O que querem fazer com a teologia?

O que querem fazer com a teologiaDepois da secularização da sociedade, vivemos o tempo da secularização da teologia. Ou então, a dessacralização da religião.

Refiro-me à secularização tão somente como afastamento da essência da espiritualidade e do transcendente das questões do dia. No âmbito da teologia, isso é feito através do enquadramento da fé aos limites da sociologia e da fenomenologia.

É bem verdade que presenciamos o regresso da religião ao espaço público, como um fenômeno social de abrangência mundial. A máxima preconizada por Nietzsche “Deus está morto” parece não ter se confirmado empiricamente, diante da ressurgência da fé e da religiosidade no tempo presente.

No livro God is back os editores da revista Economist, John Micklethwait e Adrian Wooldrige, referem o regresso de Deus ao mundo globalizado, contra todos os prognósticos de filósofos e cientistas que desde o iluminismo pressagiavam o desaparecimento da religião[1], visto que a busca pelo sagrado, “longe de esvanecer, até cobrou um novo ânimo”[2].

Assim, mesmo em condições adversas e restrições à liberdade religiosa em várias partes do globo, a força da fé está a florescer, como é o caso da China, cujo número de religiosos tem se multiplicado, chegando a pelo menos 65 milhões de protestantes e 12 milhões de católicos[3].

O movimento do neoateísmo – capitaneado pelo biólogo inglês Richard Dawkins, até onde é possível notar, igualmente não tem sido capaz de frear o crescimento religioso. Em estudos recentes, Pippa Norris e Ron Inglehart constataram que a despeito da secularização no Ocidente, “no mundo como um todo há mais pessoas com visões religiosas tradicionais do que antes, e elas constituem parte progressivamente da população”[4].

Alguns chamam isso de pós-secularização – a revanche do sagrado. O que é estranho, afinal, paralelamente a essa ressurgência religiosa, há em curso um processo que busca dessacralizar o discurso religioso. No ambiente público, a fé é aceita, conquanto se comporte como uma boa menina, nos limites do politicamente correto.

Vejamos o caso do ensino teológico. Carlos Mendonza-Alvarez nos faz lembrar que hoje o discurso teológico tem grande dificuldade de ser reconhecido no ambiente publico, sendo a objeção principal aquela que diz que “a teologia depende de um preconceito não verificável: a revelação e sua transmissão segundo um princípio de autoridade”[5].

Graças a essa objeção, diz Mendonza-Alvarez, “as novas disciplinas que se concentram na análise do religioso, sem levar em conta a verdade de seu conteúdo, mas seu impacto social, histórico, psicológico e antropológico encontraram um terreno nas universidades modernas e nas sociedades democráticas laicas”.

Consequentemente, ao rejeitar qualquer dogmatismo e a ideia de revelação, esse cenário foi propício para a emancipação da “ciência da religião”, obedecendo a cartilha da perspectiva social e fenomenológica do sagrado. Com efeito, o cientista da religião olha para a religião (e não para o divino) como um objeto de estudo, sem qualquer afeto e com máxima neutralidade (assim pensa).

Surgem, nesse contexto, os teólogos-cientistas da religião. Encaram a fé eminentemente nas perspectivas sociológica, fenomenológica e antropológica, e não mais sob o aspecto espiritual, sagrado. Esse tipo de teólogo é cético por natureza e descrente até prova em contrário.

Ocorre que é esse o perfil que o Ministério de Educação e Cultura espera do teólogo atualmente, a julgar pela DCN (Diretriz Curricular Nacional) do curso publicada em setembro de 2016, e pelo primeiro ENADE (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes) de teologia aplicado em 2015. A análise destes documentos demonstra que há muita sociologia, filosofia, psicologia e antropologia e quase nenhum “estudo de Deus”. Ao que tudo indica, doutrinas são personas non gratas neste novo perfil de teólogo, e o tal “ direito de confessionalidade” parece existir, desde que as confissões estejam alinhadas ao que o MEC entenda correto.

O resumo do que estão querendo fazer com a teologia encontra-se na afirmação do teólogo suíço Hans Küng, cujo texto compôs a questão 29 do aludido exame nacional: “Historicamente, o tema central da teologia gira em torno da figura de Deus. Contudo, o ponto de partida da reflexão teológica é a existência da história, concreta, e, às vezes, trágica, do ser humano que pensa. Uma teologia que abandona decididamente a mentalidade confessionalista de gueto, ainda bastante difundida, é capaz de unir uma ampla tolerância do extraeclesial, do religioso e do simplesmente humano com a reflexão sobre o especificamente cristão”. Desta forma, prossegue Küng, “precisamos encarar a tarefa a partir de óticas múltiplas, dando valor aos pontos de vista de outras ciências”.

Nessa nova versão, portanto, o tema central da teologia não é a “figura de Deus”, e sim a história.

Certamente, os aspectos sociais possuem importância no ambiente do conhecimento. Todavia, a redução da teologia, especialmente a teologia cristã, ao discurso sociológico e fenomenológico desnatura por completo o sentido do “estudo de Deus”, na medida em que Deus, nesse caso, é posto como mero coadjuvante.

Se a teologia transforma Deus em mero coadjuvante do seu estudo, então não há razão para ser chamada por este nome. Um estudo onde são priorizados os efeitos sociais da religião, em detrimento da sua causa principal, que é Deus, talvez deva ser chamado de qualquer outro nome, menos de teologia.

Por, Valmir Nascimento.

REFERÊNCIAS

[1] SANTOS JUNIOR, Aloísio Cristovam dos. Liberdade religiosa e contrato de trabalho: a dogmática dos direitos fundamentais e a construção de respostas constitucionalmente adequadas aos conflitos religiosos no ambiente de trabalho.Niterói, RJ: Editora Impetus, 2013, p. 11,12.
[2] SANTOS JUNIOR, 2013, p. 12.
[3] SANTOS JUNIOR, 2013, p. 12.
[4] NORRIS, Pippa; INGLEHART, Ron apud: D’SOUZA, Dinesh. A verdade sobre o cristianismo: por que a religião criada por Jesus é moderna, fascinante e inquestionável. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2008, p. 27.
[5] MENDONZA-ALVAREZ, Carlos. O Deus escondido da pós-modernidade. São Paulo: É Realizações, 2011, p. 96.




Compreendendo a Graça Preveniente

Compreendendo a Graça PrevenienteNa soteriologia arminiana, a graça preveniente é uma doutrina essencial. Graça preveniente é o termo teológico que explica a forma como Deus capacita o homem previamente para que possa atender ao chamado da salvação. Assim como muitas outras doutrinas bíblicas, a exemplo da Trindade e da depravação total, o termo “graça preveniente” não se encontra expressamente1 nas Escrituras, mas o ensino sim, visto tratar-se de uma categoria bíblica tácita, evidenciada por meio da interpretação sistemática do Texto Sagrado.

A graça preveniente está dentro do retrato maior das Escrituras, a partir da compreensão do trabalho divino para a salvação do homem2. Brian Shelton, com razão, afirma que a teologia sistemática examina cada doutrina à luz do maior testemunho das Escrituras para maior coerência ou correção. “Esta é a melhor maneira de testar a nossa interpretação de qualquer doutrina bíblica, incluindo o de nossa capacidade restaurada a crer em Cristo”3.

Ao captar essa perspectiva H. Ray Dunning aponta, então, que a graça preveniente é “uma categoria teológica desenvolvida para capturar um motivo bíblico central”4. Ela é o resultado da análise cumulativa do texto bíblico, tendo como parâmetro as seguintes verdades: a Queda de Adão; a redenção proporcionada por Deus em Cristo; a incapacidade do homem de, e por si mesmo, voltar-se para Deus; a graça de Deus trazendo salvação a – todos –  os homens; o convite para que o homem se arrependa de seus pecados e creia (tenha fé) na obra de Cristo; a atuação de Deus para o convencimento e preparação do coração do pecador e; a possibilidade de resistência pelo homem.

Uma vez harmonizadas, essas verdades bíblicas deixam entrever a veracidade do conceito teológico da graça preveniente.

Etimologicamente, advém do latim gratia praevenians (prae = antes de + venire = venha), ou seja, “graça que vem antes”. Antes de quê? Antes de qualquer coisa no processo de salvação. Daí porque Jeff Paton recorda que muitos outros termos poderiam ser usados para descrever esta obra de Deus, como iniciativa divina, graça anterior e graça preparatória5.

Em uma definição inicial, portanto, a graça preveniente é o meio pelo qual Deus, antes de qualquer ação humana, atrai graciosamente o pecador e o capacita espiritualmente para que se arrependa e se converta a Cristo. Ela não salva por si só6, mas apenas permite o arrependimento, criando uma condição favorável para que todos venham a crer (João 3.16).

O expositor bíblico Willian Burton Pope afirma que ela “é a única causa eficiente de todo o bem espiritual no homem; do começo, continuação e consumação da religião na alma humana”7. Roger Olson8 expressa que a graça preveniente é a poderosa, porém resistível, atração de Deus para que o pecador se arrependa. Assim, uma pessoa é salva porque Deus iniciou uma relação e habilitou tal pessoa a responder livremente com arrependimento e fé. Desse modo, ninguém pode ser salvo sem o auxílio sobrenatural, do início ao fim, do Espírito Santo, bastando que a pessoa não lhe resista.

Em sua obra Prevenient Grace: God´s provision for fallen humanity, W. Brian Shelton diz que “a doutrina da graça preveniente fornece um link – uma solução – para a lógica desconexão entre a depravação espiritual humana e a necessidade de crer para a salvação”9.

A graça preveniente, portanto, é o meio pelo qual Deus vai ao encontro do pecador para começar a obra da salvação, atraindo-o e capacitando-o espiritualmente para responder à obra divina. Tal doutrina bíblica ensina que em se tratando de salvação é Deus quem toma a iniciativa de chegar-se ao homem caído, e nunca o contrário, reconhecendo ao mesmo tempo tanto a total depravação humana quanto a possibilidade de o homem resistir a essa oferta graciosa.

Nesse sentido, Jacó Armínio tinha um profundo compromisso com a graça divina, e por isso atribuía a ela a causa principal das bênçãos espirituais. O exame das obras do teólogo holandês seria suficiente para afastar qualquer alegação de que ele teria defendido uma salvação baseada no mérito e na capacidade do livre arbítrio do homem. Armínio tinha total convicção bíblica e factual dos efeitos devastadores decorrentes da Queda no pecado e da completa incapacidade do homem de conseguir o favor divino, seja pensar, querer, ou fazer, por si mesmo, o que é realmente bom, necessitando para tanto da benevolência prévia e contínua de Deus.

