O que a Bíblia diz sobre as riquezas

Nos nossos dias tornou-se muito comum encontrar pregadores na TV ou na internet, que proclamam a teologia da prosperidade, dizendo que o crente não pode ser pobre ou estar em sofrimento, pois isso demonstra falta de fé ou a existência de pecado. Esses pregadores afirmam com muita veemência que o cristão deve ser rico e muito saudável sempre, por causa da sua fé em Cristo. São os pregadores da prosperidade, que, na verdade, vendem esta ideia, pois pedem contribuições aos seus telespectadores, tornando-se, em muitos casos, mercadores da prosperidade, infelizmente.

Muitos cristãos, que estão passando por dificuldades financeiras ou por enfermidades, ao ouvir essas mensagens ficam se perguntando: Será que isto é verdade? E o que eu faço, já que estou nesta situação? Estou em pecado ou não tenho fé suficiente para ser abençoado?

Quero dar uma resposta a estes cristãos. Em primeiro lugar, o irmão deve saber que mais importante do que as opiniões humanas é a Palavra de Jesus, não importando se o homem que fala na mídia é importante e famoso ou um desconhecido; se ele tem várias graduações acadêmicas, ou nenhuma.

O que importa mesmo é sabermos o que o Senhor Jesus declara sobre as riquezas. Elas são, realmente, um sinal da bênção de Deus, de uma fé operosa, de uma vida que agrada ao Pai Celeste? E quanto ao sofrimento? Isto não pode, de forma alguma, existir na vida do discípulo de Cristo? O cristão deve esperar uma vida de “sombra e água fresca” quando decide seguir a Jesus? Andará em uma estrada sem obstáculos, sem dificuldades e sobressaltos, por ter a companhia do Senhor?

Podemos encontrar respostas a todas estas questões nas Palavras de Jesus, registradas nos quatro Evangelhos. É neste registro inspirado que devemos buscar a orientação segura para nossa vida, pois a própria Palavra declara que “o que foi escrito, para nosso ensino foi escrito” (Romanos 15.4). Vejamos, pois, alguns dos ensinos do Senhor Jesus sobre as riquezas:

O Mestre declarou no Sermão do Monte (Mateus 6) que não devemos ajuntar tesouros na terra, mas no céu, mostrando quais riquezas devemos buscar com maior interesse: as riquezas espirituais. Mostra, inclusive, que o tesouro acumulado no céu não pode ser roubado nem destruído, ao contrário das riquezas terrenas, que são tão instáveis, sujeitas à ação de ladrões e à deterioração. Uma pequena traça pode tornar sem valor uma peça de roupa caríssima, bordada a ouro e com diamantes incrustados nela. Um tesouro acumulado com tanto esforço pode facilmente ser levado pelo ladrão. A ênfase do Senhor é que devemos acumular tesouros onde eles estejam seguros eternamente. Um homem pode, portanto, usar atividades seculares para acumular tesouros no céu, quando trabalha para glória de Deus. Outro homem pode usar as atividades religiosas para acumular apenas tesouros na terra, quando as realiza para obter qualquer vantagem entre os homens, como pagamento pelos seus atos.

Jesus diz ainda que onde estiverem as nossas riquezas estará o nosso coração (a nossa atenção, o nosso interesse). Ou seja, o Mestre mostra que colocamos nossa atenção naquilo que mais valorizamos, por isso devemos pensar muito bem sobre o que vamos entesourar, pois nosso interesse denuncia o que realmente valorizamos. O Senhor declara ainda neste mesmo sermão: “não podeis servir a dois senhores, não podeis servir a Deus e às riquezas”, revelando que a riqueza pode facilmente dominar a nossa vida, tornando-se algo sem a qual não podemos viver ou ser felizes.

Os evangelhos sinóticos também registram o encontro de Cristo com o jovem rico (Mateus 19,Marcos 10 e Lucas 18), quando o Senhor declara que as riquezas podem impedir um homem de entrar no reino dos céus. Aquele jovem parecia estar interessado na vida eterna, mas afastou-se de Jesus com tristeza, pois já havia entregue seu coração às riquezas terrenas. Ainda, na parábola do semeador, relatada nos três evangelhos (Mateus 13, Marcos 4 e Lucas 8), o Mestre declara que a sedução das riquezas é como espinhos que sufocam a Palavra no coração do que a ouve. Com todas estas palavras, o Mestre mostra que aquele que põe seu coração nas riquezas terrenas está colocando em risco a sua fé nEle, que é a única possibilidade de alcançar a vida eterna. Por valorizar tanto os bens terrestres, o homem pode perder a herança celestial.

O relato dos evangelhos, então, não apoia as declarações da teologia da prosperidade, mas mostra as riquezas terrenas como algo que não deve dominar o coração do cristão, algo que não deve ser visto como um verdadeiro sinal da aprovação divina e que pode mesmo tornar-se um concorrente de Cristo na disputa da devoção humana, tirando o Cristo eterno do primeiro lugar em nosso coração e colocando em seu lugar as riquezas temporárias.

Quanto a sofrer aflições e tribulações nesta terra, o Mestre disse no Sermão do Monte que se passarmos por estas coisas por causa dele, somos bem aventurados (muito felizes) e teremos uma recompensa no céu. Aquele que passa por provações e perseguições não está necessariamente fazendo algo que desagrade a Deus. Pelo contrário, pode estar sofrendo exatamente por estar agradando a Deus e desagradando ao mundo. Quem escolhe ser amigo de Deus não pode ser, de forma alguma, amigo do mundo, pois a amizade com o mundo é inimizade contra Deus. E quem escolhe ser amigo de Deus será considerado pelo mundo como inimigo. Por isso, o cristão é perseguido nesta terra.

Quanto à saúde corporal, Jesus não desvalorizou o corpo, mas disse que antes de buscar a satisfação das suas necessidades mais básicas, o homem deve buscar o reino de Deus (Mateus 6.33). Mais importante do que comer, beber, vestir, necessidades que são apontadas na base da pirâmide da satisfação humana, está a necessidade de pertencer ao reino de Deus e fazer a vontade do Pai. O Mestre chega mesmo a dizer, no Evangelho de João, que a sua comida (aquilo que o alimentava, que lhe dava verdadeira disposição) é fazer a vontade do Pai (João 4.34).

Cristo nunca afirmou que o cristão seria miserável ou viveria desamparado e passando necessidades. Pelo contrário, Ele garante que o Pai sabe do que necessitamos e cuida muito bem de nós. O Senhor nos orienta, porém, a confiarmos em Deus e não nas riquezas. Quando Ele enviou os setenta discípulos, de dois em dois, disse-lhes que não levassem bolsa, nem dinheiro, nem alimento (Lucas 9.3), e os discípulos declararam que nada lhes faltou no caminho (Lucas 22.35).

Assim, querido irmão que está sendo perturbado pelos pregadores midiáticos, pode ficar tranquilo se enfrentar dificuldades e não tiver muito dinheiro, que isto não é sinal necessário de falta de fé ou santidade. Aliás, se você não enfrentar nenhuma perseguição ou tentação e se tiver dinheiro suficiente para viver de forma autossuficiente como o rico retratado no capítulo 12 do Evangelho de Lucas, então deveria, sim, ficar muito preocupado e procurar o seu pastor para aconselhamento. Um pastor real, não um virtual, que não pode aconselhar nem discipular ninguém.

Referências

BALDWIN, Joyce G. 1 e 2 Samuel Introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1988. Bíblia do ministro com concordância: Nova Versão Internacional / (traduzida pela Comissão de Tradução da Sociedade Bíblica Internacional). São Paulo: Editora Vida, 2002.
BARKLAY, William. Comentário Bíblico do Novo Testamento. Marcos: tradução portuguesa – versão eletrônica.
DANIEL, Silas. Violência no Antigo Testamento. Resposta Fiel Apologia da Fé Cristã. Rio de Janeiro: CPAD ano 6 – N° 23, 2007.

Por, Raydfran Leite de Oliveira.




Sobre teologia e prosperidade

Já há algum tempo que muitos teólogos e cristãos em geral têm demonstrado seu descontentamento, sua revolta e condenação contra o que se convencionou chamar de “teologia da prosperidade” ou “doutrina da prosperidade”: aquela velha crença/concepção, modernamente revigorada com outra maquiagem doutrinal, de que riqueza é sinal de se estar na presença de Deus, com alguns até fazendo “poupança” aqui na terra objetivando lograr passaporte para o paraíso. Esse tipo de teologia norteia a conduta de alguns crentes, impulsionando-os a ganhar dinheiro, armazenar bens e a objetivar sempre o lucro, mas nunca, jamais, o bem da comunidade dos irmãos; e o que é bem pior, a sua real salvação segundo o Evangelho.

Ora, nada mais falso, enganoso e sem fundamento! Trata-se, obviamente, de uma teologia sem prosperidade. A verdadeira prosperidade é a prosperidade da salvação em Jesus Cristo. Todas as vezes, em qualquer situação, em que uma igreja faça pregação exagerada e famigerada apenas com o objetivo de recolher dinheiro e bens materiais em forma de arrecadação (exploração da fé) e ofertas milionárias, que só enriquecem a elite dirigente, mas nunca a comunidade de crentes (Igreja), fica evidente que tal teologia não passa de suborno espiritual por meio do engodo e da falsificação da fé.

Não é demais relembrar que Jesus Cristo, em nome de quem sempre esses arautos pregam, postulou biblicamente, só para dar quatro exemplos:

1) O Verdadeiro Tesouro: “Não junteis para vós tesouros na terra, onde a traça e o verme os consomem, e onde os ladrões penetram e roubam. Mas ajuntai para vós tesouros no céu, onde nem traça nem vermes os consomem…” (Lucas 12,33s).

2) A não se servir a Deus e ao dinheiro: “Ninguém pode servir a dois senhores: ou odiará a um e amará ao outro, ou se afeiçoará ao primeiro e desprezará o segundo. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro.” (Lucas 16,13).

