A Terra Prometida e a Terra da Promessa

Os nossos olhos viram os sorrisos emocionados e apertos de mãos calorosos. A cordialidade entre o novo presidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, ficou estampada diante de outros nove chefes de governo, além de outros vice-representantes e líderes de organizações internacionais na cerimônia de posse do mandatário brasileiro. O primeiro-ministro israelense não disfarçou a sua alegria durante a sua visita oficial ao Brasil. A sua viagem ao país sul-americano era a primeira de uma pessoa de seu status político desde o estabelecimento do Estado Hebreu em 1948. Para alguns, Netanyahu, sua esposa Sara e o filho Yair apenas escapavam da situação política tensa que experimentam em seu país de origem, debaixo de acusações e pedidos de renúncia, principalmente por parte do Partido Trabalhista e seu líder, Avi Gabbay. Entretanto, o encontro entre os dois chefes de Estado já é considerado um marco histórico. “Israel é a Terra Prometida e o Brasil é a terra da promessa. Israel quer ser parceiro do Brasil nessa empreitada”, foram as palavras ditas por Netanyahu em seu encontro com Bolsonaro no Forte de Copacabana.

O novo presidente do Brasil manifestou a sua alegria em conhecer “um homem que, para mim, é um exemplo de patriotismo e de trabalho por seu povo”. Mesuras à parte, o caminho que tornou possível a realização do encontro, verdadeira guinada nas relações entre os dois países, começou a ser posto em prática durante o governo anterior, através da visita do então ministro das Relações Exteriores do Brasil, Aloysio Nunes Ferreira, ocorrida em fevereiro de 1918.

O ministro brasileiro, durante a sua primeira viagem ao Oriente Médio, visitou o Museu do Holocausto, onde homenageou os brasileiros “justos entre as nações” que trabalharam na proteção de judeus perseguidos durante a Segunda Guerra Mundial. Na ocasião, foi recebido por Benjamin Netanyahu, que disse o seguinte: “Israel está muito interessado em fortalecer os laços com o Brasil e acredita em seu potencial”. Segundo o jornal El País, a “linha política do presidente Michel Temer, partidário da inauguração de uma nova etapa nas relações bilaterais com o Estado judeu, [busca] apagar as tensões que marcaram a presidência de Dilma Rousseff, defensora do reconhecimento da Palestina”.

As tensões a que se referiu a publicação pareciam agravar-se de maneira aparentemente irreversível, desde 2010, quando o governo Lula reconheceu a Palestina como Estado dentro das fronteiras anteriores a 1967. Em 2014, a ex-presidente Dilma qualificou como “desproporcional” o uso da força israelense nos enfrentamentos aos ataques oriundos da Faixa de Gaza. Em resposta, o diplomata Yigal Palmor chamou o Brasil de “anão diplomático”. A presidente emitiu uma solicitação de retorno do nosso embaixador em Israel durante os conflitos com a região de Gaza. A situação levou o presidente Reuven Rivlin a pedir desculpas ao governo brasileiro. Os ânimos mal haviam serenado quando, em 2015, Dani Dayan foi nomeado embaixador de Israel no Brasil. Nosso país negou a anuência diplomática ao representante enviado, fato incomum nos meios diplomáticos. Sob forte influência pró-palestina, Dilma Rousseff não aceitou a indicação do ex-líder de “colonos” judeus. Após oito meses de negociações infrutíferas, Dayan foi designado cônsul geral em Nova York (EUA).

Mas nada disso foi comparável à resolução da UNESCO, em 2016, de que não há conexão entre judeus, Jerusalém e o Monte do Templo. O voto conjunto contra Israel veio da Palestina, Egito, Argélia, Marrocos, Líbano, Omã, Catar, Sudão e… Brasil. Foram computados países que se abstiveram de votar e apenas seis foram favoráveis a Israel, a saber: os Estados Unidos, Reino Unido, Lituânia, Países Baixos, Estônia e Alemanha. Netanyahu ironizou o resultado daquela votação, sugerindo aos líderes dos países que negaram qualquer relação entre Israel e o Monte do Templo que visitassem o Arco de Tito, em Roma (Itália), onde permanecem esculpidos os sinais da existência e da destruição do Templo Sagrado.

A ideologia pró-árabe tem seus números: o Oriente Médio é responsável por 5,3% das exportações do Brasil, sendo o maior comprador de proteína animal brasileira (os países árabes estão entre os maiores compradores de nossa produção de frangos); em 2017, as exportações somaram 13,5 bilhões de dólares, com um superávit para o Brasil de 7,17 bilhões de dólares. Autoridades ligadas ao agronegócio alertam para possíveis retaliações econômicas se as mudanças nas relações diplomáticas forem confirmadas, sobretudo numa maior aproximação com norte-americanos e israelenses. Um exemplo de que isso não é, necessariamente, uma ameaça vazia foi o cancelamento da visita oficial que o ex-ministro Aloysio Nunes faria ao Egito em novembro de 2018. A decisão tomada pelo governo egípcio, às vésperas da viagem, foi entendida como um ato de retaliação às declarações de Bolsonaro sobre os novos rumos da política externa brasileira.

De fato, o novo presidente deseja fazer de Israel o destino de uma de suas primeiras viagens e já declarou que os israelenses podem contar com o voto favorável do Brasil na Organização das Nações Unidas (ONU) durante o seu mandato. Quanto aos quereres palestinos, declarou que “a Palestina precisa ser um Estado para poder contar com uma embaixada”, numa clara redução do nível de representação diplomática pleiteado pelos palestinos.

Tensões e ameaças à parte, coube ao premier israelense a melhor expressão do que esperam os dois países desses novos tempos: “Entendemos que a nossa cooperação mútua pode render enormes benefícios aos nossos povos, na economia, na segurança, na agricultura, em recursos hídricos, indústria, em todas as esferas da atividade humana”.

Nossos olhos, tendo contemplado as mudanças nas relações bilaterais, possam contemplar e aferir o quanto de retórica e o quanto de verdade que se concretize em atos políticos há nesses novos ventos.

Por, Sara Alice Cavalcanti.




O Brasil entoando os Cânticos dos Degraus

Subir a Jerusalém – o sonho de todos os peregrinos vai muito além dos cerca de metros de altitude que alcança o relevo da cidade santa, também chamada de Salém, Jebus, Cidade de Davi, Cidade do Grande Rei, Sião, Cidade de Deus e Cidade de Justiça. Quando subimos a Jerusalém ultrapassamos o sentido geográfico do termo e fazemos de todo e qualquer lugar da Terra um lugar mais baixo, dada à excelência do lugar escolhido por Deus para, a partir dali, instruir os povos, remir com o precioso sangue do Cordeiro e, num breve futuro, estabelecer Seu trono e reger as nações. Ainda que os atos de seus habitantes tenham despertado o lamento de Jesus sobre a cidade, sua glória não lhe foi tirada, bem como não cessou o Senhor de despertar intercessores que clamam sobre ela de dia e de noite, até que seja efetivamente estabelecida como objeto de louvor. As promessas de Deus acerca de sua Ariel (leão de Deus) permanecem firmes.

Subir a Jerusalém não é coisa que se faça desavisadamente. Importa guardar os pés e reservar certa reverência a um ato com tanto simbolismo. No passado, peregrinos caminhando em direção ao Templo, exilados judeus repatriados, adoradores nos dias festivos, em especial nas festas anuais, entoavam os cânticos de subida, ou cânticos dos degraus ou graduais. Registra-se que os ofertantes salmodiavam enquanto os animais eram levados para o sacrifício e que os levitas, posicionados sobre os degraus que separavam o Pátio das Mulheres do Pátio do povo, cantavam as belas canções contidas nos salmos 120 a 134.

Convém que todo aquele que deseja em seu coração empreender a subida medite sobre algumas expressões há tanto tempo repetidas. Quando alguém declara “na minha angústia clamei ao Senhor e Ele me ouviu” (Salmo 120) reconhece seu próprio estado e a necessidade que tem de Deus. Ao dizer “elevo os meus olhos para os montes, de onde me virá o socorro” (Salmo 121), confessa sua incapacidade para lidar com o mal e apela para quem pode livrar. Assim, sucessivamente, afirma aquele que ascende a Sião: “alegrei-me quando me disseram: vamos à Casa do Senhor” (Salmo 122); “para Ti, que habitas nos céus, levanto os meus olhos” (Salmo 123); “se não fora o Senhor, que esteve ao nosso lado, ora, diga Israel” (Salmo 124); “os que confiam no Senhor são como o Monte Sião que não se abala” (Salmo 125). Uma outra dimensão passa a ser experimentada pelo peregrino – a dimensão do sonho a esperança da restauração e a reafirmação de que a caminhada envolve desafios, mesmo o desafio da soberba no coração, mas, no final, o nome do Senhor será louvado: “quando o Senhor trouxe do cativeiro os que voltaram a Sião, estávamos como os que sonham” (Salmo 126); “se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam” (Salmo 127); “bem aventurado aquele que teme ao Senhor e anda nos Seus caminhos” (Salmo 128); “muitas vezes me angustiaram” (Salmo 129); “das profundezas a Ti clamo, ó Senhor” (Salmo 130); “Senhor, o meu coração se elevou” (Salmo 131); “lembra-te, Senhor, de Davi e de todas as suas aflições” (Salmo 132); “ó quão bom e agradável é que os irmãos vivam em comunhão” (Salmo 133) e “eis aqui, bendizei ao Senhor, todos vós, servos do Senhor, que assistis na Casa do Senhor” (Salmo 134). A declaração “eis aqui” era o brado triunfante daquele que conseguiu ascender e, juntamente com outros vitoriosos, pode então exaltar o nome do Eterno.

