A dimensão religiosa da práxis social

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A dimensão religiosa da práxis socialO conceito de política, em máxima generalização, pode ser definido como “ação necessária que decorre da natureza de todo organismo social”.Todo organismo social precisa de um centro administrativo. A ação política funciona como a cabeça do corpo do organismo social. Mas a ação política em si, isto é, independente dos seres humanos, não existe, é uma abstração, ou um termo que descreve as ações dos agentes sociais. Sem os seres humanos não há ação ou práxis política. Portanto, a ação política só existe encarnada nos seres humanos. O homem precede à ação política.

Ora, o homem é um ser metafísico. Metafísico, tanto na antiguidade como na pós-modernidade, quer dizer religioso ou vinculado à religião ou à mitologia. Por que o homem é um ser metafísico ou religioso? Porque o enigma de sua existência só pode ser resolvido pela teologia ou pelo mito da ciência (teoria da evolução). Ambas respostas só podem ser aceitas pela fé. Não há como prová-las empiricamente. O homem é um ser que transcende. Por quê? Porque ele procura o sentido da sua existência, tanto para o presente como para o futuro do seu ser.

As respostas oferecidas para o sentido da existência do homem são dadas por Deus (revelação=teologia) ou pelo próprio homem (mito da teoria da evolução). Ambas só podem ser encontradas no chamado círculo da fé porque o critério da verificabilidade reivindicado pela ciência está descartado. Tanto a resposta teológica como a resposta da ciência só podem ser cridas, mas não demostradas empiricamente. Todas as tentativas para subtrair-se de explicações metafísicas, teológicas ou míticas para a existência do homem, como ser no mundo, convertem-se em postulados metafísicos, isto é, postulados de fé. Porventura, as teorias científicas construídas no curso da história para explicarem a origem do mundo não são propostas metafísicas? Por que teorias após teorias? Porque tais teorias não podem ser comprovadas em um laboratório cientifico. Portanto, tanto o homem antigo, quanto o homem pós-moderno, são identicamente metafísicos ou religiosos.

Afinal é questionável que o homem provindo de um pingo de esperma (espermatozoides), liquido e frágil, e altamente inclinado ao não-ser, ao nada, possa dar uma explicação plena para toda a realidade do universo. Todas as explicações do mundo podem ser contidas no “chip” pingo de esperma? O que é a condição de pós-modernidade? Não é a consciência de que o homem não tem a resposta para todas as perguntas sobre a realidade? Portanto a afirmação de que o homem pós-moderno superou a sua condição metafisica simplesmente não é verdadeira. A condição metafisica pode ter sido expulsa da consciência pós-moderna, mas ela continua no seu inconsciente. Tendo demostrado que o homem é um ser que vive na fé, é necessário, pois, mostrar os fundamentos de sua fé, para entendermos a sua ação política ou social. Comecemos com uma análise de Goethe: “O objeto verdadeiro, único e mais profundo da história do mundo e da humanidade, ao qual se subordinam todos os outros, continuam sendo o conflito da incredulidade e da fé”. As ações políticas dos seres humanos estão subordinadas às suas convicções de fé, sejam elas teísticas, panteísticas ou ateísticas.

Comecemos com o teísmo ortodoxo. Segundo o teísmo ortodoxo, o cosmo foi criado por Deus, Deus segundo o teísmo é Espírito infinito que criou o mundo do nada, sem material pré-existente. Segundo o teísmo, o mundo não deriva da substância de Deus, e Deus criou por livre vontade, isto é, Deus não tinha necessidade de criar o mundo. Nessa perspectiva, o mundo natural e espiritual foi criado para a gloria de Deus, a história é linear, isto é, possui um objetivo definido, possuindo, portanto, meio e fim. Nessa perspectiva, o paradigma que guia as ações sociais ou políticas dos humanos é a gloria de Deus e o estado de bem-estar dos homens,considerados como outros eus, conforme uma das máximas de Kant, que diz: “Age de tal maneira que trates a humanidade, tanto na tua pessoa como na pessoa de outrem, sempre como um fim mesmo e nunca como um meio”. Tal exigência decorre da existência de Deus como Criador, Supremo Legislador e Juiz, e dos homens possuírem o mesmo fundamento e o mesmo destino eterno: o encontro definitivo com o Criador.

