A salvação de crianças na Bíblia

Muitos debates já surgiram a respeito do tema da salvação das crianças. Alguns teólogos afirmam que uma criança que ainda não atingiu a idade da razão, isto é, a idade em que se peca conscientemente, se não for eleita e vier a falecer, não irá para o céu. Os propositores dessa abordagem soteriológica asseguram que até mesmo uma criança recém-nascida pode não ser salva, pois Deus salvará apenas as crianças que ele predestinou para a salvação.

A Igreja Católica durante muito tempo burocratizou essa questão com uma doutrina antibíblica chamada Limbus Infantium. De acordo com a doutrina católica, o limbo era o lugar para onde iriam as crianças não batizadas e onde também estariam temporariamente os justos do Antigo Testamento, como Abraão, Isaque e Jacó – no caso, no Limbus Patrum. Porém, em outubro de 2007, o papa Bento 16 aboliu o limbo, após uma comissão de 30 teólogos romanistas se reunirem e aprovarem a ideia. Com tal decisão, as crianças falecidas iriam todas diretamente para o paraíso.

Precisamos lembrar que na Bíblia não consta ensinamentos ou práticas que autorizem o batismo de crianças. Doutra forma, para alguém ser batizado, é necessário ter se arrependido de seus pecados (Atos 2.38) e crer em Jesus Cristo como filho de Deus (Atos 8.37). Nesse contexto, a Bíblia do Ministro afirma: “Aqueles que não podem fazer uso completo da razão não estão em condições de cumprir com esses dois requisitos. As crianças estão nessas condições”.

Reconhecemos a complexidade do assunto, porém a Bíblia não nos autoriza em parte alguma afirmar que uma criança que ainda não é responsável moralmente pelos seus atos, e partiu para eternidade nessa condição, poderá ser condenada à perdição eterna. No entanto, precisamos fazer algumas considerações.

Primeiro, a Bíblia nos ensina de forma explícita que todos herdaram o pecado de Adão, até mesmo aqueles que não têm consciência da realidade do pecado (Romanos 3.23; 5.12); Segundo, a Bíblia não apoia a heresia pelagiana, que afirmava que todos os homens nascem na mesma condição de Adão antes da Queda, ou seja, sem pecado, pois sabemos que, através do pecado original, todo o gênero humano foi corrompido e todos nós somos culpados (Salmos 51.5; Romanos 3.9-10; 5.12).

Evidentemente, não podemos afirmar com precisão a partir de que idade uma criança pode discernir entre o que é certo e o que é errado com base em sua racionalidade. Entretanto, as Escrituras nos mostram claramente que existe, sim, uma idade em que a criança tem condições mentais de rejeitar o mal. O profeta Isaías nos mostra essa realidade: “Na verdade, antes que este menino saiba rejeitar o mal e escolher o bem, a terra de que te enfadas será desamparada dos seus dois reis” (Isaías 7.16 – ARC). O apóstolo Paulo, ao escrever a sua Primeira Carta aos Coríntios, também reforça essa ideia, quando afirma: “Irmãos, não sejais meninos no juízo; na malícia, sim, sede crianças; quanto ao juízo, sede homens amadurecidos” (1 Coríntios 14.20 – ARA). Reparemos atentamente que os textos bíblicos supracitados nos remetem ao entendimento de que existe uma idade em que a criança não tem malícia. Paulo ainda nos aconselha que nesse aspecto devemos ser como crianças.

Deus, na sua infinita misericórdia, jamais poderia condenar ao Inferno criancinhas que morrem na primeira infância, sem terem a menor dimensionalidade das maldades humanas. Tomemos como exemplo o primeiro filho do rei Davi com Bate-Seba, mulher de Urias, em seu ato pecaminoso (2 Samuel 12.15). A criança nasceu saudável, mas, devido ao insulto do rei a Deus, o Criador determina a morte da criança. Deus é o autor da vida e com Sua vontade soberana determina o fim dela quando bem quer (Deuteronômio 32.39; Jó 1.21). Para Joyce Baldwin, Davi não aceitou a sentença de Deus por meio do profeta Natã como fatalismo, “mas, sim, da maneira como uma criança recebe a declaração feita por um dos pais, o qual às vezes muda de ideia sobre um castigo, caso a criança se comporte de forma aceitável”. Observemos que Davi orou e jejuou a Deus em favor da criança, porém a sentença de Deus prevaleceu e então o rei declara: “Mas agora que ela morreu, porque deveria jejuar? Poderia eu trazê-la de volta à vida? Eu irei até ela, mas ela não voltará para mim” (2 Samuel 12.23 – NVI). A expressão do rei, ‘eu irei até ela, mas ela não voltará para mim’, nas palavras de Baldwin, nos mostra que Davi, “se defronta com sua própria mortalidade e, mesmo aí, encontra esperança, pois antevê o momento em que voltará a se unir com seu filho”. Ele sabia que o profeta Natã fora enviado por Deus e, embora de luto, estava satisfeito com a ação divina, pois a criança foi diretamente para o Céu.