O Brasil iniciou, politicamente, sua ascensão a Jerusalém e a jornada prenuncia-se trabalhosa, uma vez que são muitos os opositores. Segundo o ‘site’ do Ministério das Relações Exteriores, “Brasil e Israel estabeleceram relações diplomáticas em 1949. Em 1951, foi criada a Legação do Brasil em Tel Aviv – elevada, em 1958, à categoria de Embaixada. Israel estabeleceu embaixada no Brasil em 1955”. Estamos falando, portanto, de relações bilaterais estáveis, contínuas e de resultados positivos para ambas as nações. Israel mantém, hoje, uma Embaixada em Brasília, um Consulado-Geral em São Paulo, um Consulado Honorário no Rio de Janeiro e outro Consulado Honorário em Minas Gerais. A comunidade judaica no Brasil é estimada em mais de 100 mil pessoas. O Brasil, por sua vez,mantém sua Embaixada em Israel na Rua Yehuda Ha Levi, na cidade de Tel Aviv. A comunidade brasileira em Israel soma cerca de 10 mil membros e seu relacionamento com os locais tem sido marcado por um clima de amizade e cooperação.

Para culminar a trajetória entre as nações irmãs restava, ainda, um importante passo a ser dado pelo governo brasileiro, qual seja, o reconhecimento de Jerusalém como capital do Estado de Israel. Tema de campanha e um dos principais motivos que propiciaram a vitória do novo presidente eleito do Brasil, a mudança da Embaixada Brasileira é o momento mais aguardado por aqueles que somaram forças para um dia ver seu país tirar os olhos de Meseque (filho de Jafé) ou de Quedar (filho de Ismael) (Salmo 120) e elevar seus pensamentos para Aquele que pode agir em seu favor.

O Brasil principia sua caminhada de subida para Jerusalém e isso justifica o cuidado em trazer a este texto várias expressões bíblicas, com o intuito de fazer delas, de cada um e de todos os cânticos dos degraus nossa reflexão e orações nesses dias que precedem um ato político que não deixará de ser espiritual e profético. Terrível erro seria dar como certa a vitória quando ainda estamos numa escalada. A esperança de chegarmos a declarar “eis aqui” não deve nos fazer descuidados quanto à batalha espiritual que tal decisão envolve. As ameaças já se fazem ouvir, seja no sentido dos contratos comerciais, seja pela reação de organismos internacionais. Se não for o Senhor, mesmo o coração mais determinado pode fraquejar. O tempo não é de euforia, mas de oração.

Reconhecer Jerusalém como capital de Israel é mais do que uma aceitação da vontade soberana de um estado nacional. Trata-se do reconhecimento da vontade de Deus sobre o assunto, submetendo-nos como nação e confiando em que Ele haverá de conduzir o futuro dos povos conforme está escrito em Sua Palavra.

Socorro de Deus, proteção contra os inimigos, edificação de nossas casas, esperança para voltar a sonhar, gratidão e alegria… o quanto nós, brasileiros, estamos carentes dessas coisas?! Pois aquilo que ansiamos, todo peregrino anseia e crê que haverá de alcançar – na incompletude das nossas subidas nessa terra ou na esperança verdadeiramente perene e eterna da Jerusalém Celestial.

Por, Sara Alice Cavalcanti.




Israel e os habitantes do deserto

Habitantes dos desertos do Oriente Médio e do norte da África, os beduínos têm seu nome derivado das palavras al bedu, habitantes das terras abertas, ou al beit, povo da tenda. Provavelmente surgiram na Antiguidade remota e habitavam o norte da África. Dispersaram-se após a expansão árabe do século . Na Arábia viveram seus grupos principais, sofrendo com conflitos pelos poços e pastagens. Cada grupo é composto por várias famílias, compondo uma tribo, ou hamula, sob a liderança de um xeque. Conforme a importância de seus ancestrais, dividem-se em mais ou menos nobres. Os grupos nobres criam camelos, sendo a presença desses animais um símbolo de status social e importância econômica. Em suas tendas, anteriormente tecidas em pelo de cabra, dedicam-se à conservação de suas tradições, à prática do islamismo e aos negócios.

A imagem do beduíno romantizado nas telas de cinema, no entanto, não condiz com a realidade dos povos dos caminhos áridos e semiáridos. A Primeira Guerra Mundial trouxe importante mudança ao modo de vida, pois o fortalecimento de governos locais e a delimitação de fronteiras nacionais dificultaram sua peregrinação. Foram alterando seu estilo de vida, tornando-se cada vez mais sedentários em todos os países pelos quais transitaram. Hoje são reconhecidos como povo seminômade. Sua territorialização aumentou a partir de 1950 e 1960. A Arábia Saudita e a Síria cedo nacionalizaram as terras usadas pelos beduínos, apesar de seu sistema de posse de terras ter sido reconhecido pelo Império Otomano (1299 – 1922) e pelo Mandato Britânico (1922 – 1948). De qualquer maneira, hoje discute-se a legitimidade de Israel repetir o procedimento.

Israel é um país cuja extensão territorial é de 20.770 km, politicamente organizado, possuindo uma população de cerca de 8.547.000 de habitantes; os idiomas oficiais são o hebraico e o árabe. Parte de sua população antecedeu a oficialização do Estado e a vida política vem sendo marcada por conflitos, disputa territorial e pela forte presença de imigração – a imigração em Israel é bem vista, uma vez que o fenômeno é constitutivo de sua sociedade. Trata-se, portanto, de um país multiétnico, de uma sociedade multicultural. Multiculturalismo, porém, também significa desafios e esforços de adaptação. Os beduínos são um entre uma grande multiplicidade de grupos e, para eles, a vida nas cidades trouxe problemas como a pobreza, a criminalidade e os conflitos com o governo. O impasse entre o estado nacional e o nomadismo beduíno não é original, e somente aspectos imperiosos fariam o governo local manter-se permanentemente em oposição a um grande número de ONGs e à mídia internacional, sobre o assunto em pauta. Se pudermos deixar um pouco de lado pressupostos como ‘expansão imperialista’, ‘limpeza étnica’ e, até mesmo, o romântico argumento de um possível apagamento de raízes ancestrais, considerada a vida nômade do patriarca Abraão, poderemos tentar chegar ao cerne desta investigação: afinal, o nomadismo beduíno em Israel é compatível com a segurança do estado nacional? Dito de outra maneira, um estilo de vida tradicional que não reconhece limites territoriais (ainda que reivindique milhares de hectares de terra), não se submete à autoridade local (diferentemente dos drusos, que estão sujeitos por tradição ao governo do país onde estiverem residindo), resiste à documentação, à escolarização de suas crianças e à chegada de recursos e infraestrutura pode afetar de alguma maneira a segurança de uma sociedade estatal já estabelecida? Afinal, é dever do Estado, ao mesmo tempo, zelar pelo bem-estar de seus integrantes e pela manutenção de sua própria existência, antecipando, corrigindo e descontinuando os comportamentos e ações que coloquem em risco tais objetivos. Em Israel, as tensões arrastam-se há anos.

Os beduínos representam um quarto da população do Neguev e o seu crescimento atinge a marca de 5,5 % ao ano. Cerca de 70 mil beduínos vivem nas regiões do centro e norte de Israel e diferenciam-se dos beduínos do Neguev política e historicamente. O número é sempre incerto, pois os censos esbarram no costume de beduíno de apenas relatar a quantidade de filhos e ignorar as filhas. Devido ao casamento entre tribos ser proibido, a consanguinidade resulta em múltiplos problemas genéticos, atingindo a taxa de 70% dos neo nascidos. Conselheiros procuram desestimular a prática, mas ela persiste para preservar o poder das tribos. O planejamento familiar é refutado. Já que o governo concede uma renda mensal para ajuda no sustento de cada criança que nasce, uma família beduína com dez filhos pode chegar a ganhar 650 dólares por mês, somente pela existência das crianças. As mulheres têm procurado o Centro Médico Soroka, em Beer-Sheva para os partos, chegando o número de beduínas a 60% do total de mulheres atendidas pelo hospital. Se portarem carteira de identidade (muitas não possuem registro), têm direito a uma bolsa de 250 dólares como auxílio maternidade. O resultado disso é que mulheres atravessam a fronteira e usam a identidade de outra mulher, israelense, obtendo atendimento médico de qualidade e recompensa financeira.

As mulheres são afetadas pelo fim do nomadismo. Quando se territorializam, novos desafios se abrem. A beduína Amal-el Sanna, cuja família chorou quando nasceu, pelo fato de ser mulher, venceu barreiras de proibição e estudou, alcançou a universidade, e fugiu de uma estatística avassaladora: “Onde quer que os beduínos vivam, nossa maior necessidade é a educação; 99% das mulheres com mais de 40 anos são analfabetas”. Em reuniões, associações de artesãs, centros de apoio, acampamentos para crianças e trabalhos que possam gerar renda, as mulheres beduínas ganham espaço, num movimento que é chamado de “a silenciosa revolução das mulheres”. São louváveis seus esforços, mas não podem prescindir da infraestrutura que lhes permita o acesso aos meios de transporte, às escolas, à segurança para que possam ficar firmes em sua decisão de estudar ou trabalhar sem que suas famílias tenham seus bens destruídos e sem que sua integridade esteja em risco. Há que se manifestar a ação do estado.

