Combatendo a violência contra a mulher

Combatendo a violência contra a mulherSegundo levantamento da Organização Mundial de Saúde (OMS), no mundo, uma em cada cinco mulheres até 18 anos já foi vítima de violência. No Brasil, via Central de Atendimento à Mulher (“Disque 180”), nos dez primeiros meses de 2015, do total de 63.090 denúncias de violência contra a mulher, 31.432 corresponderam à violência física (49,82%), 19.182 à violência psicológica (30,40%), 4.627 à violência moral (7,33%), 1.382 à violência patrimonial (2,19%) e 3.064 à violência sexual (4,86%). Entretanto, muitas vítimas nem mesmo denunciam, principalmente porque, em 67,36% dos relatos, as violências foram cometidas por homens com quem essas mulheres têm ou já tiveram vínculo afetivo: são cônjuges ou companheiros.

As mulheres são as maiores vítimas da violência doméstica, e isso se dá por fruto de um padrão cultural de subordinação e não da submissão bíblica. Nesse modelo, opera o machismo, onde o homem vê a mulher como um ser inferior. Por vezes, ele desconta sua agressividade nela, para controlá-la como se fosse um objeto, um pertence seu.

A dinâmica em que os pais são agressivos entre si ou mesmo com os filhos favorece a “normatização” da violência doméstica. As mulheres vítimas são, em geral, as que cresceram vendo o pai bater na mãe e nos irmãos, que transmitiam assim, um ciclo de violência. Crescer nesse modelo familiar acaba fazendo com que ele seja visto como uma forma normal de se “relacionar”. Quando pergunto a pacientes que passaram por isso “O que você sentia quando apanhava?”, muitos me respondem: “raiva e ódio”. Por isso, a Palavra de Deus diz: “Pais, não provoqueis a ira de vossos filhos” (Efésios 6.4).

Afirmam os especialistas que sofrer violência na infância torna as pessoas inseguras, com baixa autoestima e dificuldades de estabelecer uma relação positiva. Há ainda os casos de homens e mulheres livres de qualquer suspeita de serem agressivos na relação conjugal e que infelizmente são. Isso porque a agressividade não tem a ver com a posição social que se tem. Em minha experiência profissional, tenho observado, inclusive, casos de cristãos e até “pastores” que na igreja são amáveis e queridos de aparência, mas em casa são violentos, indo contra a exortação paulina: “Porque é indispensável que o bispo seja irrepreensível como despenseiro de Deus, não arrogante, não irascível, não dado ao vinho, nem violento, nem cobiçoso e de torpe ganância; antes hospitaleiro, amigo do bem, sóbrio, justo, piedoso, que tenha domínio próprio” (Tito 1.7).

Alguns agressores demonstram ser fracos com o controle de seus impulsos, apresentando necessidades do ego, dependência emocional, baixa autoestima e ciúme excessivo. Nenhum dos conjugues deve permanecer passivo e conformado com uma pessoa violenta. Alguns intercalam promessas de mudanças a seus comportamentos com atitudes de demonstração de amor. Uma hora, amor; noutra, agressão. Por isso, muitas pessoas se tornam reféns de mentes doentes, presas a um ciclo vicioso que condiciona toda a família a achar “natural” essa forma de se relacionar.

Tudo começa com agressões verbais, indo para apertões, sacudidas, empurrões etc. Esse é um processo progressivo em que se a vítima não reagir e procurar ajuda, toda a família só padecerá mais e mais.

No início, no momento da agressão, em geral, a vítima se assusta e tenta acalmar o agressor. Como passar do tempo, há a aceitação da agressão, sem que nada aconteça. Com isso, a tendência em agredir a vítima aumenta. Sem motivo, pelo simples fato da descarga da tensão, ela acaba se tornando algo normal, até o ponto de a mulher ser espancada, independente do seu comportamento. Aliás, que fique claro: não existe comportamento que justifique qualquer tipo de agressão.

Muitos agressores culpam suas vítimas e as manipulam ao ponto delas mesmas acreditarem que elas merecem ser punidas. Algumas vítimas são ainda obrigadas a ter relações sexuais contra sua vontade – outra forma de abuso e violência –, com chantagens e ameaças.

É importante que tanto os envolvidos diretos quanto os conselheiros, quando o caso chega à igreja, entendam que esse processo só tende a piorar com o passar do tempo. Quando a vítima diz que vai tomar alguma atitude, logo o agressor procura pedir perdão e se reconciliar. Isso ocorre quando as agressões tornam-se visíveis aos outros. O agressor acaba tomando a atitude de se reconciliar não por amor, mas pelo medo de ser responsabilizado. E é nesse instante que são carinhosos e amáveis, que fazem com que a vítima se confunda emocionalmente, fique com a falsa esperança, a ilusão de que agora tudo será diferente; então, o perdoa. Porém, esse ciclo tende a aumentar desenfreadamente, e começam a ser visíveis as lesões corporais, cutâneas, neurológicas, oculares, ósseas, psicológicas e, infelizmente, em alguns casos, por fim, a vítima chega a óbito.