Em Declarações de Sentimentos ele escreve:

Mas em seu estado de descuido e pecado, o homem não é capaz de pensar, nem querer, ou fazer, por si mesmo, o que é realmente bom; pois é necessário que ele seja regenerado e renovado em seu intelecto, afeições e desejos, e em todos os seus poderes, por Deus, em Cristo, por intermédio do Espírito Santo, para que possa ser corretamente qualificado para entender, estimar, considerar, desejar e fazer aquilo que realmente seja bom. Quando ele é feito participante dessa regeneração ou renovação, considero que, estando liberto do pecado, ele é capaz de pensar, de querer e fazer aquilo que é bom, mas ainda não sem a ajuda continuada da graça divina.10

Desta maneira, atribuo à graça o início, a continuidade e a consumação de todo o bem, de tal forma que, sem a sua influência, um homem, mesmo já estando regenerado, não pode conceber, nem fazer bem algum, nem resistir a qualquer tentação do mal, sem essa graça emocionante e preventiva, que coopera com o homem. Como fica claro a partir desta afirmação, de maneira nenhuma cometo alguma injustiça à graça, atribuindo, como é relatado de mim, uma quantidade excessiva de coisas ao livre-arbítrio do homem. Toda a controvérsia se reduz à solução desta questão: “A graça de Deus é uma certa força irresistível?” Ou seja, a controvérsia não se relaciona às ações ou operações que podem ser atribuídas à graça (pois reconheço e inculco mais dessas ações ou operações do que qualquer outro homem já o fez), mas se refere apenas ao modo de operação, irresistível ou não. Com relação a este tópico, creio eu, de acordo com as Escrituras, que muitas pessoas resistem ao Espírito Santo e rejeitam a graça que lhes é oferecida11.

Armínio reitera o conceito de graça preveniente presente na história da tradição cristã ao defender o favor divino antecedente que coopera com o homem antes mesmo da sua conversão, excluindo qualquer mérito humano. Evidentemente, ele não propõe uma nova doutrina heterodoxa, mas se vale de um conceito teológico tratado anteriormente na história da cristandade, inclusive pelo próprio Agostinho, e por teólogos do período medieval.

O ponto discordante no ensino da graça preveniente entre Armínio e Agostinho está na forma como se responde à seguinte indagação: “A graça de Deus é uma certa força irresistível?”. Por isso, Armínio é enfático ao dizer que “a controvérsia não se relaciona às ações ou operações que podem ser atribuídas à graça (pois reconheço e inculco mais dessas ações ou operações do que qualquer outro homem já o fez), mas se refere apenas ao modo de operação, irresistível ou não”12.

Assim, enquanto a teologia agostiniana e calvinista responde de forma positiva à pergunta formulada, para dizer que a graça preveniente é irresistível, Armínio sustenta à luz das Escrituras que a resposta a tal indagação é negativa, sendo a graça preveniente resistível, podendo o homem rejeitá-la.

Em sua perspectiva, conforme escrito em sua Declaração de Sentimentos, “a graça é branda e se mescla com a natureza do homem, para não destruir dentro dele a liberdade da sua vontade, mas para lhe dar uma direção correta, para corrigir a sua depravação, e parar permitir que o homem possua as próprias noções adequadas”13.

O teólogo holandês é enfático em afirmar que a Queda afastou o homem de Deus, colocando-o em uma “condição de aprisionamento da vontade”. Agora, “a mente do homem é escura, destituída do conhecimento salvífico de Deus e, de acordo com o apóstolo Paulo, incapaz de alcançar as coisas que pertencem ao Espírito”14 pelo seu próprio esforço. Disso resulta a perversidade das afeições do coração, passando a buscar o que é mal.

Em tal condição, o homem não pode agradar a Deus (Romanos 8.7,8), pois o seu coração é, segundo as Escrituras, “enganoso e perverso”, “duro” e de “pedra” (Jeremias 13.10; Jeremias 17.9; Ezequiel 36.26), cuja imaginação é “só má continuamente” desde a meninice (Gênesis 6.5; 8.21). Logo, estando o homem morto em pecado (Romanos 3.10-19), segue-se que a “nossa vontade não é livre desde a primeira Queda; ou seja, ele não é livre para o bem, a menos que seja libertado pelo Filho, por meio de seu Espírito”.15 Isso ocorre quando:

(…) uma nova luz e o conhecimento de Deus e de Cristo e da vontade divina são acesos em sua mente; e quando novas afeições, inclinações e deslocamentos que estão de acordo com a vontade de Deus são incitados em seu coração, e novos poderes são produzidos nele; acontece que, sendo liberto do império das trevas e tendo sido feito agora ‘luz do Senhor’ (Efésios 5.8), ele compreende o verdadeiro bem que pode salvá-lo16.

Consequentemente, essa renovação altera completamente a condição humana e a sua capacidade de escolha. Uma vez que a dureza do coração de pedra é transformada em maciez da carne, e a Lei de Deus de acordo com a aliança da graça é inscrita nele (Jeremias 31.32, 3), o homem passa a abraçar aquilo que é bom, justo e santo.

Armínio, então, sublinha com vivas cores que “o início da obra de qualquer boa coisa assim como o seu progresso, continuidade e com e confirmação, e ainda além, a perseverança no bem não vêm de nós mesmos, mas de Deus, por meio maravilhoso Espírito Santo, uma vez que ‘aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo’ (Filipenses 1.6)”17. Ele atribui importância tanto à graça subsequente quanto à graça preveniente, ao dizer:

A graça subsequente ou a graça que vem a seguir assiste, de fato, o bom propósito do homem; mas esse bom propósito não teria existência, exceto por meio da graça precedente ou antecipada; e embora o desejo do homem, chamado bom, possa ser assistido pela graça logo que nasce, ainda sim, ele não nasce sem a graça; é inspirado por aquele sobre quem o apóstolo Paulo nos escreve, dizendo: ‘Graças a Deus, que pôs a mesma solicitude por vós no coração de Tito’. É Deus que incita qualquer um a ter ‘solicitude’ por outro; Ele colocará no ‘coração’ de outra pessoa o mesmo sentimento de ‘solicitude’ por Ele”18.

Logo se vê que a teologia arminiana está encharcada da graça de Deus, seja antes ou depois da decisão do homem, como causa interior da salvação. É, portanto, a graça preveniente que restabelece o arbítrio no homem, a fim de poder entregar-se a Cristo. Nesse sentido, para Armínio a liberdade cristã é o estado de plenitude de graça e verdade em que os crentes ao colocados por Deus, por intermédio de Cristo. A causa eficiente é Deus, que exibe essa liberdade, mas depende do recebimento por parte do homem, mediante a fé em Cristo (João 1.12; Romanos 5.2; Gálatas 3.26)19.

Por, Valmir Nascimento.

NOTAS  E REFERÊNCIAS

1 SHELTON, Brian W. Preveniente Grace: God’s Provision for fallen humanity. Indiana: Francis Asbury Press, 2014, posição 3443.
2 SHELTON, 2014, posição 3443.
3 SHELTON, 2014, posição 3443.
4 SHELTON, 2014, posição 3475.
5 PATTON, Jeff. Preveniente Grace. Disponível em: <http://www.eternalsecurity.us/prevenient_grace.htm&gt;. Acesso em 10 de maio de 2016.
6 SHELTON, 2014, posição 106.
7 POPE, Willian Burton. Apud: PATTON, Jeff.
8 OLSON, Roger. Teologia Arminiana: mitos e realidades. São Paulo: Editora Reflexão, 2013, p. 212.
9 SHELTON, 2014, posição 313.
10 ARMÍNIO, Jacó. As Obras de Armínio. Vol. 1. Rio de Janeiro: CPAD, 2015, p. 231.
11 ARMÍNIO, 2015, p. 232.
12 ARMÍNIO, 2015, p. 232.
13 ARMÍNIO, 2015, p. 209.
14 ARMÍNIO, 2015, p. 473.
15] ARMÍNIO, 2015, p. 475.
16 ARMÍNIO, 2015, p. 475.
17 ARMÍNIO, 2015, p. 476.
18 ARMÍNIO, 2015, p. 477.
19 ARMÍNIO, 2015, p. 536.




Aspectos da Teologia Sistemática

Aspectos da Teologia SistemáticaA Teologia divide-se em quatro áreas de estudo, a saber: Teologia bíblica, Teologia sistemática, Teologia histórica e Teologia Contemporânea. Cada uma com aspectos e peculiaridades inerentes que ensinam e encantam, e quando mal utilizadas também enganam. Destacando a Teologia Sistemática, que consiste numa compreensão ordenada, lógica e coerente, extraída da Bíblia com séria hermenêutica e boa exegese.

Na Teologia Sistemática estudam-se os grandes temas e doutrinas da Bíblia. Ao todo, temos dez doutrinas que são focalizadas neste âmbito, as quais são: Bibliologia, Teologia (ou Teontologia), Cristologia, Pneumatologia (ou Pneumagiologia), Antropologia, Hamartiologia, Soteriologia, Eclesiologia, Angelologia e Escatologia.

Agora vejamos alguns dos seus aspectos interessantes que são deveras pertinentes: das dez doutrinas listadas, a única que se for retirada ou desconstruída, as demais não têm sentido, é a Bíbliologia; daí o seu grau de importância (2 Timóteo 3.16-18; Isaías 34.16; João 5.39).

