Deus recebeu sacrifício de humanos?

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Como entender 2 Samuel 22.1-14, que fala sobre o sacrifício dos filhos de Rispa?

Deus recebeu sacrifício de humanosPara sua compreensão do texto em apreço, precisamos conhecer os antecedentes históricos. Saul havia violado um juramento feito por Israel, diante do Senhor, em favor dos gibeonitas (2 Samuel 21.1, 2; Josué 9.16-20). Portanto o procedimento de Saul contrariava frontalmente as leis de Deus; em especial os textos de Números 30.1, 2 e Deuteronômio 23.21. Leia-os cuidadosamente.

Do exposto, podemos afirmar que o pedido dos gibeonitas, em 2 Samuel 21.6, estava baseado no juramento feito por Israel. O texto contudo, diz que Davi perguntou aos gibeonitas o que deveria fazer (vv. 3,4) para expiação da praga de fome que se havia instalado em Israel (v. 1). Ou seja, o que Davi perguntou aos gibeonitas foi mais ou menos isto: “O que vocês querem que eu faça para que haja justiça e seja cancelada a praga que se abateu sobre Israel?”. Note que Davi perguntou aos gibeonitas, ao invés de consultar Deus. Note, ainda, que Davi somente havia consultado ao Senhor quanto à causa da praga e não como se livrar dela. Se o tivesse feito certamente a resposta seria outra. A sentença condenatória à Casa de Saul exigiria castigo (v. 1), mas não da forma que aconteceu.

O fato de os gibeonitas usarem a expressão “para que os enforquemos ao Senhor” e referir-se a Saul como “o eleito do Senhor” (v. 6) prova que eles haviam assimilado os termos religiosos judaicos. Sabendo-se que eles eram “espertos” e já haviam enganado o povo de Israel antes (Josué 9.3-15), conclui-se que os gibeonitas maquinaram bem as palavras a serem usadas com o intuito de apelar para os valores espirituais da nação e sensibilizar Davi para conseguirem o que queriam (enforcar os filhos de Saul). Equivocada e/ou ignorantemente os gibeonitas chamaram aquela chacina de “sacrifício ao Senhor”; contudo, Deus não aceitou aquilo como tal.

Note que dois dos descendentes de Saul que foram assassinados (2 Samuel 3.7; 21.8a), estavam implicados na matança dos gibeonitas juntamente com seu pai, posto que Deus chama os filhos de Saul de “casa sanguinária” (v. 1). Assim sendo, conforme a Lei (Números 35.33; Deuteronômio 24.16), eles pagaram pelos crimes que cometeram ao tirar, injustamente, a vida de pessoas.

O problema é que os gibeonitas pediram sete filhos de Saul. Davi tomou dois filhos de Saul, dos que ainda viviam, e cinco netos. Os dois filhos, como vimos, provavelmente tinham implicado na matança (2 Samuel 21.8, 9), mas os cinco netos não estavam implicados. Eles foram colocados na lista só para preencher o pedido dos gibeonitas (2 Samuel 21.6).

Quanto ao versículo 14 dizer que Deus se aplacou para com a terra, isso se deve ao fato de que, de certa forma, a justiça foi feita (pela morte dos dois filhos que estavam implicados, não pela morte dos cinco netos). E Deus cobrou Davi pelo seu erro.

Chamo a atenção do leitor para o seguinte detalhe: o caso narrado em 2 Samuel 21.1-14 aconteceu antes desta ter sido registrada alguns capítulos antes (2 Samuel 15.1-19). Lembre-se que naquela ocasião Simei, que era da Casa de Saul (2 Samuel 16.5) amaldiçoou Davi chamando-o de “homem de sangue” (2 Samuel 16.7) e referindo-se a ele dessa forma justamente por causa “de todo o sangue da casa de Saul, em cujo lugar tens reinado” (2 Samuel 16.8). Isto prova que a rebelião de Absalão, além de ter sido reflexo do pecado de Davi (2 Samuel 11.1-27; 12.1-12), também foi vista por Simei como castigo pelo sangue da casa de Saul que Davi, injustamente, permitiu ser derramado e, certamente, aí estava incluso o sangue derramado no episódio com os gibeonitas.

Apesar de Davi ter compensado um pouco a situação fazendo uma última homenagem à casa de Saul (2 Samuel 21.12-14); contudo, mais tarde, Deus não permitiu que ele construísse o Templo de Jerusalém e lhe disse o porquê: “Derramaste muito sangue” (1 Crônicas 28.3). Além, claro, dos sangues derramados nas guerras legítimas, estava o sangue injustamente derramado da Casa de Saul.

Finalmente chamo a atenção para o fato de que há diferença entre execuções de seres humanos por conta de suas condutas pecaminosas, sendo essas execuções até mesmo determinadas por Deus (cito como exemplo os textos com seus devidos contextos de êxodo 32.35; 2 Samuel 24.15; Números 16.49, 35; 25.4; etc.), e o sacrifício substitutivo exigido por Deus para justificação do homem. O caso que discutimos, embora tenha sido apresentado como “sacrifício ao Senhor” por quem não tinha entendimento do seu significado, só foi perpetuado devido ao erro de quem permitiu aquela matança.

Por, Celso de Castro Costa.

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