Quando focamos nossos olhos no Antigo Testamento, observamos que Deus permitiu a matança de crianças inocentes, de povos e nações ímpias, como a geração de Noé (Gênesis 7.19-21), os moradores das cidades de Sodoma e Gomorra (Gênesis 19. 23-25), os cananeus (Josué 6.17-21) e os amalequitas (1 Samuel 17). “Podemos acrescentar ainda que, devido ao estado canceroso da sociedade em que nasceram elas [essas crianças], provavelmente não tinham chance de evitar sua contaminação” (DANIEL, Silas). Alguns podem achar um ato arbitrário da parte de Deus, principalmente comparando-o com suas ações na dispensação da graça. No entanto, citamos ainda o que afirma o teólogo Silas Daniel: “Se morreram com uma idade em que não eram conscientes e responsáveis por seus próprios atos moralmente, essas crianças não se perderam; ao contrário, estão melhores do que nós hoje, pois estão no Céu”. A verdade é que as crianças que morreram na destruição de povos do Antigo Testamento foram alvos da graça de Deus, que através da morte física livrou-as de serem forjadas em um ambiente pecaminoso e hostil e se tornarem pecadores cruéis e perversos.

As Escrituras relatam que Jesus, em um determinado momento, ficou indignado com a postura de seus discípulos, pois repreendiam aqueles que traziam crianças para Ele abençoar (Marcos 10. 13-14). Com atitude contrária, o Mestre dos Mestres demonstrou o seu amor pelas crianças, afirmando: “Deixai vir os pequeninos a mim e não impeçais, porque dos tais é o Reino de Deus” (Marcos 10.14 – ARC). O escritor (BARKLAY) mostra o que Jesus valorizava nas crianças: “A humildade do menino, a obediência do menino, a confiança do menino e a memória curta do menino, que ainda não aprendeu a experimentar sentimentos de vingança e rancor”. Por isso Jesus destacou que “dos tais é o Reino dos Céus”. E ainda nos ensina que os que querem herdar o Reino dos Céus precisam ser semelhantes a esses pequeninos.

Em outra ocasião, Jesus citou para os principais sacerdotes e escribas a passagem bíblica a seguir: “E Jesus lhes disse: Sim, nunca lestes: Pela boca dos meninos e das criancinhas de peito tiraste o perfeito louvor?” (Mateus 21.16 – ARC). Ora, se Deus tira da boca de pequeninos e crianças de peito o perfeito louvor, por que condenaria pequenos indefesos, que não sabem diferenciar o bem do mal? O Deus soberano, criador dos céus e da terra, cujo amor é imensurável, não seria injusto para dar tal sentença. Pois até mesmo para o pecador consciente e obstinado Ele oferece a oportunidade de arrependimento por meio da manifestação de sua graça salvadora (Tito 2.11), e também deseja que todo homem se salve, e chegue ao pleno conhecimento da verdade (1 Timóteo 2.4). Logo, podemos finalizar afirmando que uma criança, ao falecer na primeira infância, será alvo da graça de Deus. Pois de antemão Deus sabe que tais pessoas morreriam na mais tenra idade, sem ter a menor chance de tomar ou não os passos certos a favor de sua salvação.

Referências

BALDWIN, Joyce G. 1 e 2 Samuel Introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1988. Bíblia do ministro com concordância: Nova Versão Internacional / (traduzida pela Comissão de Tradução da Sociedade Bíblica Internacional). São Paulo: Editora Vida, 2002.
BARKLAY, William. Comentário Bíblico do Novo Testamento. Marcos: tradução portuguesa – versão eletrônica.
DANIEL, Silas. Violência no Antigo Testamento. Resposta Fiel Apologia da Fé Cristã. Rio de Janeiro: CPAD ano 6 – N° 23, 2007.

Por, Raydfran Leite de Oliveira.