Uma reflexão sobre paternidade responsável

Uma reflexão sobre paternidade responsávelA Bíblia conta a história da visita de um profeta à cidade de Siló, onde se encontrava armado o Tabernáculo do Senhor com a Arca da Aliança. O homem portava uma grave advertência dirigida ao sumo sacerdote Eli e seus filhos Hofni e Finéias, que o ajudavam no ofício sacerdotal (1 Samuel 1.3). Na cultura religiosa hebraica, o sacerdote desempenhava importante papel no cerimonial litúrgico; afinal, eles atuavam como mediadores entre os homens e Deus, no sentido de conseguir o favor da divindade, através de sacrifícios. O sacerdócio atestava a vida pecadora do homem, a santidade de Deus, e, por consequência, a necessidade de certas condições, para que o pecador pudesse aproximar-se da Divindade1. Mas a visita do homem de Deus àquele pai não era um bom sinal.

A Bíblia Sagrada denuncia a conduta deplorável dos filhos de Eli. No que tange ao comportamento, aqueles rapazes estavam longe do que se esperava de um ministro de Deus. Os fieis que se aproximavam do local sagrado para ofertar eram aviltados pelos dois homens que logo procuravam se apropriar do que não lhes pertencia: a lei mosaica determinava que toda a gordura do animal sacrificado fosse queimada no altar do Senhor (Levíticos 7.31), mas eles exigiam para si toda a carne, tirada com um garfo de três dentes de uma panela fervente (1 Samuel2.16). Ademais, se prostituíam com mulheres na Tenda da Congregação. O procedimento dos dois sacerdotes não poderia passar impune.

A Palavra de Deus os qualifica como “filhos de Belial”. Segundo a língua hebraica, esta era uma forma de se referir a homens desprezíveis, inúteis ou ímpios. Isso significa que aqueles homens não mantinham nenhuma comunhão com o Senhor ou alguma experiência com o divino. Eles eram sacerdotes sem nenhuma vocação para tão nobre tarefa.

Segundo análise do pastor Elienai Cabral, comentarista de Lições Bíblicas da CPAD, “pela história, Hofni e Finéias desenvolveram uma insensibilidade espiritual sem precedentes. Nada lhes tocava em relação à santidade da Casa do Senhor. Ao longo do tempo, por faltar-lhes ensino e temor ao Senhor, e por total despreocupação dos pais, os dois filhos não sabiam mais fazer qualquer diferença entre o certo e o errado, entre o que era santo e o que era profano. Na verdade, eles se tornaram maus e faziam a obra de Deus com displicência”.2

Assim que encontrou o sacerdote, o profeta desfiou o terrível vaticínio: no início, o Senhor demonstrava interesse em abençoar a sua descendência e mantê-la no sacerdócio, mas após o fracasso do líder religioso na manutenção da ordem doméstica, a vontade divina era desarraigar aquela família do ofício sacerdotal. O Criador manifestava o Seu descontentamento, uma vez que se sentiu desprezado pela atitude letárgica do sacerdote Eli. Em certo momento da profecia, a conduta dos impenitentes foi comparada com a de animais selvagens (1 Samuel 2.29).

O procedimento de Hofni e Finéias foi tão devastador que contaminou os peregrinos que se deslocavam a Siló para o serviço religioso: os adoradores passaram a desconsiderar a pureza do cerimonial e seu valor indescritível (1 Samuel 2.17). As tendências ímpias daqueles sacerdotes os impediam que se arrependessem e sua obstinação exigiu que o Senhor os punisse com a morte (1 Samuel 2.25).

Segundo comentário da Bíblia de Estudo Defesa da Fé (CPAD), a expressão hebraica traduzida como “o Senhor […] queria”, significa literalmente que “o Senhor ficou satisfeito”. Embora Deus não sinta a menor satisfação na morte do impenitente, contudo Ele se alegra em trazer justiça e ordem à sociedade humana. A justiça é uma característica do caráter divino (Êxodo 34.7; Salmos 33.5) e a sua aplicação O satisfaz.

