Teologia: para que mesmo?

Teologia - para que mesmoLembremo-nos da simples definição do termo Teologia: Theos = Deus, e Logia = Estudo; portanto, estudo acerca das coisas referentes a Deus. Vejamos agora os conceitos de educação e ensino: “Os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais” (Parâmetros Curriculares Nacionais); “Do latim ‘ducere’, educação aponta para o ato de conduzir para fora, assim, educar implica habilitar o indivíduo para avançar em um processo de mudanças permanente” (Ismael dos Santos). E “no sentido bíblico, o processo da educação combina-se com os princípios espirituais que, segundo se espera, emprestam poder e significado aos ensinos que transcendem os meios intelectuais normais e os meios humanos práticos” (Russel Normal Champlin).

Os que têm compreendido ou empreenderam estudar Teologia provavelmente já devem ter ouvido expressões do tipo: “Se você fizer Teologia, vai se tornar um crítico!”; “Se você fizer Teologia, vai apagar o fogo do Espírito Santo em sua vida!’; “Quem faz Teologia esfria!”. Pensando sobre isso, pergunto: como pode o estudo acerca das coisas referentes a Deus afastar-me de Deus? Como pode o contato com a Bíblia, Palavra de Deus, me distanciar dEle? Como pode a busca da compreensão da vontade de Deus me por no caminho oposto ao Seu propósito? Em cada uma dessas indagações, há uma ação repelente. Ou seja, a proposta é uma e o efeito produzido lhe é oposto. Disso, deduzo que o problema não está no estudo teológico, mas, sim, na disposição do coração do estudante. Então, vemos que o estudante de Teologia precisa, muito antes, ser um crente em Deus e em Sua Palavra e, assim, nenhum aprofundamento teológico o distanciará do propósito de Deus para a sua vida.

Dito isso, gostaria de, com o fundo do SHEMÁ-ISRAEL (DEUTERONÔMIO 6.4-9, 13 – NVI), dizer o porquê de nós precisarmos do ensino teológico. O texto que acabei de mencionar é importantíssimo na base de todo ensino teológico judaico. Do aconchego do lar à severidade das disciplinas acadêmicas, havia um sério compromisso com o ensino teológico.

Em primeiro lugar, podemos dizer que o ensino teológico oferece a oportunidade de ouvir a verdade continuamente: “Ouça, ó Israel” (v. 4). Isso nos leva a uma contínua aproximação de Deus através de: conhecer Deus. O Deus único e uno, o verdadeiro Deus, que pelo relativismo e pluralismo religioso tem sua imagem projetada de forma opaca. Mas o ensino teológico está aí para aclarar e mostrar a verdadeira imagem de Deus. Também nos impulsiona a experimentar Deus, e isso é feito através do encontro com Sua Palavra, de forma sistemática, e com conteúdo basilar, que aprofunda cada dia mais o cristão nas maravilhas da graça de Deus. Leva também o cristão a ter consciência da presença de Deus, de que Ele é o Todo Poderoso e que Ele tem o direito de governar sobre nós. Sendo assim, resta ao fiel cristão buscar esse Deus constantemente, almejando Sua vontade, desejando andar no seu caminho, o que dará ao peregrino da fé a certeza de que, aconteça o que acontecer, Deus tem um plano. Em síntese, é bom dizer que: “Famílias que ouvem a verdade continuamente não são arrastadas de um lado para outro, sem direção. Elas estão sempre unidas. E isso é essencial para a  sobrevivência em nossos dias” (Charles Swindoll). Isso é produzido com o ensino teológico sadio, que, portanto, não esfria, mas sim aquece a vida cristã!

Em segundo lugar, o ensino teológico oferece a oportunidade de amar ao Senhor intensamente, “de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todas as suas forças” (vv. 5, 6). Com ele, aprendemos que nosso amor a Deus só é verdadeiro quando abrange a totalidade de nosso ser. Um amor verdadeiro se manifesta em todas as áreas de nossa vida. O ensino teológico aprofunda o relacionamento com Deus e, consequentemente, com os semelhantes, levando à praticidade do amor que dizemos ter. É impossível transmitir um princípio a meu filho, ou a quem quer que seja, sem que eu, pessoalmente, abrace tal princípio. É impossível convencer meu filho sobre os valores de honestidade se eu sou desonesto. É impossível mostrar a meu filho, ou a quem quer que seja, a necessidade de ter lábios puros se eu, habitualmente, falo impurezas. Nosso amor a Deus deve ser um amor envolvente, uma dedicação do fundo do coração que irá transparecer em nossas atitudes. No ensino teológico essas questões são tratadas minuciosamente.

