A importância das confissões de fé

No período da Igreja primitiva a expressão Confissão de Fé era utilizada para descrever o testemunho dos mártires na hora de enfrentarem a morte. Depois o termo passou a ser utilizado para designar as declarações formais da fé cristã escritas pelos protestantes desde os primeiros dias da Reforma. Assim, a Confissão de Fé está relacionada com vários outros tipos de breves resumos autorizados da fé.

Há outros termos que estão relacionados: o credo e os catecismos. O credo refere-se às declarações da Igreja primitiva em que os cristãos em todos os tempos e lugares têm reconhecido como o Credo dos Apóstolos, de Niceia, entre outros. Já os catecismos são declarações de fé estruturadas, escritas na forma de perguntas e respostas e geralmente exercem as mesmas funções das confissões.

Desde a Reforma Protestante no século XVI, os reformadores sentiram a necessidade de produzir resumos teológicos de forma que todos pudessem melhor compreender a fé e prática cristã que estava sendo proposta, inclusive a Confissão de Fé era uma forma de reposicionar o próprio cristianismo dentro das forças da Europa moderna que nascia.

Assim, as Confissões de Fé exerceram, no século XVI, um papel fundamental no cristianismo reformado nascente: instruíam os fieis mais humildes, entesouravam as novas ideias dos teólogos, reunificava a fé e a pratica visando a unidade cristã reformada, contribuía na distinção entre ortodoxia e heterodoxia e se tornava um referencial para disciplinar os desregrados.

Como a Reforma Protestante foi um movimento politicamente diverso, isso impediu a formulação de uma única e completa confissão. Normalmente o processo do surgimento das Confissões de Fé era o mesmo: logo que um indivíduo ou grupo aceitava a fé Protestante, escrevia-se uma Confissão de Fé.

Considerando que as Confissões de Fé surgiram em meio à diversidade protestante, os povos das nações reformadas fizeram vários usos delas, porem é inegável o valor das Confissões no protestantismo, pois serviram de ponte entre a revelação bíblica e culturas especificas e surgiram como resposta à necessidade de compreensão diante do ensino cristão concernente a um problema ou lugar específico.

Ao longo dos tempos sempre houve duas tendências gerais: os que desprezam as Confissões de Fé alegando lealdade somente às Escrituras e considerando que as Confissões de Fé podem errar. Foi assim que no século XIX surgiu uma tendência de rejeição as confissões de Fé. E os que defendem o uso de Confissões de Fé citando textos bíblicos como suporte para tal como: 2 Tessalonicenses 2.13; 1 Coríntios 15.1-8; Gálatas 6.6; Tito 1.9; Romanos 6.17; 1 Coríntios 11.2; 2 Tessalonicenses 3.6.

Um fator digno de nota é que as Confissões de Fé, para o protestantismo, não tem o mesmo valor das Escrituras, mas são instrumentos valiosos de resumos e diretrizes da vida cristã.

Desde os primeiros anos as Assembleias de Deus preocupou-se em expressarem que elas criam e os que elas praticam. Segundo o Pr. Isael de Araujo, em Obreiro Aprovado nº 75, “O Que nós cremos” foi publicado no jornal Boa Semente de 16 de Abril de 1919 e foi repetido no jornal O Som Alegre de Março de 1930. Este foi a primeira publicação de deixar explicita a todos a sã doutrina esposada pelas Assembleias de Deus.

Em 1962, o Missionário Otton Nelson publicou no jornal MP de Janeiro de 1931 o artigo doutrinário sob o titulo: “O que ensinamos”. Tratava-se de uma doutrina bíblica em cada um dos 11 parágrafos.

A partir de 1969 passa a ser publicado um “Cremos” no jornal MP. Segundo o historiador Isael de Araujo, não se conhece quem e as razões para que esse “Cremos” fosse publicado, mas provavelmente foi devido a um debate sobre a Trindade em 1968.

Nas décadas de 60, 70 e 80 houve discussões sobre a necessidade de se ter um Credo, mas os pastores mais conservadores achavam que credo era coisa de católicos.

Em 2012 foi proposto a reforma do credo oficial e promulgado em Abril de 2017 a Confissão de Fé assembleiana.

Confissão de Fé e pós-denominacionalismo

Com a ampla liberdade religiosa no Brasil isto favoreceu o surgimento de varias denominações e consequentemente isto desembocou no surgimento de varias grupos que distanciando-se de suas denominações de origem, criam novos grupos independentes, onde a linguagem e tendência de mercado é utilizada: não importa o rotulo e sim o conteúdo. Ou as vezes permanecendo no mesmo grupo mas com práticas que não condizem com a fé professada pela denominação. Assim passou-se do denominacionalismo para o pós-denominacionalismo e neste caso vem se mudando não apenas o rótulo, mas também o conteúdo pois no afã de crescimento a qualquer custo para bater frente a “concorrência”, o conteúdo também é mudado. Isto é uma tendência que vem se acentuando no Brasil nos últimos anos.

No período denominacionalista pensava-se como denominação, no pós denominacionalismo não se pensa tanto mais como denominação. As denominações já não conseguem abranger somente aqueles que pensam como a denominação, mas como indivíduos. Reflexo das tendências sociais contemporâneas do individualismo.

É exatamente aí que entra a importância da Confissão de Fé. Se há mudanças no conteúdo, o conteúdo ortodoxo precisa ser distinguido para ser diferenciado e a Confissão de Fé é uma das alternativas para isto.

A Confissão de Fé pode se tornar um elemento unificador da denominação bem como a sua voz oficial diante da sociedade, além de elemento de refutação das heresias. No caso da Assembleia de Deus, tendo em vista a sua abrangência em todo o território nacional e portanto sua expressividade, a Confissão de Fé é imprescindível

O grande desafio, no entanto, é fazer com que a Confissão de Fé alcance a denominação na sua amplitude, tendo em vista a grandeza das Assembleias de Deus no Brasil. Assim deve se trabalhá-la nos seminários e Institutos Bíblicos assembleianos, bem como nos cursos de formação de ministros das Assembleias de Deus, em Escolas Bíblicas e Convenções Regionais e no discipulado de novos crentes.

À medida que a sociedade avança e surgem e ressurgem heresias há a necessidade de acrescentar novos elementos e explicitar outros na Confissão de Fé, atentando sempre para o aspecto linguístico, tendo em vista a vivacidade da língua, afinal a Confissão de Fé deve sempre cumprir o seu propósito que é comunicar de forma precisa e inteligível os principais aspetos de uma fé ou denominação. Porém, não se deve perder um elemento inegociável em qualquer Confissão de Fé: a biblicidade.

Referências Bibliográficas

CHAMPLIN. Russel Norman. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia 13ª Edição. São Paulo. Hagnos 2015
DEUS. Declaração de Fé das Assembleias. 1ª Edição. Rio de Janeiro. CPAD 2017
APROVADO. Revista Obreiro. Nº 75. Artigo A Historia do Cremos. Isael de Araujo. 2016. Rio de Janeiro. CPAD.
CRISTÃ. Enciclopédia Histórico Teológica da Igreja. 1ª Edição. Vol. 1. Editor Walter A. Elwell.1988.São Paulo. Vida Nova

Por, Adejarlan Ramos.

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