Depois, o Senhor se dirigiu àquele que seria o futuro e último juiz de Israel. O homem que serviria como elo de transição entre o período dos Juízes e a monarquia. O menino Samuel recebeu a mensagem do juízo vindouro e a anunciou ao velho sacerdote. A reação de Eli foi pífia diante do conteúdo assustador do qual já fora informado anteriormente: “É o Senhor; faça o que bem parecer aos Seus olhos” (1 Samuel 3.18).

Como responsável pela manutenção de sua família, Eli demonstrou seu fracasso como pai e líder; ele não se arrependeu como o fez Davi quando repreendido pelo profeta Natã. O monarca quedou-se diante da realidade dos fatos e procurou o perdão divino, conforme podemos ver, inclusive, em Salmos 51.

Eli foi um pai desmoralizado porque participou do pecado dos filhos. Esta situação assemelha-se à iniciativa de Sansão em colher porções de mel da carcaça do leão que havia matado anteriormente (Juízes 14.8). O texto sagrado afirma que o jovem aproveitou para pegar um pouco do mel do cadáver do animal, uma iniciativa proibida por lei (Números 6.6), uma vez que o nazireu não podia ter contato com cadáveres. O juiz de Israel levou o mel para casa e ofereceu aos pais, que comeram sem saber as origens da iguaria. Hoje, dezenas de moças e rapazes chegam em casa com algo contaminado, e os pais aproveitam sem fazer quaisquer objeções das origens do que trouxeram. A sociedade hedonista “aproveita” sem perguntar se é lícito ou não.

Bem antes desses acontecimentos, outro pai se apresentava diante do altar para interceder por sua família: o patriarca Jó oferecia tantos sacrifícios quanto o número de seus filhos (vide Levíticos 1.4). Na verdade, ele oficiava como um sacerdote em sua família, mesmo antes do estabelecimento do sacerdócio araônico. Mas, o que chama a atenção é a atitude de Jó para manter intacta a integridade espiritual e a união de sua família. É notável a sua devoção ao Deus Todo-Poderoso. O saudoso comentarista bíblico Donald Stamps revela Jó como um pai com o coração voltado para os filhos, dedicando o tempo e atenção necessários. “Com o pai piedoso, Jó tinha muito zelo pelo bem-estar espiritual de seus filhos. Vivia atento à conduta e modo de vida deles, orando a Deus para que os protegesse do mal e que experimentassem da parte de Deus a salvação e suas bênçãos”.3

Enquanto os filhos se reuniam, o pai se ajoelhava diante de Deus. Uma atitude bem diferente do leniente Eli, que não conseguia mais enxergar recuperação na conduta dos filhos e, praticamente, os entregou à própria sorte, sem tentar, ao menos, interceder pelos filhos rebeldes. Há pais que desistem dos filhos, sem esboçar resistência, e isto denuncia declínio ministerial, quando o sacerdote do lar não mais acredita no poder de Deus para manter a união da família e a recuperação dos perdidos.

Se Jó não ficou impassível diante dos perigos proporcionados pelo pecado, por outro lado, Eli, como sacerdote, falhou em seu ofício diante de Deus e dos homens. Aos dois exemplos, cabe uma reflexão: nesse mês de agosto, comemora-se o Dia dos Pais; mas, que tipo de pai você tem sido? Reflita! Ainda há tempo de assumir a sua responsabilidade sacerdotal.

Notas

1 BOYER, Orlando. Pequena Enciclopédia Bíblica. 2ª edição, 2008, CPAD, Rio de Janeiro.
2 CABRAL, Elienai. Filho de pastor ou filho belial. Revista Obreiro Aprovado, ano 22, nº 6. 1998. CPAD, Rio de Janeiro.
3 STAMPS, Donald, Bíblia de Estudo Pentecostal (CPAD).

Por, Eduardo Araújo.

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