3) Que o seu “reino não é deste mundo”.

4) E que “é mais fácil um camelo passar no fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus” (Mateus 19.23-24).

Questiona-se: Como é possível crer num deus de uma religião que executa uma intensa pregação teoeconômica, vive armazenando bens materiais sob abjeta ganância, mas que jamais, pratica solidariedade com o semelhante? Como tolerar na igreja o objetivo de lucro privado em detrimento do bem público coletivo? O que dizer da desenfreada competição consumista enquanto bilhões de irmãos miseráveis são excluídos e marginalizados, passando fome?

É necessário não olvidar que o Cristianismo somente penetrou massivamente no meio popular e historicamente tem perdurado por mais de vinte séculos devido a dois princípios doutrinários de extrema relevância: no plano espiritual, o instituto do perdão; e, no plano social, o princípio ético da solidariedade, que é aplicação do “Amai a vossos semelhantes como a vós mesmos!”.

Agora, um fundamento histórico-sociológico da maior envergadura, desconhecido, ignorado pelos “crentes de mentalidade do senso-comum” é o que se encontra no principal escrito do grande sociólogo alemão Max Weber (1864-1920). Em sua monumental obra “A ética protestante e o espírito do capitalismo” (1904-5), Weber postula que uma análise estritamente econômica (como é o caso da postulação de Karl Marx, 1818-1883), seria insuficiente para explicar o surgimento do capitalismo, devendo ser levados em conta também elementos éticos, religiosos e culturais. Esclarecendo: deve-se levar em consideração, além dos elementos econômicos, isto é, “materiais”, que são logicamente importantes e iniludíveis, os elementos considerados e critérios culturais, valorativos, axiológicos.Segundo Weber, o capitalismo não poderia ser compreendido sem uma análise de suas relações com as transformações espirituais da passagem da Idade Média para a Idade Moderna, época em que esse sistema econômico e social surgiu.

Assim, Weber foi conduzido a relacionar o “espírito capitalista” à ética protestante calvinista (OLIVEIRA, 1999, p. 40). Ao estudar a origem do capitalismo, Weber rejeita a ideia de uma causa histórica determinada (econômica). As causas econômicas e tecnológicas são incapazes de explicar tudo por si só. É preciso que se lhes acrescentem tipos de condutas particulares, ligadas a certas motivações culturais. O “desbloqueio mental”, que torna possível a acumulação primitiva, o ascetismo secular (éthos/ascetismo protestante), que leva a que o homem erija a atividade de trabalho em “valor supremo”, e a continência em virtude, é o protestantismo. O protestantismo não é a causa do capitalismo, mas o sistema de valores que guiou os homens, em determinadas condições históricas (GAZENEUVE; VICTOROFF, 1982, p. 123-124).

Impossível “tapar o sol com uma peneira”. O protestantismo/ evangelismo é mesmo uma forma de liberalismo, isto é, uma filosofia política própria do regime capitalista. Não é por acaso que, historicamente, os dois movimentos surgiram exata e coincidentemente no início do século XVI: Capitalismo Comercial ou Mercantil (Expansão Comercial Marítima Européia: Fernão de Magalhães e Sebastião del Cano partem para a primeira viagem de circunavegação, 1519; Gil Eanes dobra o cabo Bojador, 1434; Bartolomeu Dias dobra o cabo da Boa Esperança, 1488; Vasco da Gama descobre o caminho marítimo para as Índias, 1498; descoberta da América, 1492; e descoberta do Brasil, 1500); Reforma Protestante (Martinho LUTERO, 1483-1546; e, João CALVINO, 1509-1564…). Além disso, em outra dimensão, que é a teórica, complementar, é exatamente no século XVI, com MONTAIGNE, que se inicia a concepção do mundo ‘individualista liberal capitalista burguesa’ que, dá-lhe respaldo doutrinal.

A Teologia da Prosperidade deve, necessariamente, ser combatida nas escolas bíblicas dominicais, nos cultos de ensinamento, nas reuniões de ministério e, consequentemente, até nas escolas teológicas e convenções de ministros, simplesmente por se tratar de uma “teologia” manipuladora e sedutora, onde o senhorio de Cristo é posto sob a ótica do capital, sob a negação da graça.

Por fim, o que deve ser pregado em nossas igrejas é uma teologia sem “prosperidade”, uma teologia da cruz, uma teologia da graça, o verdadeiro Evangelho de Jesus Cristo.

Uma leitura mesmo superficial dos evangelhos (Mateus e João, por exemplo) mostra a total despreocupação de Jesus em relação aos bens materiais. Mesmo o reino de Jesus não era desse mundo. A Quem quisesse segui-lo aconselhava a vender seus bens e dá-los aos pobres. A Bíblia diz que o amor à riqueza dificulta a entrada no Reino de Deus. Aos pobres, famintos e sofredores, recomendou paciência. É evidente que essa doutrina é diametralmente oposta à teologia da prosperidade. Isso não significa que a riqueza, a saúde e o bem estar devam ser repudiados pelo crente em Jesus, pois que são necessárias, mas não pode fazer disso a razão principal da sua fé. Buscai, em primeiro lugar, construir o reino de Deus dentro de vós! (Mateus 6.33). No mundo pós-moderno, o evangelho, às vezes , tem sido interpretado como economia dos bens terrestres, a exemplo das teologias neopentecostais , enquanto que , com certeza bíblica , a verdadeira doutrina de Cristo só é lembrada pelos cristãos autênticos.

Por, Roberto dos Santos.




Em defesa da evidência inicial

Em defesa da evidência inicialA doutrina da evidência inicial é uma marca importante do pentecostalismo clássico e tem uma forte base escriturística. As Sagradas Escrituras normalmente associam o enchimento do Espírito ao discurso vocal. É claro, a partir de uma leitura no progresso revelacional das Escrituras, que há uma mudança de chave da evidência do revestimento de poder. Gradualmente, da Antiga a Nova Aliança, a evidência do enchimento do Espírito passa da profecia à glossolalia. E, também, o enchimento do Espírito deixa de ser apenas para alguns escolhidos e passa a ser disponível a todos os homens. Apesar das críticas costumeiras a essa doutrina, o seu embasamento exegético, hermenêutico e teológico é bastante robusto.

A evidência do enchimento do Espírito na Antiga Aliança

Quando Deus designou setenta anciãos para ajudarem Moisés, conforme registro de Números 11.16-35, Ele tirou o Espírito Santo que estava sobre Moisés e repassou a todos os anciãos. Diz o texto: “E aconteceu que, quando o Espírito repousou sobre eles, profetizaram” (v. 25). Séculos depois, Deus usou Joel para profetizar a efusão do Espírito e assim disse ao povo de Israel: “Derramarei o meu Espírito sobre toda a carne, e vossos filhos e vossas filhas profetizarão” (2.28). Há ainda um episódio emblemático no reinado de Saul quando ele envia mensageiros para prender Davi, mas quando esses mensageiros passam pela Escola de Profetas dirigida por Samuel, diz o texto, que “o Espírito de Deus veio sobre os mensageiros de Saul, e também eles profetizaram” (1 Samuel 19.20). O evangelista Lucas, ao registrar os atos da família de João Batista, o último profeta da Antiga Aliança (cf. Lucas 16.16), mostra o mesmo padrão veterotestamentário: “Seu pai, Zacarias, foi cheio do Espírito Santo e profetizou…” (Lucas 1.67); “Isabel foi cheia do Espírito Santo, e exclamou com grande voz.” (Lucas 1.41, 42).

O teólogo assembleiano Robert P. Menzies mostra que não só no texto bíblico do Antigo Testamento, mas mesmo na literatura judaica da época de Cristo havia abundância de textos associando a atuação do Espírito com a vocalização profética. Diz Menzies: “A literatura do judaísmo intertestamentário identifica consistentemente a experiência do Espírito com inspiração profética. O Espírito permite que o sábio atinja as alturas da realização sapiencial, equipa o Messias com conhecimento especial para governar e dá uma visão ao profeta do Senhor. A inspiração do Espírito, seja em relação ao sábio, ao Messias ou ao profeta, está quase sempre relacionada à fala inspirada”1. Portanto, tanto o Antigo Testamento como a teologia judaica apresentavam uma longa tradição de associar o enchimento do Espírito Santo à fala.

Evidência Inicial na Nova Aliança

Com o Novo Testamento, o Espírito Santo e o seu enchimento capacitador ao serviço, conhecido como “Batismo no Espírito Santo”, não está localizado apenas em alguns poucos indivíduos, mas, agora, está disponível para toda a Igreja. O sinal desse derramamento do Espírito deixa de ser a profecia, conforme visto em vários textos do Velho Testamento e passa a ser o falar em línguas, a glossolalia, como pode ser verificado em Atos dos Apóstolos: “E todos foram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas…” (Atos 2.4); “Então, Pedro, cheio do Espírito Santo, lhes disse.” (Atos 4.8); “E todos foram cheios do Espírito Santo e anunciavam com ousadia a palavra de Deus” (Atos 4.31)”; “E os fiéis que eram da circuncisão, todos quantos tinham vindo com Pedro, maravilharam-se de que o dom do Espírito Santo se derramasse também sobre os gentios. Porque os ouviam falar em línguas e magnificar a Deus” (Atos 10.45,46); “E, impondo-lhes Paulo as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo; e falavam línguas e profetizavam” (Atos 19.6). É interessante observar que tanto a profecia como o falar em línguas são dons elocutivos, mas, claramente, Lucas apresenta em Atos que a glossolalia substitui a profecia. Todavia, a natureza elocutiva do enchimento do Espírito continua.

Por que há uma rejeição tão forte à pneumatologia pentecostal?