A situação da escolaridade entre os meninos, embora seja diferente, também não revela um quadro muito animador, pois mais da metade dos alunos abandona os estudos ainda no que seria o ensino fundamental. A identificação dos beduínos com o fundamentalismo islâmico é crescente e quase que metade dos adolescentes declara que Israel não tem direito de existir como nação. A atual situação distancia-se da cooperação beduína inicial ao Estado, com a inestimável ajuda que prestaram, pelo conhecimento que tinham do deserto e de suas trilhas. A cooperação foi marcadamente dos beduínos do Norte, que vivem na Galileia e no Vale de Jezreel, onde possuem propriedades, juntam-se em defesa de Israel e consideram o serviço militar uma tradição. Atualmente, no entanto, quando um soldado beduíno é morto em combate, a família costuma sofrer o distanciamento de outros beduínos, violência ou recusa de sepultamento.

Os representantes de grupos fundamentalistas participam dos conselhos municipais e hostilizam os jovens que tenham servido ao exército. Sem essa opção profissional, os jovens partem para a delinquência, aumentando o número de roubos, alcoolismo e drogas. A facilidade de deslocamento, tornou-se agente propiciador do ilícito. “Beduínos foram apanhados contrabandeando prostitutas, armas e narcóticos através das fronteiras com Cisjordânia, Gaza e Egito. (Há um ditado beduíno que diz: ‘Deus e o Estado existem até Beer–Sheeva, o deserto não conhece a lei’”. Grupos promovem manifestações contra a existência de Israel, erguendo bandeiras palestinas e do Hezbollah. Com o tráfico de drogas, mulheres e armas, jovens enriqueceram e desafiam às leis e à autoridade estabelecidas. Querer que o Estado se ausente da correção dos que promovem a desordem e prejudicam os cidadãos pacíficos, colocando em risco a própria segurança estatal é esquecer ou negar a identidade do estado nacional. O nomadismo beduíno tornou-se incompatível, irreconciliável com o moderno estado de Israel. Tornou-se dificuldade a ser vencida para que as injustiças sociais vividas pelos antigos habitantes do deserto sejam, também elas, derrotadas. Todo o peregrino anseia, em algum momento, pelo suprimento, pela segurança e por algum espaço para sonhar o futuro. O Estado, mesmo não sendo o oásis idealizado, pode oferecer algum refrigério.

(O presente artigo é uma compilação de trechos do trabalho Aoliabe – impasses entre o Estado e o nomadismo beduíno em terras israelenses, apresentado pela autora por ocasião do cumprimento do curso MBA em Relações Internacionais pela Fundação Getúlio Vargas, aqui apresentados pela presente pressão midiática contra Israel acerca do assunto).

Por, Sara Alice Cavalcanti.




A brotação de Israel ao cheiro das águas

A comparação entre homens e árvores feita por Jó e registrada no capítulo 14 de seu livro faz concluir que é melhor a condição dos vegetais do que a dos filhos de Adão. Segundo o desabado do sofredor, há a esperança do renascimento, mesmo tendo chegado a um estado agravado de sequidão, tendo restado apenas uma raiz envelhecida, ainda assim há, para a árvore, a esperança da brotação. O tempo do renascimento é marcado pela expressão “mereyiachmayim” – cheiro das águas – divisor entre a quase morte e a vida exuberante.

Para os gregos, “petrikor”, uma dádiva dos deuses, uma espécie de fluido e odor por eles derramados sobre a terra como prenúncio de bênçãos. Para qualquer criança que já sentiu, na virada do tempo, que as brincadeiras no quintal precisariam ser interrompidas, trata-se, simplesmente, de “cheiro de chuva”. Durante algum tempo, seu aroma foi atribuído ao ozônio e alguns chegaram a advertir sobre sua aspiração. Mas, voltando à observação infantil, o que sentimos é cheiro de terra, cheiro de raiz arrancada ou de campo lavrado. Pois pesquisas recentes confirmaram aquilo que nos parecia instintivo. O petrikor ou petrichor é o resultado do levantar de nanopartículas de ar que entremeiam o solo, somadas a algumas bactérias, liberadas a partir do impacto de gotas de água da chuva. Por serem bem pequeninas, as partículas alcançam imediatamente os ares e ganham distância com o vento. Cientistas, dotados de modernas câmeras de alta precisão, puderam filmar o processo e obtiveram as respostas há tanto procuradas, inclusive resolvendo o impasse que todos notam: sentimos o cheiro da chuva antes da chuva cair. A resposta, concluíram os pesquisadores, está no espalhar dessas partículas, que se assemelham em estrutura às dos aerossóis, levando para longe, conforme o vento, a notícia de águas que já se derramam em outro lugar, até aos lugares que ainda aguardam o cair das primeiras gotas de chuva.

A percepção biológica da árvore ressequida de que já paira no ar o anúncio da precipitação faz brotar nela, antes dos galhos ou das folhas, uma força residual que aparentemente não existia. Mas existe e faz acontecer o renovo antes da chuva, dispensando outros sinais. Basta a esperança de que as condições para viver retornarão e que essa esperança precisa ser respondida com a própria vida.

Quando Jó estabelece a comparação, reconhece que, para o homem, o processo é diferente, especialmente se esse homem tiver perdido o espírito. Morto o espírito, está morto o homem. Pois nisso, que é a fraqueza humana em relação às árvores, está a força daquele que é formado do pó da terra. O homem traz em si mesmo o “mereyiachmayim”, pois o barro de que foi feito apenas aguarda o toque das águas da palavra para ser liberado. Se o homem deixar a força das promessas de Deus renovarem nele a esperança, não há limite ou distância que possam impedir sua vitória. Com humildade (palavra derivada de hummus = terra) reconhecendo sua dependência de Deus, há nele plena possibilidade de brotar, lançar ramos, flores e produzir bons frutos a seu tempo. Mais fácil é para homem, sentir o cheiro da terra de que é feito, quando tocado pelas águas de Deus, do que para a árvore. Vivo o espírito, tudo pode acontecer.

Pois é com o reconhecimento dessa força, dependente em tudo da ação fortalecedora e vivificadora do Criador que fazemos menção aos cerca de um milhão de refugiados judeus que precisaram sair dos países árabes onde estavam estabelecidos, quando da criação do Estado de Israel. Os judeus que habitavam o Irã, por exemplo, estavam ali desde os tempos bíblicos, compondo a comunidade da antiga Pérsia; os judeus do Marrocos lá estavam desde a destruição do Segundo Templo pelos romanos no ano 70. As primeiras grandes ondas migratórias aconteceram entre 1948 e 1951, com milhares de judeus iemenitas e iraquianos. A expulsão do Egito foi em 1956, mesma época da saída dos judeus do Marrocos. Da Síria, cerca de 5 mil judeus partiram para Israel. Os refugiados chegaram sem posses, pois tudo deixaram nos países de origem. Em 1970, mais de 700 mil refugiados judeus já haviam sido absorvidos por Israel, num esforço em não perpetuar a condição de refúgio, mas fornecer a cidadania, a restauração da identidade e a construção de um futuro. A França recebeu cerca de 250 mil judeus.

Dr. Sergio Simon, em artigo de 2014 para a revista Morasha declarou que“os cerca de 700.000 refugiados judeus em Israel foram inicialmente alojados em acampamentos temporários, que eram chamados de Ma’abarot (do hebraico ma’avar = em trânsito; aliás, a mesma raiz da palavra Ivrim, hebreus). A intenção do Estado de Israel, no entanto, era absorver e integrar rapidamente estes refugiados à nova sociedade israelense. As ma’abarot tinham serviços contínuos de saúde, higiene, alimentação e educação, e várias destas ma’abarot transformaram-se em novas cidades (Kiriat Pituach= cidade em desenvolvimento), modernas e totalmente urbanizadas (as cidades atuais de Kiriat Shemona, Sderot e Migdal Há Emek, por exemplo, começaram com o ma’abarot). Apesar das condições difíceis desse início da imigração dos refugiados judeus (aliás, toda a sociedade israelense passava por enormes dificuldades no início da criação do Estado) e da vida sofrida dentro de tendas de lona ou de lata, sob o calor escaldante de Israel, o modelo de absorção de imigrantes revelou-se um sucesso. A última ma’abará foi finalmente fechada em 1963 – ou seja, em menos de 15 anos toda aquela multidão foi absorvida pela sociedade israelense. No censo de 2003, os descendentes desses imigrantes judeus de países árabes somavam cerca de 60% da população total de Israel. A perda material dos refugiados judeus foi enorme, evidentemente. A World Organization of Jews from Arab Countries (WOJAC) estimou em 2007 que estes bens somariam cerca de 300 bilhões de dólares, em valores atualizados. Jamais houve qualquer menção de compensação financeira por parte dos governantes de países árabes”. O grande tesouro comum à multidão de refugiados judeus foi a esperança jamais perdida e que manteve intacta sua determinação de recomeçar e de ‘rebrotar’ a partir do nada.