Algumas vítimas acabam desenvolvendo prejuízos físicos, cognitivos, sociais, morais, emocionais e afetivos. Algumas pessoas adquirem insônia, pesadelos, falta de concentração, irritabilidade, falta de apetite, transtornos alimentares, depressão, ansiedade e síndrome do pânico. Outros comportamentos autodestrutivos também são observados, como uso de álcool, drogas e tentativa de suicídio. As vítimas precisam ser corajosas e buscar ajuda, pois, dessa forma, o agressor também passa a temer.

Os jovens precisam estar constantemente atentos durante o namoro, afinal é nesse momento que se evidenciam muitos indicativos de agressividade, como jogar objetos no chão, segurar com força os braços, entre outros. Dessa forma, já se pode observar um futuro quadro de agressão, seja por parte do homem ou da mulher.

É necessário que a vítima tome uma atitude para que o agressor não repita as agressões. As mulheres que aceitam ficar com um agressor, na sua maioria, temem ficar sozinhas. O mesmo acontece com o homem que sofre violência doméstica. Alguns homens chegam a dizer “O que os outros vão achar de mim?”, e por isso escondem que são agredidos. Outro fator importante é que existem pessoas que provocam no outro o sentimento de raiva, levando quem já é agressivo à agressão. Assim, ficam elas por vítimas sempre, perante vizinhos e parentes, porque são agredidas. Vale lembrar que nada justifica a agressão. Continuar a se fazer de coitada por terceiros e simultaneamente aceitar a agressão é uma simbiose perversa, doentia e perigosa.

Um fato é claro: ninguém merece ser agredido ou violentado, independente da justificativa do agressor. Afinal, não existe explicação que justifique tal ato. Em meio a essa situação, líderes e pastores precisam aconselhar de maneira a amparar a vítima, e não orientá-la a aguentar o sofrimento ou buscar a união, mesmo sob violência, com a justificativa de “preservar os casamento”. Preservar o casamento, sim, mas não a qualquer custo! Até porque violência e agressão devem ser combatidas. Deus espera ver a virtude de coragem para que a violência seja combatida e eliminada da família e sociedade.

Como psicóloga e terapeuta familiar, aconselho sempre que o pastor que irá ouvir e orientar nesses casos busque sempre a presença de ambos os envolvidos, por mais que inicialmente a vítima relate sozinha o ocorrido. Em encontros futuros, é de expressiva importância a presença dos dois, pois através das minhas experiências no consultório já atendi casos em que a violência era mútua.

Outro acontecimento que ocorre com constância é o de jovens que alegam presenciar a violência entre seus pais, como, por exemplo, uma mãe que, sempre que contrariada, agredia fisicamente o pai, chegando ao ponto de jogar produtos químicos no marido. Inúmeros casos semelhantes já ocorreram, e o que mais choca é o fato de que alguns desses agressores carregam o título de “cristãos”.

Cremos que o nosso Deus pode mudar a história. Todavia, se fazem necessárias algumas atitudes. Inicialmente, que a vítima abra, no mínimo, boletim de ocorrência e procure também as soluções na justiça. Isso porque em alguns casos de mulheres que fizeram boletim de ocorrência em uma delegacia, as mesmas conseguiram uma posterior estabilização do relacionamento, nunca mais sofrendo qualquer forma de violência.

Talvez surja a pergunta: orar ou denunciar? As duas coisas são importantes. Ambas são de extrema necessidade nesses casos. É importante lembrar também que a lei “Maria da Penha” não possui objetivo de divorciar os casais, mas sim de dar à mulher o direito a uma vida cercada de respeito, carinho, cuidados e amor. Os mesmos atributos e sentimentos o homem também espera em relação à mulher. O que talvez muitos não saibam, é que a lei “Maria da Penha” também abrange o homem, auxiliando-o em casos semelhantes.

A igreja precisa abordar em seus cultos os temas de violência e agressão. E além de incentivar a solução com ajuda espiritual, também sempre lembrar da psicológica e policial. Dessa forma, um cenário mais positivo pode surgir em nosso meio através da educação. A Palavra de Deus possui extrema clareza ao dizer em Efésios 5.25: “Marido, amai vossa mulher como também Cristo amou a Igreja e a si mesmo se entregou por ela”. Deus pode realmente transformar o marido ou a mulher que agride; contudo, para isso, se faz necessário tomar atitude. Diga não à violência. Viva uma vida plena em amor. Deus é amor. Quem está em Deus vive em amor.

Por, Valquíria Salinas.

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