Em defesa da evidência inicial

Em defesa da evidência inicialA doutrina da evidência inicial é uma marca importante do pentecostalismo clássico e tem uma forte base escriturística. As Sagradas Escrituras normalmente associam o enchimento do Espírito ao discurso vocal. É claro, a partir de uma leitura no progresso revelacional das Escrituras, que há uma mudança de chave da evidência do revestimento de poder. Gradualmente, da Antiga a Nova Aliança, a evidência do enchimento do Espírito passa da profecia à glossolalia. E, também, o enchimento do Espírito deixa de ser apenas para alguns escolhidos e passa a ser disponível a todos os homens. Apesar das críticas costumeiras a essa doutrina, o seu embasamento exegético, hermenêutico e teológico é bastante robusto.

A evidência do enchimento do Espírito na Antiga Aliança

Quando Deus designou setenta anciãos para ajudarem Moisés, conforme registro de Números 11.16-35, Ele tirou o Espírito Santo que estava sobre Moisés e repassou a todos os anciãos. Diz o texto: “E aconteceu que, quando o Espírito repousou sobre eles, profetizaram” (v. 25). Séculos depois, Deus usou Joel para profetizar a efusão do Espírito e assim disse ao povo de Israel: “Derramarei o meu Espírito sobre toda a carne, e vossos filhos e vossas filhas profetizarão” (2.28). Há ainda um episódio emblemático no reinado de Saul quando ele envia mensageiros para prender Davi, mas quando esses mensageiros passam pela Escola de Profetas dirigida por Samuel, diz o texto, que “o Espírito de Deus veio sobre os mensageiros de Saul, e também eles profetizaram” (1 Samuel 19.20). O evangelista Lucas, ao registrar os atos da família de João Batista, o último profeta da Antiga Aliança (cf. Lucas 16.16), mostra o mesmo padrão veterotestamentário: “Seu pai, Zacarias, foi cheio do Espírito Santo e profetizou…” (Lucas 1.67); “Isabel foi cheia do Espírito Santo, e exclamou com grande voz.” (Lucas 1.41, 42).

O teólogo assembleiano Robert P. Menzies mostra que não só no texto bíblico do Antigo Testamento, mas mesmo na literatura judaica da época de Cristo havia abundância de textos associando a atuação do Espírito com a vocalização profética. Diz Menzies: “A literatura do judaísmo intertestamentário identifica consistentemente a experiência do Espírito com inspiração profética. O Espírito permite que o sábio atinja as alturas da realização sapiencial, equipa o Messias com conhecimento especial para governar e dá uma visão ao profeta do Senhor. A inspiração do Espírito, seja em relação ao sábio, ao Messias ou ao profeta, está quase sempre relacionada à fala inspirada”1. Portanto, tanto o Antigo Testamento como a teologia judaica apresentavam uma longa tradição de associar o enchimento do Espírito Santo à fala.

Evidência Inicial na Nova Aliança

Com o Novo Testamento, o Espírito Santo e o seu enchimento capacitador ao serviço, conhecido como “Batismo no Espírito Santo”, não está localizado apenas em alguns poucos indivíduos, mas, agora, está disponível para toda a Igreja. O sinal desse derramamento do Espírito deixa de ser a profecia, conforme visto em vários textos do Velho Testamento e passa a ser o falar em línguas, a glossolalia, como pode ser verificado em Atos dos Apóstolos: “E todos foram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas…” (Atos 2.4); “Então, Pedro, cheio do Espírito Santo, lhes disse.” (Atos 4.8); “E todos foram cheios do Espírito Santo e anunciavam com ousadia a palavra de Deus” (Atos 4.31)”; “E os fiéis que eram da circuncisão, todos quantos tinham vindo com Pedro, maravilharam-se de que o dom do Espírito Santo se derramasse também sobre os gentios. Porque os ouviam falar em línguas e magnificar a Deus” (Atos 10.45,46); “E, impondo-lhes Paulo as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo; e falavam línguas e profetizavam” (Atos 19.6). É interessante observar que tanto a profecia como o falar em línguas são dons elocutivos, mas, claramente, Lucas apresenta em Atos que a glossolalia substitui a profecia. Todavia, a natureza elocutiva do enchimento do Espírito continua.

Por que há uma rejeição tão forte à pneumatologia pentecostal?

