Uma visita ao museu de cera

Uma visita ao museu de ceraNa última semana, estive num museu eclesiástico em Sardes. Como não conhecia aquele recanto da Ásia Menor, pedi a um velho pastor que me guiasse. E, assim, pusemos-nos a caminhar. Sem muita pressa, caminhamos. Enquanto perambulávamos, ia narrando-me ele a história daquela igreja. Contornamos a praça, atravessamos ruas e adentramos bazares. Enfim, o que seria uma pesquisa de campo desdobrou-se numa agradável turnê. Naquele dia, aprendi muito com o teólogo divino.

Ao entrar no museu, que mais parecia uma igreja do que um espaço de memória, assustei-me. Tive a impressão de que todas aquelas figuras de cera, dramaticamente posicionadas, olhavam para mim. Num luxuoso púlpito, o pastor esboçava um gesto eloquente e raro. Pela expressão de seu rosto, estava nada satisfeito; esbravejava alguma exortação. Junto à plataforma, uma orquestra arranjava-se bem; finura e arte. A assistência, por sua vez, parecia cultuar o Crucificado.

Já no meio do recinto, quase pedi desculpas a um diácono que, sustentando uma salva, olhava atentamente à bancada da esquerda. Até aquele momento, jamais vira crianças tão educadas e atenciosas. Elas, igualmente enceradas.

Vendo-me atônito e um tanto perturbado, acudiu o ancião: “Também assustei-me a primeira vez que estive aqui. Este museu é, de fato, aterrador; lembra um necrotério”. Ali mesmo, voltou ele à história daquela igreja. No passado, fora uma congregação viva. Mas, por causa da decadência espiritual, fora-se transformando numa exposição de obras mortas.

Todos parecem vivos, mas jazem defuntos.

Ele contou-me que, em várias ocasiões, havia buscado reavivá-la, mas não lograra êxito algum. Inclusive, portara uma carta do Cordeiro ao responsável por aquele rebanho. Entre outras coisas, dizia a epístola: “Conheço as tuas obras, que tens nome de que vives e estás morto” (Apocalipse 3.1). Infelizmente, a advertência caíra no vazio.

Entre curioso e amedrontado, roguei-lhe que me contasse como aquela igreja, que parecia tão bela e viva, chegara àquela condição.

Solícito e pesaroso, o velho homem foi rico nos detalhes e didático nos pormenores. Segundo logo depreendi, operava-se ali um longo e meticuloso processo de esfriamento espiritual. Tudo começou quando o pastor substituiu a sã doutrina por mensagens que afagavam o ego do rebanho. Se as ovelhas tinham comichão nos ouvidos, por que incomodá-las com a remoção do prurido? Que elas, pois, ouçam coisas agradáveis. Ao invés da ajuda do alto, a autoajuda. Em vez da teologia que faz a alma prosperar, por que não a teologia da prosperidade? O rebanho não demorou a enfermar. Algumas doenças fizeram-se crônicas; outras, fatais; contagiosas, todas elas.

O pastor Sardes, porém, não se condoía do rebanho. Às ovelhas doentes, ministrava placebo. Parecia Palavra de Deus, mas era palavra de homem. Ou do Diabo? Se alguma aparentasse palidez, vinha ele com um psicologismo de enrubescer até defunto. Aliás, gente morta era o que não faltava àquela congregação. Dantes, avivada no Reino de Deus. Agora, sepultada num império enfermiçamente humano.

Foi, então, que perguntei ao idoso ministro: “Como esse pastor cuidava dos mortos espirituais?” Ele fez uma pausa, franziu a testa, respirou fundo e desabriu-se: “Já viu alguma máscara de cera utilizada pelos antigos atores gregos? O anjo desta igreja começou a usar um processo semelhante, para emprestar alguma vida à morte. Olhe bem para essas ovelhas. Parecem vivas, mas estão mortas. Tem olhos, mas não veem. Ouvidos, porém, nada ouvem. Boca, entretanto, não oram nem clamam. Pernas, todavia, não saem do lugar”.

Vistas daqui, são nédias e gordas. Por que, então vieram a falecer? O ancião, arrancado à sua contemplação, explicou: “As causas mortis foram as mais diversas: adultérios não confessados, fornicações escondidas, corrupção, injustiças sociais, calúnias, mentiras”. Parecia que a lista de pecados não confessados e inconfessáveis não tinha fim.

Olhei novamente às figuras, não acreditando no que via. Para mim, o velho mestre exagerava. Por isso, questionei-lhe o relato: “Até as crianças e adolescentes enfermaram?”. Achei-me um tanto rude. Queria desculpar-me. Mas, em seus olhos, vi umas lágrimas tímidas, quase furtivas. Em seguida, lamentou: “Olhe bem para essas crianças; acham-se tão mortas quanto seus pais. Elas foram criadas na admoestação do Senhor. Rebeldes e insolentes, logo cedo deram-se ao mundo. Alguns destes adolescentes já tinham uma vida sexual para lá de ativa; outros drogavam-se; vários entregaram-se ao roubo e à violência. Quanto aos pais, deixaram-nos à vontade. Corrompendo-se precocemente, precocemente morreram”.

Eu não queria acreditar, mas era verdade. Agora, já não me via num museu; sentia-me num repugnante necrotério. Os mortos, sob cera, pareciam vivos, belos e eclesiasticamente corretos. Mas já começaram a cheirar mal. Em seguida, aduziu meu interlocutor: “Está vendo aquela jovem? Parece crente, mas em nada difere de uma mundana. Seus pais nunca a repreenderam”. Olhei em sua direção. E, para a minha surpresa, a moça achava-se à frente do grupo de louvor.

Já bastante pesaroso, procurei mais alguma informação sobre o pastor. O ancião foi incisivo: “Ele foi o primeiro a morrer. Supondo estar acima da Palavra de Deus, transformou a Igreja de Cristo num sórdido comércio. Vivia hipocritamente. E, hipocritamente, assumia o púlpito. Para ele, o rebanho não passava de uma fonte de renda. Por isso, encheu o templo de crentes vazios”.

Como isso foi acontecer? Aquela igreja fora semeada pela equipe de Paulo. E, provavelmente, contava com grandes nomes em seu púlpito. Todavia, deixara-se morrer. Por algum tempo, enganou a todos. Mas, agora, o cheiro de morte fazia-se insuportável. Afinal, é tarefa nada fácil conservar cadáveres e dar-lhes aparência de vida.

Antes de a morte tomar a todos, o pastor da igreja recebera uma carta do Cordeiro, ultimando-o a buscar um avivamento: “Sê vigilante e consolida o resto que estava para morrer, porque não tenho achado íntegras as tuas obras na presença de Deus. Lembra-te, pois, do que tens recebido e ouvido, guarda-o e arrepende-te. Porquanto, se não vigiares, virei como ladrão, e não conhecerás de modo algum em que hora virei contra ti” (Apocalipse 3.2, 3).

Na despedida, o teólogo divino entregou-me um pergaminho com a última mensagem do Filho de Deus à sua Igreja. O livro começava assim: “Apocalipse de Jesus Cristo”. Em seguida, foi conclusivo: “Somente o fogo do Espírito Santo para derreter toda essa cera, e trazer esses mortos à vida”.

Somente assim teremos uma igreja sem cera.

Uma igreja sincera.

Por, Claudionor de Andrade.

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