O famoso exegeta suíço Eduard Schweizer (1913-2006) escreveu um importante artigo em 1952 intitulado Spirit of Power: The Uniformity and Diversity of the Concept of the Holy Spirit in the New Testament (Espírito de Poder: A Uniformidade e a Diversidade do Conceito do Espírito Santo no Novo Testamento). Ele mostra como a pneumatologia de Paulo apresenta diferenças complementares a Lucas e vice-versa. Em um trecho, Schweizer escreve: “Lucas está preocupado em mostrar como o Espírito tem atividades peculiares, ainda que extraordinárias e visíveis, que penetram profundamente na existência corpórea do homem e em sua vida diária.” Não é à toa que nós, assembleianos, afirmamos em nossa Declaração de Fé que o falar em línguas é uma evidência física e inicial do Batismo no Espírito Santo. Como lembra Schweizer, uma leitura atenta de Atos dos Apóstolos mostra que há um envolvimento do Espírito Santo com a nossa fala. Outro exegeta famoso, Hermann Gunkel (1862-1932), ainda no século XIX, já afirmava ao ler o livro de Atos dos Apóstolos: “Os sintomas da presença do Espírito Divino foram mais claramente e visivelmente presentes na glossolalia. Tal comportamento (…) é visto como aquela manifestação do Espírito em que a descida do divino é percebida de forma mais fácil e direta. Portanto, não é suficiente dizer que a glossolalia foi o dom mais visível do Espírito – era, ao mesmo tempo, o mais característico”.2 O erudito James Dunn, cuja obra é extensamente usada pelos críticos do pentecostalismo, escreveu em uma obra mais tardia: “A favor da tese pentecostal, deve-se dizer basicamente que sua resposta (sobre a evidência inicial) está enraizada no Novo Testamento com mais firmeza do que se pensa. Certamente, é verdade que Lucas considera a glossolalia do Pentecostes como um sinal externo do derramamento do Espírito. (…) O fato é que sempre que Lucas descreve o dom do Espírito, este é acompanhado e manifestado pela glossolalia. Então, a consequência, não desprovida de realismo, é que Lucas tentou descrever o ‘falar em línguas’ como ‘a prova física inicial’ do derramamento do Espírito”3. É difícil achar um exegeta que seja honesto com o texto de Atos e negue que a natureza da glossolalia está associada aos homens cheios do Espírito.

Falta ao universo evangélico tradicional entender, como exegetas famosos do passado entenderam, que a pneumatologia de Lucas é complementar a Paulo e vice-versa. O teólogo norte-americano Rick Brannan fez um levantamento interessante sobre as passagens bíblicas mais citadas em 300 Teologias Sistemáticas vendidas no mercado evangélico. É surpreendente e espantoso que entre as cinco referências mais citadas em pneumatologia temos apenas menções ao Evangelho de João e a Epístola aos Efésios, ou seja, nada do conjunto Lucas-Atos, que são os livros bíblicos que mais falam da atuação do Espírito Santo. Nas Teologias Sistemáticas protestantes há um domínio de textos paulinos e quase nada de narrativas do Antigo e Novo Testamento. Em parte, isso explica a dificuldade dos teólogos tradicionais em compreender a estrutura doutrinária do pentecostalismo. E, também, mostra como os evangélicos precisam mergulhar mais em Teologia Bíblica (sem desprezar a importância da Teologia Sistemática).

Portanto, cremos nas línguas estranhas como evidência física inicial não como dogmatismo e tradicionalismo ou como marca histórica, mas porque há amplo amparo bíblico para essa crença. A glossolalia tem um papel fundamental como testemunho público. Como lembro no meu livro: “O apóstolo Paulo indica que a língua é um ‘sinal, não para os fiéis, mas para os infiéis’ (cf. 1 Coríntios 14. 21,22), e o Batismo no Espírito Santo é um revestimento de poder para testemunhar àqueles que não se converteram (Atos 1.8, 2.1-47). Não é à toa que a língua sempre está presente no Batismo do Espírito Santo”4. O mesmo Espírito que nos reveste de poder para sermos testemunhas pelo mundo nos dá o sinal da glossolalia para lembrar que essa atividade evangelística depende da graça dEle para encher a nossa boca. Como disse Jesus: “Porque o Espírito Santo vos inspirará naquela hora o que deveis dizer” (Lucas 12.12).

Notas Bibliográficas

1 MENZIES, Robert. Empowered for Witness: The Spirit in Luke-Acts. 3 ed. New York: T&T Clark Publishers, 2004. p 84. Veja também: STRONSTAD, Roger. A Teologia Carismática de Lucas. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2018. p 94,95.
2 GUNKEL, Hermann. The influence of the Holy Spirit. 1 ed. Philadelphia: Fortress Press, 1979. p 31.
3 DUNN, James D. G. Jesús y el Espíritu: La experiencia carismática de Jesús y sus Apóstoles. ePub ed. Barcelona: Editorial CLIE, 2014. p 417. 4 SIQUEIRA, Gutierres Fernandes. Revestidos de Poder: Uma Introdução À Teologia Pentecostal. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2018. p 92.

Por, Gutierres Fernandes Siqueira.




O perigo de estudar seitas sem preparo

O perigo de estudar seitas sem preparoAo longo de muitos anos ensinando em igreja ou em classes de seminário, tomei conhecimento de diversos casos de irmãos que assumiram o compromisso de evangelizar adeptos de seitas, mas que acabaram se tornando vítimas delas – por falta de preparo. Os casos mais comuns se relacionam ao judaísmo, ao mormonismo, ao sabatismo e às testemunhas-de-jeová.

As causas principais desse tipo de fracasso são, geralmente, (a) o pouco conhecimento das Escrituras; (b) o desconhecimento da hermenêutica sagrada, da exegese bíblica, e do vernáculo. Outra causa, ainda, seria a falta de bom senso.

Comecemos pelo pouco conhecimento das Escrituras, que tem provocado o surgimento de movimentos do tipo da teologia da prosperidade, segundo a qual podemos ser ricos, e da Super Fé, que garante saúde perfeita e nenhuma doença, e do reino agora, segundo o qual o nosso corpo atual pode tornar-se imortal sem ressurreição ou arrebatamento, etc. Eis alguns pontos falhos dessas crenças: (a) não há uma só promessa de riqueza material no Novo Testamento, e nenhum caso de enriquecimento material; o que há é o oposto, no caso de Zaqueu; (b) uma pessoa pregadora da Super Fé adoeceu, e teve de se esconder da mídia no Brasil porque o crente não adoece; (c) acreditar no reino agora é negar a escatologia, que revela uma clara sucessão de eventos antes da manifestação do reinado de Cristo na terra, e ignorar a clara declaração de Jesus de que carne e sangue não herdam o reino de Deus.

O pouco conhecimento do vernáculo por parte de alguns líderes cristãos tem envergonhado o evangelho. Um desses “pastores” mantinha relações sexuais com mulheres da igreja – com a conivência de seus maridos – por causa do mandamento de Deus em Oséias 1.2: “Vá, tome uma mulher adúltera…”. Ele leu o adjetivo como se fosse verbo: “Vá, tome uma mulher e adultera”, supondo que Deus aprovava essa prática! Infelizmente, o Brasil é campo fértil para esse tipo de absurdo, pois está mais de 260 anos atrasado em leitura, segundo notícia recente publicada pela Rede Globo.

Questão de bom senso

Outra causa de interpretação equivocada é a falta de discernimento da Palavra de Deus, ou de bom senso. José, marido de Maria, oraria a Deus pedindo algo para Jesus como “nosso filho”? É claro que não! Por reverência ao Messias ele sequer manteve relações sexuais com a esposa enquanto grávida de Jesus. Ou Jesus diria ao Pai que aceitaria morrer pela humanidade, contanto que não se casasse? Aceitar isso é não entender a sublime missão do Filho de Deus na terra.

Outra opinião equivocada é acreditar que as duas testemunhas de Apocalipse são Enoque e Elias, pelo fato de ambos não terem provado a morte. Seria Deus tão medíocre ao ponto de presentear seus dedicados servos com o livramento da morte, e depois requerer deles a devolução da dádiva?

Fui informado em Guarujá (SP), de que uma igreja evangélica na baixada santista transformou-se numa sinagoga em razão das muitas práticas judaicas trazidas da terra santa por seus membros e introduzidas no culto. Neste caso particular a culpa é de guias evangélicos despreparados para refutar o judaísmo dos guias turísticos em Israel. Pior ainda, é ouvir a notícia de que pastores evangélicos se convertem ao sabatismo! A diferença entre a Lei e a Graça é tão brutal que quando a Lei foi proclamada pela primeira vez, três mil pessoas morreram (Êxodo 32.28); ao passo que, mediante a pregação da Graça, no dia de Pentecoste, três mil pessoas foram salvas (Atos 2.41). A propósito, meu livro O Sábado, a Lei e a Graça, já provocou a saída de muitas dezenas de pessoas do legalismo sabatista para diferentes igrejas evangélicas.

Resplandece na Bíblia a doutrina da Trindade, que é fortemente negada pelos testemunhas-de-jeová. Dois jovens adeptos dessa seita bateram à minha porta, e em nossa conversa mencionei o texto de João 1.1, que está pirateado na Bíblia usada por eles, e um dos jovens perguntou: “Você pode nos mostrar onde está a Trindade na Bíblia?” “Pois não”, respondi. Usando a própria Bíblia deles, li em 1 Coríntios 12, versículos 4 a 6, e disse: No v. 4 o Espírito Santo distribui os dons espirituais; no v. 5, Jesus distribui na igreja os dons ministeriais, e no v. 6, o Pai opera tudo em todos. Imediatamente os rapazes disseram que tinham de ir, e se foram.

Alguns absurdos relacionados ao Natal

O profeta Oséias, uns sete séculos antes de Cristo, registrou as seguintes palavras de Deus acerca de Israel: “O meu povo está sendo destruído porque lhe falta o conhecimento” (Oséias 4.6).

A história se repete hoje. Milhões se perdem pelo mesmo motivo. As mentiras se vestem de uma capa de verdade, as tradições assumem ares de doutrina, e os mitos passam-se por fatos.