  • Há três doutrinas que são inseparáveis. Quando uma aparece na Bíblia, geralmente as outras duas também estão lá, que são as Hamartiologia (doutrina do pecado), Soteriologia (Salvação) e Escatologia (últimas coisas). Notável é que cada uma se refere a uma esfera de tempo: o pecado (passado), a salvação (presente) e as últimas coisas (futuro). (Ex.: Hebreus 12.14,15).
  • Das dez doutrinas, apenas quatro não envolvem seres humanos; independem dos homens. São elas: Deus, Cristo, Espírito Santo e Anjos – respectivamente Teontologia, Cristologia, Pneumagiologia e Angelologia.
  • Destas dez doutrinas, cinco referem-se a seres, indivíduos; e cinco referem-se a temas. As do primeiro grupo são: Teontologia, Cristologia, Pneumagiologia, Antropologia e Angelologia; as do segundo são: Bíbliologia, Hamartiologia, Soteriologia, Eclesiologia e Escatologia.
  • A única doutrina que envolve o futuro e que não ocorreu plenamente ainda é a Escatologia.
  • A única doutrina que nos faz “entender” todas as demais é a do Espírito Santo – Pneumatologia ou Pneumagiologia.
  • A doutrina mais polêmica, com mais divergências e especulações é a das últimas coisas – Escatologia. Ela também é a que mais gera despertamento, santificação, humildade e produtividade (1 João 3.2-3).
  • A doutrina que nos deixa mais tristes é a do pecado; porém, a que mais nos alegra é a da Salvação (Salmo 51.12).
  • A doutrina que mais é criticada pelo mundo é a Eclesiologia – doutrina da Igreja (Tiago 4.4).

Enfim, são muitos os aspectos desta tão fascinante “Rainha das Ciências”, que é a Teologia Sistemática. Há no mercado uma enorme variedade de livros e volumes de Teologia Sistemática, inclusive a CPAD dispõe de um considerável número delas; Teologia de boa qualidade, de autores nacionais e estrangeiros.

Prossigamos em conhecer o Senhor (Oséias 6.3; João 26.14; Salmo 119), e que nossa dedicação em estudar a Palavra de Deus esteja revigorante. Se o leitor interessa-se em memorizar as dez doutrinas na ordem, aqui vai uma frase que as inclui: “A Bíblia nos revela Deus, que nos enviou Seu Filho, para que pela atuação do Espírito Santo, o homem, sendo convencido do pecado, seja salvo, pertença a uma igreja e semelhante aos anjos venha morar com o Senhor após o fim de todas as coisas”. Observe que esta frase resume e sintetiza o plano da Salvação. Quando se vai estudar Teologia, é necessário que se parta dos fundamentos, pois tais como nas ciências exatas como matemática e física, é a base que direciona os cálculos, e uma coisa puxa a outra.

Comecemos no leite racional (1 Pedro 2.2), e progridamos ao alimento sólido (Hebreus 5.12-14). Exercitando-nos na carreira cristã (Filipenses 3.13,14; Hebreus 12.1,2; Gálatas 5.7). Lembrando-nos sempre de Lucas 12.48: “a quem mais é dado, maior será cobrado”. A Ele seja sempre a glória (Romanos 11.33-36). Amém!

Por, Chrystian S. Benigno.




Desafios de hoje para a evangelização

Desafios de hoje para a evangelizaçãoNas últimas três décadas, parece-me, que a questão da busca do crescimento numérico das igrejas e do entendimento desse crescimento como um sinônimo de sucesso se fortaleceu. Essa busca, pelo crescimento da igreja local ou da denominação, é uma preocupação humana, horizontal, por vezes política e econômica. Mas que se entrelaça com a Missio Dei, com a Grande Comissão, que são bíblicas e atemporais, e estão na agenda de Deus. Podemos nos perguntar: Como lidar com essa dicotomia? Quais são os desafios contemporâneos à evangelização? Como lidar com eles?

Em resposta, quero destacar primeiramente que um dos desafios contemporâneos à evangelização e crescimento de igreja é superar a influencia das práticas mercadológicas; pois como afirma o filósofo Michael Sandel “o mercado invadiu áreas que antes não lhe pertenciam”. Não é por coincidência que o profissionalismo eclesiástico (que em si é positivo) tem crescido tanto, somado à popular prática de pagamento de cachês altíssimos para pregadores/palestrantes, cantores, artistas, etc., que as igrejas têm investido tanto em marketing denominacional, que surge constantemente um novo evento de capacitação para líderes apresentando métodos de crescimento brilhantes, incríveis, milagrosos.

Outro aspecto que destaco é o da cultura. Conhecer, entender e lidar com a cultura de uma comunidade sempre é desafiador, porque isso implica em respeitar o ritmo de vida local, a maneira como os relacionamentos são construídos e os costumes. Conhecer a cultura é um pré-requisito para se alcançar uma comunidade. Além disso, este reconhecimento da cultura local precisa ser feito para não nos inclinarmos à colonização ao invés da evangelização e também com o fim de descobrir necessidades que a igreja local pode suprir através do serviço.

Importa enfatizarmos a relevância do anúncio da mensagem do Reino de Deus. Há muitas denominações que ao invés do Evangelho de Cristo anunciam a si mesmas, os seus métodos, sua visão de trabalho e suas doutrinas (nem sempre bíblicas). E isso, com o tempo, gera e tem gerado muita frustração e desligamento de inúmeras pessoas. E, por conseguinte, muitos, fecham-se para Deus. Isso é tão evidente que já os desigrejados se tornaram estatística do IBGE.

Mediante a isso, afirmo que o grande desafio da evangelização é pregar o Evangelho de forma que a mensagem gere reconciliação entre Deus e o homem, entre o homem e si mesmo, entre o homem e seu próximo e o meio em que vive.

Porém, também é necessário capacitar os membros da igreja para cooperarem na evangelização. Para isso é necessário definir, apresentar e ensinar os valores, princípios e prioridades que norteiam as iniciativas eclesiásticas. Tais princípios precisam ser bíblicos, mas podem ser formados segundo a identidade da igreja local. É necessário que sejam apresentados de maneira compreensível e que funcionem como filtros no momento de escolhas das atividades e projetos missionários.

Tal capacitação pressupõe também o ensino da Palavra. Atualmente, muitos cristãos aprenderam a convidar as pessoas para irem a um evento na igreja e desaprenderam a testemunhar sua fé em Cristo. Assim, o ensino de Palavra é central para o desenvolvimento das habilidades dos membros da igreja na evangelização. Pois este conhecimento é pré-requisito para o testemunho pessoal. Pois, como alguém pode testemunhar uma mensagem, um Evangelho, uma Palavra que mal conhece?

É preciso também promover a motivação entre os membros da igreja, fomentando a visão missionária da igreja local através do ensino sobre discipulado. Reforçamos: capacitar a igreja para evangelização pressupõe formar discipuladores, pois não é possível formar um discípulo de Cristo apenas com uma cruzada, um evento ou uma única abordagem evangelizadora.

A tarefa da igreja não é encher o templo, mas reconciliar as pessoas com Deus, abraçá-las, inseri-las na comunhão, dar oportunidade de crescimento, oferecer apoio na trajetória cristã, ensinar “todas as coisas que Jesus ensinou” e isso é um processo de longo prazo.

Hoje, pastores, líderes e igrejas engajados no processo de evangelização precisam superar as influencias mercadológicas, conhecer e lidar com a cultura local, pregar o Evangelho de Jesus Cristo, capacitar os membros da igreja para colaborarem na ação missionária através do estabelecimento de princípios e valores, do ensino da Palavra e da formação de discipuladores.

Por, Flavianne Vaz.




O verdadeiro conhecimento de Deus

O verdadeiro conhecimento de DeusA revelação de Deus está relacionada com o conhecimento humano, mas de uma forma que essa revelação jamais coincidirá 100% com as expectativas que o homem possa ter a propósito da divindade. Quando Deus se comunica com o homem, este fica diante de um paradoxo, diante de uma crise, que nunca poderá ser resolvida em termos humanos.

Quando o homem se encontra face a face com o Senhor, é concedido que diga “não” a Deus e, nesse caso, avançará em direção à morte espiritual; ou então, ele dirá “sim” a Deus, e será transformado num novo homem.

Na questão da busca por conhecimento, precisamos compreender o mecanismo de raciocínio e como ele funciona. Na ciência e na filosofia, o homem raciocina de duas maneiras: em termos do sujeito (aquele que raciocina) e em termos do objeto (aquilo sobre o que o sujeito exercita o raciocínio). Isso nos leva à distinção que se faz entre pensamento objetivo e pensamento subjetivo.

Pensamento objetivo é um pensamento limitado e também verificado pela existência do objeto. Aquele que exercita o pensamento objetivo não interfere na disposição dos fatos, deixando que eles falem por si mesmos. A ciência e a filosofia procuram ressaltar bastante o valor do pensamento objetivo. Pensamento subjetivo refere-se ao fato de que se pode pensar à base dos sentimentos cultivados, com desprezo para com os fatos.

Quando a Igreja pensa em termos objetivos, ela entende com isso que a revelação consiste de verdades que Deus revelou aos homens mediante a Bíblia e à Igreja. Mas, aqui encontramos um perigo: o Diabo pode citar textos das Escrituras com precisão e muita habilidade e usá-la para distorcer a verdade da revelação. Quando a Igreja pensa de forma subjetiva, procura ressaltar a importância da experiência íntima do homem, ou seja, a importância da “fé”, e chama os homens para que contemplem introspectivamente, a fim de que possam se inteirar da existência de uma verdade viva que não poderia ser observada jamais por vias objetivas. Mas, também aqui temos um perigo: no subjetivismo, cada indivíduo se torna a si mesmo como autoridade última para descoberta da verdade e, em consequência, a Igreja se expõe à desintegração com o aparecimento simultâneo de revelações que se anulam entre si.

Como resolver esse impasse? Temos então uma alternativa. Nessa alternativa, o pensamento é um processo dialético: atenta tanto para a Palavra de Deus presente na Bíblia como também para o testemunho do Espírito Santo no íntimo do crente.

Voltando-nos para a Bíblia, temos a certeza de que Deus sempre é quem toma a iniciativa em fazer-se conhecido ao homem. Deus não nos revela informações nem doutrinas novas, mas, sim, a Sua própria pessoa afirmada nas Escrituras. Mas, Deus não se revela como sendo, simplesmente, objeto para o exercício do raciocínio. Ele se revela como Pessoa que entra em relacionamento com o homem.

No conhecimento objetivo, a pessoa que exercita o conhecimento nada tem a ver com a coisa que conhece. Nenhuma preocupação vital a prende ao objeto conhecido e à pessoa que o conhece. Esse é o conhecimento científico, onde o cientista é independente em relação aos experimentos que leva a efeito, controlando-os e manipulando-os à vontade.

