Crise de sentimentos

Uma das características marcantes do fim dos tempos é a crise de sentimentos. Jesus falou do esfriamento do amor: “E por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará” (Mateus 24.12). Paulo falou da falta de afeição natural (Romanos 1.30; 2 Timóteo 3.3). Tiago tratou da inveja, do sentimento faccioso (Tiago 3.14) e da maledicência (4.11). Pedro combateu a malícia, o engano, os fingimentos, a inveja e todas as murmurações (1 Pedro 2.1) e, por outro lado, exortou a que os irmãos tivessem “ardente amor uns para com os outros” (1 Pedro 4.8). João já é conhecido como o apóstolo do amor. Ele foi direto ao dizer que “aquele que diz que está na luz e aborrece a seu irmão até agora está em trevas” (1 João 2.9). A mensagem de João sobre o amor foi tão enfática que, depois de trazer o exemplo de Caim, disse: “Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos; quem não ama a seu irmão permanece na morte” (1 João 3.14). E o amor do qual o apóstolo fala é forte ao ponto de nos levar adar a vida pelos irmãos: “Conhecemos a caridade nisto: que ele [Jesus] deu a sua vida por nós, e nós devemos dar a vida pelos irmãos” (1 João 3.16).

Esse “dar a vida pelos irmãos” não é a mesma entrega em sacrifício feita por Jesus, mas um viver dedicado aos irmãos que, em certas circunstâncias, pode, sim, levar alguém a dar a própria vida por amor aos outros. Que o digam os cristãos que vivem nos lugares onde são fortes as perseguições contra a Igreja de Cristo. Quanto a todos nós, no mínimo é um “dar a vida” diariamente para servir a Cristo e à Sua Igreja.

Nesses tempos presentes há uma crise de sentimentos causada tanto pelas características da própria era como por uma interpretação diferente dos textos bíblicos, que leva o cristão a pensar que ter fé é sinônimo de não sofrer, quando Jesus anunciou com muita clareza a sujeição às aflições (João 16.33). Por um lado, o modus vivendi atual já conspira por um esfriamento do amor e a uma perda geral de vínculos sadios e profundos, trocados por sentimentos superficiais, sem profundidade. “Líquidos”, como dizia o filósofo Zygmunt Bauman.

Nosso viver diário está marcado por costumes modernos que nos afastam uns dos outros, tornando plásticos e interesseiros nossos relacionamentos. Muitas vezes sustentamos certa expressão de apreço em nome do social ou politicamente correto, mas sem uma raiz profunda de amor, de afeto, de empatia, de misericórdia. Um sentimento que não se converte em nada prático. Mesmo no ambiente da igreja isso já começa a ser nítido. A mesma correria que temos no dia-a-dia e os mesmos instrumentos de relacionamento que usamos lá fora estão nos afetando diretamente no seio da comunidade cristã. Aliás, o que seria hoje esse “seio”, esse lugar de vínculo profundo, de troca de sentimentos fraternos, de caridade, de compartilhamento de alegrias e de tristezas?

O crescimento numérico das igrejas (que é uma bênção!) também pode afetar diretamente a qualidade de nossa comunhão se não tivermos cuidado, pois a estrutura do ambiente do culto e a própria liturgia são alteradas de forma a poder atender às multidões. Enquanto isso, fora desse ambiente, nosso estilo de vida dificilmente nos permite comungar, cultivar sentimentos profundos através da prática de uma vida dedicada uns aos outros. Ou seja: a crisenos afeta dentro e fora da igreja.

Assim, corremos de um lado para o outro, temos pouco tempo uns para com os outros na nossa própria casa e vamos à igreja para, quase que de forma industrial, ser atendidos nas nossas necessidades espirituais mais latentes. Se não tivermos cuidado, viveremos nas igrejas o sistema drive-thru, que é alimentado justamente pelo clima de correria, pela pressa constante, o que encontra eco no interesse do comércio em vender rápido e dar logo um tchau para o cliente.

Isso tudo pode ser visto também em outro fator preocupante, que é a necessidade de estar sempre promovendo eventos, o que revela que a vida com um da igreja está ficando sem graça. Isso mesmo! Ao invés de ser uma grande vantagem ter uma igreja cheia de programações, isso pode estar escondendo uma dura realidade: sem novidades, o povo não tem o que compartilhar. É como viajar com alguém por longas horas em um veículo sem ter o que conversar. Fala-se do clima, do preço do combustível, das condições da estrada, do automóvel, mas a viagem vai ficando longa e falta um assunto de maior profundidade. Os conversantes não nutrem nenhum sentimento profundo um pelo outro. Não há o que compartilhar, além de trivialidades. Ora, se dentro de nossas casas isso já é um grande risco que corremos, o que dizer no âmbito das igrejas?

Assim como os viajantes, por falta de assunto, terão que levantar o volume do rádio para ouvir música ou alguma notícia, a igreja terá de ter uma agenda cheia para manter o público empolgado e presente em cada ocasião.

Evidente que não se deve cogitar de uma igreja que nunca realiza nada diferente de sua vida comum, distinto de seu cotidiano básico de cultos. Mas, o outro extremo também não! As celebrações são importantíssimas, mas como resultado de um tempo de comunhão profunda. Por isso são chamadas de celebrações: serão o ápice de todo um tempo de compartilhamento.

Nos tempos da Igreja Primitiva, os crentes tinham seu tempo no templo e nas casas (Atos 2.42,46). Nosso grande desafio é, em tempos tão modernos (ou pós-modernos), encontrar um ponto de equilíbrio: não vamos querer viver como os menonitas ou os amish, mas também não sejamos ingênuos a ponto de não entender as graves distorções que um mau uso das tecnologias causam no comportamento e, via de consequência, nos relacionamentos, indo desaguar na crise de sentimentos que ora vivenciamos.

Por, Silas Queiroz.