Epicentro do ciúme e da inveja

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Epicentro do ciúme e da invejaA Bíblia relata o caso de uma mulher que, ao cobiçar o bebê de outra, o pegou (roubou) para si. Com ciúme ela jurou que o filho era mesmo seu e apenas seu. Seu distúrbio psíquico era tamanho que ninguém pôde diferenciar o sentimento de dor e perda da verdadeira mãe do teatro da falsa mãe. Apenas quando o rei ameaçou cortar a criança ao meio, revelou-se o pior se seus sentimentos: a inveja. Ela concordou que se matasse o bebê, pois ao destruir o recém-nascido que não era de fato seu, ela destruiria a verdadeira mãe. Nesse momento, ficou explícito ao rei quem era, de fato a mãe do bebê (1 Reis 3.16-28).

Desde os primórdios da civilização humana, ciúme, ódio e inveja existem, ao ponto de Caim matar Abel, José ser vendido por seus irmãos e outros relatos denotarem estes sentimentos. Chaucer e Milton atribuem a inveja ao demônio, uma vez que ele se personifica pelo ódio à criatividade e o poder de Deus. Expulso por tentar destronar Deus, ele inveja Adão e Eva (“Como poderiam eles desfrutar a felicidade?”). Então, arquitetou para destruí-los.

O ciúme e a inveja estão ligados, porém podemos diferenciá-los. No ciúme, a motivação é a posse, que entende-se como o sentimento produzido pelo medo de perder algo, um sentimento exacerbado de posse. Exemplo: a criança que tem o carinho dos pais e perde o lugar de filho único, logo, pelo medo de ser deixada ou abandonada, a criança vê o novo irmão como rival. Quantas vezes já ouvimos falar de crianças de 2 ou 3 anos que, ao nascer um irmão, vai ao berço e coloca algum objeto na boca ou no rosto de bebê? Observamos também adultos que cometem crimes passionais (crime de paixão), matando em razão de um “amor” possessivo (versão aguda de quem “quer a mãe só pra ele”). Já na inveja existe o elemento comparação – inveja-se aquilo que não se tem.

O invejoso quer ter o que o outro tem ou mais, quer ser o outro, pois ele acredita que a outra pessoa sempre é melhor, mais capaz, mais amada, mais bonita, mais feliz etc. É importante salientar que tanto o ciúme como a inveja se desenvolvem muito cedo, desde bebês. Quando o bebê é amamentado e vivencia experiências plenas, satisfatórias nos primeiros meses de vida, desenvolve uma base de gratidão capaz de diminuir a inveja e a destrutividade; já quando não recebe os cuidados necessários, se a mãe ao amamentar não demonstra amor, afeto e o bebê for esquecido, ele não conseguirá desfrutar das coisas boas que a sua mãe lhe oferece e ficará zangado com ela, mesmo com a própria mamada, que tanto deseja. Normalmente, essa criança poderá (não necessariamente) se tornar uma pessoa adulta invejosa, a ponto de, quando ganha um presente, sentir inveja da pessoa que lhe deu.

A inveja é motivada por sentimentos de insegurança, sensação de que a outra pessoa sempre é melhor, sempre leva vantagem. Na verdade, a criança que está satisfeita com o tratamento dos pais, amor, carinho e presença, se desenvolve e passa de fase em fase de forma satisfatória, com maior possibilidade de se tornar uma pessoa generosa e grata, e não ficará presa ao período da amamentação, fase em que o bebê acredita que tudo gira em torno dele e requer muita atenção. Aqui vale um alerta sobre a importância enorme da amamentação e do período de licença maternidade, onde a mãe deve não apenas ficar com o bebê, mas dar real atenção às necessidades do lactente.