Esse é o tipo de conhecimento de Jó e seus amigos. Sua teologia era formada em conhecimentos adquiridos de outros. Aprenderam ouvindo falar quem era Deus e da forma como Ele agia. Eles, por sua vez, perpetuaram esse conhecimento de forma sistematizada, metódica e científica. Na verdade, não possuíam nenhum envolvimento pessoal com o objeto de seus conhecimentos. Fizeram experimentos sobre a ação de Deus e chegaram a suas próprias conclusões.

É possível mantermos um conhecimento desse tipo em relação a uma pessoa. Podemos observá-la, procurando informações a seu respeito; podemos fazer uma relação das características que nela descobrimos e, assim, chegaremos a classificar essa pessoa dentro de categorias pertinentes: calma, confiável, chata, fofoqueira, atenciosa, santa etc.

Assim como procedemos para com as pessoas que nos cercam, agimos de igual forma para com Deus. Fazemos uso desse conhecimento intelectual, científico, para com Ele. Podemos classificá-lO tendo por base Suas características (i.e., como se apresenta); Suas ações (i.e., o que faz) e com base nas Suas expressões (i.e., aquilo que diz). É isso a que se propõe a Teologia, quando apresenta quem Deus é. Ela apresenta Deus compartimentalizado, dividido em secções, como (só a título de comparação) um legista que estuda a causa mortis de alguém.

Mas, existe outra maneira pela qual conhecemos uma pessoa. É quando a pessoa deixa de ser um “isso”, uma “coisa”, um “objeto”, para ser um “tu” para nós. Ela se revela não apenas com informações sobre si, mas comunicando-se e relacionando-se conosco. Dessa forma, estabelece-se uma comunhão entre duas individualidades. Não haverá mais aquela disposição pela qual alguém fica como observador, à distância, procurando informações. Em vez disso, temos aqui uma aproximação, um contato, um compartilhamento de tal forma que aquele que passou a conhecer a outra pessoa sente-se mudado no mais profundo de seu ser pelo fato de ficar conhecendo e dar-se a conhecer pela comunicação estabelecida com a pessoa considerada. É erro crasso supor que possamos obter plenamente conhecimento objetivo de Deus. Que possamos conhecê- -lO simplesmente dividindo-O em partes e analisando-O como um cientista faz. Isso implicaria conceber que Deus está plenamente ao alcance de nossas faculdades e pode ser retido, controlado e manipulado por nós.

Acontece que Deus só se faz verdadeiramente conhecido mediante o estabelecimento da relação que se expressa em termos de “eu-tu”. Mediante a experiência do “eu-tu”, nós nos aproximamos reciprocamente e nos comunicamos com espontaneidade, dando-nos sem reservas. É próprio dessa relação o fato de nos impossibilitar definitivamente de possuir, controlar ou manipular o outro.

Jó passa por essa transição: do conhecimento objetivo para o conhecimento subjetivo. Chega um determinado momento que ele não consegue entender a atitude de Deus, exatamente por ela contradizer o seu conhecimento objetivo, intelectual, o seu “ouvir dizer” sobre Deus.

Jó entendia que o sofrimento era resultado do processo de causa e efeito, portanto sempre procurava no passado uma causa para o efeito presente ou atual do sofrimento. Juntamente com seus amigos, procurava levar as pessoas a reconhecerem seus erros e pecados, arrependerem-se para então se livrarem do sofrimento.

Mas, acontece que agora Jó está sofrendo e não vê causa para isso. Sua teologia, sua maneira de entender Deus, cai por terra. Deus se apresenta de uma forma totalmente contrária e em desarmonia com tudo o que tinha ouvido e aprendido sobre Ele. O relacionamento de Jó e de seus amigos com Deus estava na relação “eu-isso”, um conhecimento meramente intelectual, onde pensavam que podiam controlar Deus, bem como Suas ações.

Não podemos possuir abarcar nem manter Deus limitado aos nossos credos. Deus permanece livre. A revelação não é algo que nos dê algum conhecimento pleno de Deus; propriamente, a revelação é Deus mesmo que se nos dá. Deus tem dado o passo; tem se mostrado, se comunicado. Deus tem de se comunicar, pois só Deus pode revelar Deus.

Segundo a filosofia, nós pensamos sobre Deus objetivamente; nesse caso, Deus fica com se fosse um “isso”, isto é, um objeto cuja existência ou não existência pode ser debatida. Acontece, porém, que o Deus da revelação cristã não pode ficar à mercê de uma discussão assim, para ser aceito ou rejeitado sem maiores consequências. Na verdade, o conhecimento de Deus determina mudanças nas profundezas do ser individual, capaz de renovar a personalidade.

Estamos vivendo hoje uma situação semelhante a dos dias de Jó. Muitos conhecem Deus somente de ouvir falar. Temos preservado um conhecimento intelectual de quem é Deus e de como Ele age em nós. Vivemos do Deus de nossos pais, do Deus da Teologia ou das muitas filosofias que nos cercam. Como Jó, estamos nos orgulhando de um conhecimento puramente intelectual, científico, de Deus. E Deus quer muito mais do que isso. Ele espera que venhamos manter um relacionamento pessoal com Ele! É imprescindível que nos voltemos para Deus de forma mais pessoal.

Temos tempo para nossos negócios, para nossos filhos, companheiros, amigos, para a própria igreja e não temos tempo para Deus. Não podemos continuar vivendo de um Deus do qual ouvimos falar.Temos que conhecê-lO em um relacionamento pessoal por meio da oração, da Palavra e da obediência.

Precisamos mudar nosso tipo de relação com Deus. Precisamos ter experiências profundas com Ele e não vivermos mais de conhecimentos vazios, que não têm expressões para nossas vidas. Precisamos buscar e nos entregarmos a esse novo relacionamento.

Jó, após sua experiência com Deus, chega à conclusão de que nada sabe do soberano Senhor. Ele compreende sua limitação em conhecer Alguém que está infinitamente acima dele, e isso produz uma mudança profunda e radical nele. Ele se propõe a não falar mais daquilo que não sabe, mas tão somente daquilo que experimentou. Conheceu agora um Deus cujos propósitos ele mesmo não pode compreender e, então, resolve calar-se; não precisa de mais explicações.

Precisamos aprender que nosso relacionamento com Deus vai nos causar profundas transformações, inclusive em nossa busca pelo conhecimento dEle. Temos que entender que Deus é um ser pessoal e que desde o Éden quer manter um relacionamento conosco. Não podemos conhecer a Deus através do conhecimento puramente humano e laboratorial.

Por, Levi B. Libarino.




Pregação: lições de Harry E. Fosdick

Pregação - lições de Harry E. Fosdick“Pregar é um aconselhamento pessoal numa base de grupo”. Essa simples declaração sobre a filosofia do pregar foi articulada por Harry Emerson Fosdick (1878-1969), considerado por muitos nos Estados Unidos um mestre como pregador. Seus sermões atraíam enormes congregações e audiências de rádio.

Ministro batista, ele formou-se no Seminário Teológico União (EUA) em 1904. Fosdick serviu a várias igrejas na área de Nova York e trabalhou como capelão durante a Primeira Guerra Mundial. E rapidamente se estabeleceu como pregador talentoso, capturando até a atenção do magnata do petróleo e filantropo John D. Rockefeller. Na época, Rockefeller foi o principal benfeitor da Igreja de Riverside, uma grande catedral que estava sendo construída na parte rica de Manhattan. Por insistência de Rockefeller, Fosdick se tornou o primeiro pastor daquela igreja em 1926, cargo que ocupou por 20 anos.

Fosdick foi, sem dúvida, um dos pastores e pregadores mais influentes na história americana. Além de pregar várias vezes por semana, ele ensinou sobre pregação no Seminário Teológico União, escreveu 47 livros e centenas de artigos em revistas. Ele ministrou sermões no “National Vespers Hour” da rede NBC, que foi ao ar por 19 anos em rádio de ondas curtas para 17 países. Fosdick foi capa da revista “Time” em 1925 e 1930.

Em 1928, Fosdick escreveu um ensaio para a revista “Harper” intitulado: “Qual é o problema com a pregação?”. Publicado em julho do mesmo ano, o artigo incluiu 12 observações atemporais sobre pregação:

1) “Há muitos sermões medíocres” – Nos dias de Fosdick, como no nosso, muitos sermões eram esquecíveis. Fosdick lamentou o sermão medíocre e desinteressante, dizendo: “Ele produz o efeito de vazio e futilidade, em grande parte porque não estabelece nenhuma ligação com os verdadeiros interesses da congregação”. A observação de Fosdick deve ser uma chamada de despertamento para cada ministro que serve a uma congregação. Às vezes, os pastores desconhecem as necessidades de seus congregados e suas circunstâncias de vida. Eles perdem de vista as preocupações vitais dos membros, que vêm esperando ouvir palavras inspiradas. Fosdick escreveu: “É patético observar o número de pregadores que comumente, no domingo, apresentam apenas peças religiosas no púlpito, não estabelecendo absolutamente nenhum contato real com o pensamento ou interesses práticos de seus ouvintes”.

2) “Todo sermão deve ajudar os ouvintes a resolver algum problema” – Fosdick defendeu que um sermão que aborda as necessidades reais demonstra a relevância do Evangelho. “Todo sermão deve ter como seu principal objetivo a resolução de algum problema. Um problema importante e vital intriga mentes, sobrecarrega consciências”, disse Fosdick. “Qualquer sermão que enfrenta problemas reais, que joga luz sobre eles e ajuda as pessoas praticamente a encontrar seu caminho através deles não pode ser desinteressante”.

3) “O tema deve ser identificado precocemente no sermão” – Ouvintes querem saber de antemão onde o sermão está indo. As declarações de abertura devem captar a sua atenção e convencê-los a continuar a ouvir. Fosdick escreveu: “No primeiro ou segundo parágrafo depois de iniciar um sermão, todos da congregação devem já perceber que o pregador está abordando algo de vital importância para eles. (…) Eles devem ver que ele está envolvido em um esforço sério e prático para indicar de forma justa um problema que realmente existe em suas vidas e, em seguida, lançar luz sobre o que eles devem fazer”.

4) “Abordar as necessidades das pessoas é a principal tarefa do pregador” – Pessoas nos bancos acham sermões interessantes quando suas necessidades e preocupações são abordadas. “Qualquer pregador que, mesmo com habilidade moderada, ajuda pessoas a resolver biblicamente os seus problemas reais está sendo eficiente”, disse Fosdick. “Ele pode não ter eloquência nem aprendizado, mas está fazendo a única coisa que é o ‘negócio’ do pregador. Ele está produzindo para a comunidade aquilo que ela tem o direito de esperar do púlpito, tanto quanto ela tem o direito de esperar sapatos de um sapateiro. E se algum pregador não está fazendo isso, mesmo tendo erudição e boa oratória, não está sendo eficiente”.

