Sola Gratia: Somente a Graça

Sola Gratia - Somente a GraçaÀ luz da Palavra de Deus, a Salvação se dá somente pela graça. Por graça entende-se o favor divino, do qual não somos merecedores. A graça, como enfatizam as Escrituras, precede a salvação, de maneira que, teologicamente, a ação da graça que leva o homem à salvação é chamada de “graça preveniente”. O uso do termo “preveniente” ou “precedente” atrelado ao vocábulo “graça” é apenas para deixar claro que estamos falando de uma ação divina que antecede a conversão.

A Bíblia nos mostra que é só através de uma manifestação precedente e preparatória da graça de Deus que a corrupção do coração do homem pode ser suplantada, possibilitando-lhe arrependimento e fé. Paulo, por exemplo, afirma em Romanos 2.4 que é a bondade divina que nos leva ao arrependimento. O próprio Jesus disse aos seus discípulos que é somente através de uma ação precedente do Santo Espírito, convencendo o homem do pecado, da justiça e do juízo, que o pecador pode vir a Cristo (João 16.8-11). Ele também asseverou que aquele que vem a Cristo só pôde vir porque antes foi atraído (João 6.44) e que essa atração é exercida sobre todos os homens (João 1.9; 12.32; Tito 2.11), embora muitos deles resistam à ação da graça em seus corações (Mateus 23.37; Lucas 7.30; At 7.51).

A graça salvadora nada mais é, portanto, do que o amor de Deus em ação; é Deus tomando a iniciativa em relação ao homem caído, e não apenas no sentido de propiciar a sua salvação, mas também no sentido de habilitá-lo a recebê-la e atraí-lo a ela. É ela que concede ao ser humano a possibilidade de corresponder livremente com arrependimento e fé quando Deus o atrai a si. É a graça que possibilita ao homem responder positivamente ao chamado divino. É a graça divina que possibilita ao homem ter livre exercício de vontade para crer ou resistir.

A graça divina, como afirmava o próprio Jacó Armínio, não apenas precede, mas “acompanha e segue” a salvação do crente. Como frisou o teólogo holandês, “‘a graça salvadora de Deus’ pode ser interpretada como primária ou secundária, como precedente ou posterior, como operante ou cooperante, e como aquilo que bate, ou abre, ou entra”.1 Ela é começo, meio e fim. Aquele que “começou a boa obra” em nós é fiel para “aperfeiçoá-la até o dia de Jesus Cristo” (Filipenses 1.6).

Uma vez que, à luz da Bíblia, o livre-arbítrio para as coisas de Deus é resgatado pela graça, o livre-arbítrio do homem deve ser entendido como sendo, na verdade, um“arbítrio liberto”. Além disso, uma vez que vem de Deus essa restauração da capacidade que naturalmente o ser humano não teria de arrepender-se e ter fé para ser salvo, então a capacidade de responder ao chamado divino não deve ser entendida como natural, mas como pertencente à graça.

No seu estado natural, o homem não poderia responder de maneira nenhuma. Ele só pode fazê-lo por uma ação sobrenatural de Deus em seu coração. Nas palavras do teólogo arminiano escocês Ian Howard Marshall (1934-2015), considerado um dos maiores eruditos do Novo Testamento no século 20, a graça preveniente coloca “o homem em uma posição na qual ele possa dizer ‘sim’ ou ‘não’, algo que o homem não poderia fazer antes de Deus tê-lo chamado; [pois] até então ele estava em uma contínua posição de ‘não’”.2

Como afirma o erudito assembleiano Timothy Munyon, mesmo ainda possuindo “liberdade volitiva” após a Queda, os seres humanos “são incapazes de escolher a Deus”; logo, “Deus, pela sua bondade, equipa as pessoas com uma medida da graça que as capacita e prepara a corresponder ao Evangelho (João 1.9; Tito 2.12). O propósito de Deus era ter comunhão com as pessoas que de livre vontade resolvessem aceitar sua chamada universal à salvação. Em conformidade com esse propósito divino, Deus outorgou aos seres humanos a capacidade de aceitá-lo ou rejeitá-lo. A vontade humana foi liberta o suficiente para voltar-se para Deus, arrepender-se e crer”. Ou como disse Lutero no seu Pequeno Catecismo: “Eu creio que por minha própria razão ou força não posso crer em Jesus Cristo, meu Senhor, nem vir a Ele. Mas o Espírito Santo me chamou pelo evangelho, me iluminou com seus dons, me santificou e me conservou na verdadeira fé”.3

A Bíblia fala claramente de uma habilitação, capacitação ou preparação da parte de Deus que precede a conversão. Vemos um exemplo dessa manifestação preveniente da graça no relato bíblico da conversão de Lídia. A Bíblia diz que Deus “abriu-lhe o coração” para que pudesse crer (Atos 16.14), ou seja, através da exposição da Palavra pelo apóstolo Paulo, o Espírito Santo agiu no coração de Lídia, concedendo-lhe a percepção e o arbítrio que ela não tinha para perceber e se decidir pelas coisas espirituais. O Espírito tirou a venda do coração dela, convenceu-a e atraiu-a. E por Lídia ter dito “sim” a essa ação divina inicial de habilitar, desvendar, convencer e atrair, ela passou de convencida a convertida. Uma coisa é ser convencido e outra é ser convertido. Nem todos que são convencidos são convertidos, mas todos que são convertidos precisam antes terem sido convencidos.