A adolescência é o período onde os pais precisam estar ainda mais atentos, pois nessa fase se intensifica a inveja, uma vez que as inseguranças e os conflitos internos tendem a aparecer em maior proporção. É a fase em que alguns se tornam especialistas em causarem inveja nos outros, dizendo que tudo está “numa boa”, que são superiores, quando na verdade vivem – como todo adolescente – momentos conflitosos. Essa característica adolescente tende a diminuir com a definição da personalidade e à medida que se sintam mais seguros em suas escolhas. É um momento importantíssimo em que os pais exercem um papel fundamental, dando suporte, elogiando os pontos positivos e, como em todas as demais fases da vida, demonstrando amor.

A rivalidade fraterna demonstra ser uma questão muito perturbadora, sujeita a acontecer nas relações entre irmãos. Tem muito a ver com a forma como esses filhos foram criados. Hoje, com o grande número de divórcios e novos casamentos, com cônjuges que já tiveram filhos anteriores, tem se tornado mais difícil. Os filhos precisam se adaptar com novos membros nas famílias, madrasta, padrasto, irmãos de pai e de mãe e filhos de madrasta e padrasto. A experiência humana da rivalidade fraterna envolve comportamentos afetivos, como competição, ciúmes e inveja.

“José do Egito”

Jacó foi abençoado por Isaque e depois foi viver nas terras de seu tio Labão, lá se apaixona pela filha mais nova do tio, mas recebeu a mais velha, e com ela teve filhos, assim como de suas servas. Somente depois Raquel se torna sua esposa e dá à luz a José, filho que se torna favorito de Jacó, por ser filho da esposa amada. Em muitos relatos, os filhos mais novos tendem a ser favoritos, mas no caso de Benjamim não foi assim, pelo fato (talvez) de sua mãe ter morrido no parto. Jacó não escondia a preferência por José, o que criou nos irmãos o ciúme e inveja, a ponto de vendê-lo.

José também instigava em seus irmãos a rivalidade e a inveja, quando demonstrava o quanto era especial e querido pelo pai e quando contava ingenuamente aos irmãos os seus sonhos, que davam a entender que a família toda ser curvaria perante ele. Seus irmãos ficaram com mais ódio a ponto de desejar matá-lo. Rubem muda de ideia e convence seus irmãos a matarem José, mas mentem ao pai dizendo que José havia morrido. Analisando psicologicamente, dizem isso até como forma de vingar-se desse pai, para que ele sofresse por ter preferência por José. Anos depois, José se torna governador e consegue perdoar seus irmãos.

Tenho observado muitos pais e mães sendo usados como instrumentos para gerarem a discórdia na própria família. Jamais compare os filhos, demonstre amor e carinho, e afeto a todos de forma similar. Cuidado com presentes diferenciados por este ou aquele motivo.

“Os ‘escolhidos’ tornan-se alvo para ataques de inveja, porque ocupam uma posição privilegiada em relação à fonte de criação e sustento; os não escolhidos são atacados porque eles carregam a sombra dos escolhidos e são vistos como maus e de menor valor” (Stein 1997, p. 104).

A terapia psicanalítica contribui para que a pessoa possa perceber a própria inveja e para que a pessoa aprenda a lidar com ela, buscando entender o porquê dos sentimentos e o que o paciente poderá fazer para não destruir o outro. Em vez de querer destruir o meu irmão, meu amigo ou meu pastor, vou me espelhar e procurar fazer o que ele faz, à minha maneira, para alcançar também o que desejo.

O cristão jamais deverá se deixar dominar pelo sentimento destrutivo da inveja, antes deve tentar reconhece-lá (primeiro passo) para mudar.

Quando procuro reconhecer os meus sentimentos e me preocupo em não deixar me dominar pelo ciúme ou inveja, estou permitindo que o Amor se manifeste.

Onde há amor abundante não há lugar para o mal. Onde há luz não há lugar para trevas. Permita que a bondade e a misericórdia do Senhor nosso Deus se manifeste através de você. E se você fez algo errado a alguém da família, a algum amigo, reconheça, repare o erro e se reconcilie, pois isso é o que Deus espera de nós.

Por, Valquíria Salinas Goulart.

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