5) “Seja cuidadoso quando ministrar uma pregação expositiva” – Fosdick alertava que mensagens expositivas que se fixam longamente em aspectos históricos ou questões bíblicas triviais podem perder a atenção da maioria dos ouvintes. A menos que os congregantes vejam nesses aspectos levantados alguma maneira de aplicar aquela mensagem em suas vidas, eles provavelmente não irão se importar com tantos detalhes. “As pessoas não vêm à igreja desesperadamente ansiosas para descobrir o que aconteceu com os jebuseus”, disse Fosdick.

6) “Deixe a Bíblia lançar luz sobre a vida moderna” – Fosdick acreditava que a Bíblia tem grande poder para orientar as pessoas de todas as gerações. “Ela tem luz para derramar sobre todos os tipos de problemas humanos agora e sempre”, disse Fosdick. “O que todos os grandes escritores da Bíblia estavam interessados era com o viver humano, e o pregador moderno que honra-os deve começar com isso, deverá visualizar claramente alguma necessidade real, pecado, perplexidade ou desejo em seus ouvintes e, em seguida, deverá lançar no problema toda a luz que ele pode encontrar nas Escrituras. (…) A Bíblia é um holofote que joga luz sobre áreas escuras”.

7) “Conheça o seu público” – Dos políticos aos pregadores, os comunicadores mais eficazes conhecem seu público. Fosdick exortou os pastores a se aproximarem das pessoas e entenderem as lutas que elas enfrentam no seu dia-a-dia. “Um pregador sábio pregará seu sermão não como um mero monólogo dogmático, mas como um diálogo em que todos os tipos de coisas na mente da congregação – objeções, perguntas, dúvidas e confirmações – serão trazidas para a frente e serão razoavelmente tratadas. Isso requer clarividência da parte do pregador em relação ao que as pessoas estão pensando”.

8) “Apreciar a diferença entre um ensaio e uma sermão” – Fosdick disse também que muitos sermões apelam para o intelecto sem se preocupar com as emoções. “Aqui jaz uma distinção básica entre um sermão e um ensaio”, escreveu Fosdick. “Uma grande quantidade de nossas pregações consiste em discursos analíticos puros, até pertinentes a problemas reais e, muitas vezes, bem concebidos e tais sermões não são sermões, mas ensaios acadêmicos. Pode-se pregar sobre arrependimento sem fazer qualquer um se sentir tocado a se arrepender, ou discursar sobre paz sem produzir esse artigo valioso no coração dos ouvintes. Por outro lado, um verdadeiro pregador (…) faz mais do que discutir um assunto; ele produz a coisa em si nas pessoas que a ouvem”.

9) “O objetivo da pregação é a mudança na vida das pessoas” – Transformação deve ser primordial na mente de cada pessoa que prepara um sermão. Infelizmente, porém, isso nem sempre é o caso. Fosdick lamentou a pregação de seus dias, que não trazia nenhum resultado. “Frequentemente, leio sermões modernos com espanto”, disse Fosdick. “Como é que os pregadores esperar produzir qualquer coisa na vida das pessoas com tais discursos? (…) Eles produzem ensaios, o que significa que estão principalmente preocupados com a elucidação de um tema. Se eles estivessem produzindo mesmo sermões, estariam essencialmente preocupados com a transformação das pessoas”.

10) “A pregação efetiva capacita as pessoas” – Um sermão eficiente é aquele que move os ouvintes a refletir, agir, mudar e buscar mais conhecimento e ajuda. Diz Fosdick: “As pessoas devem habitualmente vir até você após o sermão não para oferecer algum elogio sem graça, mas para dizer: ‘Como você sabia que eu estava enfrentando esse problema nesta semana?’ ou ‘Creio que você poderá me ajudar. Posso falar com o senhor à parte?’. Este é o teste final de um sermão: quantos indivíduos desejam, após o sermão, conversar com o pregador à parte sobre o significado daquela mensagem para as suas vidas?”.

11) “A pregação é desafiadora, mas gratificante” – Aqueles que estão comprometidos com a excelência na pregação sabem que a cada semana essa tarefa inclui horas de pesquisa, escrita, reescrita e ensaio mental. Consciente dos desafios, Fosdick também lembrou aos pregadores as recompensas: “Claro, a pregação não é fácil. (…) Mas, apesar de todo alto trabalho que envolve a pregação, ela pode ser tão emocionante que renovará as forças do pregador assim como a boa agricultura renova o solo que ela usa”.

12) “Os pregadores medíocres podem melhorar” – Fosdick sustenta que os ministros podem melhorar como pregadores. “Ninguém precisa pregar sermões desinteressantes”, disse ele. “A culpa geralmente não reside na qualidade essencial da mente ou do caráter do homem, mas em seus métodos equivocados”. Ministros de hoje podem aprender muito com os homens e mulheres de Deus que vieram antes deles. Sabedoria adquirida a partir do passado pode ajudar a transformar vidas hoje.

Por, Enrichment Journal.




Saul e Saulo: as diferentes escolhas

Saul e Saulo - as diferentes escolhasA Bíblia tem como mensagem principal a proclamação da graça de Deus, demonstrada na história humana tanto no Antigo como no Novo Testamentos. Esta graça é um dom gratuito e imerecido, dado ao homem sem trabalho nem merecimento. Todo homem recebe alguma medida dela. Alguns se abrem a esse favor divino e são beneficiados por não resistir à Sua ação. Outros, porém, abandonam a graça, preferindo confiar em sua própria justiça ou buscar o favorecimento que vem dos homens.

Podemos observar essas diferentes atitudes de receptividade quanto à graça divina em dois homens que viveram em tempos distintos, mas que pertencem a uma mesma tribo de Israel, a tribo de Benjamim, e que receberam o mesmo nome ao nascer: Saul.

O primeiro Saul foi o homem que Deus chamou para ser o rei que inauguraria a monarquia em Israel. Esse monarca foi alcançado pela graça divina de uma forma extraordinária. O Senhor deu a ele uma oportunidade de resgatar a honra de seu povo, os habitantes da pequena cidade de Gibeá, localizada no território da tribo de Benjamim, a cinco quilômetros ao norte de Jerusalém.

Em cerca de 1050 a.C., época em que os juízes governavam Israel, os habitantes desta cidade cercaram a casa onde estava hospedado um levita que ali resolveu pernoitar, exigindo que o dono da casa o trouxesse para fora para que eles tivessem relações homossexuais com ele. Não conseguindo, contentaram-se em abusar da sua concubina durante toda a noite, levando-a à morte. O levita, indignado, esquartejou a mulher e espalhou os pedaços pelas demais tribos, causando um furor que culminou em guerra civil e chacina, da qual somente sobraram quatrocentos rapazes de Gibeá. Para que esta tribo, agora reduzida a estes poucos habitantes, não fosse exterminada, foi permitido que eles casassem com as moças de Jabes-Gileade, sobreviventes de outra chacina (Juízes 19-21).

Saul era herdeiro desta vergonha e seu pai, chamado Quis, ou seu avô, Abiel, deveria ser um dos quatrocentos rapazes sobreviventes de Gibeá. Deus, por sua graça, colocou aquele homem como cabeça da nação, elevando a sua tribo e a sua cidade à primazia. Uma linda expressão da graça que restauraria o nome e a honra desta família de uma maneira que eles jamais poderiam fazer por si mesmos.

Porém, Saul livremente escolheu rejeitar a Deus, preferindo agradar o povo. Ele desobedeceu à palavra do Senhor que lhe foi entregue pelo profeta Samuel, por medo de perder o apoio popular. Talvez a ideia de não ser aceito e aclamado pelo povo fosse terrível para alguém que viveu sempre debaixo da vergonha de sua história. Saul foi substituído por outro rei, que fosse obediente a Deus, e esta segunda dinastia foi abençoada para sempre. Este primeiro Saul resistiu à graça divina e perdeu a oportunidade que Deus lhe deu, por sua escolha.

O segundo Saul (esse é seu nome no Novo Testamento grego) nós o conhecemos por Saulo de Tarso ou pelo nome romano: Paulo. Ele foi igualmente alcançado pelo favor divino, quando teve um encontro com Jesus na estrada de Damasco (Atos 9.3-8).

Saulo foi um inimigo da igreja, apoiou o martírio de Estevão e levou muitos cristãos à prisão. Não satisfeito com isso, foi a Damasco para prender os cristãos que se encontravam ali. Era um religioso sedento de violência, que usaria a força para alcançar seus objetivos. Ele declara acerca de si mesmo: “Fui blasfemo, e perseguidor, e opressor” (1 Timóteo 1.13). Saulo construiu uma fama de perseguidor dos cristãos.

No entanto, Cristo o chamou para ser “um vaso escolhido”, para se tornar o primeiro missionário e o maior escritor do Novo Testamento, aquele a quem seria dada a maior revelação sobre a graça de Deus. Paulo não rejeitou essa graça, mas abraçou-a com fé. Ele diz: “Pela graça de Deus sou o que sou” (1 Coríntios 15.10). Por não resistir à ação da graça, e capacitado por ela, pôde aceitar a oferta de Cristo para salvação. Paulo foi salvo e tornou-se o apóstolo dos gentios, pois escolheu aceitara a oferta da graça divina.

Ele reconhece que foi chamado pela graça (Gálatas 1.15), que foi justificado gratuitamente por ela (Romanos 3.24) e que, por ela, foi liberto do domínio do pecado (Romanos 6.14). Porém, ele exorta aos crentes que não recebam a graça em vão (2 Coríntios 6.1) e afirma que alguns caíram da graça (Gálatas 5.4), quando se afastaram de Cristo e negaram a total dependência dEle para sua salvação.