Também convictos de que a situação de refúgio não pode se perpetuar, mas que precisa encontrar soluções, os EUA decidiram cortar o financiamento para a ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados), por considerar suas operações “tendenciosas”. Os EUA e Israel concordam que, em seus 70 anos de existência, a ACNUR vem usando de uma prerrogativa patrifiliar para denominar refugiados palestinos mesmo os descendentes distantes dos primeiros refugiados que fugiram ou foram expulsos de terras pertencentes a Israel, alimentando a possibilidade, jamais reconhecida, de um retorno e ressarcimento. A decisão de Washington foi considerada injusta pela ACNUR (UNRWA) e seu porta voz, Chris Gunness manifestou sua “profunda rejeição e desacordo com o anúncio dos Estados Unidos”. Segundo ele, a organização tentará compensar o déficit de 217 milhões de dólares à causa palestina, prevendo consequências “dramáticas, generalizadas, profundas e imprevisíveis”. Hoje, há cerca de 5 milhões e trezentos mil registros de refugiados palestinos, um número bem maior do que os cerca de 700 mil de 1948. Com as leis que mantém o status de refugiado por gerações e com a falta de força e intenção de alterar isso, o problema somente aumenta, tendo se transformado em ferramenta política contra Israel. Ainda permanece, contudo, a possibilidade de os países árabes acenarem, a exemplo de alguns, com o esforço para absorver e integrar cada membro dessa crescente população cuja própria definição pelos organismos internacionais antes exclui do que possibilita o recomeço. Quando o rótulo de refugiado deixar de ser uma estampa política para apenas definir temporariamente aquele que transita rumo a uma recém-nascida esperança, ficará claro que o espírito do homem não está morto, mas disposto a lançar raízes e a frutificar, crendo firmemente na promessa que traz o cheiro das águas.

Por, Sara Alice Cavalcanti.




O selo da Torah arde em nossos corações

O selo da Torah arde em nossos corações“Levarei comigo, em meu coração, o selo da Torah de Moisés, e suas palavras pairarão para sempre diante de meus olhos”. A bela afirmativa, feita por um ancião de longas barbas brancas, fronte alta e olhos meigos pode parecer ter sido a expressão de um velho rabino, legando aos seus ouvintes o testemunho de sua fé pessoal. No entanto, quem a proferiu foi o imperador brasileiro Dom Pedro II, por ocasião de sua visita à sinagoga de Bruxelas, no ano de 1871. Não é de espantar que aquele que comandou o Império entre os anos de 1841 e 1889, ano da Proclamação da República, pudesse assim se expressar, em língua hebraica. Dom Pedro alcançou fluência em várias línguas, tornando-se imortal da Academia Francesa e membro da Liga dos Quarenta Sábios em Paris. Traduziu e publicou a tradução de canções tradicionais hebraicas, resgatando à comunidade alguns tesouros esquecidos. A fluência foi resultado de anos de dedicação nos estudos, iniciados com um professor judeu sueco de nome Akerblom, ao qual se seguiram outros, uma vez que o aprofundamento linguístico foi uma atividade que percorreu toda a sua vida.

Segundo Shlomo Haramati, professor de linguística aplicada na Universidade Hebraica de Jerusalém e pesquisador da UNESCO, “contam que, certa vez, Dom Pedro encontrou nos jardins do palácio uma Bíblia em hebraico que havia sido perdida por um pastor protestante. Esta descoberta provocou em Dom Pedro forte emoção, a ponto de levá-lo a tomar a decisão de estudar hebraico”. Ler a Bíblia no original – essa, talvez, tenha sido a motivação do então jovem D. Pedro II. Dizem outros que sua apreciação deveu-se à profunda culpa com relação à expulsão dos judeus da Península Ibérica e que o retorno aos textos ancestrais seria um resgate histórico, a título de reparação. Qualquer que tenha sido o motivo, embora estudasse sânscrito, árabe, grego, além de diversas línguas europeias, ao ser perguntado sobre qual atividade lhe provocava maior prazer, a resposta seria “hebraico”. São várias as testemunhas que o ouviram repetir a afirmação, mesmo quando, já avançado em dias, declarava seu querer de maneira um pouco ofegante: “hebraico”.

Historiadores relatam que a grande consolação do imperador deposto, em seu exílio, era passar longas horas absorto no estudo da língua e que na tradução de trechos da Hagadá de Pessach encontrou explicações para questões relativas à justiça, à vida e à morte. Em suas viagens, Pedro II esteve com hebraístas, talmudistas (dentre eles o tradutor judeu do Talmud, Julius Opert) e assiriologistas. Os diretores da Biblioteca de Oxford e da Biblioteca de Paris também contavam entre seus conhecidos. O contato com tal diversidade de pessoas ligadas aos livros sagrados facilitou o acesso de Ephraim Deynard, comerciante de manuscritos; mas foi na Terra Santa, em dezembro de 1876, que, provavelmente, o imperador adquiriu os rolos da Torah, arquivados no Museu Nacional, no Rio de Janeiro.

A descoberta recente da existência dos livros, ao total nove rolos da Torah, foi um precioso presente para todos nós, brasileiros. Em nota ao texto do professor Shlomo, encontramos a seguinte declaração: “pesquisadores consideram estes rolos da Torah como dos mais antigos existentes, remontando ao século XIV ou XV. Foram tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e encontram-se em exibição no Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro”. Na verdade, os nove rolos de couro da Torah Yvriim ficavam diante da múmia de Sha-Amun-En-Su, de cerca de 750 a.C., trazida ao Brasil em seu ataúde original, como um presente de Ismail Paxá, vice-rei do Egito, por ocasião da segunda visita do Imperador ao Oriente. Os rolos foram posteriormente transferidos para um cofre, na direção da entidade.

Na catalogação do IPHAN, o registro do Tombo Histórico tem inscrição no. 553, de 4 de março de 1999. Segue a descrição do registro do tombamento: “O Processo do Tombamento dos Pergaminhos da Torah, manuscritos históricos escritos em hebraico bíblico, datados entre 400 e 1000 anos atrás, adquiridos por Pedro II no século XIX, e pertencentes ao acervo do Museu Nacional, ocorre a partir de 1997 quando há o desmembramento de processo anterior que buscava o tombamento de material que compunha o acervo histórico e científico do Imperador. Este é o exemplo de tombamento de bem móvel, entretanto algumas características permanecem próximas aos outros processos. Apesar de não ser um material produzido no Brasil ou protagonista de fatos históricos brasileiros foi aprovado, como consta na ata do Conselho Deliberativo, por sua importância histórica nacional, considerando o impulso científico e cultural do Imperador, assim como singularidade arqueológica e bibliográfica universal. Sendo ainda relatado a representação da multiculturalidade brasileira pelo objeto religioso judaico em questão, e também as ações de preservação de bens móveis pelo IPHAN. Seu tombamento é aprovado em novembro de 1998. Fonte: Martins, Dantas, p.9.

Hoje, dia 4 de setembro de 2018, quando faço este registro jornalístico, estamos – todos – ainda sofrendo o luto pela destruição de 20 milhões de peças pertencentes ao patrimônio nacional pelo incêndio que consumiu um acervo de 200 anos, domingo, dia 2 de setembro, no Museu Nacional do Rio de Janeiro. Choram administradores e pesquisadores. Lamentam famílias que gostariam de passar aos seus filhos a mesma experiência com a história e com vida que tiveram, como eu tive, ao percorrer os salões da antiga residência imperial. Lamentamos a perda de todo o conjunto. Alguns dedicarão mais lágrimas a algum recorte do acervo para o qual tenham dedicado talvez anos ou mesmo décadas de pesquisa. Portanto, ninguém se espante ao saber que as lágrimas de alguns, ao verem as chamas crepitando, eram vertidas por saber que ali, alimentando as chamas, talvez estivessem (pois cremos na intervenção do Eterno para tê-las guardado) as letras sagradas que foram amadas por um homem chamado Pedro e são amadas por tantos de nós. Na oportunidade e responsabilidade que me é dada através do Mensageiro da Paz, sinto-me devedora aos meus irmãos no sentido de colaborar para que a existência da Torah em nossas terras, em texto tão antigo, trazido de forma tão cuidadosa e tratada com todo o zelo por aquele que amou suas linhas não se apague. Pois a Torah não se apaga. A Torah consome. Ainda, ousadamente apresento minha pessoal discordância quanto ao registro do tombamento dos rolos do imperador, pois, na verdade, a Torah não apenas foi protagonista de fatos históricos brasileiros, não fosse a nação formada por milhões de descendentes de judeus europeus, como ainda é, pois está gravada na tradição dos brasileiros, marcou nossas leis pelo decálogo, e ainda fala constante e diariamente àqueles que avivam a sensibilidade de suas consciências pela perfeição da Lei.

Uma vez que a tragédia aconteceu, tornamo-nos, agora, os fiéis guardadores, tanto do texto, quanto do registro de sua permanência entre nós como um fundamento de fé e de amor a Deus. Faço menção aos trabalhos de pesquisa feitos sobre o texto destruído, que agora ganham peculiar valor, e peço aos irmãos leitores que não permitam o esquecimento do percurso das sagradas letras entre nós. Quem sabe, em algum momento de descuido, deixemos o Livro Sagrado cair nas mãos de um governante que passeie entre nós e isso, certamente, mudará o curso da História Nacional.

