Yarah: do Egito a Israel, de escravo a filho

Yarah - do Egito a Israel, de escravo a filhoNão nos foram legadas as razões pelas quais Yarah chegou à condição de escravo de um judeu. A escravidão obedecia a condições e normas específicas dentro de Israel, porém, a economia do texto (1 Crônicas 2.34-35) não sacia a curiosidade do leitor em saber se o jovem egípcio teria sido escravizado a partir de um conflito entre os dois países, se fora capturado, comprado, nascido em casa, como filho de escravo, vendido para pagamento de alguma divida ou para ressarcimento de algum bem roubado, enfim, desconhecemos as razões pelas quais tornou-se servo de Sesã, um dos príncipes de Judá. Suas perspectivas não poderiam ser piores, pois a memória dos 400 anos de escravidão hebreia no Egito poderia suscitar ressentimentos e maus tratos, além da inconveniente e dolorosa referência ao passado. Melhor futuro, porém, Deus reservara ao jovem servo. A alforria de que foi alvo não é explicitada, mas é plenamente compreendida no fato de que seu senhor, não possuindo filhos homens, concedeu a ele sua filha por mulher. Yarah, portanto, chega ou nasce em casa de Sesã como servo, sendo posteriormente elevado à condição de livre (hofshi) e casa-se com uma jovem princesa judia. Yarah não é mais um desterrado, destituído de liberdade, mas filho e herdeiro, membro da família abençoada dos príncipes do Senhor.

As relações entre Israel e os homens das terras negras (referência ao território alagado e fertilizado pelas cheias do Nilo) guardaram, ao longo dos anos, momentos de cooperação e de conflito. O episódio recente diante da Embaixada de Israel no Cairo, no entanto, foi surpreendente. Mais de 100 manifestantes pediram o fim das relações diplomáticas entre os dois países e a suspensão das operações militares do país vizinho em suas fronteiras. O grupo elevava a voz, bradando: “o povo quer que Israel se vá”. A turba (reservada a ironia do pedido, diante da recordação do êxodo) pode ter sido insuflada pelo braço egípcio do grupo jihadista Estado Islâmico. Israel tem sido acusado de apoiar o exército egípcio durante os ataques que lançou no dia primeiro de julho (2015) contra militares de seu próprio país estabelecidos no norte do Sinai. A península tem se tornado base para lançamento de foguetes, alguns dos quais atingiram o sul de Israel, atacando posições judaicas. Apenas por isso Israel retaliou, cooperando com o presidente egípcio Abdel Fattahal Sissi em sua luta contra os revoltosos. Para Sissi, a situação já se encontra, no momento, completamente “estável”. O saldo, na primeira semana do mês de julho, foi de mais de 21 militares egípcios mortos, além de quase 300 extremistas do Estado Islâmico.

Os acontecimentos caminham paralelamente a manifestações dos jihadistas em plena Jerusalém oriental, parte reivindicada pela Autoridade Palestina como futura capital, onde panfletos com o símbolo do Estado Islâmico foram espalhados. A mensagem era dirigida aos cristãos árabes ali residentes, para que saiam de lá. Hoje, há aproximadamente 12 mil cristãos árabes vivendo em Jerusalém, além de outros numerosos grupos espalhados por Israel (cerca de 123 mil indivíduos), professando a ortodoxia aramaica ou grega, alémdo catolicismo grego ou siríaco. Há tambémmaronitas e outros grupos menores. Mais de 80% dos chamados cristãos em Israel são árabes provindos, em sua maioria, da antiga União Soviética. Vivem em cidades israelenses e desfrutam de condições de paz e proteção. Em sua maioria são pessoas que se sentem mais seguras em Israel do que em terras árabes. São contrários à postura do negacionismo islâmico: não a Israel, não à integração, não ao exército, não ao serviço social. Pelo contrário, procuram manifestar fidelidade, mesmo a um Estado definido como judeu pela própria Organização das Nações Unidas. Shalayan, um árabe cristão de 58 anos, encabeça a expressão desses árabes, ao afirmar que os assim chamados “BneiHaBritHadasha” (filhos do Novo Testamento) precisam vencer o conflito de identidade e, vivendo em Israel, portarem-se e serem aceitos como israelenses.

Os esforços para a integração avançaram com as instruções dadas pelo Ministro do Interior israelita, Gideon Saar, permitindo o registro de uma nova nacionalidade em Israel – a nacionalidade arameia. Assim, todo o árabe israelense que se identificar pela herança histórica, religião, cultura, descendência ou linguagem com os antigos arameus, não necessitará mais trazer em seus documentos o registro de árabe, o que o identificaria, num primeiro momento, com os grupos islâmicos, mas o registro de arameu. Nada ficou esclarecido, no entanto, a respeito dos árabes cristãos evangélicos, minoria ainda mais visada e perseguida, quer pelos grupos autodenominados cristãos, quer pelos árabes islâmicos. Sobre esses, no momento, parece ainda pairar a sombra da não identificação, da não pátria, do não pertencimento.

Claro, não há como evitar certo receio de que a busca por uma inserção plena em Israel por parte de árabes, mesmo ditos cristãos históricos, possa fazer parte de uma estratégia de penetração e dominação por vias aceitáveis, algo mais perigoso do que a jihad (‘guerra santa’). No entanto, o temor que havia em Faraó, no passado, de que os hebreus crescessem e se voltassem contra seu governo não pode assolar o povo de Israel. Há aspectos e detalhes na movimentação dos povos que escapam totalmente às perspectivas humanas, e precisam ser enfrentadas na medida em que novos acontecimentos vêm à baila. Se Yarah tornar-se-á um oponente ou um filho, apenas o Senhor conhece. A nós cabe manifestar a parcela de amor e de cuidado possíveis em tempos difíceis de lutas entre irmãos. Não é sob outra ótica que se pode entender o socorro dado por Israel às vítimas da guerra civil na Síria.

Perigo maior encontra-se na contaminação espiritual. No dizer do arqueólogo Amir Ganor, da Autoridade de Antiguidades de Israel, diante do resultado de escavações ao sul do Neguev, “os israelitas deixaram o Egito, no entanto, parece que, mesmo anos após o seu regresso o Egito não deixou os israelitas e seus descendentes”. Sua declaração deve-se às evidências encontradas no sítio arqueológico escavado de que muitos anos após o êxodo a influência egípcia permanecia em Israel, o que é comprovado pela presença de selos escaravelhos, objetos ritualísticos, artefatos religiosos de cunho pagão… Os filhos de Jacó, ao que parece, carregaram dos seus antigos senhores a influência política e militar, além de muitos aspectos de sua fé, restando-nos clamar para que Israel, efetivamente, deixe o Egito e seus deuses, voltando-se para o Deus de seus pais. A necessidade desse retorno é reafirmada na presente mistificação e idolatria entre os descendentes de Abraão. Doutra forma, sem o retorno, com arrependimento e conserto, como poderão os servos de outras culturas encontrar libertação e filiação sob as asas do Deus de Israel?

O Deus vivo tem mantido, nas terras bíblicas, casas de Sesã para resgate e acolhimento. Muitos escravos, oriundos dos mais diversos povos e crenças têm sido tocados pelo amor dAquele que os contemplou além da condição servos do pecado e os elevou à estatura de filhos e herdeiros da mesma promessa. Yarah foi efetivamente integrado ao povo santo, à família de Deus.

Por, Sara Alice Cavalcanti.

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