Uma práxis social pautada nesse paradigma exige sociabilidade. Tal prática exige acima de tudo obediência aos preceitos divinos revelados nas Escrituras, onde as regras da comunhão com a divindade estão definidas. Em tal modelo o destino último do homem é pós-terreno.

O segundo paradigma ou modelo que norteia as ações sociais ou politicas é o panenteísmo. Segundo o panenteísmo, “Deus não é um ser, nem mesmo o mais elevado dos seres; ele é o próprio ser, ou o fundamento do ser, o poder ou força interior que faz todas as coisas existirem. […] Deus não é uma pessoa, assim como não é um ser.Todavia, é o fundamento da pessoalidade. Ele é a base ou a causa da pessoalidade humana. […] Ele, porém, não é uma entidade com quem se pode ter um relacionamento pessoal” (Erickson, 2015, p. 301). A essência do deus do panenteísmo pode ser considerada como vontade. O deus do panenteísmo está em processo de desenvolvimento (Hegel e teologia do processo). Vontade não deve ser entendida como vontade psicológica, mas como força para ser. “A vontade, segundo esses ontologistas, aparece no homem como vontade consciente, e nos animais como instintos e impulso (que também aparece no homem), como força nas plantas e como direções ou tendências na realidade material, como gravitação etc.” (Tillich, 2010, p. 204). Como a essência do deus do panenteísmo é idêntica a essência do homem, quando os homens falam de seus conflitos, estão falando do seu próprio deus também. Como o absoluto, a natureza possui liberdade para se auto pôr ou pôr a si mesma, porque o homem participa da própria natureza do absoluto. Logo, a exigência por emancipação por parte do homem de qualquer norma de conduta imposta por organismo heterônimo (religiosos) tem que ser aceita.

A liberdade humana reivindicada pela nova ordem mundial tem como pressuposto a filosofia do idealismo alemão, que identifica a essência humana com a divina e vice-versa. A queda segundo tal metafisica significa simplesmente que a essência humana em sua existência atual está separada da essência divina, e o pecado significa alienação, que neste contexto, significa não ser consciente da identidade de essência, isto é, desconhecer que a essência divina e a humana são consubstanciais. “O que o homem pode chamar seu Eu e o que ultrapassa a tumba, a corrupção, e pode determinar a si mesmo seu merecido prêmio, é também capaz de se julgar a si mesmo. Isto o exige a razão, cuja legislação não depende de mais nada e à qual nenhuma outra autoridade na terra ou no céu pode ditar outra norma de julgamento” (in. Siegmund, 1966, p. 211). Para Heine, discípulo de Hegel, os políticos são crias dos intelectuais. Esse ateísmo intelectual e militante praticado através da ação política tem prevalecido no ocidente. O ateísmo é uma religião, pois é metafisico. O ateísmo é um falso consolo para a consciência. Ateísmo, panenteísmo e panteísmo são a mesma coisa. Por conseguinte, o político cristão deve ser uma pessoa preparada intelectualmente para enfrentar esses desafios, porque dizem respeito a salvação e a perdição eterna das almas. O autentico político é consciente de seus deveres sacerdotais.

Bibliografia

ERICKSON, Millard J. Teologia Sistemática. 2015.
TILLICH, Paul. Perspectivas da Teologia Protestante nos séculos XIX E XX. 2010.
SIEGMUND, Georg. O ateísmo Moderno – História e Psicanálise. 1966.

Por, Francisco Gonçalves da Costa Gomes.

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