Terça-feira, 4 de setembro de 2018 – Matéria assinada pela jornalista Marina Caruso, do Jornal “O Globo” anuncia que os rolos da Torah foram preservados. Rabinos dedicaram-se a buscar informações a respeito do lugar onde estavam guardados os importantes manuscritos da Lei. Segundo Wagner William Martins, diretor administrativo do museu, “antes de o fogo lamber praticamente todo o acervo da instituição, no último domingo, ela havia sido transferida para a biblioteca central do museu, em prédio anexo, que não foi atingido”.

Glórias ao Verbo Vivo, a quem clamamos que ainda nos permita conhecer os detalhes desse tão grande livramento. Honras ao Deus que é zeloso dos Seus e de Sua Palavra livrando das chamas, apesar das chamas ou em meio às chamas.

Por, Sara Alice Cavalcanti.




Parashiot e haftarot: leituras em paralelo para uma perfeita consolação

Parashiot e haftarot - leituras em paralelo para uma perfeita consolaçãoFoi durante o governo de Antíoco Epifanes, entre os anos 175 e 164 AC, que os judeus começaram a fazer a leitura regular de trechos dos profetas no serviço a Deus nas sinagogas. A medida deu-se em resposta à tentativa frustrada do governador de origem greco-síria de impedir a leitura da Torah. Diante da proibição desse homem que tanto afrontou Israel, os líderes religiosos passaram a selecionar porções dos profetas que contivessem mensagens próximas àquelas que teriam sido levadas ao povo não fosse a proibição. Há, portanto, um paralelismo entre a porção da Torah, e a leitura dos profetas. Mais tarde, quando do fim da proibição da leitura da Lei, o estudo dos profetas permaneceu como uma leitura complementar.

As porções da Torah são chamadas parashah (plural parashiot – significa pedaço, divisão, segmento ou porção – são 54 no total) e não seguem necessariamente a marcação dos capítulos, atendendo mais ao conteúdo das narrativas. Gênesis, por exemplo, tem 50 capítulos, mas apenas 12 parashiot. Cada pedaço é, então, dividido em sete partes, que são lidas durante a semana. No Shabat, pela manhã, durante o Avodah(trabalho, serviço) Torah, sete pessoas são chamadas para fazer a aliah (subida) ao bimah (púlpito) e proceder a leitura de toda a porção, embora de forma encurtada. Dessa maneira, mesmo as pessoas que não podem estar na sinagoga durante a semana participarão da leitura ordenada. O propósito é que, ao final de um ano, a começar aproximadamente pelo mês de outubro, durante a celebração da Sinchat Torah (alegria da Torah) toda a Lei de Moisés tenha sido estudada. As pessoas chamadas à leitura serão, primeiramente, selecionadas dentre os cohanim (descendentes da família sacerdotal), depois dentre os demais levitas e, finalmente, dentre as demais tribos de Israel. Fazer a leitura de uma parashah constitui o ato cerimonial mais importante na vida comunitária, tanto que o convite honrado marca a ascensão do menino judeu à idade adulta.

As porções dos profetas são chamadas de haftarah (plural haftarot – significa conclusão, finalização, complementação de algo, livrar-se de algo) e, conforme citamos, guardam relação de similaridade temática com a parashah lida, exceto em situações festivas ou memoriais, quando a haftarah é selecionada especialmente para a ocasião. Foi a maneira encontrada, em dias de cruel perseguição, de continuar ‘lendo a Torah sem ler a Torah’. Uma tabela antiquíssima (para alguns rabinos, foi Esdras, o escriba, quem organizou as sequências textuais da Torah) orienta a leitura que deve ser feita, correspondendo cada parasha a uma haftarah. Dessa forma, conhecendo uma delas, podemos chegar à outra. Quando os soldados de Antíoco passavam nas sinagogas para fiscalizar e pegar algum judeu em falta, encontravam-nos lendo um trecho dos profetas e não tinham autorização para prendê-los – o fiel, então, havia sido livrado da punição. Com o tempo, mesmo depois que a dinastia dos Hasmoneus ascendeu ao governo, liberando a leitura da Torah, o costume prevaleceu e, até os dias de hoje, permanecem as duas leituras cerimoniais.

O costume das duas leituras já estava implantado nos dias de Jesus. Quando dirigiu-se a uma sinagoga em Nazareth para orar, Jesus fez a leitura da haftarah do dia. Lucas registrou que Jesus levantou-se para ler (fez a subida à bimah) “e foi-lhe dado o livro do profeta Isaías, então, quando abriu o livro, achou o lugar onde estava escrito: ‘O Espírito do Senhor está sobre mim, pois que me ungiu para evangelizar os pobres, enviou-me para curar os quebrantados de coração, para pregar a liberdade aos cativos, conceder a restauração da vista aos cegos, por em liberdade os oprimidos e anunciar o ano aceitável do Senhor’. E, fechando o livro, devolveu-o ao ministro e assentou-se, e os olhos de todos na sinagoga estavam fitos nele. Então começou a dizer-lhes – Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos” (Lucas 4.14-21).

O trecho lido por Jesus corresponde à sétima haftarah de consolação. Durante sete semanas seguidas declara-se “consolai, consolai meu povo”. Jesus chegou àquela sinagoga em Nazareth no sétimo sábado de consolações, sendo Ele a perfeita consolação de Israel. Ele veio consolar todos aqueles que choram. Hoje em dia é comum que sejam lidos os versículos 61.10 a 63.9 de Isaías, mas nada impede que a leitura foque numa passagem próxima, antecipando alguns versículos e suprimindo outros, desde que dentro do propósito e ocasião. Uma vez que essa haftarah foi lida, concluímos que a porção da Torah lida naquele dia foi a Parashah Nitzavim (significa ‘em pé’) que se encontra em Deuteronômio 29.10 a 30.20. Sua leitura é feita nos princípios do mês de Setembro. A leitura seguinte a essa Parashah marca o início do ano novo judaico (civil). Jesus anuncia um ano novo, de libertação e de cura, de restituição e de justiça, através da fé em seu sacrifício – o ano aceitável do Senhor.

A perfeita conciliação entre a leitura de Deuteronômio e a leitura de Isaías 61 é mais uma prova do amor de Deus, preparando os corações e falando-lhes de várias e diversificadas maneiras, e de do uso que fez dos cerimoniais existentes para, através deles, manifestar Sua graça. Numa linguagem que o povo daqueles dias pudesse compreender, utilizando-se das leituras programadas, inserindo-se na meditação diária, ali estava a revelação, a Palavra viva, diante do povo ‘em pé’.

Com um pouco de imaginação podemos, agora, retroceder àquele sábado para nos sentirmos sob os efeitos da brisa outonal, numa pequena sinagoga em Nazareth, reunidos a uma congregação atenta às palavras sagradas da Torah, exortando-nos a escolher servir a Deus, sendo lembrados de que ela, a própria Palavra, “está mui perto de ti, na tua boca e no teu coração”. Sem saber o quão perto estavam do Verbo Vivo, os presentes viram levantar-se o jovem Rabi, (filho de José, não é mesmo?). Podemos imaginar o encadeamento da revelação daquele dia, com o anúncio, a exortação ao arrependimento, as promessas e o cumprimento da consolação perfeita oferecida pela mensagem da salvação materializada no próprio Salvador.

Quanto mais retrocedemos à beleza daquela manhã mais nos espantamos com a furiosa recusa dos nazarenos à mensagem pregada. Paralelamente, quanto mais nos deparamos com as variadas maneiras pelas quais o Senhor protege e cria situações para que a moderna nação de Israel seja guiada, mais nos espantamos com a recusa de alguns judeus em se renderem ao único e verdadeiro Deus. O endurecimento dos corações, a secularização, a resistência ao toque do Espírito do Senhor parece ecoar desde a reação daquele grupo na antiga Nazareth. Consola-nos saber que, diante de qualquer um que se ponha de pé, buscando em Deus o perfeito dirigir de seus passos, coloca-se o Senhor, pronto a falar, pronto a curar, pronto a libertar.

Esta meditação é um pedido aos intercessores por Israel, pela descendência de Abraão espalhada por toda a Terra, para que chegue (certamente chegará) o dia de sua rendição ao Eterno, quando não restarão dúvidas de que a intelectualidade vazia, o poder material ou a força tecnológica não são suficientes como vias do consolo que somente Deus pode oferecer. Para Israel, como para os nazarenos da antiguidade, autossuficiência é, sem dúvida, mais perigoso artefato bélico das armas de seus muitos adversários. Consolemos Israel com palavras de salvação. Incentivemos Israel a voltar ao verdadeiro Deus. Oremos por seu levantar, que outra coisa não será para nós do que a ressurreição dos mortos.

Por, Sara Alice Cavalcanti.




Israel: herança de Deus

Israel - herança de DeusO World Israel News Staff anunciou no último dia 8 de julho o resultado da pesquisa publicada pela US News and World Report no dia anterior, que classificou Israel como o oitavo país mais poderoso do mundo. O trabalho avaliou 80 países e envolveu 21 mil pessoas que consideraram a influência da nação, o poder político, o poder econômico e o poder militar. Na subárea do poder político foram levados em conta, entre outros aspectos, a influência política, as alianças internacionais e as alianças militares. Os atributos alinharam os países pesquisados e com melhores resultados da seguinte maneira: em primeiro lugar, os EUA, seguidos da Rússia, China, Alemanha, Grã-Bretanha, França, Japão e Israel.