A Bíblia é feita de fatos, e de promessas e profecias que um dia também serão fatos consumados. A Bíblia não apenas contém a Palavra de Deus, como ensinam os modernistas, mas é a Palavra de Deus.

Dentro do nosso propósito de separar o trigo do joio – os fatos dos mitos – no que diz respeito ao Natal de Jesus, o primeiro exemplo está em Lucas 2.14: “Glória a Deus nas maiores altura, e paz na terra, entre os homens, a quem ele quer bem”. Deus mesmo toma a iniciativa, ama o mundo de tal maneira que lhe envia o Seu único Filho. Ele prova o Seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores. A salvação veio de Deus, por intermédio de Cristo. “Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas” (Isaías 53.6). “Foi ele que nos fez e dele somos” (Salmos 100.3). Este é um dos maiores fatos relacionados como Natal de Jesus.

Todavia, muitos discordam de Deus e da Bíblia, e mudam a verdade divina em mentira, ao citarem o referido texto como sendo: “Glória a Deus nas alturas, paz na terra aos homens de boa vontade”. Inexiste tal versículo. Os homens nunca tiveram boa vontade para com Deus. A redenção é obra exclusiva de Deus em Cristo. O fato de o véu do templo rasgar-se de alto abaixo naquela trágica tarde de sexta-feira mostra de onde vem a salvação: de cima, de Deus.

O segundo exemplo é este: “Tendo Jesus nascido em Belém da Judéia, em dias do rei Herodes, eis que vieram uns magos do oriente a Jerusalém…” (Mateus 2.1). Esta é a verdade: uns magos. Ninguém, até hoje, conseguiu provar a historicidade dos três reis magos. A Bíblia não diz quantos eram nem os apresenta como reis, e é imprudente tirar conclusões apressadas baseando-se apenas nos presentes ofertados ao menino Jesus.

Talvez fossem eles conselheiros reais na Babilônia, pessoas ilustres, pois como tais foram recebidos em Jerusalém. Mas não se pode afirmar que eram reis, nem que eram três. Se fosse apenas três, como poderiam eles atravessar milhares de quilômetros, às vezes por desertos infestados de bandidos?

H. H. Halley, em seu Manual Bíblico, sugere mais de três e ainda acompanhados de uma comitiva composta de dezenas ou centenas de pessoas, ao ponto de alvoroçarem toda a cidade de Jerusalém. É fato histórico que uns magos, vindos do Oriente, seguiram a estrela e visitaram o menino Jesus, mas não passa de mito tudo o mais que não se pode provar pela Bíblia ou pela história.

O terceiro exemplo está em Mateus 2.11: “Entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe…”

O fato bíblico é: entrando na casa. O mito é: entrando na manjedoura. São comuns as representações (até em templos evangélicos!!!) de Jesus deitado num berço de palhas, na manjedoura, recebendo os presentes dos magos. Tais insinuações não possuem respaldo bíblico. As palavras usadas para recém-nascido e menino são diferentes, e Mateus se serve exatamente da última, cujo significado é o de uma criança entre um e dois anos de idade. É o que se infere do fato de Herodes mandar “matar todos os meninos de Belém, de dois anos para baixo, conforme o tempo do qual com precisão informara dos magos” (Mateus 2.16).

Felizmente, mediante os recursos fornecidos pelos magos, José e Maria, “avisados por divina revelação”, fugiram para o Egito levando Jesus, para que se cumprisse Oséias 11.1: “Do Egito chamei o meu filho”.

Por, Abraão de Almeida.




Verdadeiros apóstolos do Senhor

Verdadeiros apóstolos do SenhorA palavra apóstolo vem do grego (apostellein) dizia respeito ao servo de alguém com uma autoridade maior que os outros servos, para executar determinadas tarefas específicas, ao ponto de ser enviado para cumprir determinada missão. O apóstolo estava sempre debaixo da autoridade de alguém para executar determinada ordem ou trabalho. Daí o fato de os doze homens escolhidos por Jesus para o representarem serem chamados de apóstolos. Reparem que Jesus não chamou um único representante para substituí-lo ou representá-lo, mas doze homens, um grupo, que mais tarde, seriam milhares.

No início da Igreja Primitiva o título ficava restrito somente aos que viram, andaram com Jesus e foram escolhidos diretamente por Ele: Os doze, como eram chamados (Marcos 3.14-19). Porém, depois do suicídio de Judas Iscariotes, os onze apóstolos se reuniram e de uma forma bem democrática e ao mesmo tempo teocrática, escolheram Matias (Atos 1.12-26). Democrática, porque escolheram dentre os demais com o apoio de toda a igreja, e teocrática, porque a escolha final coube ao próprio Deus quando escolheram o método da sorte.

Com o tempo, a palavra “apóstolo” foi usualmente sendo modificada para (“apostelo”), que significa alguém incumbido de levar algo de muita importância para outra pessoa. Daí sua utilização no caso eclesiástico: aquele que leva a mensagem do Evangelho. Hoje, o termo “missionário” corresponde exatamente ao sentido real de apóstolo.

Embora a Igreja Católica tenha colocado sobre Pedro uma espécie de papado dando-lhe maior autoridade sobre a igreja da época, os textos bíblicos revelam que a igreja primitiva tomava suas decisões sempre em assembleias chamadas de concílios. Vejam, por exemplo, Atos 15.

Jesus nunca formou um super apóstolo que estivesse sobre os outros, com toda a autoridade, mas formou um corpo de apóstolos para que decidissem juntos. Ele não deixou um substituto único com superpoderes infalíveis.

Nesse início, era bem difícil para alguém entrar nesse circulo fechado. Notem que o apóstolo Paulo teve sérios problemas para ser aceito nesse quadro, pois para alguns, seu contato com Jesus foi através de uma visão pessoal e não de um chamado com testemunho público, mas depois que todos entenderam a verdadeira função de um apóstolo, tudo ficou resolvido.

Embora o termo “apóstolo” continuasse a ser uma espécie de honra maior dada aos que andaram pessoalmente com Jesus, outros apóstolos foram escolhidos para executarem a obra na função que o nome determinava: enviados com a missão de pregar. Por exemplo: Barnabé e Saulo (nome hebraico de Paulo) – (Atos 14.14); Judas e Silas (Atos 15.22); Andrônico a Júnias (Romanos 16.7), etc.

Os novos apóstolos iamde cidade em cidade levando a mensagem e passando as informações da liderança em Jerusalém (At 16.4).

É bom que observemos que quando o apóstolo Paulo escreveu aos Romanos (1.1; 11.13) e aos Coríntios (1 Coríntios 1.1), ele está se referindo a sua consagração por imposição de mãos recebida pelo corpo de líderes da Igreja, composta de apóstolos, presbíteros e a própria Igreja reunida. Repare que o texto é claro: “Os discípulos decidiram, então, mandar uma ajuda, cada qual segundo suas possibilidades, aos irmãos que viviam na Judéia. Assim o fizeram. E enviaram a ajuda aos anciãos por meio de Saulo e Barnabé” (Atos 11.29,30).

Notem que Paulo, ainda chamado de Saulo, junto com Barnabé, são enviados por uma autoridade maior: a Igreja. Eles não se auto intitulam apóstolos ou qualquer outro título, a escolha é feita pelo Corpo de Cristo: a Igreja reunida. Paulo e Barnabé são separados para o ministério apostólico somente depois de comprovado valor demonstrado por obras e não por imposições ou guerrinhas pessoais. Reparemos no texto a seguir: “Havia profetas e mestres na igreja de Antioquia. Eram eles: Barnabé, Simeão, chamado o Negro, Lúcio, da cidade de Cirene, Manaém, companheiro de infância do governador Herodes, e Saulo. Certo dia, eles estavam fazendo uma reunião litúrgica com jejum, e o Espírito Santo disse: ‘Separem para mim Barnabé e Saulo, a fim de fazerem o trabalho para o qual eu os chamei’. Então eles jejuaram e oraram; depois impuseram as mãos sobre Barnabé e Saulo, e se despediram deles. Enviados pelo Espírito Santo, Barnabé e Saulo desceram a Selêucia e daí navegaram para Chipre” (Atos 13.1-4).

O texto acima é muito esclarecedor. Como já disse, Paulo e Barnabé não se auto proclamaram bispos ou apóstolos, eles foram separados, consagrados com a imposição de mãos e enviados (daí o nome apóstolo) pela Igreja. O que significa que toda a linda obra realizada por suas mãos, as igrejas fundadas, os obreiros consagrados e separados, as Cartas valiosíssimas; tudo estava devidamente debaixo de uma autoridade constituída.

Como comentado anteriormente, essa autoridade era formada dos apóstolos, dos presbíteros e da própria Igreja reunida. O próprio texto em referência (Atos 15. 2) nos mostra que a decisão era tomada pelos apóstolos (reunidos e não um sobre todos), os presbíteros (anciãos) e a igreja (todos os membros).

Quando Jesus ensinou (Mateus 16.16-18) que as portas do inferno não prevaleceria contra a Igreja, Ele estava falando de Sua Igreja, fundada por Ele. Portanto, devemos entender que o poder está sobre a Igreja e não sobre os homens. Quem separa, consagra e envia é a igreja. Qualquer grupo que queira sobreviver separado da Igreja não terá vitória verdadeira. Jesus ensinou que os que a Igreja ligasse na terra, seriam ligados no céu e os desligados na terra seriam também, consequentemente, desligados na terra. Quando um grupo se rebela e acaba desligado na terra, automaticamente, é desligado no céu. Qualquer igreja que Paulo fundasse não estando debaixo da autoridade da Igreja, não seria recebida no céu. Essa lei é de uma importância extraordinária, mas tem sido esquecida em muitos lugares.

