currículo escolar nacional, portanto, não representa completamente a realidade dos fatos. Para sermos exatos, tal banimento ocorre com o a consequência lógica da desconstrução de grande parte da História mundial, principalmente do Ocidente, mediante a retirada de certos períodos da humanidade do ensino escolar básico. A História do pensamento cristão é afetada certamente, assim como os relatos do mundo greco-romano e as grandes revoluções mundiais.

Seja como for, a notícia evoca certa preocupação e nos conclama a refletir sobre as implicações práticas desse novo programa curricular. Afinal, longe de representar uma mera direção pedagógica do Ministério da Educação, a escolha do conteúdo fundamental para a formação básica dos estudantes se fundamenta em certas inspirações ideológicas, que influenciam a forma de pensar e a visão de mundo das pessoas. O currículo, segundo afirma o material de divulgação do governo, “precisa preparar os alunos para a vida”1.

Considerando que o ser humano é influenciado em grande medida por aquilo que aprende, somos impelidos a perceber que há muita coisa em jogo nesta proposta do governo federal, com impacto significativo a longo prazo.

Desenvolvida por determinação do Plano Nacional de Educação (PNE) a proposta da BNC – ainda em fase de consulta pública até 15 de março – prevê quatro áreas de conhecimento: Matemática, Linguagens, Ciências da Natureza e Humanas; sendo esta última a que mais inspira críticas e preocupação, onde está alocada a História.

A compreensão da História é importante porque, como escreveu Michael D. Palmer, “toda importante teoria de fundo do universo também afirma ou implica algo sobre a história em sua ideologia”2. Enquanto os cristãos, por exemplo, olham para o passado da humanidade e o desenvolvimento histórico à luz do propósito divino, os naturalistas afirmam uma visão cegamente mecânica, como produto dos seres humanos interagindo entre si e com as forças naturais impessoais3.

Desse modo, a própria metodologia empregada para o ensino dessa disciplina direciona o modo como os alunos podem compreender boa parte da dimensão da vida e da construção dos valores. Por isso, quando usada de forma negativa, a História pode servir como ferramenta de doutrinação ideológica, dominação e ocultação da verdade. Regimes totalitaristas são pródigos em tentar desconstruir o passado e recontá-lo de acordo com sua conveniência. O livro “1984” do escritor George Orwell demonstra isso de modo brilhante. Nesta obra de ficção, a autoridade máxima (o Partido) fazia de tudo para alterar a realidade do passado, apagando e reescrevendo, inclusive, o conteúdo dos livros históricos.

De volta ao currículo, percebe-se que a proposta apresenta uma metodologia pedagógica multiculturalista, que pretende levar o aluno a conhecer a história a partir da realidade sociocultural brasileira. O novo currículo abandona a estrutura clássica da história baseada no esquema temporal (Antiguidade, Idade Média, Idade Moderna, Idade Contemporânea), colocando em seu lugar um método baseado nos diferentes “mundos”: Mundos brasileiros; Mundos ameríndios, africanos e afro-brasileiros; Mundos americanos e; Mundos europeus e asiáticos.

Além de retirar a perspectiva cronológica do desenvolvimento da humanidade, criando uma História sem tempo4, a nova metodologia materializa a aversão ao chamado eurocentrismo (a Europa como o centro), e tudo o que isso representa, especialmente as grandes navegações e as conquistas da Europa cristã. E assim, contra essa visão “imperialista e conquistadora”, como costumam rotular, apresenta-se um ensino baseado nos diferentes “mundos” e diferentes culturas.

Embora a crítica ao eurocentrismo não seja de todo equivocada, a desconstrução do modelo clássico, na forma proposta, é perigosa, pois desconsidera as importantes contribuições do Cristianismo no percurso das civilizações. Demétrio Magnóli observou que: “Sem a Idade Média europeia, [os alunos] jamais entenderão a importância das religiões monoteístas na formação de sociedades que, pela primeira vez, englobaram grupos geográfica e culturalmente diversos por meio de valores éticos universalistas”5. A fragmentação da história tenta apagar a marcante linha da influência da cristandade sobre o ocidente, suas tradições e cultura, apresentando em seu lugar um panorama segmentando do mundo, que não apenas reconhece, mas incentiva o multiculturalismo.

Diante das evidências inegáveis do passado, desconsiderar a contribuição do Cristianismo na história mundial é um ato insano, que somente pode ser compreendido como uma tentativa de manipulação pela mentalidade pós-cristã e secularizada do nosso tempo. Isso porque, como demonstra o historiador Chistopher Dawson6, a religião é a alma da cultura e o Cristianismo, especialmente, se tornou uma força moral e social no mundo ocidental, a partir do pressuposto que Deus se importa com o homem e com a história do mundo. Segundo Dawson, ou reapropriamos uma cultura cristã vital ou avançamos em direção a expressões mais perigosas e alienadas de consumismo e totalitarismo.

Desse modo, ainda que não seja o objetivo direto do novo currículo escolar banir o ensino da história do Cristianismo, o modelo pedagógico proposto parece partir de uma perspectiva ideológica que rejeita suas contribuições históricas. Diante disso e da importância do currículo básico para a formação dos estudantes, é indispensável que os cristãos em geral, principalmente os especialistas na área, analisem com cuidado e discernimento (1 Coríntios 2.15) o teor do documento, a fim de antever as suas implicações para a sociedade em geral; não somente a respeito deste tema, mas de muito outros que constam na proposta.

Notas

1. Disponível em: http://movimentopelabase.org.br/. Acesso em 29.01.16.
2. PALMER, Michael. Panorama do Pensamento Cristão. Rio de Janeiro: CPAD, 2001, p. 32.
3. Idem.
4. Expressão usada por Demétrio Magnoli e Elaine Senise Barbosa. Disponível em: http://oglobo.globo.com/opiniao/historia-sem-tempo-17719022. Acesso em 29.01.16.
5. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2015/11/1703011-proposta-do-mec-para-ensino-de-historia-mata-a-temporalidade.shtml. Acesso em 29.01.16.
6. DAWSON, Christopher. Progresso e religião. São Paulo: É Realizações, 2012.

Por, Valmir Nascimento Milomen.

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