O resultado, se não chega a causar espanto, ao menos reafirma a presença israelense na cena mundial numa posição de destaque, apesar das críticas e dos ataques violentos aos quais é continuamente submetido. Para não alongar nossa exemplificação, basta citar os já 289 foguetes e morteiros lançados somente neste ano desde a Faixa de Gaza, número que, infelizmente, tende a estar desatualizado quando da publicação deste periódico. Somente no início de junho, o Hamas disparou 45 foguetes contra alvos civis na região sul de Israel. Ataque recente de 12 foguetes atingiu as regiões de Siderot, Sha’arHaNeguev, HofAshkelon e seu entorno. A população de Gaza continua sofrendo nas mãos do grupo terrorista que força mulheres e crianças a permanecerem na linha de frente de inúmeros confrontos na dupla expectativa, tanto de serem vistos como grupo minoritário diante da força ‘desproporcional’ dos ataques do exército de Israel, quanto de não sofrerem represálias pelo cuidado que essas mesmas forças têm em se tratando de inocentes. Várias fontes internacionais perguntam onde estão, nesse momento, as organizações de proteção aos direitos das crianças diante do vergonhoso uso como escudos humanos a que são submetidas.

Também vergonhosas são as cenas montadas para alimentar a mídia antissemita. Dois jovens correm, enquanto carregam, numa tosca armação a título de maca, um companheiro ferido. Passada a filmagem, levanta-se o ‘ferido’, seguem os ‘artistas’ e a cena se desfaz. Em outro ponto, alguém atira contra as forças israelenses. Sai o atirador e assume seu lugar um menino portando uma pedra. Alguns ‘artistas’ são voluntários. Outros recebem pelo papel representado. Sem serem averiguadas, as imagens ganham mundo e excitam a opinião pública. Ordens são dadas a partir de organismos internacionais – todas contra Israel.

Apesar disso, repetimos, a nação prossegue segundo os propósitos de Deus para sua existência. Prossegue porque pertence a Ele e Ele determinou que Israel vive e viverá. Israel é Sua herança, termo que Emílio Conde explica em seu Tesouro de Conhecimentos Bíblicos (CPAD), lembrando que, além do sentido de patrimônio, “há também o sentido religioso da herança, em que o termo não se refere apenas à posse em razão de herança, mas também à posse de qualquer título. Israel herda Canaã, que é propriedade de ‘Yahweh’ (Josué 22.19; 2 Crônicas 20.11). Canaã e o povo de Israel são chamados herança do Senhor, não porque Ele os tivesse recebido de outrem, mas para exprimir a propriedade permanente, o direito bem fundamentado, e os cuidados que esta propriedade traz consigo (Êxodo 15.17; Deuteronômio 9.26, 29; 1 Samuel 26.19; 2 Samuel 21.3)”. O autor salienta que esse sentido espiritual também deve ser aplicado a textos como o Salmo 127.3, onde lemos que “os filhos são herança do Senhor, e o fruto do ventre o seu galardão”. O versículo não deixa dúvidas – os filhos não são herança dos pais, mas de Deus. A prática de acrescentar ao versículo termos que mudam seu sentido não encontra base bíblica. Alguns querem que os filhos sejam “herança da parte do Senhor”, mas não é esse o sentido original. Os filhos são de Deus. A descendência humana pertence ao Criador. As crianças, de todas as nações, são dEle. Ainda que haja bênção e galardão em tê-los, e mesmo proteção contra os inimigos à porta, os pais prestarão contas por eles diante de seu legítimo proprietário, que é o Senhor.

Sendo que não apenas Israel, como uma particular herança e menina de Seus olhos, mas todas as almas de todos os homens de todos os povos pertencem a Deus, que herança pode possuir o homem? Podemos herdar o bem, a glória, a Lei (Salmo 119.111) e até o próprio Deus (Números 18.20; Salmo 16.5). Os levitas herdaram o sacerdócio; a condenação é a herança dos ímpios. Alguém pode, até mesmo, candidatar-se a ser herdeiro do vento (Provérbios 11.29), contanto que transtorne sua própria casa. Há, contudo, outra herança, muito bem descrita pelo mesmo Emílio Conde: “Se o testamento feito por um homem não pode ser anulado, muito menos o será o pacto que Jesus Cristo fez em nosso favor, isto é, em favor de todos os homens, quando assinou com o próprio sangue, o documento que nos garante a herança eterna, que é a salvação. Se a lei exige a necessidade da morte do testador, para somente depois se permitir a posse da herança, diremos que o nosso testador Jesus Cristo já cumpriu essa exigência, de modo que o seu testamento tem força, porque houve morte. Portanto, a nossa herança está no Céu, reservada, à espera da nossa presença ali”. Esse “bem escatológico” tem como penhor o Espírito Santo, o que constitui garantia irrefutável.

Guardada a herança do homem, temamos diante daquela que pertence a Deus e que está debaixo de Seus cuidados. Israel tem dono e, não nos deixemos enganar, cada menino ou menina, nascido desse ou daquele lado das fronteiras que delimitam as nações também tem possuidor. Defraudar, manipular ou ‘fazer desviar do caminho’ a um desses pequeninos constitui violação do direito de propriedade, cujo título está gravado na imagem e semelhança que cada homem traz em si mesmo.

A fé guardada em nossos corações nos faz crer e esperar o progresso de Israel mesmo diante das adversidades. Guardamos a mesma fé no tocante ao resgate de uma geração que foi ensinada a odiar seus irmãos. Cremos contra as circunstâncias que haverá de se erguer em Gaza um exército de homens e mulheres, hoje crianças, que amarão ao Eterno, achegar-se-ão a Ele e amarão Israel. As fronteiras não conterão a profusão de abraços e o som que se ouvirá haverá de ser o de risos e de louvores ao Criador. Uma nação não levantará mais a espada contra outra nação e os povos não aprenderão mais a guerra, conforme disse o profeta Isaías. E Deus alegrar-se-á com Sua herança.

Por, Sara Alice Cavalcanti.




“Nada além de Bíblias”

Nada além de BíbliasNo curso das muitas comemorações que tiveram lugar em Israel por ocasião de seu aniversário de fundação, destacaram-se as transferências das embaixadas dos EUA, da Guatemala e do Paraguai. O presidente do terceiro país a fazer o deslocamento, Horacio Cartes, assim se manifestou: “A decisão concretiza outro acontecimento histórico em nossos vigorosos laços de amizade, que coincide com a comemoração da criação do Estado de Israel, que meu país acompanhou nas Nações Unidas, decidida e decisivamente, há 70 anos”. O premier israelense, Benjamin Netanyahu respondeu com alegria que “este é um grande dia para Israel e um grande dia para o Paraguai, um grande dia para nossa amizade… nós lembramos de nossos amigos. Obrigado Horacio, obrigado Paraguai”. Lembrou, ainda, a maneira como aquele país ajudou judeus a escaparem da Alemanha nazista: “Vocês fizeram isso antes do Holocausto, durante o Holocausto e depois do Holocausto. Um ato de benevolência e misericórdia que estará sempre em nosso coração”.

Semelhantes atos de misericórdia têm sido feitos por cristãos evangélicos em todo o mundo no esforço de viabilizar o retorno de judeus a Israel. Tais ações revestem-se de especial importância nesse momento de antissemitismo crescente. O relatório global sobre antissemitismo (divulgado em 11/04 deste ano) feito pelo Kantor Center, da Universidade de Tel Aviv apontou o sentimento de insegurança nos judeus que vivem na Europa – alguns evitam usar símbolos religiosos ou frequentar sinagogas em feriados judaicas – tornado mais intenso após o assassinato de duas mulheres idosas em Paris. Uma delas, Mireille Knoll, judia francesa de 85 anos, foi o motivo para uma marcha silenciosa pelas ruas da cidade na quarta feira dia 28 de março. Uniram-se à passeata o ministro do Interior, Gérard Collomb, a ministra da Cultura, Françoise Nyssem e a prefeita de Paris, Anne Hidalgo. As atividades parlamentares foram suspensas para que os políticos pudessem participar, embora nem todos tenham sido benvindos. O presidente Macron compareceu ao funeral e classificou a agressão como ato “terrível”. Várias cidades francesas realizaram manifestações semelhantes. A senhora Knoll tinha 10 anos quando escapou à prisão de mais de 13 mil judeus pelos franceses por ordem dos nazistas. Ela e sua mãe fugiram para Portugal, retornando após a guerra. O crime está sendo investigado como sendo de motivação antissemita e alcançou enorme repercussão. O assassinato reviveu um outro, também ocorrido em Paris, em abril do ano passado. A judia ortodoxa Sarah Halimi, de 60 anos, foi jogada pela janela do apartamento por um vizinho, enquanto esse gritava “Alla huakhbar” (Alá é grande, em árabe).

A onda de antissemitismo não é exclusividade francesa, mas ganhou a Hungria, encontrou lugar entre políticos britânicos e faz ouvir sua voz nos jogos de futebol alemães, quando os membros de times adversários são chamados de “judeus”. O termo, aliás, passou à condição de palavra chula nas conversações e em abordagens racistas nas redes sociais. Nada, no entanto, que se compare à atual situação dos judeus na Ucrânia. E é nesse momento em especial que cristãos evangélicos estão se destacando como os maiores financiadores do resgate de judeus em perseguição e, particularmente, promovendo a aliá (literalmente subida – termo usado para descrever o retorno do judeu a Israel).

