Soli Deo Gloria: Só a Deus a glória

Soli Deo Gloria - Só a Deus a glóriaO princípio protestante “Soli Deo gloria” objetivou conduzir o cristão a voltar-se única e exclusivamente a Deus, principalmente porque a igreja medieval estava literalmente dividindo-a, colocando não somente os “santos”, mas também sua liderança no mesmo nível do próprio Deus.

Esse slogan da Reforma trata direta e fundamentalmente do assunto da glória que somente Deus deve receber, e uma boa e correta compreensão deste assunto requer que o mesmo seja dividido em duas partes.

1) A glória de Deus em relação a Ele mesmo – Sobre o alvo de Deus manifestar Sua glória, Joel R. Beeke afirma: “Ele manifesta a sua glória em tudo que faz, mais notavelmente em revelar sua excelência moral às suas criaturas e evocar o louvor delas por sua beleza e pelos benefícios que lhes outorga (cf. Efésios 1.3). A glória de Deus é aquilo que o faz parecer glorioso aos anjos e aos homens” (BEEKE, p. 163).

Deus é indissociável de Sua glória. Onde Deus está, Sua glória também está; Sua glória revela Seu caráter, Sua majestade, a beleza de Sua santidade, ou seja, quem Ele realmente é. Portanto, falar de Sua glória é tão importante quanto falar dEle mesmo, por isso trata-se de algo extremamente importante e indispensável à igreja.

A palavra “glória” possui diferentes significados, mas que estão intimamente ligados entre si. Por exemplo, na raiz hebraica, a expressão glória (“kabod”) diz respeito à dignidade ou ao valor de Deus; já na raiz grega, a palavra glória (“doxa”) aponta para a visão que devemos ter em relação a Deus, com base na manifestação de Sua glória. Sendo assim, temos dois pontos importantes sobre a glória de Deus: 1) quem realmente Deus é; 2) a resposta da criação diante da manifestação de sua majestade do Criador.

Falar da glória de Deus em relação a Ele mesmo é apontar para quem Ele é, Seu propósito em tornar-se conhecido dos homens e a importância de uma resposta positiva por parte desses.

2) A glória de Deus em relação aos homens – Para o apóstolo Paulo, todo cristão deve glorificar a Deus em tudo que faz, inclusive nas coisas mais básicas e até mesmo consideradas triviais da vida (1 Coríntios 10.31). A igreja medieval considerava o trabalho dos clérigos e monges como mais elevado que o de alguém que não fazia parte da “elite sacerdotal”, contudo, com base na Escritura, os reformadores enfatizaram que em tudo o cristão deve glorificar a Deus, inclusive no cumprimento de sua profissão, conforme as palavras de Martinho Lutero:

“Quando uma empregada cozinha e faz outros serviços de casa, porque está ali a ordem de Deus, mesmo tão pequeno trabalho deve ser louvado como um serviço a Deus superando em muito a santidade e o ascetismo de todos os monges e freiras […] Da mesma forma, os trabalhos seculares são um culto a Deus e uma obediência que muito agrada a Deus” (RYKEN, p. 61).

É perceptível a veemência com que Lutero ataca o desvio da igreja católica quanto ao que realmente glorifica a Deus, e isso se dá principalmente porque para os reformadores a glória de Deus é central à vida cristã e ela não deve estar relacionada a algumas partes da vida da igreja, mas em tudo que ela é e faz. Portanto, o slogan “Soli Deo gloria” foi um convite à igreja e sua liderança a voltarem-se ao grande e principal propósito da vida: a glória de Deus; e este convite significava mais do que simplesmente declarar isso em palavras, mas também – e principalmente – abrir mão de ensinos equivocados que dividiam a glória de Deus com qualquer outra coisa, principalmente com figuras humanas.

Nesse caso, “Soli Deo gloria” não se tratava apenas de um grito apaixonado pela glória de Deus, mas um chamado a um rompimento com a vaidade e a glória humanas, isto é, foi uma convocação à igreja daquele tempo para abrir mão de si mesmos, tendo em vista a glória exclusiva de Deus. Além disso, este emblema da Reforma ressaltou que o propósito da vida e a única forma do homem encontrar verdadeiro sentido e deleite para sua alma é na glória de Deus.

O doutor Joel R. Beeke nos auxilia mais uma vez, fornecendo-nos uma belíssima explicação sobre isso: “Dar glória somente a Deus era o estímulo da Reforma. É claro que o dar a Deus não tenciona dar-lhe algo que ele não tem. Quando Deus é glorificado na vida dos homens e nas palavras humanas, ele não se torna mais glorioso do que sempre foi e sempre será. Nas palavras de Thomas Watson, um teólogo puritano do século 17, ‘a glória de Deus é uma parte tão essencial de seu caráter, que ele não pode ser Deus sem ela’” (BEEKE, p. 164).

“Soli Deo gloria” foi a grande motivação dos reformadores. Eles buscaram incansavelmente: 1) o retorno à Escritura (sola Scriptura) que tem Deus como fonte e objetivo; 2) um vislumbre exclusivo da graça salvadora (Sola Gratia) que também procede de Deus somente; 3) o reconhecimento do poder eficaz da fé (Sola Fide) que também procede de Deus (Efésios 2.8; Hebreus 12.2); 4) olhar exclusivo e dependência irrestrita em Cristo (Solus Christus) que é o centro de tudo que envolve a vida com Deus. Todos esses pontos convergem em uma mesma direção: a glória de Deus (Soli Deo gloria).

Em forma de conclusão, ampliemos nossa compreensão do que está exposto anteriormente neste texto, considerando que em tudo que os reformadores se envolveram teve o propósito de devolver o lugar que pertence a Deus, isto é, a origem, o centro e o objetivo de todas as coisas, conforme as palavras do apóstolo Paulo:

“Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!” (Romanos 11.36)

Um dos principais lemas da Reforma Protestante se define nas palavras de Gisbertus Voetius (1589-1676): “Ecclesia Reformata et Semper Reformanda Est” (“A igreja é reformada e está sempre se reformando”). A Reforma do século 16 obteve grandes e positivos resultados, mas a igreja deve sempre atentar para os pontos resgatados pelos reformadores, inclusive – e principalmente – o viver para a glória de Deus.

NOTAS

BEEKE, Joel R. Vivendo para a glória de Deus. São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2010
MACGRATH, Alister E. Teologia Histórica – Uma introdução à história do pensamento cristão. São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã, 2007
RIKEN, Leland. Santos no Mundo. São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2013

Por, Elias Torralbo.

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