Uma visita à igreja totalmente empresa

Uma visita à igreja totalmente empresaDia desses, ouvi falar na igreja-empresa. Inicialmente, supus tratar-se de uma denominação voltada aos homens de negócio. Em seguida, imaginei uma congregação funcionando num escritório. Foi aí que um amigo descreveu-me a tal igreja. Não é direcionada necessariamente aos empresários. Ali, porém, não faltam vendilhões que, com invejável cinismo profissional, mercadejam as coisas sagradas. Ela também não pode ser encontrada num chão de fábrica, mas, em sua linha de montagem, obreiros da iniquidade são produzidos serialmente, para serem lançados, de imediato, na feira livre da fé.

Trabalhando com metas cada vez mais audaciosas, a igreja-empresa sabe como fidelizar as ovelhas gordas e pesadas de lã. Quanto às quebradas e esquálidas, que errem pelos valados. Se não são produtivas, não há por que investir nelas. Aliás, seu pastor já não tange o rebanho com o cajado do Nazareno. Moderno e dinâmico, trata-o como a sua clientela peculiar. E, para agradá-lo, tudo faz. Afinal, o cliente tem sempre razão. Por isso, limita-se a ensinar e a pregar o que as incautas ovelhas querem ouvir. E, como só acontece nessas ocasiões, elas, alegrinhas e saltitantes, deixam-se carnear com satisfação.

Resolvi visitar a igreja-empresa. Achei-a bastante parecida com um shopping center. Em nada lembrava um santuário. Qual não foi minha surpresa ao encontrar, ali, alguns velhos conhecidos. Logo de cara, avistei Ananias e Safira. O casal, naquele momento, recebia uma menção honrosa pela oferta que, dias antes, entregara ao pastor. Ao contrário de Pedro, este agiu eclesiástica e politicamente correto. Nem quis saber a origem do valor. Afinal, no cofre sagrado, todo dinheiro é santo. Fiquei surpreso por estarem eles sendo apresentados como modelo à congregação.

Terminado o culto matutino, fui dar umas voltas pela área administrativa da igreja-empresa. De repente, eis que me deparo com Simão, o Mago. Com humilde pompa, traficava, junto ao presidente da instituição, alguns títulos ministeriais. Pela cara que fez ao deixar o recinto, estava satisfeitíssimo. Tenho comigo que ele acabava de adquirir um apostolado. O título cai-lhe bem. Simão, Apóstolo e Mago. Um ministério perfeito de apropriações indébitas. Nem precisará de Deus para realizar sinais e maravilhas. De sua cartola, sairão coelhos, ratos e outros roedores.

Mas as surpresas não terminaram aí. Ainda no imenso pátio, uma limusine chegava, trazendo duas personalidades. Conversando animadamente, lá estavam Balaão e Demas, aquele que abandonou Paulo por amar o presente século. Vinham eles dar um choque de gestão no corpo gerencial da igreja, pois, nos últimos três meses, as metas não haviam sido alcançadas. Esperavam 30 e só lograram 26 por cento de crescimento. Balaão ensinará o pastor a lançar alguns tropeços doutrinários e teológicos no caminho dos jovens, para que estes deixem de clamar por avivamento e missões. Demas, por seu turno, mostrará ao ministério como a igreja pode ser contextualizada no pós-modernismo. Se estamos no mundo, por que não termos a cara do mundo? Garante ele que os resultados serão imediatos.

A igreja-empresa tem outras virtudes. É sedutoramente inclusiva. Ao contrário dos pastores que se dizem conservadores e bíblicos, o arcanjo desta igreja (este foi o seu último título) a ninguém exclui. Por que disciplinar o adúltero se este dá um bom dízimo e uma oferta gorda? Quanto ao corrupto, que seja discreto e traga a sua contribuição. O que este faz durante a semana não é problema da igreja; não podemos misturar a vida cristã com a secular. Crente só aos domingos. Durante a semana… Bem, a história é outra.

Confesso ter ficado um tanto perturbado. Mas o pastor, com um jeito para lá de polido, levou-me ao seu gabinete para mostrar-me suas comendas, placas e troféus. Logo acima de sua escrivaninha, estava um diploma lindamente emoldurado, que me deixou perplexo. Não pude conter a curiosidade: “Como o senhor o conseguiu?”. Ele, esboçando algum enfado, confessou-me: “Meu querido, não foi fácil. Tive de viajar à Ásia Menor e tomar umas aulas com um colega”. Depois, emendou: “Mas o anjo de Laodiceia foi-me bastante solícito. Em parte, devo a ele, e somente a ele, toda essa prosperidade. Hoje, posso dizer que de nada tenho falta”.

Aos poucos, foram chegando os pastores-auxiliares para mais uma reunião. O presidente da igreja, exibindo gráficos e planilhas, demonstra insatisfação diante das metas não atingidas. O relatório financeiro, embora invejável, foi considerado medíocre. Ele ensaiou uma pausa, tomou o fôlego, em seguida desabafou: “Precisamos de um choque de gestão. Caso contrário, não sairemos do atual patamar. Temos de conquistar mais um dígito em nosso relatório”. Foi aí que um pastor, formado na antiga escola, ensaiou um protesto: “Presidente, nós já temos tudo. O que nos falta?” O executivo, ignorando-lhe o comentário, contrapôs: “Temos de redirecionar nosso marketing, e saber o que a concorrência está fazendo”. Neste momento, um engraçadinho saiu-se com esta: “Que concorrência? O Diabo?”. Ninguém pôde conter o riso.

Não, não era o Diabo. O arqui-inimigo de Cristo já não fazia oposição à igreja-empresa, pois esta, de há muito, funcionava como a sua fiel subsidiária. A concorrência, agora, era formada por novos modelos eclesiásticos que, abusando de truques psicológicos e doutrinas extravagantes, apresentavam produtos cada vez mais irresistíveis. Por isso, sugere o presidente: “Introduziremos algumas atrações sociais em nosso culto. Uma jantar dançante. O sorteio de um automóvel. Ou, quem sabe, recepcionistas profissionais. Vamos dar o que o povo gosta”.

Neste instante, alguém bate à porta. Pela câmera, pôde-se ver um viajor que, tendo as mãos e os pés feridos, insistia por entrar. O presidente, incomodado, perguntou: “Quem é este homem?” Ao que o diácono respondeu: “Não sei, parece um mendigo. Pelo jeito, veio de longe”. O presidente, impacientado, ordena: “Faça alguma coisa. Dê-lhe um dinheiro, e mande-o embora”.

O auxiliar foi à porta. E, quando a esta chegou, não viu mais ninguém. Sim, o homem já tinha ido embora, mas deixara um bilhetinho fixado no luxuoso umbral: “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo” (Apocalipse 3.20). O obreiro, irritando-se com a intromissão do estranho, comentou: “Ainda por cima, me suja a porta”. Amarrota o papelinho e joga-o no lixo.

Enquanto isso, prossegue o arcanjo da igreja-empresa: “Estes são os prêmios para quem alcançar os alvos do próximo período eclesiástico. Em primeiro lugar …”

Senhor, tem misericórdia de nós. Vem logo, Senhor.

Por, Claudionor de Andrade.

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