Reparem a autoridade da Igreja em sua assembleia reunida; quando alguns problemas surgem por causa dos judaizantes, todos são chamados a Jerusalém para discutirem em uma assembleia geral, um concílio, para que as coisas se ajeitassem. Não havia um soberano, um“papa”, ou um único e soberano “apóstolo” sobre todos, tudo era discutido de forma democrática e teocrática (Atos 15).

Mais tarde, o próprio Paulo, que sofreu na carne esse problema, esclarece como essa função importante na igreja deveria ser observada: “Foi ele quem estabeleceu alguns como apóstolos, outros como profetas, outros como evangelistas e outros como pastores e mestres. Assim, ele preparou os cristãos para o trabalho do ministério que constrói o Corpo de Cristo” (Ef 4.11,12).

Notem que o cargo de apóstolo é colocado em pé de igualdade com o de pastor e os outros. Não há nenhuma distinção hierárquica. Então, um apóstolo é aquele que recebe autoridade para desenvolver um trabalho específico, debaixo de uma autoridade constituída e sempre com a imposição de mãos de seus superiores hierárquicos. O apóstolo deve relatórios, informações, obediência, ele não é soberano. Com o tempo e depois da morte dos apóstolos que andaram com Cristo, esse termo, “apóstolo”, foi caindo em desuso e o seu valor real, “missionário”, passou a ser mais usado pela igreja. Chamar alguém de missionário é o mesmo que chamá-lo de apóstolo.

Por, Jorge Videira.




Os Evangelhos e a real prosperidade

Os Evangelhos e a real prosperidadeNos nossos dias tornou-se muito comum encontrar pregadores na TV ou na internet, que proclamam a teologia da prosperidade, dizendo que o crente não pode ser pobre ou estar em sofrimento, pois isso demonstra falta de fé ou a existência de pecado. Esses pregadores afirmam com muita veemência que o cristão deve ser rico e muito saudável, sempre, por causa da sua fé em Cristo. São os pregadores da prosperidade, que, na verdade, vendem esta ideia, pois pedem contribuições aos seus telespectadores, tornando-se, em muitos casos, mercadores da prosperidade, infelizmente.

Muitos cristãos, que estão passando por dificuldades financeiras ou por enfermidades, ao ouvir essas mensagens ficam se perguntando: será que isto é verdade? E o que eu faço, já que estou nesta situação? Estou em pecado, ou não tenho fé suficiente para ser abençoado?

Quero dar uma resposta a estes cristãos. Em primeiro lugar, o irmão deve saber que mais importante do que as opiniões humanas é a Palavra de Jesus, não importando se o homem que fala na mídia é importante e famoso ou um desconhecido; se ele tem várias graduações acadêmicas, ou nenhuma.

O que importa mesmo é sabermos: o que o Senhor Jesus declara sobre as riquezas? Elas são, realmente, um sinal da bênção de Deus, de uma fé operosa, de uma vida que agrada ao Pai Celeste? E quanto ao sofrimento? Isto não pode, de forma alguma, existir na vida do discípulo de Cristo? O cristão deve esperar uma vida de “sombra e água fresca” quando decide seguir a Jesus? Andará em uma estrada sem obstáculos, sem dificuldades e sobressaltos, por ter a companhia do Senhor?

Podemos encontrar respostas a todas estas questões nas Palavras de Jesus, registradas nos quatro Evangelhos. É neste registro inspirado que devemos buscar a orientação segura para nossa vida, pois a própria Palavra declara que “o que foi escrito, para nosso ensino foi escrito” (Romanos 15.4). Vejamos, pois, alguns dos ensinos do Senhor Jesus sobre as riquezas:

O Mestre declarou no Sermão do Monte (Mateus 6) que não devemos ajuntar tesouros na terra, mas no céu, mostrando quais riquezas devemos buscar com maior interesse: as riquezas espirituais. Mostra, inclusive, que o tesouro acumulado no céu não pode ser roubado nem destruído, ao contrário das riquezas terrenas, que são tão instáveis, sujeitas à ação de ladrões e à deterioração. Uma pequena traça pode tornar sem valor uma peça de roupa caríssima, bordada a ouro e com diamantes incrustados nela. Um tesouro acumulado com tanto esforço pode facilmente ser levado pelo ladrão. A ênfase do Senhor é que devemos acumular tesouros onde eles estejam seguros eternamente. Um homem pode, portanto, usar atividades seculares para acumular tesouros no céu, quando trabalha para glória de Deus. Outro homem pode usar as atividades religiosas para acumular apenas tesouros na terra, quando as realiza para obter qualquer vantagem entre os homens, como pagamento pelos seus atos.

Jesus diz ainda que onde estiverem as nossas riquezas estará o nosso coração (a nossa atenção, o nosso interesse). Ou seja, o Mestre mostra que colocamos nossa atenção naquilo que mais valorizamos, por isso devemos pensar muito bem sobre o que vamos entesourar, pois nosso interesse denuncia o que realmente valorizamos. O Senhor declara ainda neste mesmo sermão: “não podeis servir a dois senhores, não podeis servir a Deus e às riquezas”, revelando que a riqueza pode facilmente dominar a nossa vida, tornando-se algo sem a qual não podemos viver ou ser felizes.

Os evangelhos sinóticos também registram o encontro de Cristo com o jovem rico (Mateus 19, Marcos 10 e Lucas 18), quando o Senhor declara que as riquezas podem impedir um homem de entrar no reino dos céus. Aquele jovem parecia estar interessado na vida eterna, mas afastou-se de Jesus com tristeza, pois já havia entregue seu coração às riquezas terrenas. Ainda, na parábola do semeador, relatada nos três evangelhos (Mateus 13, Marcos 4 e Lucas 8), o Mestre declara que a sedução das riquezas é como espinhos que sufocam a Palavra no coração do que a ouve. Com todas estas palavras, o Mestre mostra que aquele que põe seu coração nas riquezas terrenas está colocando em risco a sua fé nEle, que é a única possibilidade de alcançar a vida eterna. Por valorizar tanto os bens terrestres, o homem pode perder a herança celestial.

O relato dos evangelhos, então, não apoia as declarações da teologia da prosperidade, mas mostra as riquezas terrenas como algo que não deve dominar o coração do cristão, algo que não deve ser visto como um verdadeiro sinal da aprovação divina e que pode mesmo tornar-se um concorrente de Cristo na disputa da devoção humana, tirando o Cristo eterno do primeiro lugar em nosso coração e colocando em seu lugar as riquezas temporárias.

Quanto a sofrer aflições e tribulações nesta terra, o Mestre disse no Sermão do Monte que se passarmos por estas coisas por causa dele, somos bem aventurados (muito felizes) e teremos uma recompensa no céu. Aquele que passa por provações e perseguições não está necessariamente fazendo algo que desagrade a Deus. Pelo contrário, pode estar sofrendo exatamente por estar agradando a Deus e desagradando ao mundo. Quem escolhe ser amigo de Deus não pode ser, de forma alguma, amigo do mundo, pois a amizade com o mundo é inimizade contra Deus. E quem escolhe ser amigo de Deus será considerado pelo mundo como inimigo. Por isso, o cristão é perseguido nesta terra.

Quanto à saúde corporal, Jesus não desvalorizou o corpo, mas disse que antes de buscar a satisfação das suas necessidades mais básicas, o homem deve buscar o reino de Deus (Mateus 6.33). Mais importante do que comer, beber, vestir, necessidades que são apontadas na base da pirâmide da satisfação humana, está a necessidade de pertencer ao reino de Deus e fazer a vontade do Pai. O Mestre chega mesmo a dizer, no Evangelho de João, que a sua comida (aquilo que o alimentava, que lhe dava verdadeira disposição) é fazer a vontade do Pai (João 4.34).

Cristo nunca afirmou que o cristão seria miserável ou viveria desamparado e passando necessidades. Pelo contrário, Ele garante que o Pai sabe do que necessitamos e cuida muito bem de nós. O Senhor nos orienta, porém, a confiarmos em Deus e não nas riquezas. Quando Ele enviou os setenta discípulos, de dois em dois, disse-lhes que não levassem bolsa, nem dinheiro, nem alimento (Lucas 9.3), e os discípulos declararam que nada lhes faltou no caminho (Lucas 22.35).

Assim, querido irmão que está sendo perturbado pelos pregadores midiáticos, pode ficar tranquilo se enfrentar dificuldades e não tiver muito dinheiro, que isto não é sinal necessário de falta de fé ou santidade. Aliás, se você não enfrentar nenhuma perseguição ou tentação e se tiver dinheiro suficiente para viver de forma autossuficiente como o rico retratado no capítulo 12 do Evangelho de Lucas, então deveria, sim, ficar muito preocupado e procurar o seu pastor para aconselhamento. Um pastor real, não um virtual, que não pode aconselhar nem discipular ninguém.

Por, Carlos Kleber Maia.




A pregação “aos espíritos em prisão”

A pregação aos espíritos em prisãoA morte de Cristo na cruz do Calvário é conhecida como umas das mais cruéis e repugnantes que se tem conhecimento, todavia, tornou-se um marco na história da humanidade. O mundo espiritual sofreu mudanças significativas com a morte do Messias. Além da manifestação da graça de Deus trazendo salvação aos homens, nosso Senhor, durante o tempo em que Seu corpo esteve sepultado, não permaneceu confinado ao sono da morte. Antes, Sua alma santa desceu até as profundezas do Hades, às partes mais inferiores do mundo oculto e, com autoridade e poder, “pregou aos espíritos em prisão” (cf. 1 Pedro 3.19).

Dentre os poucos textos mencionados nas Escrituras que revelam os mistérios insondáveis da transição entre a vida e o destino eterno, este é um dos mais intrigantes. Como já era de se esperar, há muita controvérsia a respeito da presente referência bíblica. Entretanto, é importante ponderar as considerações dos vários autores que se debruçaram a pesquisar sobre o assunto para que se possam extrair melhores esclarecimentos.

