A brotação de Israel ao cheiro das águas

A comparação entre homens e árvores feita por Jó e registrada no capítulo 14 de seu livro faz concluir que é melhor a condição dos vegetais do que a dos filhos de Adão. Segundo o desabado do sofredor, há a esperança do renascimento, mesmo tendo chegado a um estado agravado de sequidão, tendo restado apenas uma raiz envelhecida, ainda assim há, para a árvore, a esperança da brotação. O tempo do renascimento é marcado pela expressão “mereyiachmayim” – cheiro das águas – divisor entre a quase morte e a vida exuberante.

Para os gregos, “petrikor”, uma dádiva dos deuses, uma espécie de fluido e odor por eles derramados sobre a terra como prenúncio de bênçãos. Para qualquer criança que já sentiu, na virada do tempo, que as brincadeiras no quintal precisariam ser interrompidas, trata-se, simplesmente, de “cheiro de chuva”. Durante algum tempo, seu aroma foi atribuído ao ozônio e alguns chegaram a advertir sobre sua aspiração. Mas, voltando à observação infantil, o que sentimos é cheiro de terra, cheiro de raiz arrancada ou de campo lavrado. Pois pesquisas recentes confirmaram aquilo que nos parecia instintivo. O petrikor ou petrichor é o resultado do levantar de nanopartículas de ar que entremeiam o solo, somadas a algumas bactérias, liberadas a partir do impacto de gotas de água da chuva. Por serem bem pequeninas, as partículas alcançam imediatamente os ares e ganham distância com o vento. Cientistas, dotados de modernas câmeras de alta precisão, puderam filmar o processo e obtiveram as respostas há tanto procuradas, inclusive resolvendo o impasse que todos notam: sentimos o cheiro da chuva antes da chuva cair. A resposta, concluíram os pesquisadores, está no espalhar dessas partículas, que se assemelham em estrutura às dos aerossóis, levando para longe, conforme o vento, a notícia de águas que já se derramam em outro lugar, até aos lugares que ainda aguardam o cair das primeiras gotas de chuva.

A percepção biológica da árvore ressequida de que já paira no ar o anúncio da precipitação faz brotar nela, antes dos galhos ou das folhas, uma força residual que aparentemente não existia. Mas existe e faz acontecer o renovo antes da chuva, dispensando outros sinais. Basta a esperança de que as condições para viver retornarão e que essa esperança precisa ser respondida com a própria vida.

Quando Jó estabelece a comparação, reconhece que, para o homem, o processo é diferente, especialmente se esse homem tiver perdido o espírito. Morto o espírito, está morto o homem. Pois nisso, que é a fraqueza humana em relação às árvores, está a força daquele que é formado do pó da terra. O homem traz em si mesmo o “mereyiachmayim”, pois o barro de que foi feito apenas aguarda o toque das águas da palavra para ser liberado. Se o homem deixar a força das promessas de Deus renovarem nele a esperança, não há limite ou distância que possam impedir sua vitória. Com humildade (palavra derivada de hummus = terra) reconhecendo sua dependência de Deus, há nele plena possibilidade de brotar, lançar ramos, flores e produzir bons frutos a seu tempo. Mais fácil é para homem, sentir o cheiro da terra de que é feito, quando tocado pelas águas de Deus, do que para a árvore. Vivo o espírito, tudo pode acontecer.

Pois é com o reconhecimento dessa força, dependente em tudo da ação fortalecedora e vivificadora do Criador que fazemos menção aos cerca de um milhão de refugiados judeus que precisaram sair dos países árabes onde estavam estabelecidos, quando da criação do Estado de Israel. Os judeus que habitavam o Irã, por exemplo, estavam ali desde os tempos bíblicos, compondo a comunidade da antiga Pérsia; os judeus do Marrocos lá estavam desde a destruição do Segundo Templo pelos romanos no ano 70. As primeiras grandes ondas migratórias aconteceram entre 1948 e 1951, com milhares de judeus iemenitas e iraquianos. A expulsão do Egito foi em 1956, mesma época da saída dos judeus do Marrocos. Da Síria, cerca de 5 mil judeus partiram para Israel. Os refugiados chegaram sem posses, pois tudo deixaram nos países de origem. Em 1970, mais de 700 mil refugiados judeus já haviam sido absorvidos por Israel, num esforço em não perpetuar a condição de refúgio, mas fornecer a cidadania, a restauração da identidade e a construção de um futuro. A França recebeu cerca de 250 mil judeus.