O famoso exegeta suíço Eduard Schweizer (1913-2006) escreveu um importante artigo em 1952 intitulado Spirit of Power: The Uniformity and Diversity of the Concept of the Holy Spirit in the New Testament (Espírito de Poder: A Uniformidade e a Diversidade do Conceito do Espírito Santo no Novo Testamento). Ele mostra como a pneumatologia de Paulo apresenta diferenças complementares a Lucas e vice-versa. Em um trecho, Schweizer escreve: “Lucas está preocupado em mostrar como o Espírito tem atividades peculiares, ainda que extraordinárias e visíveis, que penetram profundamente na existência corpórea do homem e em sua vida diária.” Não é à toa que nós, assembleianos, afirmamos em nossa Declaração de Fé que o falar em línguas é uma evidência física e inicial do Batismo no Espírito Santo. Como lembra Schweizer, uma leitura atenta de Atos dos Apóstolos mostra que há um envolvimento do Espírito Santo com a nossa fala. Outro exegeta famoso, Hermann Gunkel (1862-1932), ainda no século XIX, já afirmava ao ler o livro de Atos dos Apóstolos: “Os sintomas da presença do Espírito Divino foram mais claramente e visivelmente presentes na glossolalia. Tal comportamento (…) é visto como aquela manifestação do Espírito em que a descida do divino é percebida de forma mais fácil e direta. Portanto, não é suficiente dizer que a glossolalia foi o dom mais visível do Espírito – era, ao mesmo tempo, o mais característico”.2 O erudito James Dunn, cuja obra é extensamente usada pelos críticos do pentecostalismo, escreveu em uma obra mais tardia: “A favor da tese pentecostal, deve-se dizer basicamente que sua resposta (sobre a evidência inicial) está enraizada no Novo Testamento com mais firmeza do que se pensa. Certamente, é verdade que Lucas considera a glossolalia do Pentecostes como um sinal externo do derramamento do Espírito. (…) O fato é que sempre que Lucas descreve o dom do Espírito, este é acompanhado e manifestado pela glossolalia. Então, a consequência, não desprovida de realismo, é que Lucas tentou descrever o ‘falar em línguas’ como ‘a prova física inicial’ do derramamento do Espírito”3. É difícil achar um exegeta que seja honesto com o texto de Atos e negue que a natureza da glossolalia está associada aos homens cheios do Espírito.

Falta ao universo evangélico tradicional entender, como exegetas famosos do passado entenderam, que a pneumatologia de Lucas é complementar a Paulo e vice-versa. O teólogo norte-americano Rick Brannan fez um levantamento interessante sobre as passagens bíblicas mais citadas em 300 Teologias Sistemáticas vendidas no mercado evangélico. É surpreendente e espantoso que entre as cinco referências mais citadas em pneumatologia temos apenas menções ao Evangelho de João e a Epístola aos Efésios, ou seja, nada do conjunto Lucas-Atos, que são os livros bíblicos que mais falam da atuação do Espírito Santo. Nas Teologias Sistemáticas protestantes há um domínio de textos paulinos e quase nada de narrativas do Antigo e Novo Testamento. Em parte, isso explica a dificuldade dos teólogos tradicionais em compreender a estrutura doutrinária do pentecostalismo. E, também, mostra como os evangélicos precisam mergulhar mais em Teologia Bíblica (sem desprezar a importância da Teologia Sistemática).

Portanto, cremos nas línguas estranhas como evidência física inicial não como dogmatismo e tradicionalismo ou como marca histórica, mas porque há amplo amparo bíblico para essa crença. A glossolalia tem um papel fundamental como testemunho público. Como lembro no meu livro: “O apóstolo Paulo indica que a língua é um ‘sinal, não para os fiéis, mas para os infiéis’ (cf. 1 Coríntios 14. 21,22), e o Batismo no Espírito Santo é um revestimento de poder para testemunhar àqueles que não se converteram (Atos 1.8, 2.1-47). Não é à toa que a língua sempre está presente no Batismo do Espírito Santo”4. O mesmo Espírito que nos reveste de poder para sermos testemunhas pelo mundo nos dá o sinal da glossolalia para lembrar que essa atividade evangelística depende da graça dEle para encher a nossa boca. Como disse Jesus: “Porque o Espírito Santo vos inspirará naquela hora o que deveis dizer” (Lucas 12.12).

Notas Bibliográficas

1 MENZIES, Robert. Empowered for Witness: The Spirit in Luke-Acts. 3 ed. New York: T&T Clark Publishers, 2004. p 84. Veja também: STRONSTAD, Roger. A Teologia Carismática de Lucas. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2018. p 94,95.
2 GUNKEL, Hermann. The influence of the Holy Spirit. 1 ed. Philadelphia: Fortress Press, 1979. p 31.
3 DUNN, James D. G. Jesús y el Espíritu: La experiencia carismática de Jesús y sus Apóstoles. ePub ed. Barcelona: Editorial CLIE, 2014. p 417. 4 SIQUEIRA, Gutierres Fernandes. Revestidos de Poder: Uma Introdução À Teologia Pentecostal. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2018. p 92.

Por, Gutierres Fernandes Siqueira.

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