Cristo se manifestou glorioso e vencedor, e o que mais Pedro quer nos dar a entender em suas afirmações? O que Cristo anunciou? Quem eram os espíritos em prisão, mencionados na epístola geral do apóstolo? Cabe a nós fazer alusão aos autores, de modo a tornar significante e esclarecido o assunto em questão.

As afirmativas de Pedro

A questão que é nosso objeto de estudo encontra-se na epístola de Pedro, capítulo 3, versículo 19, que declara: “no qual também foi e pregou aos espíritos em prisão”. Entretanto, para que possamos realizar a exegese do texto referendado, é necessário considerarmos o contexto da epístola.

Em sua Carta, Pedro discorre a respeito da finalidade da morte de Cristo na cruz do Calvário: “levar-nos a Deus”, isto é, trazer o homem de volta à comunhão com o Criador. Por conseguinte, o apóstolo ressalta o propósito e o efeito da morte de Cristo concernente a salvação do homem, sua vida terrestre e, consecutivamente, o juízo que Deus trouxe sobre os filhos da desobediência, aos que não creem na Palavra da Verdade.

A citação de Pedro a respeito de Cristo ter pregado aos espíritos que estavam em prisão, nos quais noutro tempo estavam em rebeldia é um tanto curiosa. O apóstolo relaciona o evento de Cristo aos dias de Noé, quando o patriarca entrou na Arca, ele e sua família, condenando o mundo de sua época que, por conta da incredulidade e desobediência, preferiu os deleites carnais de uma vida dissoluta e distante de Deus (Gênesis 6, 7).

Apesar do texto não deixar claro qual a interpretação deste episódio duvidoso, encontramos outras passagens em que Pedro menciona o juízo de Deus sobre os anjos que pecaram. Em 2 Pedro 2.4 lemos: “Porque, se Deus não perdoou aos anjos que pecaram, mas, havendo-os lançado no inferno, os entregou às cadeias da escuridão, ficando reservados para o Juízo”; e coaduna com a declaração de Judas, irmão do Senhor, que em sua Carta cita: “e aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande Dia” (Judas 6).

De modo que, não podemos deixar de considerar que os anjos que foram desobedientes e negligenciaram o seu principado, foram lançados por terra. Estes seguiram a Satanás na rebelião aos céus, conforme descreve Isaías 14.12-15; Ezequiel 28.1-19; e, por conta disso, tornaram-se causadores dos males mais terríveis ocorridos entre os homens durante os dias que precederam o dilúvio (cf. Gênesis 6). Assim sendo, Pedro nos fornece informações significativas em seu contexto, que devemos considerar, a fim de não cometermos equívocos quanto a este tratado que é tão polêmico entre os estudiosos.

A mensagem que Cristo anunciou

Primeiramente é importante considerar que a mensagem anunciada por Jesus durante o tempo do seu ministério terreno eram as “boas novas”, ou seja, uma palavra que chamava as pessoas ao arrependimento, a fim de que alcançassem a salvação mediante a fé no Filho de Deus. Entretanto, a expressão “pregou”, descrita por Pedro nesta passagem, possui outra conotação. De acordo com o Dicionário Vine, o termo “pregou”, nesta ocasião, “se refere à kerussõ, que significa arauto, ou, em geral, ‘proclamar’” (CPAD, 2009, p. 891).

Neste caso o teor da mensagem proclamada por Cristo consistia em proclamar que “todo poder foi lhe dado em cima no céu e embaixo na terra” (cf. Mateus 28.18). Desde agora, a vitória sobre o pecado e a morte estava garantida. Em apocalipse, o apóstolo João escreveu que Jesus tem nas mãos as chaves da morte e do inferno (cf. Apocalipse 1.18). Porquanto, somente Ele venceu o pecado, o aguilhão da morte, e o inferno (cf. 1 Coríntios 15.57,58).

Cristo nos dá a vitória por meio de Sua morte, e, por conseguinte, é bem possível que houvesse a necessidade que esta vitória fosse notificada em todas as esferas da existência, seja nas trevas exteriores como também nas moradas eternas.

Aos espíritos em prisão

Há muitas interpretações na tentativa de elucidar o que seria o anúncio aos “espíritos que estão em prisão”. Seja para aprovar ou rejeitar, tais possibilidades não devem ser ignoradas, tendo em vista a importância teológica que cada uma delas teve para a época em que foram elaboradas. Essas afirmativas são fundamentais para nossa análise e comparação, pois trazem consigo importantes contribuições no campo do conhecimento.

CHAMPLIN (1979, p. 147), por exemplo, aponta que os Pais da Igreja nos primeiros séculos da era cristã, acreditavam que a mensagem de Cristo havia sido direcionada aos perdidos encerrados no Hades, dando-lhes uma nova chance de salvação:

“[…] Cristo, em sua forma de espírito, no intervalo entre a morte e a ressurreição, visitou o hades para benefício dos perdidos ali encerrados. O Espírito Santo não está em pauta, conforme concordam quase todos os intérpretes, e certamente a pregação não foi através de Noé, durante o período de vida dos homens cujos espíritos mais tarde vieram a residir no hades. Notemos que a ordem é: 1. Os sofrimentos de Cristo; 2. Então a descida de Cristo, como espírito desencorporado (Sig. fora do corpo físico). Seu espírito humano está em foco. Por outro lado, Noé pregou antes dos sofrimentos de Cristo; assim, em sentido algum está em foco a prédica de Noé. Não foi senão no século V D.C (com Agostinho) que esta interpretação veio a lume. Até então, concordava-se unanimemente que Cristo, em sua forma espiritual, desceu ao hades para ter ali um ministério de alguma espécie; e a maioria cria que essa missão foi benéfica”

Realmente, é assustador pensar que Cristo tenha exercido tal prédica, ainda mais sabendo o que as Escrituras Sagradas afirmam a respeito da morte: “E, como aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo, depois disso, o juízo” (Hebreus 9.27).

O autor de Hebreus deixa claro que não é possível que aqueles que morreram sem a salvação, por conta de uma vida de pecado e rejeição da graça divina, possam receber outra vez a chance de serem salvos. Visto que estes estão na mesma condição espiritual em que se encontrava o rico da parábola contada por Jesus em Lucas 16.19-31. Neste caso, fica claro que Jesus Cristo não estava cumprindo nenhuma “obra missionária” na intenção de salvar os que se haviam perdido.

Há outras interpretações para este episódio, como aqueles que acreditam que o Espírito de Deus (ou de Cristo) teria usado Noé para anunciar as verdades da salvação aos homens de sua época. Os que se apoiam neste argumento fazem uso do texto de 2 Pedro 2.5, em que o apóstolo denomina Noé como o “pregoeiro da justiça”. Embora seja verdade que Noé anunciou a justiça, não há nenhuma afirmação nesta ocasião de que o espírito de Cristo tenha se revelado a Noé para pregar o fim de todas as coisas pelas águas.

Como os filhos da desobediência não deram ouvidos à Palavra de Deus, somente Noé e sua família foram conservados com vida ao adentrarem na Arca que Deus havia ordenado ao patriarca construir. E, também, não encontramos em toda Escritura nenhum indício de que a alma dos que se corromperam no período pré-diluviano teriam permanecido em prisões.

De outro modo, o apóstolo Pedro, em sua Carta, faz uso do episódio de Noé para reforçar que da mesma maneira Deus trará o Juízo sobre a Terra. O próprio Jesus também fez uso da mesma comparação ao anunciar como seriam os dias que precederiam a Sua Vinda (cf. Mateus 24.37-39).

E, finalmente, há também aqueles que entendem que, por meio desta “pregação”, Jesus tornou notória às profundezas do Hades, a notícia de Sua supremacia sobre o pecado, a morte e todo o Império das trevas, ou seja, Satanás e seus demônios. Isto é, esta teoria aponta que a “pregação” de Cristo no Hades teve como finalidade proclamar a Sua vitória aos espíritos de anjos caídos e que estão aprisionados aguardando o grande Dia do Juízo.

Como havia notificado no início desta análise, a presente passagem bíblica não é propriedade particular de nenhuma das interpretações aqui mencionadas. Porém, a afirmativa mais considerada dentre os diversos estudiosos sobre o assunto é a que considera tal prédica como o anúncio da vitória de Cristo aos anjos caídos que dantes haviam se rebelado contra a soberania de Deus.

Considerações finais

E, finalmente, dada a importância do evento ocorrido na cruz do Calvário, era de se esperar que as mudanças ocorridas no tempo e espaço não se limitassem somente à esfera natural das coisas ou somente ao fato da reconciliação da criação com o seu Criador. Antes, a morte de Cristo causou efeitos de proporções inimagináveis, até mesmo nas profundezas do abismo.

Apesar do relato de Pedro não estar tão claro quanto gostaríamos que estivesse, não era a intenção do apóstolo que a afirmativa a respeito do anúncio aos “espíritos que estão em prisão” se tornasse objeto de tantas contradições. Antes, a intenção do apóstolo era fortalecer a fé de seus leitores trazendo como exemplo a condenação dos espíritos rebeldes, assim como daqueles que foram desobedientes à vontade de Deus nos dias de Noé.

Por fim, esta é uma importante exortação à vigilância para todos os que aguardam o Dia Glorioso em que o nosso Salvador voltará para buscar os Seus santos e cumprir o Juízo sobre toda carne.

Por, Thiago Santos.




Declaração ou profecia?

Declaração ou profeciaHoje em dia é possível ver de tudo um pouco nos arraiais evangélicos: desde bizarrices a sandices em nome da fé e da manipulação das massas. A moda agora, embora não seja nenhuma novidade, é a famosa frase dita por pregadores evangélicos: “vire para o seu irmão e profetize”. Embora, a meu ver, interagir com o ouvinte não seja de todo ruim, classificar como profecia tais palavras é perigoso demais. Geralmente tais falas, são oriundas da falta de conteúdo bíblico do pregador durante a exposição da mensagem. Para preencher tempo e envolver emocionalmente a plateia, esses preletores lançam mão dessas táticas e falas que na sua maioria, servem apenas para provocar emoções e frenesi na assistência.