Os arminianos creem que a graça de Deus alcança a todos os homens, mas também creem que ela é resistível. A Declaração dos Remonstrantes, documento formulado pelos teólogos que deram continuidade à doutrina defendida por Jacó Armínio, na Holanda, no seu artigo 4, diz: “Que esta graça de Deus é o começo, a continuação e o fim de todo o bem; de modo que nem mesmo o homem regenerado pode pensar, querer ou praticar qualquer bem, nem resistir a qualquer tentação para o mal sem a graça precedente (ou proveniente) que desperta, assiste e coopera. De modo que todas as obras boas e todos os movimentos para o bem, que podem ser concebidos em pensamento, devem ser atribuídos à graça de Deus em Cristo. Mas, quanto ao modo de operação, a graça não é irresistível, porque está escrito de muitos que eles resistiram ao Espírito Santo”.

John Wesley, seguindo o entendimento bíblico arminiano, pregava que a graça proveniente habilita o homem a crer, e o poder para usá-la também vem de Deus, de modo que todo homem está debaixo dos privilégios e responsabilidades da graça. Ele afirma que “não existe nenhum homem que é totalmente destituído da graça de Deus, a não ser que ele tenha extinguido o Espírito”.1 Também declara que “todos, em alguma medida, têm aquela luz, algum tímido raio reluzente que, cedo ou tarde, mais ou menos, ilumina todos os homens que vêm ao mundo”. Para ele, a graça não é o poder irresistível de Deus que vence a vontade do homem, mas a mão amorosa de um Pai que capacita o menino a usar os recursos que previamente este Pai lhe havia dado. O pai do Metodismo sustentava que a ação de Deus não é irresistível, mas que Deus deixa ao homem a possibilidade de aceitar ou rejeitar a graça.

Wesley pregava que somente a livre graça de Deus capacita os homens a crerem. Ele explica em uma carta: “Sustento de forma fervorosa que todo homem pode crer se quiser e, contudo, nego totalmente que ele pode crer quando quiser”.2 O homem precisa responder ou cooperar com esta graça, embora “responder ou cooperar deve ser antes de tudo um receber – quase de forma passiva”.3 Ou seja, estender a mão para receber não pode ser visto como “obra” humana, mas como uma mera não resistência à ação graciosa do Espírito Santo.

A Bíblia é cheia de exemplos de pessoas desprezando a graça de Deus oferecida a eles, desde o Antigo Testamento (Isaías 5.1-7; 2 Reis 17.7-23; Jeremias 25.311; 26.1-9; 35.1-19; 2 Crônicas 36.15-16; Neemias 9.20; Salmos 78.40-42; Ezequiel 24.13; Zacarias 7.11-14). O Novo Testamento também fornece exemplos da resistibilidade da graça (Atos 7.51-53; Lucas 7.30). Jesus falou às pessoas com o objetivo de salvá-las (João 5.34), mas declarou que muitas delas se recusavam a vir a Ele para ter vida (João 5.40). Ele declara que nem todos acreditavam nele, e lamentou a falta de vontade de Seu povo para receber a Sua graça (Lucas 13.34; Mateus 23.37).

O rei Saul e o apóstolo Saulo foram alcançadas pela graça de Deus. Um rejeitou-a, por sua escolha, e perdeu a maravilhosa oportunidade dada por Jeová. O outro aceitou-a, por fé, pois foi capacitado para isso pela própria graça e, além da salvação eterna, ganhou os dons que fizeram dele o maior instrumento de Deus na sua geração, um dos maiores da história da Igreja.

Todo homem recebe a graça divina e, por ela, pode escolher aceitá-la ou rejeitá- -la. A iniciativa da oferta gratuita é divina, mas a escolha da aceitação é humana.

Notas

1 – COLLINS, Kenneth J. Teologia de John Wesley.Rio de Janeiro: CPAD, 2010, pág. 100-109.
2 – Op. Cit., pág. 222.
3 – Op. Cit., pág. 223.

Por, Carlos Kleber Maia.




O cristão e a natureza pecaminosa

O cristão e a natureza pecaminosaO capítulo 7 da Carta de Paulo aos Romanos tem sido interpretado pelos doutores da igreja de maneira diversa. Uns dizem que o conflito existencial vivenciado por Paulo no capítulo 7 de Romanos diz respeito ao Paulo do judaísmo. Outros, porém, dizem que se trata do Paulo cristão.

Neste ponto, a análise dos textos de Romanos 7.15-25 e Gálatas 5.16-18 faz-se necessária. Seja qual for a interpretação dada à situação existencial de Paulo em Romanos capitulo 7, uma coisa fica certíssima: ninguém pode servir a Deus fora do controle do Espírito Santo. A carne, no contexto de Gálatas 5.16-8, diz respeito à natureza pecaminosa existente no cristão. Por natureza pecaminosa não se entende uma substância má adicionada à essência do homem, mas, sim, de certa desordem da natureza humana, uma fraqueza espiritual, inexistente em Adão antes da Queda. A respeito dessa natureza pecaminosa, assim se pronunciou a célebre Confissão de Fé de Westminster (VI. v): “Esta corrupção da natureza persiste, durante esta vida, naqueles que são regenerados; e embora seja ela perdoada e mortificada em Cristo, todavia, tanto ela, quanto seus impulsos, são real e propriamente pecado”. Chafer, teólogo norte-americano, escreveu sobre o assunto: “A experiência do homem é um testemunho confirmado com relação à sua natureza pecaminosa”. O teólogo chinês Watchman Nee disse: “É um grande erro considerar a carne erradicada de nós e concluir que a natureza do pecado está completamente aniquilada”. O pressuposto confessional que defende o perfeccionismo como um ideal – o que, aliás, é louvável –, não pode ignorar esses dados.

Segundo Agostinho, “Adão estava isento de males físicos e possuía dotes intelectuais inigualáveis; ele se encontrava num estado de justificação, iluminação e bem-aventurança. A imortalidade estava a seu alcance, bastando apenas que ele continuasse a se alimentar da Árvore da Vida. Ele possuía liberdade, não no sentido de incapacidade de pecar [onon posse peccare = não posso pecar, que Agostinho considera a verdadeira liberdade desfrutada no Céu pelos bem-aventurados], mas de capacidade de não pecar [posse non peccare = posso não pecar]. E sua vontade era boa, ou seja, dedicava-se a cumprir os mandamentos de Deus, que dotara a vontade com uma firme inclinação para a virtude. De sorte que seu corpo estava sujeito à sua alma; seus desejos carnais, à sua vontade; e sua vontade, a Deus. Ele já tinha a graça divina em torno de si [indumentum gratiae = graça comunicada] e lhe foi ainda concedido o dom da perseverança, isto é, a possibilidade de persistir no correto exercício de sua vontade” (in:. J. N. D. Kelley, 1994, p. 273-4). Não obstante, Adão caiu. O professor e ex-presidente do Seminário Teológico de Dallas, Dr. Lewis Sperry Chafer, comentando a respeito da Queda, escreveu: “Quando Adão cometeu o seu primeiro pecado, experimentou um total rebaixamento de nível. Ele se tornou degenerado e depravado. Ele desenvolveu dentro de si uma natureza caída que é contraria à lei de Deus e está sempre disposta para o mal. A sua constituição foi alterada profundamente e ele, assim, tornou-se um ser totalmente diferente daquele que Deus criara. […] Nenhum outro ser humano além de Adão jamais se tornou pecador por pecar.Todos os outros são pecadores por nascimento. Uma distinção deve ser feita a esta altura entre o pecado como um ato mau e o pecado como uma natureza má. Por um ato pecaminoso, Adão adquiriu uma natureza pecaminosa, enquanto que todos os membros de sua família já são nascidos com essa natureza” (Chafer, 2003, p. 622, v. 1-2).

O processo pelo qual passaram nossos protoparentes chama-se depravação. A depravação fala do processo de passar da vida para a morte. A morte, nesse contexto, é a separação de Deus. O homem precisa, pois, da regeneração, que é o processo inverso da depravação. Palingenseia (em grego) é “novo nascimento” (palin = novo; genesis = nascimento), é o nascer de Deus, o que envolve a comunicação de uma nova vida por meio dos dois poderes operacionais para produzir, que são “a palavra da verdade” (Tiago 1.18; 1 Pedro 1,23) e o Espírito Santo (João 3.5-6). O nascer de Deus está em oposição ao nascer da carne. O regenerado é uma nova criação (2 Coríntios 5.17), não está mais sob a condenação divina (Romanos 8.1), está justificado em Cristo (Romanos 5.1) e é templo do Espírito Santo (1 Coríntios 3.16).

Comentando sobre a regeneração diz Chafer: “Uma nova natureza divina é comunicada a esse homem natural quando o individuo é salvo. A salvação é mais do que uma mudança do coração. É mais que do que uma transformação daquilo que é antigo. É a regeneração ou criação de algo totalmente novo que é possuído com a velha natureza enquanto o filho de Deus está neste corpo. A presença de duas naturezas (não duas personalidades) em um indivíduo resulta em um conflito. ‘Porque a carne luta contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; estes se opõem um a ou outro, para que não façais o que quereis (Gálatas 5.17)’. Não há sugestão alguma que esta restrição divina sobre a carne sempre será desnecessária enquanto o cristão estiver neste corpo, mas a Bíblia dá um testemunho claro de que o crente pode experimentar um contínuo andar no Espírito, a fim de não satisfazer a concupiscência da carne. Para assegurar isso tudo, não há a promessa da remoção da carne. O espírito, alma e corpo permanecem, e a vitória é ganha sobre a carne pelo poder do Espírito que habita no crente” (Teologia Sistemática. V. 1-2. p. 742).

A Escritura registra a presença da carne nos regenerados em textos como Gálatas 5.17, onde o termo carne aparece como elemento ativo que precisa ser controlado pelo poder do Espírito Santo. Em Romanos 6.6, o velho homem indica a natureza herdada de Adão. Em Colossenses 3.5, o apóstolo diz aos cristãos: “Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena”. Em 1 João 1.8, o apóstolo João diz: ‘Se dissermos que não temos pecado [pecado no singular] nenhum, a nós mesmo nos enganamos, e a verdade não está em nós”. Watchman Nee, o teólogo chinês da espiritualidade, escreveu: “O cristão deve compreender que em Cristo ele é uma nova criação. Como tal, o Espírito Santo habita em seu coração; e isto, junto com a morte de Jesus operando em sua vida, pode capacitar o crente a viver uma vida santa. Tal caminhar só é possível porque o Espírito Santo aplica a cruz sobre a velha natureza adâmica do crente, mortificando as obras de seus membros. Ela, então, não é mais ativa. Isso não significa, todavia, que ele não tem mais a natureza carnal, porque o crente continua a possuir carne pecaminosa e tem consciência da sua presença e corrupção. […] Porém, a presença da carne não quer dizer que a santificação seja impossível. Somente quando rendemos nossa vida ao Senhor (Romanos 6.13; 8.13) é que nos é possível não mais estarmos sob o domínio da carne, mas sob o domínio do Senhor. Se seguirmos o Espírito Santo e mantemos uma atitude de não permitir que o pecado reine em nosso corpo (Romanos 6.12), então nossos pés ficam livres de tropeçar e experimentamos vitória confirmada” (O Homem Espiritual, l994, p. 106-7).

