Contendo tendências neopentecostais

Contendo tendências neopentecostaisCada vez mais se percebe que o pentecostalismo brasileiro está sendo influenciado pelo neopentecostalismo, nas práticas litúrgicas, na teologia, nas pregações e práticas eclesiásticas. Esta tendência é ditada também, em boa parte, por uma sociedade líquida1, ou seja, em que os valores estão diluídos conforme as convivências ditadas, especialmente, pelo mercado de consumo. Propõe-se a seguir algumas alternativas que o neopentecostalismo clássico poderá adotar, sem abrir mão da contextualidade que os tempos exigem, diante das propostas que o neopentecostalismo procura impor.

1 – Pregação cristocêntrica

A ênfase na teologia exposta no Novo Testamento se diferencia das propostas neopentecostais, por isso a necessidade de apelar para símbolos do Antigo Testamento. Para demonstrar esta diferenciação daquela, pode-se analisar um kerygma clássico, que é o primeiro sermão de Pedro. Como fruto deste primeiro sermão, os ouvintes foram compungidos (Atos 2.37 ARA), aflitos (NVI), em outras traduções: tocados, feridos, picados. Do grego, nuss significa esperar, como se um punhal tivesse atravessado o coração deles. Em seguida lhes proclamou arrependimento. Uma pregação assim tem o poder de “atirar uma flecha que atinge em cheio o coração do pecador até que este se dobre em agonia, clamando pelo perdão divino”.2

Analisando-se os Atos dos Apóstolos, está em evidência este tipo de anuncio que evidencia a morte e ressurreição de Cristo e o ato de arrepender-se. O que se percebe nestes textos é que o eixo das mensagens girava em torno de três assuntos: Cristo como Senhor, sua morte e ressurreição e confissão de pecados (ou arrependimento). Os milagres, sinais e maravilhas sempre eram derivados desta pregação, sem eles incitarem o povo a desejá-los. O kerygma apostólico consistia de três partes: 1) uma proclamação da morte, ressurreição e exaltação de Jesus; 2) a consideração de Jesus como Senhor e também como Cristo; e 3) uma convocação ao arrependimento e a receber perdão dos pecados […]. Assim, o kerygma em sua plenitude reunia uma proclamação histórica, uma consideração teológica e uma convocação ética.3

2 – Políticas de cuidado em detrimento do ativismo religioso

Numa sociedade onde o fazer e o ter é valorizado mais que o ser, é natural que esse sentimento invada também os lugares mais sagrados, assim, veem-se muitos líderes e pessoas preocupadas em atender uma agenda que prioriza o “fazer a obra”, e no desejo descontrolado por títulos e posições vendem a própria alma, esquecendo-se muitas vezes, a exemplo da Parábola do Bom Samaritano, que existem muitos caídos a beira do caminho esperando ajuda, enquanto os religiosos passam de largo.

A implementação de políticas de cuidado, onde se valoriza o ser e a pessoa, poderá ser uma resposta ao vazio existencial dos equívocos causados pela Teologia da Prosperidade. O cuidado tem haver com a promoção de comunidades acolhedoras e inclusivas, onde os feridos têm amplo espaço de serem curados e libertos para viverem em plenitude de vida. Desta forma, o individualismo dá lugar ao encontro curativo com o próximo e o cuidado com o próximo proporciona o encontro com Deus.

3 – Adesão à militância profética

A militância profética nos remete a homens como Martin Luther King, Mohandas Guandhi e ao próprio Cristo, cujas vidas foram marcadas por denunciar injustiças sociais e a opressão que os problemas impunham sobre os mais fracos. Todos estes se opuseram de forma veemente contra qualquer tipo de violência, justificada ou não, porém morreram como mártires de forma violenta.

O exemplo de Cristo sustenta que os seres humanos destinam-se a amar e a serem amados; busca derrotar a injustiça, não pessoas; resiste à violência com grandeza de alma; sustenta que o sofrimento pode educar e transformar; reconhece os ferimentos, a violência e o sagrado (imagem de Deus) uns nos outros; é uma processo de arrependimento e transformação de realidades opressoras; é uma jornada espiritual que sai do medo, do desespero e da ganância rumo à compaixão, ao equilíbrio e à integridade.4

4 – Aprendizado teológico para os líderes

As igrejas pentecostais no Brasil, em função da prioridade evangelística que lhe é peculiar, têm, em sua maioria, relegado para segundo plano a necessidade da formação teológica de seus e pastores e líderes. O argumento utilizado para isso era de que sendo a vinda de Jesus iminente, não haveria necessidade de muito preparo, pois assim, maior número de pessoas seriam salvas do inferno. A Assembleia de Deus, embora também tenha no passado utilizado este argumento, mais recentemente tem se destacado no ensino teológico de seus líderes, com a criação de escolas teológicas e cursos nos mais variados níveis, mas diante da amplitude e dimensão que esta igreja tem alcançado, existe um grande espaço acadêmico a ser preenchido por esta instituição.

A Teologia esboçada pela Assembleia de Deus, tem sido tímida em relação a academia. Durante muitos anos foi ensino simplista, superficial e de curta duração, seguindo o modelo sueco de semanas bíblicas. Este despertar tardio acalentou a Teologia mais devocional e intimista, que tem seu valor e necessidade numa relação com Deus, mas, em certo sentido, é despreocupada em preparar líderes com conteúdo teológico relevante. Este modelo ainda acontece em muitas igrejas, e traz subjetivamente o medo e o preconceito teológico. A influência sueca, embora reconhecesse que seria necessário um “maior preparo teológico para os obreiros, [enfatizava que] as Escolas Bíblicas seriam suficientes.”5

Logicamente que este medo subjetivo tem certo sentido, quando escolas e professores de Teologia defendem com arrogância suas posições de conhecimento e, ao invés de agirem com espírito profético e crítico no bom sentido, criam celeumas doutrinárias e nichos  de rebeldia em relação aos líderes e alienação em relação ao serviço que a Teologia deve prestar à igreja. Mas é certo que muitas escolas e professores de Teologia sabem se portar com humildade diante de suas comunidades, tornando sem sentido o medo que algumas lideranças têm da Teologia.

Percebe-se que a Teologia devocional tem tido problemas para lidar com as tendências neopentecostais, pois tem se deixado influenciar, em boa medida, por estas. Portanto, a teologia da prosperidade é filha da rejeição histórica das igrejas pentecostais a uma teologia séria e relevante, que tenha seu espaço e acolhida na igreja e que desfrute da confiança de seus líderes. A Teologia devocional é importante e tem sido o mínimo de preparo que muitos líderes tem tido, o que é bom, porém a teologia acadêmica é a que previne contra desvios doutrinários. Somente esta sabe argumentar com clareza diante dos subliminares apelos, disfarces e nuances que a Teologia da prosperidade impõe.

Notas
1. BAUMAN, Zygmont. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. p. 258
2. MOEN, Ernest J. O Pastor Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 1999. p. 639.
3. STOTT, John. O perfil do pregador. 2ª ed. São Paulo: Sepal, 1997. p. 49-50.
4. BUTIGAN, Ken. Da violência à integridade. São Leopoldo: Sinodal, 2003. p. 22-147.
5. ARAUJO, Isael de. Dicionário do movimento pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007. p. 282.

Por, Claiton Ivan Pommerening.

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