Dr. Sergio Simon, em artigo de 2014 para a revista Morasha declarou que“os cerca de 700.000 refugiados judeus em Israel foram inicialmente alojados em acampamentos temporários, que eram chamados de Ma’abarot (do hebraico ma’avar = em trânsito; aliás, a mesma raiz da palavra Ivrim, hebreus). A intenção do Estado de Israel, no entanto, era absorver e integrar rapidamente estes refugiados à nova sociedade israelense. As ma’abarot tinham serviços contínuos de saúde, higiene, alimentação e educação, e várias destas ma’abarot transformaram-se em novas cidades (Kiriat Pituach= cidade em desenvolvimento), modernas e totalmente urbanizadas (as cidades atuais de Kiriat Shemona, Sderot e Migdal Há Emek, por exemplo, começaram com o ma’abarot). Apesar das condições difíceis desse início da imigração dos refugiados judeus (aliás, toda a sociedade israelense passava por enormes dificuldades no início da criação do Estado) e da vida sofrida dentro de tendas de lona ou de lata, sob o calor escaldante de Israel, o modelo de absorção de imigrantes revelou-se um sucesso. A última ma’abará foi finalmente fechada em 1963 – ou seja, em menos de 15 anos toda aquela multidão foi absorvida pela sociedade israelense. No censo de 2003, os descendentes desses imigrantes judeus de países árabes somavam cerca de 60% da população total de Israel. A perda material dos refugiados judeus foi enorme, evidentemente. A World Organization of Jews from Arab Countries (WOJAC) estimou em 2007 que estes bens somariam cerca de 300 bilhões de dólares, em valores atualizados. Jamais houve qualquer menção de compensação financeira por parte dos governantes de países árabes”. O grande tesouro comum à multidão de refugiados judeus foi a esperança jamais perdida e que manteve intacta sua determinação de recomeçar e de ‘rebrotar’ a partir do nada.

Também convictos de que a situação de refúgio não pode se perpetuar, mas que precisa encontrar soluções, os EUA decidiram cortar o financiamento para a ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados), por considerar suas operações “tendenciosas”. Os EUA e Israel concordam que, em seus 70 anos de existência, a ACNUR vem usando de uma prerrogativa patrifiliar para denominar refugiados palestinos mesmo os descendentes distantes dos primeiros refugiados que fugiram ou foram expulsos de terras pertencentes a Israel, alimentando a possibilidade, jamais reconhecida, de um retorno e ressarcimento. A decisão de Washington foi considerada injusta pela ACNUR (UNRWA) e seu porta voz, Chris Gunness manifestou sua “profunda rejeição e desacordo com o anúncio dos Estados Unidos”. Segundo ele, a organização tentará compensar o déficit de 217 milhões de dólares à causa palestina, prevendo consequências “dramáticas, generalizadas, profundas e imprevisíveis”. Hoje, há cerca de 5 milhões e trezentos mil registros de refugiados palestinos, um número bem maior do que os cerca de 700 mil de 1948. Com as leis que mantém o status de refugiado por gerações e com a falta de força e intenção de alterar isso, o problema somente aumenta, tendo se transformado em ferramenta política contra Israel. Ainda permanece, contudo, a possibilidade de os países árabes acenarem, a exemplo de alguns, com o esforço para absorver e integrar cada membro dessa crescente população cuja própria definição pelos organismos internacionais antes exclui do que possibilita o recomeço. Quando o rótulo de refugiado deixar de ser uma estampa política para apenas definir temporariamente aquele que transita rumo a uma recém-nascida esperança, ficará claro que o espírito do homem não está morto, mas disposto a lançar raízes e a frutificar, crendo firmemente na promessa que traz o cheiro das águas.

Por, Sara Alice Cavalcanti.

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