A Parábola das Dez Virgens

A parábola das dez virgens (Mateus 25.1-13) pertence à categoria das parábolas ditas ou chamadas escatológicas, onde está prevista ou descrita a situação cultural, principalmente em relação a Deus, dos últimos tempos, o tempo do “fim da autonomia humana”. A parábola é uma mensagem em uma linguagem figurada ou alegórica que precisa ser interpretada. A parábola das dez virgens está relacionada à situação da Igreja no fim dos tempos. Seu estudo coincide como estudo sociológico da Igreja do pré-Arrebatamento. Vejamos, pois, alguns ensinamentos que nos transmite.

A primeira lição que essa parábola nos mostra é que o personagem principal dessa narrativa é o Senhor Jesus. A parábola aponta, pois, para a divindade de Cristo, que é o cerne do Evangelho. Cristo é o noivo que virá para levar Sua Igreja. A ideia de um mero homem vindo do céu com os anjos para arrebatar a Igreja é contra a revelação divina e é também irracional do ponto de vista teológico e filosófico. Essa parábola aponta para plena divindade de Cristo, que é a auto manifestação de Deus. Em Cristo os cristãos se encontram com Deus de modo absoluto, pois Cristo é coessencial com o Pai e o Espírito Santo: uma essência em três pessoas. É com essa fé que a Igreja vencerá. O Cristo da Igreja é Espírito experiencial.

A segunda lição dessa parábola é que ser salvo e pertencer à Igreja de Deus é uma obra divina. Virgem representa estado original da natureza, natureza criada por Deus. Só Deus poder criar ex nihil (do nada). A virgindade aqui representa a justificação e a regeneração efetuada por Deus na vida dos autênticos cristãos. A salvação é um dom, como são também a criação e o batismo no Espírito Santo. Tudo é pela graça por meio da fé. Quando se quer conseguir a salvação por meio de obras, em vez de recebê-la pela graça de Deus, cria-se uma situação de insegurança insuportável.

A terceira lição que a parábola das dez virgens nos ensina é que sem o instrumento regulador, que é a Palavra de Deus, as Escrituras, ninguém irá a lugar algum. As lâmpadas representam a Palavra de Deus. O mundo jaz na mais profunda escuridão espiritual. O mundo inteiro, diz a Bíblia, “jaz no maligno” (João 5.19). Essa escuridão espiritual constitui-se em alienação espiritual. Alienação significa viver de maneira inconsciente. Inconsciente de sua real condição espiritual. O pior dano que a queda provocou no homem nesta vida é o estado de alienação espiritual. A princípio o homem comungava diretamente com o Criador (Gênesis 2-3), como evento da queda houve o distanciamento (Isaías 59.1,2). Esse distanciamento possibilitou o homem configurar o seu entendimento de modo contrário ao modo proposto pelo Criador. A diversidade de correntes filosóficas e religiosas, em essência, não são nada mais que o entendimento dos humanos configurados de modos diferentes ao proposto por Deus. Esse é um dos lados trágicos da queda. Nessa situação espiritual alienante,muitos rejeitam a revelação de Deus nas Escrituras para sua própria perdição eterna.

A quarta lição é que sem a presença vivificante do Espírito Santo é impossível nos mantermos de pé à espera do Senhor, o noivo. O azeite nesse contexto representa o Espírito Santo. Todas as dez virgens possuíam o azeite, pois sem o Espírito Santo ninguém pode servir a Deus (Romanos 8.9). Todos os cristãos autênticos que foram justificados e regenerados possuem o Espírito Santo,mesmo que não sejam batizados no Espírito, pois o batismo no Espírito Santo não é salvação, é revestimento. Portanto o Espírito Santo que habita o crente salvo pode ser entristecido e apagado (1 Tessalonicenses 5.19 ARA) quando o crente se afasta da vontade de Deus. Isso mostra que ninguém é obrigado a servir a Deus, ninguém serve a Deus de modo compulsório. O pecado é incompatível com a natureza de Deus. A problemática entre Calvino e Armínio é em última instancia metodológica, pois ambos creem na perdição eterna dos espíritos infiéis para com Deus. A interpretação calvinista quer nos levar a crer que as cinco virgens néscias que ficaram sem o azeite nunca tiveram uma experiência autêntica com o Salvador. Segundo a doutrina arminiana as virgens néscias mantiveram uma experiência autêntica e verdadeira com Deus, mas se afastaram de Deus. Biblicamente a posição correta é a de Armínio, pois Deus não concede seu Espírito sem propósito e não força nossa liberdade. Saul é um caso típico, pois ele foi realmente chamado por Deus,mas afastou-se do Senhor posteriormente. Ademais o conceito de Deus que cria ex nihil e é onisciente, portanto, sabia que o homem cairia, mas que se recusa dar uma oportunidade para o pecador, equivale criar a criatura para perdição eterna, desde a eternidade. Essa doutrina trata de um mostro sem coração, não do verdadeiro Deus, não o nosso IHWH em Cristo.

A quinta lição é que a parusia, isto é, Vinda do Senhor, ocorrerá no tempo limite, no tempo kairós (tempo oportuno), tempo de escuridão espiritual. Na Idade Média houve período de tempo chamado ‘era das trevas’, depois veio a modernidade e agora estamos na pós-modernidade. A era das trevas era caracterizada pela superstição, a era moderna era controlada pela tirania da razão e a era pós-moderna é caracterizada pela destruição da razão. Um dos pivôs que culminou com a revolução espiritual, a Reforma, foi a pretensão de se absorver as almas da prisão no mundo dos mortos pela compra de indulgências. O reinado da razão alcançou níveis absolutos de prepotência humanas em obras como Fundamentos da Metafísica Moral em que o homem racional e livre ali descrito “que, confrontado até mesmo com Cristo, volta-lhe as costas para refletir sobre o juízo de sua própria consciência e ouvir a voz de sua própria razão”(MURDOCH, Iris,AGênese daDoutrina, 2015, Vida Nova, p 102). A era pós-moderna é caracterizada pela interpretação de que não há uma razão atemporal. Segundo os pós-modernos, a razão é histórica, é auto construída no processo histórico. A razão para a pós-modernidade é o fato conhecido no processo de conhecer, ela é passado, presente e futuro. Voltou-se ao status quo, isto é, à condição primitiva. Por trás de toda essa confusão vê-se claramente a falta de um método seguro. O método deve ser Deus como criador de todas as coisas. A meia noite da parábola representa essa convulsão na área do pensamento humano.

A sexta lição é que o projeto de Deus é plenamente atingível, e a verdadeira Igreja haverá de vencer. A igreja em seu aspecto visível não corresponde ao seu aspecto essencial, pois o encontro com o noivo só ocorrerá com os fiéis que estiverem em comunhão com o Mestre. A Igreja também não possui o poder salvífico, ela prega o Salvador. As virgens néscias que não foram atendidas pelas virgens prudentes na reposição do azeite indica que a Igreja não tem poder em si mesma para salvar e que há possibilidade do homem apostatar. Homens como Kant, Feuerbach, Hegel, Bultmann e Schelling nasceram em berço cristão e antes de serem filósofos eram teólogos. Mas apostataram. Portanto, não saiamos da simplicidade do Evangelho.

Por, Francisco Gonçalves da Costa Gomes.

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