Alguns perguntam quem são esses cristãos, quais suas motivações e se esse é um movimento recente. Na comunidade judaica são chamados “cristãos da verdadeira Torah”, em paralelo à expressão “judeus da verdadeira Torah”, usada para se referir ao judeu professo e apegado às Escrituras. São pessoas que acreditam que a aliança que Deus estabeleceu com Abraão permanece válida, nos termos descritos na Palavra, sendo os judeus herdeiros das promessas bíblicas, tendo um papel importante a desempenhar no futuro da humanidade, quando do restabelecimento do Reino Messiânico. Entre as instituições envolvidas nesse movimento estão o John Hagee Ministries, a Christians United for Israel, a Embaixada Cristã Internacional em Jerusalém, o ministério Bridges for Peace e muitos outros, trabalhando em cooperação. Um exemplo citado por David Parsons, da Embaixada Cristã de uma possível rota de Aliá russa seria: “Bridges for Peace pode leva-los [judeus necessitando de ajuda] em um trem da Sibéria para Moscou, depois um ônibus [talvez do ministério Êxobus] para um navio em Odessa, que pode ser pago por outro ministério. A ida para Israel pode ser responsabilidade de outro ministério ainda”. Para Rebecca Brimmer, presidente e diretora internacional da Bridges for Peace, é um privilégio ser instrumento de Deus em Seu plano de levar o povo judeu para Israel. O ministério já ajudou a levar quase 2000 judeus somente da Ucrânia. A Embaixada ajudou mais de 115 mil judeus a fazer Aliá. Tais organizações não visam o proselitismo, mas encontram seu papel numa participação profética de restauração e retorno. Segundo o fundador da Return Ministries, outro importante ministério promotor da Aliá, quando é acusado de proselitismo responde: “Você não me circuncida e eu não vou te batizar”. A importante pregação aqui contida é a do amor incondicional, ao qual muitos não conseguem resistir.

Quanto à suposta “novidade” da aproximação entre evangélicos e judeus, ela pode ser respondida pela própria história, num sem número de casos de cooperação, proteção mesmo que a preço de morte e compaixão mútuas. Vencidas as marcas terríveis deixadas pela teologia da substituição e revisto o nascedouro da igreja evangélica – não na Reforma, mas no Cenáculo – muito se poderá ver, ainda, ao longo dessa caminhada que tem em comum o mesmo Deus e os fundamentos de Sua Palavra. Conforme se pronunciou um líder judeu: “Prefiro lidar com os evangélicos que amam Israel, apesar de nossas discordâncias. Na minha opinião, Israel precisa de todos os amigos que puder ter”.

Theodore Herzl, pai do sionismo moderno, tinha um amigo e confidente: o pastor anglicano William Hechler. O líder evangélico foi o responsável por apresentá-lo à família real alemã e foi a porta de entrada para os tribunais europeus. Para ele, era vontade de Deus que o povo judeu retornasse a Ele através do retorno às Escrituras até que percebesse que esse Messias que vem em glória já veio em sofrimento e morte. Em 1896 escreveu: “Somente na terra de Israel o povo judeu novamente encontrará Deus e seus profetas, bem como viverá uma profunda nostalgia pelo Messias”. Quando encontrou Herzl, declarou-lhe: “Dr. Herzl, espero por você há quatro anos. Por quatro anos eu o anunciei a príncipes, estadistas e dignitários eclesiásticos que conheci. Eu preparei o caminho para você. A hora chegou e a sua ideia terá sucesso. Considere-me como a seu serviço, ao serviço da nossa causa!”. Para o jornalista judeu vienense Theodore Herzl, a figura “improvável” (palavras dele) do ministro de Deus chamou atenção. Foi no dia 15 de março de 1896 sua primeira visita àquele que se tornaria seu grande amigo e incentivador. As paredes do local estavam cobertas de livros, Bíblias e documentos até o teto. Havia um gráfico que percorria as eras desde Adão até o ano de 1897 – este estava grifado em vermelho. Hoje, o ano de 1897 é considerado o início do movimento Sionista, ano em que Herzl marcou o primeiro Congresso Sionista, passo fundamental para o estabelecimento do Estado de Israel. Em seu diário, Herzl revelou que Hechler via o movimento como profético, mas que ele permanecia racional e focado em suas ações. Quando desanimado, o amigo confortáva-o através de cartas repletas de amor e de esperança. Além disso, ficou impressionado em sua primeira visita àquele homem simples. Ele encontrou as tábuas da lei escritas. Herzl admirou-se de, naquele singelo lugar que era a moradia de um homem de Deus, não haver encontrado nada de precioso, nada que ressaltasse aos olhos, “nada além de Bíblias”.

Por, Sara Alice Cavalcanti.




Perspectiva de vitória para Israel

Perspectiva de vitória para Israel“E acontecia que, quando Moisés erguia as mãos, Israel prevalecia” (Êxodo 17.11a) O Tratado Mishnah ensina que a vitória de Israel sobre os amalequitas no vale de Refidim não foi alcançada por alguma ação externa e milagrosa operada pelas mãos de Moisés. A tradição judaica não atribui aqui, ao homem que foi o instrumento através do qual o Eterno operou tantas maravilhas, qualquer poder especial, como um gesto mágico que fizesse depender dele próprio a vitória do povo do Senhor, a Quem seja toda a honra, a glória e o louvor para sempre. Para a Mishnah, a guerra conduzida por Josué, tendo as figuras de Moisés, Arão e Ur sobre o cume do outeiro, foi vencida no campo interior, a partir daquilo que ocorria dentro do coração de cada um dos filhos de Israel. As mãos erguidas do filho de Joquebede fizeram com que aquela que foi a primeira batalha enfrentada recém libertos tivesse um direcionamento correto. Moisés apontou para o alto, para os céus, único lugar de onde pode vir o socorro, a esperança, a força e a vitória. Assim, nos corações, todo o tempo em que prevaleceu a certeza de que o Senhor estava no controle, houve vitória na peleja. Quanto essa convicção desfalecia, os amalequitas prevaleceram. Arão e Ur ajudaram o líder na tarefa, por vezes árdua, de manter clara a melhor direção para os olhos do povo.

A despeito das várias explicações que se possa dar ao episódio, a força da tradição judaica está em reconhecer exclusivamente o Eterno como fonte da vitória, sem deificar o instrumento. Mesmo que se compreenda que houve uma importância implícita no ato de erguer as mãos, não foram elas que outorgaram força àquele mínimo exército de combatentes diante de adversários fortes, preparados e numerosos. Não foram as mãos, não foi o cajado, não foram os cooperadores, menos ainda a pedra ou a pequena elevação – em Refidim, o Senhor venceu por seu povo, mais uma vez, ensinando-os a olhar além das circunstâncias, para além e para mais alto.

O olhar dos “avadim” (escravos, servos), estava acostumado a contemplar as pedras e os tijolos com os quais deveriam trabalhar. As grandes construções egípcias perdiam em tamanho diante da grandeza do deserto, como acontece até hoje com o que restou delas. Num primeiro momento, parecem imensas; depois, aquela vasta extensão de areia como que as absorve e diminui, relativizando as pretensões humanas de glória e ostentação. Da mesma forma, na caminhada peregrina, os hebreus deveriam ficar atentos muito mais ao solo e aos pequenos e mortais inimigos, como serpentes e escorpiões, do que com perigos maiores. Ainda hoje, em cada vigília promovida pelos irmãos da Embaixada Cristã em Israel, na região próxima ao Mar Morto, o deserto de Ein Gedi, uma equipe de médicos fica de prontidão para prestar socorro aos intercessores em caso de algum acidente sofrido pelo ataque desses animais. A cada ano, conta-se com alegria o testemunho da proteção de Deus aos seus servos. De qualquer maneira, o perigo desses ataques é motivo de atenção constante. Acrescente-se a isso a grande quantidade de pedras no solo, o que torna a caminhada difícil e até dolorosa para alguém mais distraído. No deserto, olhar para baixo é questão de sobrevivência. Quando muito, olha-se o horizonte, na expectativa do lugar de destino ou da pausa refrescante de um oásis.

Ainda assim, Israel é um povo chamado a lançar seus olhos para o alto. Erguer os olhos, contar as estrelas, comparar sua descendência com o número delas, assim Deus chamou Abraão. Se o povo caminha na terra, o testemunho de sua existência como fruto amoroso da determinação divina está registrado nos céus e sempre pode ser consultado – basta olhar para o alto. Olhando para cima, seus rostos são iluminados, não são confundidos. Ainda que a confusão tente lançar suas setas a cada passo que a nação dá em direção ao propósito do Senhor para ela, basta redirecionar o olhar para não ser atingido.

Vivemos tempos de relativização dos conceitos e proliferação de enganos e, por vezes, fica difícil ler, no emaranhado das notícias – em grande maioria cópias vergonhosas de outras notícias – algum fundo de verdade. Quem acompanhou ou desejou acompanhar os eventos relativos à inauguração da embaixada norte-americana em Jerusalém decepcionou-se com a parcimônia dos relatos, com a ausência deles ou com a sua mais completa distorção. Os tristes eventos na fronteira de Gaza pareceram ofuscar o histórico reconhecimento e grande parte dos comentários procurou desviar-se do assunto. Salvo raras exceções, as reportagens focaram nas pedras, nos ataques e na resposta israelense, por sinal, a esperada resposta diante da invasão deliberada de seu território e no resultado, terrível, dos mortos que atravessaram as fronteiras, incitados pelas vozes dos líderes do Hamas.

