A Graça e as “três graças” da mitologia grega

Considerando que nos tempos apostólicos o idioma grego era a língua universal e que influenciou na formação dos livros do Novo Testamento, como entender a conexão do verbete “graça” com as “três graças” da mitologia grega?

A Graça e as “três graças” da mitologia gregaA pergunta bem observa a importância de se conhecer o contexto político, social e cultural do período no qual o Novo Testamento foi escrito para entender melhor a mensagem dos escritores bíblicos. A palavra “graça” ou charis no grego, no primeiro século, refere-se a favores concedidos tanto na esfera religiosa quanto na secular.

A patronagem, ou sistema público e privado de benefícios, era uma das instituições no mundo greco-romano do primeiro século. Tratava-se do relacionamento entre patrono e cliente em que ambos buscavam benefícios mútuos por meio de compromissos firmados entre ambas as partes. Sêneca, um dos intelectuais do Império Romano, em seu tratado De Beneficiis avaliou a instituição da patronagem como o “vínculo-chefe da sociedade humana”. As pessoas deveriam ter disposição em dar, receber e retribuir os benefícios, esse método não somente igualava as partes como também superava a ação do benfeitor. Nesse sistema, então, “graça” denotava não somente um favor concedido de um patrono benfeitor para favorecer um cliente mas também descreve o retorno desse favor por parte do beneficiado.

Assim, o conceito de graça referia-se a trocas contínuas e não a uma atitude unilateral. Nas primeiras comunidades cristãs, provavelmente Febe (Romanos 16.1-2) e Lídia (Atos 16.12-40) eram patronas do apóstolo Paulo.

Essa troca sistemática de favor era representada na imagem das “Três Graças”, as três irmãs de mãos dadas que dançavam em círculo. Sêneca interpretou a dança como a ordem do sistema de patronagem, porque os benefícios passados de mão em mão acabavam retornando às mãos do patrono, e é nessa continuidade que consiste a beleza do sistema. Portanto, no mundo greco-romano, “graça” estava ligada à idéia de reciprocidade mútua, daquilo que fluía do patrono ao cliente e que lhe retornava. A imagem das Três Graças, então, apontava alguns dos atos envolvidos no funcionamento da sociedade romana: as ações graciosas do benfeitor, a resposta agradecida do beneficiado e a troca de graça entre eles.

No Antigo Testamento, hen aparece como a inclinação de uma pessoa em prestar assistência à outra, pode ser usado para os relacionamentos humanos ou divino (Gênesis 33.5; Rute 2.10; Salmo 119.29). Hesed geralmente faz referência a um compromisso de longo-prazo e mais unilateral do quehen (Gênesis 21.23; Salmo 6.4, Rute 1.8).

Nos escritos paulinos, graça é um conceito importante para se entender a salvação. O foco está no favor de Deus como o supremo benfeitor da humanidade, o que se assemelha à idéia do sistema de patronagem. Somos salvos pelo favor divino que nos é oferecido e não por mérito próprio (Efésios 2.8). Pedro não se referiu especificamente à patronagem, mas recomendou aos irmãos que participassem da vida civil e praticassem o bem (1 Pedro 2.11-17). A vontade divina é que os irmãos se respeitem mutuamente e trate os outros com honra.

Os escritores do Novo Testamento utilizaram o idioma e os conceitos de sua época para divulgar o Evangelho. Considerando o contexto em que viviam, graça dizia respeito ao comprometimento da pessoa em ajudar o outro. Assim, de um conceito social desenvolveram um conceito teológico que faria parte do pensamento cristão até os dias atuais.

Por, Daniele Soares.

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