Em terceiro lugar, o ensino teológico oferece a oportunidade de ensinar com significância. “Ensine-as com persistência a seus filhos” (vv. 7, 9). Em um mundo de futilidades, o aluno de Teologia aplicado tem ressaltado o princípio de que o desejo de Deus é que haja uma transferência consciente do conhecimento absorvido. Aqui reside um dos principais propósitos do teólogo: transmitir, com modéstia e com precisão, os conceitos recebidos. No ensino teológico, aprendemos que devemos falar de coisas espirituais da mesma maneira que falaríamos sobre qualquer outra coisa em casa, na rua ou em qualquer outro lugar. Exorta-nos de que a Palavra de Deus deve ocupar todos os espaços em nossa vida em um ensino responsável e persistente. Seja quando, ou onde for, a evidência deve ser a Palavra de Deus, que se torna clara e compreensível no aprofundamento teológico.

Em quarto lugar, e finalizando, o ensino teológico oferece a oportunidade de temer a Deus acima de todas as coisas. “Temam o Senhor, o seu Deus, e só a Ele prestem culto” (v. 13). Através do ensino somos levados a assumir nossos erros. Somos confrontados em nossos pecados (Oséias 11.4; 1 João 1.8; Isaías 1.18). Também somos levados a confessar nossos erros (1 João 1.9; Daniel 2.22; Marcos 4.22). Nele ainda somos levados a consertar nossos erros (Provérbios 28.13).

É por falta de ensino teológico que o erro campeia nos círculos evangélicos. É por falta de ensino teológico que o Evangelho é barateado, sucateado e pisoteado por “pregadores” inescrupulosos que querem fazer o texto bíblico dizer o que nunca disse. É por falta de ensino teológico que aberrações são ditas em formatação bíblica, mas, na prática, depondo completamente contra a pura hermenêutica. Por falta de ensino teológico, há pouco aprofundamento bíblico, vida de oração medíocre, comunhão com Deus opaca, compromisso com a obra do Senhor desvirtuado, amor aos perdidos interesseiro. Sim, é por falta de  ensino teológico que a cruz tem sido trocada pelo pódio e que muitos já não aceitam mais sofrer por amor a Cristo. Querem o poder da Igreja Primitiva, usado para a glória de Deus na operação de sinais e maravilhas, mas não querem a espada, a fogueira, as feras do coliseu. Veja qual era o aprofundamento teológico dos crentes primitivos. Olhando para os Evangelhos, Atos dos Apóstolos, as Epístolas, e comparando com a situação atual, podemos ver a que distância estão hoje certos redutos cristãos do verdadeiro conteúdo do Evangelho.

Lamentavelmente, temos aqueles que se submetem ao ensino teológico apenas por vaidade, por orgulho ou para conseguir uma oportunidade no ministério. Mas, graças ao bom  Deus, temos também aqueles que se dedicam ao ensino teológico, ou ainda, se dedicam ao aprendizado teológico; como cita Lourenço Stelio Rega em um artigo seu, “a Teologia se escreve a lápis”. Portanto, o teólogo nunca cessa a sua jornada de aprendizado.

Podemos dizer que no ensino teológico ocorre algo maravilhoso: o Senhor coloca-se diante de nós desejoso de que Sua Palavra encontre guarida em nossos corações. “Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta entrarei em sua casa, e com ele cearei, e  ele comigo” (Apocalipse 3.20). Mas atentemos com zelo para isso, pois há um juízo para aqueles que não fazem caso da instrução divina. “Como escaparemos nós, se não atentarmos para tão grande salvação, a qual, começando a ser anunciada pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram” (Hebreus 2.3).

Que o ensino teológico proveitoso tenha sua continuidade triunfante em sua vida, em seu ministério e em sua igreja. Soli Deo Glória!

Por, João Germano.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Google Translate »