Concluímos dizendo que a natureza adâmica no regenerado é um fato bíblico-experimental que não pode ser negado. Negá-la ou subestima-la tem sido a causa da ruína espiritual da vida de inúmeros filhos de Deus sobre a terra, não importando qual seja a sua confissão de fé professada. O único meio de vencer a carne é andar em Espírito.

Notas

CHAFER, Lewis Sperry. Teologia Sistemática, vol. 1-2, São Paulo, Hagnos, 2003, pp.622,742.
KELLEY, J.N.D. Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, Sociedade Religiosa Vida Nova, 2 ed., São Paulo, 1994, p. 273-4.
NEE, Watchman. O Homem Espiritual, V, I, Belo Horizonte, Edições Parousia, 1994, pp.106-7.
VINE, W.E. et al. Dicionário Vine: o Significado Exegético e Expositivo das Palavras do Antigo e do Novo Testamento. Rio de Janeiro, CPAD, 2002, p. 933.

Por, Francisco Gonçalves da Costa Gomes.




A Bíblia apenas contém ou ela é a Palavra de Deus?

A Bíblia apenas contém ou ela é a Palavra de DeusA Bíblia é fruto de um trabalho que durou aproximadamente 16 séculos para ser escrita. Cerca de 40 homens santos e inspirados por Deus, foram usados para que ela chegasse a esse fabuloso compêndio, tal como conhecemos hoje. Para o teólogo erudito Antonio Gilberto, em sua obra teológica “A Bíblia através dos séculos”, a existência da Bíblia até os nossos dias só pode ser explicada como um milagre. Pois muitos de seus autores jamais se conheceram, e mesmo tendo diferentes formações, vivendo em épocas e lugares diferentes, seus 66 livros possuem uma harmonia incontestável, nos levando a perceber, que ela tem um único autor, o Espírito Santo, aquele que inspirou os escritores originais (2 Pedro 1.20, 21).

Ela já sobreviveu todos os ataques que lhe fizeram, jamais conseguiram provar qualquer erro ao longo dos séculos, pois ela é a inerrante e infalível Palavra de Deus. Porém com o surgimento do modernismo, uma ideia herética e sutil, defendida pelo filósofo racionalista Baruch Spinoza (1632-1677), dizia que a “Bíblia não é a palavra de Deus, mas que ela apenas contém a palavra de Deus”, ainda hoje é defendida por teólogos liberais, que tentam encontrar nas escrituras respaldo para suas heresias e inovações teológicas. Tais teólogos negam a doutrina da inspiração plenária, expressão utilizada na teologia para enfatizar que a Bíblia é completamente inspirada por Deus.

O teólogo e filósofo Norman Geisler, em “A inerrância da Bíblia”, falando sobre o assunto em voga, afirma que Spinoza, convencido do pressuposto, dizia que sua afirmativa não era repugnante aos cristãos. Geisler responde a ele dizendo que, sem dúvida, com defensores assim os cristãos não precisam de inimigo algum. Louis Berkhof, em seu livro “Introdução ao Novo Testamento”, por sua vez afirma que creditar que a Bíblia possui partes que é a palavra de Deus e outras não, é colocar a razão humana como um arbítrio sobre a revelação divina. Portanto é claro, que não pode ser a posição daqueles que acreditam que a Bíblia é a palavra de Deus. Berkhof ainda afirma, para nós a Bíblia como um todo, e em todas as suas partes, é a própria palavra de Deus, escrita pelos homens, mas organicamente inspirada pelo Espírito Santo.

Outra concepção errada acerca das Escrituras, defendida principalmente por teólogos neo-ortodoxos, como Rodolf Bultmann (1884-1976), e Emil Brunner (1889-1966), é a ideia de que a “Bíblia não seria um livro inspirado, mais imperfeito, que se torna palavra de Deus, quando o leitor tem um encontro com Ele por meio de suas páginas”. No entanto, tais pressupostos não se enquadram com a ortodoxia do texto sagrado, pois Paulo o maior teólogo da história da igreja, desconstrói as bases da neo-ortodoxia quando afirma: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça” (2 Timóteo 3.16 – NVI).

No texto supracitado, a inspiração plenária da Bíblia é defendida pelo apóstolo dos gentios de forma explícita e categórica. Repare que no início do texto de 2 Timóteo 3.16, ele utiliza primeiramente a frase grega: pasagrafê. As versões King James, NVI, ACF e ARA, traduz por “toda a escritura” e inclui o artigo definido “a”, frase que segundo os gramáticos está implícita a ideia de integralidade, totalidade. Logo em seguida, Paulo usa a palavra “inspirada”, que no grego é theopneustos, significa soprado por Deus. Arremetendo-nos ao entendimento, que no processo de formação do cânon, Deus inspirou, supervisionou e coordenou a produção do texto original das Sagradas Escrituras.

Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, também reforçou a doutrina da inspiração plenária, se não vejamos: “Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação. Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo” (2 Pedro 1.20-21 – ACF). Nesse texto, o autor sacro nos deixa claro que a origem da Escritura está no próprio Deus, e não em interpretações humanas. Segundo “O Novo Comentário Bíblico”, as palavras “produzida” e “inspirados” nos dão a ideia de um navio içando as velas e indo a favor do vento. Confirma o fato, de que os escritores da Bíblia, escreveram não o que queriam ou pensavam em escrever, mais o que receberam da parte de Deus.

É verdade que no âmbito da interpretação bíblica, existem dificuldades que devem ser superadas. E exige do interprete uma análise exegética apurada e meticulosa, pois sabemos que os manuscritos originais do texto bíblico, por razões não compreendidas deixaram de existir. Hoje o que existe são cópias, que atravessaram os séculos através do processo de transmissão da Bíblia. O que leva os eruditos afirmarem, que a integridade da Escritura no sentido absoluto, é atribuída aos autógrafos, isto é, os livros originais conforme foram escritos por seus autores. Pois mesmo considerando o rigoroso trabalho dos copistas, alguns “erros de cópia” são susceptíveis de ocorrer. Agostinho de Hipona afirmou, “Se estamos perplexos por causa de qualquer aparente contradição nas Escrituras, não nos é permitido dizer que o autor desse livro tenha errado; mas ou o manuscrito utilizado possuía falhas, ou a tradução está errada, ou nós não estamos entendendo o que está escrito”.

Desta forma, podemos concluir que apesar dos autores originais possuírem limitações, ao escreverem o texto sagrado, não cometeram erro algum. Pois estavam seguindo o sopro da inspiração divina, por isso eles ficaram isentos de errarem, tanto em relação à escrita, quanto a mensagem que é infalível (2 Timóteo 3.16; 2 Pedro 1.20-21). Assim sendo, afirmamos que a Escritura, não apenas contém a Palavra de Deus, mas é a própria palavra de Deus, inerrante, infalível e poderosa, capaz de transformar o mais vil pecador em uma nova criatura (João 8.32). O autor da carta aos Hebreus declara: “Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração” (Hebreus 4.12 – ARA).

Soli Deo Gloriae!

Bibliografia

CARSON, D. A. A exegese e Suas Falácias. São Paulo: Vida Nova, 1992.
BERKHOF, Louis. Introdução ao Novo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2014.
GEISLER, Norman. A inerrância da Bíblia. São Paulo: Vida, 2003.
Léxico do N. T. Grego / Português. São Paulo: Vida Nova, 1984.
Novo Testamento Interlinear Grego Português. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2004.
O Novo Comentário Bíblico – AT e NT com recursos adicionais: Rio de Janeiro: Central Gospel, 2010.
SILVA, Antonio Gilberto da. A Bíblia Através dos Séculos. Rio de Janeiro: CPAD, 1986.
As cartas de Paulo III. São Paulo: Loyola, 1992.

Por, Raydfran Leite de Oliveira.




Princípios bíblicos do amor e da unidade

Princípios bíblicos do amor e da unidadeDos muitos princípios irrevogáveis registrados na Bíblia, convido-vos a uma reflexão sobre os princípios do amor e da unidade.

Princípios do amor (1 João 3.18)

Os termos gregos transliterados que aparecem no texto bíblico do Novo Testamento são: Agapao, Ágape e Philco. Agapao 142 vezes, Ágape 116 e Philco 25. Quando vemos um Léxico ou um dicionário, percebemos que possíveis diferenciações semânticas entre Ágape e Philco são construções sem grande consistência. Há, entre os gramáticos exegetas, certo consenso de que o emprego de um e de outro é mero recurso estilístico. Um terceiro termo grego para amor seria Eros, que não aparece no Novo Testamento. Neste caso, o significado de um envolvimento de ordem sexual é bastante evidente. Quando a Bíblia refere-se ao amor, considera-o como atributo de Deus (1 João 4.8), como dom do Espírito Santo à igreja (1 Pedro 4.8) ou ainda, como parte do fruto do Espírito Santo (Gálatas 5.22). Podemos dizer que o amor está, ao mesmo tempo, presente na igreja, como um elemento constitutivo do Corpo de Cristo, e fora dela, como algo que deve ser baseado pela intimidade com Deus.

