Yom Kippur em Israel, o Nazir de Elohim

Yom Kippur em Israel, o Nazir de ElohimNo mês de setembro de 2013 foi comemorado pelos judeus o Youm Kippur, dia mais sagrado para estes, e sua mais importante celebração. Mesmo aqueles filhos de Abraão que não professam o judaísmo procuram, neste dia, abster-se de alimentos e dedicar-se à meditação e às orações. Ocasião de suma importância, sobrepujando todas as outras, é uma oportunidade de arrependimento e de um novo comprometimento para com o Eterno. É considerado o Shabat Shabatot, ou seja, o sábado dos sábados, mesmo ocorrendo em qualquer dia da semana. Embora não esteja ligada a um evento em especial, a maioria dos estudiosos reporta sua origem ao perdão concedido aos israelitas após o pecado no deserto, com a adoração ao bezerro de ouro. A ordem, uma conclamação pelo perdão a todo Israel, é lida em Levítico 23.27. É, portanto, esse ordenado “dia das expiações”, quando cada um, homem, mulher, criança, deve expressar seu desejo sincero por “yetzerhatóv”, ou seja, fazer as coisas corretamente, mesmo sendo sujeitos a erros.

A palavra “kippur”, em sua raiz hebraica, remete ao conceito de cobrir, Kippur seria, então, aquilo “que cobre”, devido ao entendimento de que apenas o perdão concedido por Deus pode cobrir nossas transgressões, com tal poder e graça que, ainda que o ato não seja apagado de nossa memória e que, por vezes, tenhamos de sofrer algumas de suas consequências, o castigo que a Justiça Celestial requereria pela ofensa não nos é imputado. O dia, portanto, não leva o judeu a fazer, como pensam alguns, sacrifícios de jejum e ofertas para conquistar o perdão divino, pois o pensamento de sacrificar em busca de uma bênção de Deus é de origem pagã e não judaica ou cristã. A dedicação do dia nasce de uma lembrança da misericórdia manifesta no passado a homens igualmente pecadores, afirma-se na ordenação mosaica registrada no Livro de Levítico e manifesta-se na busca pelo reencontro das necessidades do espírito humano, através da separação até mesmo dos mínimos cuidados diários, para uma dedicação mais intensa e um exame mais profundo da natureza de nossas relações com o Criador e com o próximo.

Separar-se corresponde ao processo de santificação, necessário a todo aquele que deseje contemplar a face de seu Redentor. Separar-se do mundo e do pecado, distanciar-se das ofertas malignas e sufocar os clamores da carne são projetos adversos a um tempo e a uma sociedade em que a voz em prol da satisfação pessoal costuma soar mais alto do que os apelos do espírito no coração do homem, legitimada por uma ideologia de atendimento imediato aos impulsos mais vis, buscando, por vezes, um apoio que não existe, embora muitos procurem forçar sua presença, nas páginas das Escrituras Sagradas.

Israel foi separado para Deus, e sua separação é reiterada em exemplos e histórias bíblicas que tipificam, explicam e nos permitem entendê-la melhor. Vejamos a vida de José, em um de seus momentos máximos, ou seja, a bênção que a ele concede seu pai Jacó. Ainda que Rubem seja o primogênito da casa, o que o patriarca reitera no momento da bênção a todos os filhos, existe a ressalva de seu comportamento desonroso para com o leito paterno, o que o desqualifica moralmente. Junte-se a isso o desejo de que o primeiro filho de Raquel fosse o cabeça sobre seus irmãos, uma vez que a aliança com Lia não havia sido sequer pretendida. Há, por outro lado, a verificação, sem qualquer dúvida, da bênção estabelecida sobre a cabeça do homem que salvou seus irmãos. A maneira de resolver, então, a entrega de uma maior bênção sobre seu filho é tomar os netos, filhos de seu filho, como seus próprios, colocando-os sobre sua ‘coxa’ e igualando-os aos demais cabeças de tribos. Assim José passa a ter, nas pessoas de seus descendentes, a porção dobrada referente à primogenitura, sem que possua a titulação de principal herdeiro. No entanto, a atitude cria um impasse: os filhos de José recebem cada um sua parte, sendo, portanto, atribuída à casa de seu pai uma bênção dupla, mas ao pai, nada é concedido. A José, como filho de Jacó e Raquel, àquele cuja vida, devido à interferência de Labão, sofrera uma mudança na condição de autoridade somente revertida pela ação do Senhor que o fez supridor de todos os seus e das nações ao seu redor, deu Jacó a mais importante ministração. O ancião declara algo que Moisés reafirmaria depois, a saber, que era ele, José, separado dos irmãos. Nossa distância da língua original não nos permite perceber a grandeza da afirmativa, pois dele é dito que é “nazir”, separado dentre os irmãos. O termo em português faz pensar na separação ocorrida pelo afastamento temporal e geográfico, mas o termo original “nazir”, remete à separação para Deus. José é o filho que o Senhor consagrou para Ele mesmo, de uma forma e com uma unção inegável, diante da qual somente se pode reconhecer e, humildemente, aceitar. Homem falho, mas separado; homem sujeito às vaidades de todos os homens, mas separado – separado para Deus.

Israel é “nazir” de Elohim. Busca o cerimonial que possa cobrir suas falhas, quando precisaria buscar apenas o retorno àqueEle que pode apagar totalmente suas transgressões, pelo precioso sangue que lhe é constantemente oferecido. Tem o “nazir” sua própria porção – Deus é sua dádiva, sua sorte na herança, a parte mais preciosa e fértil, diante da qual as planícies inundadas e férteis de Gózen não têm comparação. Nada podem ter em importância, portanto, na vida, pequenas tribulações para aqueles que foram requeridos pelo Senhor como sua pessoal possessão – e que compreenderam o valor desse particular presente, entregando suas vidas como única resposta cabível ao Seu possuidor.

Por, Sara Alice Cavalcanti.

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