Israel tenta olhar para o alto, para revigorar-se e prosseguir em tudo o que ainda precisa ser realizado, dentro de seu lugar no projeto de Deus para seu povo e nação. A partir do soerguimento de seus olhos, outros olharão também. Que dizer da postura do Paraguai, declarando um compromisso de adesão ao reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel? É notável que poucos e pequenos países estejam tomando a mesma resolução, numa batalha que, a não ser pela presença dos Estados Unidos, guarda semelhança com aquela comandada por Josué contra os homens de Amaleque.

Somos desafiados a ler além dos textos e compreender além das notícias. Temos a possibilidade de simplesmente fazer uso de um botão e, num clique, responder à mídia contrária a Israel com a nossa decisão de não oferecermos nossa audiência. Talvez assim, com a parte sensível da mídia, ou seja, a parte financeira, atingida, possa ficar claro que existe um não pequeno número de pessoas que não está focada no espetáculo montado das pedras, mas em contemplar para além dos antagonistas, a perseverança de um povo que continua a caminhar a despeito delas.

A Israel não faltam pedras. Sobre uma delas Moisés sentou-se para, a partir dali, num cume de outeiro em Refidim, fazer-se de bússola, cujo ponteiro era o mesmo cajado que conduziu os filhos de Sião através das águas do mar. Acima da elevação, o Senhor convida à fé, como que a dizer: retira os olhos dos desafios da caminhada e contempla o alvo, a vocação, o chamado e a promessa. A vitória, então, virá.

Shalom, Israel! Haja paz em teus muros, Jerusalém!

Sara Alice Cavalcanti.




Por princípio, Jerusalém, capital de Israel

Por princípio, Jerusalém, capital de IsraelA expressão latina “pacta sunt servanda” expressa um princípio basilar do Direito Internacional e significa que os acordos devem ser cumpridos. Ora, não se pode obrigar um Estado Nacional a cumprir um tratado, mas, uma vez que opte por tornar-se signatário, o país torna-se comprometido em fazer valer e a cumprir seus termos. Esse importante princípio está sujeito a um outro, maior, pois é baseado na boa-fé de que um tratado não pode interferir nas disposições que digam respeito ao direito interno das nações. Assim, o “pacta sunt servanda” tem por limite o “jus cogens” (direito cogente), que são as normas irrevogáveis, premissas mesmo do Direito. Antes dos pactos, por exemplo, figura a autodeterminação dos povos, sua soberania, o direito básico de se autorreger, inclusive a liberdade de estabelecer sua capital, o centro de suas decisões políticas e o núcleo de sua visão sobre si mesmo e sobre seu território.

Jerusalém é a capital histórica, religiosa e política de Israel, e é “exaustivamente mencionada na Bíblia como o centro da vida espiritual judaica; com a dispersão, Jerusalém … tornou-se a referência centralizadora da unidade e unicidade do povo judeu durante quase 2000 anos de exílio. Os textos religiosos, as saudações, as visões messiânicas, o sonho e ideal do Retorno, a literatura e a arte, todas as expressões judaicas de esperança na redenção dos judeus do exílio e sua reconstituição como povo têm Jerusalém como ícone e inspiração” (Os fatos sobre o Israel e sobre o conflito do Oriente Médio, Museu Judaico).

Ainda que a ONU, conforme declara a resolução 478 de seu Conselho de Segurança, não reconheça, existe uma declaração interna do Governo de Israel, a chamada Lei de Jerusalém, que expressa o seu status de capital, sede do governo, residência do presidente, dos escritórios centrais, da suprema corte e do parlamento. Países aliançados diplomaticamente com Israel mantém suas embaixadas em cidades como TelAviv, RamatGan ou Herzliya, num claro desrespeito ao direito de autodeterminação de Israel. Durante anos, contudo, a nação tem contado com o apoio de cristãos evangélicos de todo o mundo, que estabeleceram, à contramão dos povos, a Embaixada Internacional Cristã, com sede em Jerusalém. A visão desses irmãos era a de apoiar Israel e proclamar a sua liberdade de manter a Cidade como capital inquestionável, conforme estabelecida por Davi, reafirmada por Jesus e para onde esperam o Seu retorno. Nossos irmãos expressam por suas atitudes basicamente aquilo que está descrito na Lei Básica de Jerusalém, conforme publicada no Sefer Há Chukim número 980 de Av 5740 (5 de agosto de 1980), que diz:

1. Jerusalém, completa e unida, é a capital de Israel.

2. Jerusalém é a sede da Presidência do Estado, do Knesset, do Governo e da Suprema Corte.

Proteção de Locais Santos:

3. Os Locais Santos devem ser protegidos de profanação e qualquer outra violação e de qualquer coisa próxima de violar a liberdade de acesso aos membros de diferentes religiões aos locais sagrados a eles ou seus sentimentos em relação a esses lugares.

Desenvolvimento de Jerusalém:

4. (a) O Governo deve providenciar o desenvolvimento e prosperidade de Jerusalém e o bem-estar de seus habitantes pela alocação de fundos especiais, incluindo um repasse anual especial à Prefeitura de Jerusalém (repasse de Capital) com a aprovação do Comitê Financeiro do Knesset.

(b) A Jerusalém deve ser dada prioridade especial nas atividades das autoridades do estado no sentido de aprofundar seu desenvolvimento econômico e outras áreas.

(c) O Governo deve estabelecer um órgão especial ou órgãos especiais para a implementação desta seção”. Assinam Menachem Begin, como Primeiro-Ministro, e Yitzhak Navon, Presidente do Estado.

Conforme temos abordado nesta coluna, os Estados Unidos tomaram a decisão de reconhecer Jerusalém como capital do Estado de Israel em 1995, através do Jerusalem Embassy Act, e a transferência deveria acontecer até o prazo de 31 de maio de 1999. Ainda assim, os presidentes do período não aplicaram a decisão por motivos políticos. Suplantando sua determinação interna, acataram as decisões do Conselho de Segurança da ONU, as quais têm força de tratado. Quando o presidente Trump decidiu, no dia 6 de dezembro de 2017, colocar em prática a decisão já tomada pelo Congresso Americano, ordenando ao Departamento de Estado que iniciasse a transferência do endereço diplomático norte-americano de TelAviv para Jerusalém, valeu-se da primazia que seu estado soberano tem, como todos os demais, sobre os pactos comuns. Mais uma vez, a hierarquia dos princípios estabelecida pelas fontes do direito internacional prevaleceu. É necessário acatar de forma respeitosa a decisão tomada, segundo a liberdade dos povos.

Não fossem as nações livres e entes morais, não poderiam ser julgadas. A Palavra de Deus nos alerta sobre o juízo que incidirá, da parte de Deus, sobre elas, muito especialmente com relação a sua postura para com Israel. O Senhor julgará os povos com retidão. A Parashat Mishpatim, a sexta parasha do Livro de Shemot (Livro de Êxodo), estabelece asmishpatim (leis) de Israel, e desenvolve o conceito de Mishpat. Mishpat é justiça, e refere-se a princípios, atos e pronunciamentos de justiça. Lembremos que foi esse o termo usado por Jacó quando de seu último encontro com Labão. Envolvidos em uma sequência de atos que significavam acordos, como o fato de comer pão juntos, invocar o nome do Senhor, levantar um sacrifício comum ou erguer um montão de pedras, ainda soou a expressão de Jacó, quando ergueu a voz e declarou Mishpat. O termo, que é a expressão da invocação da justiça, resume uma frase costumeira, cuja força invoca a presença de um tribunal celestial. Assim, ao declarar Mishpat, Jacó estava clamando: “Erga-se o Senhor como coluna e torre de justiça entre mim e ti”. Ali, no deserto, onde não havia testemunhas isentas entre os homens que compunham as duas partes, onde o preço pago e o sacrifício vivido pelo patriarca lhes eram negados, onde o tratado feito para a aquisição de suas mulheres e bens parecia ser anulado, pois Labão dizia-lhe que as filhas eram suas, que os netos eram seus e que o gado e todo o restante lhe pertencia, restou apenas a Jacó a invocação de um tribunal superior. Mishpat!

Os termos chalom, mishpat e tsedaka têm campo semântico bastante vasto e intercambiável. Assim, não se pode pretender obter ashalomsem a tsedakahe esta não subsiste sem amishpat. Não há paz sem justiça, sem leis, sem observância aos mandamentos do Senhor.

No tocante a Israel e a Jerusalém, nenhuma corte terrena levantará a voz em defesa. Pior, mais grave, se um dia levantar, com um pacto que concilie todas as partes e que faça valer o princípio da própria Organização das Nações Unidas, cujo objetivo, desde a sua fundação em 1945, é estabelecer a paz e a segurança, então, seja Deus misericordioso, sobrevirá repentina destruição. O acordo mundial que estabelecerá a paz será quebrado. O princípio de “pacta sunt servanda” será definitivamente subvertido e o homem da iniquidade dará livre curso a suas malignas intenções. Naqueles dias, Israel gritará Mishpat! Profeticamente, os Santos do Eterno que ainda na Terra estão, no aguardo de suas promessas, também clamam para que o Senhor vigie com Sua justiça entre nós e o mundo ao qual incomodamos com nossa presença. Ainda por um pouco de tempo. Até lá, Mishpat!

Por, Sara Alice Cavalcanti.