Em muitas congregações atualmente o ensino dominante consiste em profetizar mensagens que Deus não enviou, e então, como diz as Escrituras Sagradas, ainda fazem o povo esperar o cumprimento das tais “profecias”, e o resultado é único: verdadeiras multidões passam a confiar em suas próprias palavras, confissões e declarações e não na Palavra do Senhor.

Será que podemos mesmo profetizar o que vem à nossa mente e tal conteúdo irá mesmo acontecer? Podemos determinar, declarar, confessar as nossas vontades com nossa boca e realmente acontecer? Vejamos o que a Bíblia diz a respeito: “Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo” (2 Pedro 1.21).

A profecia, como dom do Espírito Santo é detalhada pelo apóstolo Paulo em 1 Coríntios 12 a 14. A igreja em Corinto experimentava grande confusão a respeito dos dons espirituais. Os crentes de Corinto tinham dons espirituais (1 Coríntios 1.7), mas muitos eram imaturos, insubmissos, ignorantes da doutrina reveladora dos dons, além de carnais. Em uma igreja é possível haver crentes fervorosos, que gostam de movimento e agitação sem, contudo, haver espiritualidade real, advinda do Espírito Santo. Às vezes o que parece fervor espiritual é mais emocionalismo, resultante de motivações e mecanismos externos. Tal fervor é passageiro, ao passo que a verdadeira espiritualidade está intimamente relacionada ao exercício da piedade e da vida cristã consagrada (Efésios 4.17-32). Os “espirituais” falavam línguas sem interpretação para a igreja e desta forma não edificavam (1 Coríntios 14.5), já os profetas falavam, mas não havia ordem de quem deveria falar primeiro (1 Coríntios 14.29,32). Paulo vai aprofundar o tema, discutindo o assunto e apontando diretrizes básicas na utilização dos dons do Espirito Santo.

Assim, convém enfatizar que a profecia se constitui de vários elementos. Certa instância da profecia tem função de edificar, exortar e consolar (1 Coríntios 14.3). As Escrituras Sagradas nos revelam que há três procedências da profecia: o Espírito Santo, o espírito humano e o espírito imundo. É uma tática antiga do Maligno imitar o Espírito de Deus, sendo que sua mensagem se distingue dos propósitos e resultados que são opostos aos interesses do Reino de Deus; a mensagem produzida pelo espírito imundo se caracteriza pela desarmonia com a Palavra de Deus (Isaías 8.19; Atos 16.16-18). Toda profecia de origem divina, é inspirada pelo Espírito Santo.

Embora Paulo enfatize a superioridade da profecia em relação ao dom de línguas (1 Coríntios 14.2-6), lembremo-nos de que a profecia não é superior às Escrituras. Seu aspecto mais aceitável é a sua consonância com a Bíblia. Ao compreender tal verdade, entendemos que: (1) O dom de profecia não é infalível, porque envolve a fusão do homem com o divino; do finito com o infinito; do imperfeito com o perfeito (1Coríntios 14.32). (2) O dom de profecia não tem finalidade de estabelecer normas de governo, não serve para liderar ou guiar a Igreja.

O dom de profecia está sujeito ao julgamento humano (1 Coríntios 14.26-33). Julgar é o mesmo que discernir. É uma obrigação cristã analisar todas as profecias. Foi Paulo, que com autoridade apostólica escreveu: “… falem dois ou três (profetas), e os outros julguem” (1 Coríntios 14.29). O apóstolo João, outro escritor neotestamentário, também investido de autoridade apostólica, nos diz: “Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai os espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora” (1 João 4.1). Aproveito a ocasião para um questionamento: quando uma profecia é contrária à Palavra de Deus? Quando serve para “determinar” decisões que é de responsabilidade individual. Tais “profecias” se parecem mais com “vaticínios” de horóscopo, onde alguém busca “resposta” para obter um casamento, abrir um negócio, empreender uma viagem, etc. Quando serve para “sentenciar” doenças, infortúnios e morte a outrem, às vezes por puro revanchismo. Isto conflita-se com o triplo objetivo da profecia: “edificar, exortar e consolar” (1 Coríntios 14.3), além de convencer os incrédulos sobre as verdades do Evangelho. Quando serve, sob coerção ou incentivo, para “afirmar” o que o Espírito de Deus não falou: “O ‘Espírito Santo revelou’ algo tremendo ao meu coração agora… Então, eu profetizo… olhe para o seu irmão e profetize também…”. Quando serve para expor a “empolgação” do portador do dom, exagerando ou dizendo o que Deus de fato não revelou (2 Samuel 7.1-17).

O dom profético, assim como todos os demais dons, singular ou coletivamente considerados, tinha por objetivo fazer a igreja avançar espiritualmente (Efésios 4.11ss). O alvo é a participação nas perfeições da imagem e da natureza de Cristo (2 Coríntios 3.18).

A profecia como dom espiritual se distingue da pregação comum porque é resultado da inspiração espiritual espontânea, enquanto a pregação tem sua inspiração espiritual, todavia não pode ser espontânea, e sim, fruto de intenso estudo e preparo do pregador.

Assim, concluímos que a profecia não nasce da vontade da carne, portanto esta história de “vira para o irmão do teu lado e profetiza” é muito perigosa, pois induz o povo a profetizar sem que o Senhor tenha mandado. Além do mais os termos usados são bem autoexplicativos o “EU profetizo”, “EU determino”, “EU tomo posse”, “EU decreto”, “EU declaro”, “EU confesso”, todo este conjunto de EUS, nos dão um alerta.

Declarações e confissões estas, diga-se de passagem, que são muito mais baseadas nas vontades da carne, nas bênçãos, conquistas e vitórias, nas glórias humanas, terrenas e passageiras (efemeridades) do que naquilo que é eterno, contribui apenas para obscurecer nas mentes e corações das pessoas a Luz verdadeira do Evangelho do Senhor.

Em tempo, há os que defendem que usar do artifício “vire para o irmão ao lado e profetize”, seria pedagógico. Esta prática é uma técnica de PNL (Programação Neurolonguística), para fixar a aprendizagem por meio de mensagens subliminares, mas ocorrem abusos. Embora pareça inofensiva, tal prática está longe de ter respaldo na Palavra de Deus. Não encontramos passagem alguma nas Sagradas Escrituras em que algum apóstolo, profeta ou discípulo de Jesus utilize estas práticas, por este motivo a recomendação de Paulo aos Coríntios para que não se afastassem da simplicidade presente em Cristo (2 Coríntios 11.3).

Lembro que o culto deve ser feito de forma racional, com inteligência e acima de tudo espontâneo (Romanos 12.2). O culto não deve ter amarras de qualquer natureza. O elemento surpresa é de grande destaque, mas o que se torna repetitivo, perde o interesse. Ao pregador recomendo: atenha-se a Palavra. Estude, leia, pesquise. Assim no púlpito não lhe faltara argumentos para expor o texto bíblico desejado.

Por, Sérgio Pereira.




O trato com as heresias e os hereges

O trato com as heresias e os heregesA Igreja do Senhor existe há mais de dois mil anos, passando por provações, lutas, perseguições e vitórias. Desde a sua fundação, surgiram várias linhas teológicas, doutrinas, pensamentos, interpretações e heresias, cada uma mais absurda que a outra. Tentativas de inserir livros não canônicos como regra de fé aos cristãos e argumentos baseados em experiências espirituais pessoais estão entre os problemas enfrentados. Sempre que surgia uma nova doutrina, era quase sempre para se adequar aos interesses do povo ou do líder em geral.

O judaísmo cristão, ou judaizante, por exemplo, considerava que eles tinham privilégios especiais como o povo escolhido de Deus. Eles diziam que era necessário se tornar primeiro judeu através da observância dos ritos da lei para depois se tornar cristão salvo, ou seja, a pessoa tinha que se tornar legalista no sentido judaico para receber a graça e viver de forma legalista, apesar da graça. Os gnósticos ensinavam que Cristo era uma emanação panteísta, inferior a Deus, e que a Sua aparição em carne era apenas semelhante a uma visão. Eles ensinavam um sistema de doutrinas que era além do já citado, um dualismo básico entre o espírito e a matéria, que necessitava do pleroma (a cadeia de coisas emanadas que conectam o Grande Deus a matéria); uma divisão no pleroma que resultou na criação das coisas materiais e do homem por um Demiurgo, uma faísca de Deus implantada no homem em sua criação, a redenção e a libertação dessa faísca divina por meio do esclarecimento, resultando na autoconsciência (algumas vezes chamada de despertar do sono ou sair da embriaguez), um Cristo que redime por ser revelador ou iluminador, e não salvador-sofredor e a salvação por meio do conhecimento, basicamente pelo autoconhecimento. Os gnósticos também ensinavam que o ser humano, por ser matéria e esta ser mau, poderia fazer todo ato de libertinagem.

Os sincretistas tentaram fazer uma síntese entre a revelação e a filosofia. Filo, anterior à época de Cristo, tentou combinar a religião judaica com o conceito estóico de um logos imaginado com base na “ideia das ideias” de Platão.

Ainda existiam ensinamentos que falavam que se Cristo levou nossos pecados, logo não existia mais pecado, tendo o homem liberdade de pecar. Dentre outros falsos ensinamentos e doutrinas estes eram os que mais perturbavam as igrejas, sendo necessário um grande combate e rejeição de seus líderes por parte dos apóstolos.