O amor é a prova da espiritualidade –  O amor é maior dentre todas as virtudes cristãs, se constituindo no solo de onde brotam e se desenvolvem todas as demais virtudes espirituais (Gálatas 5.22). Se o amor não se implantar na alma, não pode haver regeneração, ou seja, uma alma egoísta está longe de representar uma vida regenerada. 1 João 4.7 assegura que o amor caracteriza o novo nascimento. Amar é próprio aos nascidos de novo, pois nasceram de Deus e Deus é amor. É como se ele tivesse recebido por implante uma natureza altruísta e cuidadosa. Alguém que se chama igreja deve ser cuidadosa consigo mesma, com as coisas concernentes a Deus e com o próximo. O exercício do amor representa a verdadeira espiritualidade e isso é muito diferente de uma mera “vestimenta espiritual”. Trata-se de algo incontrolável. Para a igreja real é impossível não amar (1 João 4.8). Nós fomos aceitos no amado (Efésios 1.6), e assim, no ceio da família de Deus. Nela pelo amor contingente. Nesse sentido, imitamos ou reproduzimos algo próprio da essência divina, pois é na trindade que se encontra o vínculo do amor de forma absoluta, o Pai que ama o Filho, os quais amam o Espírito Santo. Para a igreja, praticar o amor é desenvolver-se. A produção do bem ao próximo é a própria cooperação que nos cabe na disseminação do evangelho. Num tempo talvez não tão distante assim, os púlpitos luxuosos não serão mais do que pedras amontoadas, então o que irá valer será o simples e ao mesmo tempo inefável exercício do amor.

O amor é a prova da espiritualidade – O amor é maior dentre todas as virtudes cristãs, se constituindo no solo onde brotam e se desenvolvem todas as demais virtudes espirituais (Gálatas 5.22). Se o amor não se implantar na alma, não pode haver regeneração, ou seja uma alma egoísta está longe de representar uma vida regenerada. 1 João 4.7 assegura que o amor caracteriza o novo nascimento. Amar é próprio aos nascidos de novo, pois nasceram de Deus e Deus e amor. É como se ele tivesse recebido por implante uma natureza altruísta e cuidadosa. Alguém que se chama igreja deve ser cuidadosa consigo mesma, com as coisas concernentes a Deus e com o próximo. O exercício do amor representa a verdadeira espiritualidade e isso é muito diferente de uma mera “vestimenta espiritual”. Trata-se de algo incontrolável. Para a igreja real é impossível não amar (1 João 4.8). Nós fomos aceitos no Amado (Efésios 1.6), e assim, no seio da família de Deus. Nela pelo amor contingente. Nesse, sentido, imitamos ou reproduzimos algo próprio da essência divina, pois é na trindade que se encontra o vínculo do amor de forma absoluta, o Pai que ama o Filho, os quais amam seu Espírito. Para a igreja, praticar o amor é desenvolver-se. A produção do bem ao próximo é a própria cooperação que nos cabe na disseminação do evangelho. Num tempo talvez não tão distante assim, os púlpitos luxuosos não serão mais do que pedras amontoadas, então o que irá resolver será o simples e ao mesmo tempos inefável exercício do amor.

O amor é o cultivo da vida – De certa forma, usando a analogia de um bolo, o amor é o tabuleiro  do glacê. Ele é o que sustenta e ao mesmo tempo o que enfeita a vida cristã. Ele é o que ninguém comenta, o que não dá “IBOPE”, e ao mesmo tempo o que vai colorir as relações com Deus, com os homens e com toda a criação. Amar, portanto, é cultivar a vida, é prestar atenção ao óbvio corriqueiro, reconhecendo ali algo novo de Deus. Amar é ouvir histórias longas da vida humana, aparentemente repetitivas, mas singulares a quem descreve. Para exercitar o amor é preciso a coragem de se negar para encarnar o outro, pensando-lhe as dores, os sofrimentos. É ser um “Bom Samaritano” (Lucas 10.25-37) convicto. O amor como semente do Espírito Santo deve nos tornar tolerantes (Lucas 9.49), não juízes uns dos outros (Mateus 7.1-5), corajosos no “perder a vida” (Mateus 10.34-39), humildes (Mateus 11.28-30), semeadores do evangelho (Mateus 13.1-23), crianças dependentes da graça divina (Lucas 18.15-17), enfim seguidores conscientes do Senhor Jesus (Lucas 14.25-33).

O amor é o cumprimento da Lei – Toda a Lei foi resumida por Jesus como sendo o exercício do amor e num eixo horizontal, em relação ao próximo (Mateus 22.34-40). O amor impede a igreja de viver uma vida vã, oculta pela religiosidade. Nenhuma outra prática que inventemos nestas “loucas liturgias” e “reedições judaizantes” poderá suprir a ausência do amor em nossas relações. Os cargos e títulos clericais não suspendem esta mesma necessidade. Tudo isso é refúgio (Filipenses 3.8). Cumprir a Lei para a igreja significa amar até as últimas consequências. Não temos mais sacrifícios, oferendas e festas simbólicas. O que nos restou foram traços da moralidade divina, uma ética cristã baseada fundamentalmente no amor. Quando amamos, apagamos multidão de pecados e comprovamos a eficácia do sofrimento de Cristo na cruz, pois, com Ele, aceitamos morrer um pouco, todos os dias, a fim de que sua glória se manifeste. Esta é a lei que nos movimenta, que nos capacita a esquecermos de nós no serviço a Deus e ao próximo. Isso é amar a Cristo (Mateus 25.31). Portanto, quando falamos de amor, não nos referimos, a uma mera emoção cheia de afeto, falamos de uma qualidade de nova criatura em Cristo, de um sacrifício eminentemente cristão.

Princípio da unidade (Efésios 4.4-6)

O princípio bíblico da unidade está evidenciado inicialmente, na união mística entre Cristo e a Igreja (2 Coríntios 11.2 ou Efésios 4.32). Deste modo, é a possibilidade, como a igreja, de viver unida e de ter laços profundos indissolúveis com o Senhor Jesus. Deve-se ter em mente que este princípio, no aspecto da união entre Cristo e sua Igreja, está profundamente esclarecido na expressão paulina ‘em Cristo’ (Colossenses 1.21-29; Romanos 12.5; 2 Coríntios 5.17; Efésios 2.10-13; 2 Timóteo 3.12).

Uma segunda forma de definir unidade no ambiente bíblico é a relação que deve existir entre os membros do corpo de Cristo. O texto áureo, neste sentido, é o de Efésios 4.1-16. Nele, Paulo afirma que devemos ‘preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz’ (v. 3) e que ‘cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus’ (v. 13). A palavra grega usada nestes dois versos é ‘henotes’ que significa ‘um’, ou seja, ‘um Espírito’ e ‘uma fé’. Sugere-nos uma norma de conduta para a igreja em suas relações interpessoais ou entre irmãos. Neste sentido é dito: ‘Andar de modo digno da vocação’, ‘com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor’ (v. 12); ‘esforçando-vos’ (v. 3). Uma apresentação do corpo de Cristo como sentido único, um Espírito, uma esperança, um Senhor e etc., também é feita para reforçar esta tese (v. 4-6). Além disto, Paulo estende a concessão dos dons (v. 11 e 12) com o objetivo de produzir a ‘unidade da fé’ (v. 3), ou seja, para gerar uma só fé.

Unidade no Antigo Testamento –  No Antigo Testamento, o princípio da unidade pode ser demonstrado a partir da expressão ‘häbër’, que significa unido, associado, companheiro. Em aramaico, o termo indica o relacionamento de intimidade entre Daniel e seus três amigos graças à sua fé comum e à lealdade a Deus (Daniel 2.13-18). O salmista afirma categoricamente que o temor de Deus é o elo entre os companheiros (Salmos 119.63).

Também usado para expressar o relacionamento bem íntimo que existe entre pessoas de diferentes condições de vida. Os israelitas se uniram ‘como um só homem’ em sua guerra contra os benjamitas, motivada pelo crime hediondo por eles cometido (Juízes 20.11). Os homens podem unir-se intimamente como ladrões (Isaías 1.23), como destruidores (Provérbios 28.24) e como sacerdotes corruptos, comparados a salteadores emboscados (Oséias 6.9). Mas também podem unir-se para o louvor (Êxodo 15.20), para a consecução de tarefas (2 Reis 6.1-3) entre outras  ações.

Unidade no Novo Testamento – Como disse anteriormente, quando defini o princípio da unidade, o Novo Testamento está repleto de afirmações que aludem a este princípio.

Comecemos com as próprias palavras de Jesus em João 15.2: ‘Todo ramo que estando em mim…’. Estar em Cristo é condição necessária para se viver o princípio da unidade. Pode até parecer que o Mestre estava se referindo apenas ao aspecto transcendente ou espiritual da unidade, mas veja como ele traz este assunto também para o âmbito do relacionamento humano: v. 12a: ‘…vos ameis uns aos outros…’. Nesta orientação sobre a unidade, o grande projeto de Cristo é o amor. Não um amor teorizado por alguém, mas o verdadeiro amor, demonstrado pelo próprio Senhor (v. 12b). O fim proveitoso desta unidade é o mandamento do amor.

Paulo vê a unidade como algo a ser buscado pela igreja a partir da experiência de ‘estar em Cristo’. O cristão neste mundo tem a experiência única de viver sua vida atrelada à de Cristo (Romanos 6.8; 8.10-13; 14.7, 8; 1 Coríntios  8.6; 2 Coríntios 5.15; Gálatas 2.19-20; Filipenses 1.21-22). Este atrelamento inicia-se no batismo e é mantido na realização da Ceia, onde o participante demonstra publicamente sua relação com o Senhor (1 Coríntios 11.26-29; Atos 19.1-5). Figuras como o corpo, edifício e lavoura (1 Coríntios 3.9; 12.12 ss; Efésios 2.21, 22), são utilizados para demonstrar esta relação. A partir destes pontos, o apóstolo desenvolve a doutrina da unidade com foco mais direcionado ao comportamento do cristão no que diz respeito aos seus semelhantes. A igreja devia lembrar de sua unidade orgânica (1 Coríntios 12.12-31) gerenciada pela doação dos dons, sendo o primeiro deles o amor (1 Coríntios 13). Os fracos deviam ser ajudados (Romanos 15.1; 1 Coríntios 8.9-11; 1 Tessalonicenses 5.14). As questões entre irmãos deveriam ser tratadas no ambiente da igreja (1 Coríntios 6.1-11), além do fato de imitarem ao Senhor Jesus (1 Coríntios 11.1). A unidade, então, deveria ser fruto da experiência de conversão e batismo, além da manutenção da vida cristã explicitada na Ceia e nas questões diárias. Recordando o texto de Efésios 4: andar de modo digno, com humildade e mansidão, suportando-vos em amor, esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz (v. 1-3), até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo, para que não sejamos mais como meninos (v. 13-14). Crescimento espiritual está intimamente relacionado à unidade.

Por, Germano Soares.