No combate às heresias e aos heréticos, o apóstolo Paulo escreve na Carta aos Romanos, capitulo 16, versículos 17 e 18: “E rogo-vos, irmãos, que noteis os que promovem dissensões e escândalos contra a doutrina que aprendestes; desviai-vos deles. Porque os tais não servem a nosso Senhor Jesus Cristo, mas ao seu ventre; e com suaves palavras e lisonjas enganam os corações dos simples”. Aos Gálatas 1.6-8, escreve o apóstolo: “Maravilho-me de que tão depressa passásseis daquele que vos chamou à graça de Cristo para outro evangelho; O qual não é outro, mas há alguns que vos inquietam e querem transtornar o evangelho de Cristo. Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema”. E ainda: “Separados estais de Cristo, vós os que vos justificais pela lei; da graça tendes caído” (Gálatas 5.4). Na carta a Tito, capítulo 3, versículos 10 e 11, lemos: “Ao homem hereje, depois de uma e outra admoestação, evita-o, sabendo que esse tal está pervertido, e peca, estando já em si mesmo condenado”.

O apóstolo Pedro escreveu: “E também houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição, e negarão o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina perdição. E muitos seguirão as suas dissoluções, pelos quais será blasfemado o caminho da verdade” (2 Pedro 2.1, 2). E mais: “Vós, portanto, amados, sabendo isto de antemão, guardai-vos de que, pelo engano dos homens abomináveis, sejais juntamente arrebatados, e descaiais da vossa firmeza; antes crescei na graça e conhecimento de nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo. A ele seja dada a glória, assim agora, como no dia da eternidade. Amém” (2 Pedro 3.17, 18).

Em sua Primeira Carta Universal, o apóstolo João escreveu: “Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo. Nisto conhecereis o Espírito de Deus: Todo o espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; E todo o espírito que não confessa que Jesus Cristo veio em carne não é de Deus; mas este é o espírito do anticristo, do qual já ouvistes que há de vir, e eis que já agora está no mundo” (1 João 4.1-3).

Judas escreve: “Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência acerca da salvação comum, tive por necessidade escrever-vos, e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos. Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus, e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo” (vv. 3, 4).

Assim como no início da Igreja, para a manutenção da sã doutrina na atualidade precisamos de homens cheios do Espírito Santo e conhecedores da Palavra de Deus, pois não deixaram de existir homens hereges tentando deturpar a graça de Deus e as bênçãos do Senhor.

Hoje se fala muito em bênçãos materiais como sendo um principio da presença de Deus na vida do crente. Se chegarmos a uma congregação e perguntarmos qual o irmão mais abençoado, logo nos apresentarão o irmão mais rico da igreja. Temos perdido os sentidos da verdadeira benção de Deus e de prosperidade. Na verdade, nem sempre o mais abastado financeiramente é aquele que detém a benção de Deus, pois o mais abençoado pode ser o que se esmera pelas coisas espirituais e as possui. A teologia da moda, a do momento, está deturpando e invertendo os reais valores da Igreja. Consideremos, pois, como bênção de Deus não apenas as coisas que conseguimos ver. “Não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas” (2 Coríntios 4.18). Se assim considerarmos, combateremos essa falsa teologia, com a sã doutrina do Senhor.

Por, Randolfo Sousa Barroso.




As ordenanças da Ceia e do Batismo

As ordenanças da Ceia e do BatismoDurante o período da Idade Média, a Igreja Católica, por ocasião do Concílio de Constança em 1415, suspendeu aos fiéis a participação do vinho por ocasião da celebração da Ceia do Senhor (Eucaristia). Pouco mais de 100 anos após este Concílio, em 1519, o reformador alemão Martinho Lutero (1483- 1546) publicou alguns sermõesSobre os sacramentos. Neles, o reformador apontou o erro em não servir o cálice aos servos de Cristo. No dia 6 de outubro de 1520 em sua obra Do cativeiro babilônico da Igreja, Lutero dedicou-se, entre outros temas, a defender a participação dos leigos no partir do pão e absorção do vinho por ocasião da Ceia do Senhor. Neste escrito, o reformador desfez exegeticamente as teses contrárias, estabeleceu comunhão do pão e do cálice para todos os crentes e concluiu:

“Mateus, Marcos e Lucas concordam entre si que Cristo teria dado todo o sacramento a todos os seus discípulos, e é certo que Paulo tenha dado as duas espécies; de modo que nunca houve alguém tão desavergonhado ao ponto de afirmar outra coisa […] É ímpio e tirânico negar ambas as espécies aos leigos, nem esta nas mãos de anjo algum e menos ainda do papa e de qualquer concílio”.

Nesta mesma obra, Lutero discordou da doutrina da transubstanciação definida no 4º Concílio de Latrão, em 1215. Esta teoria escolástica ensina que na ocasião da consagração do pão e do vinho eles se transformam literalmente no corpo e no sangue de Cristo. O reformador foi incisivo ao afirmar que não sendo possível “supor uma transubstanciação feita pelo poder divino, deve-se tê-la por ficção damente humana, pois não se apoiam em nenhuma Escritura, nem em nenhum argumento racional”. Não obstante, Lutero defendia o princípio da ubiquidade (faculdade divina de estar presente no pão e no vinho). Em contrapartida para o reformador suíço, Ulrico Zwinglío (1484-1531) a Ceia do Senhor devia ser entendida como memorial e comemoração, uma representação simbólica do ato sacrificial único e suficiente de Cristo. Assim, os reformadores discordaram conceitualmente acerca da instituição da Ceia do Senhor. Para Lutero a ceia era um sacramento (meio de graça) e para Zwinglío uma ordenança (uma ordem de Cristo). O reformador holandês Jacó Armínio (1560-1609) também discorreu sobre o tema no debate LXIV, onde ensinou:

“A matéria é o pão e o vinho que, com respeito a sua essência, não são alterados, mas permanecem o que eram previamente; tampouco, são, com respeito a lugar, unidos ao corpo ou ao sangue, de modo que o corpo não está sob o pão, nem no pão, nem como o pão, etc., nem no uso da Ceia do Senhor, o pão e o vinho podem ser separados, de modo que, quando o pão é oferecido aos leigos, o cálice não lhes deve ser negado”

Concordes com os reformadores em que os elementos da Ceia do Senhor (pão e vinho) devem ser servidos para todos e que os elementos não sofrem transubstanciação, embora com as devidas peculiaridades quanto à significação de tal ordenança, a “Declaração de Fé”, o credo maior assembleiano professa o seguinte a respeito da Ceia do Senhor:

“Rejeitamos o termo ‘sacramento’ e usamos a palavra ‘ordenança’, do latim ordo, ‘fileira, ordem’ […]. Essas ordenanças não transmitem qualquer poder místico ou graça salvífica, mas são um rito simbólico universal e pessoal que apontam para as verdades centrais da fé cristã […] Ela é ministrada a todos os crentes em Jesus, batizados em águas, em plena comunhão com a Igreja […] Tendo Jesus ministrado pessoalmente os dois elementos aos seus discípulos, fica cabalmente demonstrado que as expressões ‘isto é o meu corpo’ e ‘isto é o meu sangue’ não são literais, mas referem-se a uma linguagem metafórica”.

Deste modo, a Assembleia de Deus reconhece que a ordenança da Ceia foi instituída diretamente pelo Senhor Jesus para todos os crentes, que deve ser celebrada após um autoexame e reflexão sobre a conduta pessoal, sendo um rito contínuo da Igreja visível, instituído com dois elementos – o pão e o cálice – como memorial da morte de Cristo até a sua vinda em poder e glória (1 Coríntios 11.26).

Não menos importante, outro legado da Reforma Protestante diz respeito ao batismo nas águas. O movimento da Reforma sofreu transformações cruciais à medida que ia se afastando cada vez mais do ranço doutrinário imposto pela igreja medieval. Lutero ensinava que o batismo era submersão e que a sua eficácia não estava na fé de quem batizava, mas na fé de quem recebia. Discorria o reformador que o batismo significava duas coisas: morte e ressurreição, isto é, a justificação plena e consumada. Por outro lado, Lutero defendia o batismo infantil aceitando a fé substitutiva dos pais, padrinhos e da Igreja. Sob este aspecto Lutero foi seguido por Zwínglío e também por João Calvino (1509-1564), o reformador da França.

Todavia, em consequência do princípio de Sola Scriptura outros reformadores argumentavam que o batismo infantil não era bíblico. Eles afirmavam não existir nas páginas do Novo Testamento nenhuma menção quanto a esta prática, e nenhuma ordenança para o batismo de crianças. Doravante, passaram a ensinar que somente o adulto atendia à pré-condição para o batismo, ou seja, a fé evidente, obviamente a fé era algo inatingível para bebês e recém-nascidos. A este ensino e prática deu-se o nome de “anabatismo” (batizar de novo). Por volta de 1525, o anabatismo suíço emergiu dos discípulos radicais de Zwínglio. Entretanto, o maior expoente anabatista foi o holandês Menno Simons (1496-1561). Simons ao estudar Lutero, Zwínglio e Calvino chegou a conclusão que “todos estavam equivocados sobre o batismo infantil”, de modo que em 1532 começou a ensinar, tendo as Sagradas Escrituras como base, a necessidade dos adultos batizarem-se novamente.

No “credo menor ” assembleiano, o item nove professa a crença “no batismo bíblico efetuado por imersão em águas, uma só vez, em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mateus 28.19; Romanos 6.1-6; Colossenses 2.12). A Declaração de Fé das Assembleias de Deus no Brasil amplia este entendimento e ensina que “o batismo é uma ordenança divina; é, em si, um ato de compromisso e profissão de fé; é um ato público em confirmação daquilo que já possuímos — a salvação pela fé em Jesus” e ainda acrescenta que o batismo infantil não é praticado “por não haver exemplo de batismo de crianças nas Escrituras e por não ser o batismo um meio da graça salvadora”.

Conclui-se então que o resgate das ordenanças segundo o modelo bíblico é resultado dos movimentos de Reforma da Igreja, e que o credo das Assembleias de Deus – o maior movimento pentecostal brasileiro – também no quesito das ordenanças encontra-se em sintonia com o credo dos reformadores.

Por, Douglas Roberto de Almeida Baptista.