Em outras palavras, como bem coloca o teólogo Timothy Munyon, “quando cooperamos com o Espírito que nos chama e aceitamos a Cristo, essa cooperação não é o meio da renovação. Pelo contrário, é o fruto da renovação”.4 Nas palavras de Munyon, “para os crentes bíblicos de todas as denominações, a salvação é 100% externa, uma dádiva imerecida de um Deus gracioso. Deus nos tem dado graciosamente aquilo que necessitamos para cumprir o seu propósito na nossa vida: conhecer, amar e servir a Ele”.5 Mas alguém pode se perguntar: “O fato de podermos resistir à graça divina não nos torna, como alguns argumentam, os nossos próprios salvadores?”

Claro que não. Esse argumento é tremendamente falacioso. Em primeiro lugar, como enfatizava John Wesley, a salvação, por ser uma dádiva que não podemos produzir e adquirir de forma alguma por nós mesmos, é “totalmente livre”; ela “não depende de nenhum poder nem mérito do homem – em nenhum grau, nem no todo, nem em parte”.6 A esse respeito, a analogia do rico e do mendigo, de Armínio,7 é perfeita: mesmo o mendigo podendo estender a mão, a dádiva continua sendo uma dádiva. Mesmo o mendigo podendo estender a mão, a dádiva continua dependendo totalmente da liberdade do doador. Mesmo o mendigo se preparando para receber a dádiva, seu preparo não é o que lhe garante a dádiva, mas, sim, a liberdade do doador. Só isso já é suficiente para deixar claro que o mérito é todo de Deus, não nosso. Porém, ainda há outros dois detalhes importantíssimos.

Em segundo lugar, a fé não é uma obra. A própria Bíblia – os apóstolos Paulo (Romanos 3.27,28; 4.5) e Tiago (Tiago 2) em especial – faz distinção entre fé e obras. Estas resultam daquela. Estas não são aquela. Fé não possui mérito. Ela não é uma conquista. Ela é tão somente “a entrega da vontade a Deus, o estender de uma mão vazia para receber o dom da graça. Na decisão da fé, nós renunciamos a todas as nossas obras e repudiamos completamente toda reivindicação de auto-justificação”.8 A fé exclui a arrogância justamente porque ela é a negação de qualquer mérito pessoal e a aceitação do mérito de outro: Cristo (Romanos 3.27).

Paulo assevera em Efésios 2 que somos salvos “pela graça mediante a fé”. Ou seja, não é a fé que salva, porque ela não é nem mérito nem poder para salvação. É a graça que salva, é Cristo. O mérito e o poder são totalmente da graça. A fé é apenas um ato de submissão, entrega, confiança, aceitação dessa salvação propiciada e operada unicamente pela graça divina. A fé é apenas a recepção à graça, uma resposta positiva e passiva à graça. É nesse sentido que Jesus dizia “A tua fé te salvou”. Ele não falava no sentido de a salvação ser operada pela fé, mas de ser recebida tão somente pela fé. Daí afirmarmos biblicamente que a salvação é “Sola Gratia” (“Somente a Graça”, no sentido de “Somente pela Graça”) e “Sola Fide” (“Somente a fé”, no sentido de “Somente pela fé”).

Por fim, em terceiro lugar, é Deus quem nos concede essa possibilidade de crer e receber, que sequer tínhamos. Até mesmo a nossa capacidade de fé e arrependimento é dada por Ele. Como enfatiza Wesley, a salvação “não depende da sua boa disposição, nem dos desejos bons, nem de seus bons propósitos e boas intenções, pois tudo isso flui da graça livre de Deus. Essas coisas são apenas a corrente de água, não a nascente”.9 Tudo advém da graça. Ou, como bem resumiu o pastor e teólogo metodista John Fletcher (1729-1785), “toda a nossa salvação é de Deus; toda a nossa condenação é de nós mesmos”.

Notas

(1) ARMÍNIO, Jacó, As Obras de Armínio, CPAD, volume 1, 2015, p. 298; e volume 2, p. 297.
(2) MARSHALL, I. Howard, Predestination in the New Testament, in: PINNOCK, Clark (editor), Grace Unlimited, 1975, Bethany Fellowship, p. 140.
(3) HORTON, Stanley (editor), Teologia Sistemática – Uma Perspectiva Pentecostal, 1996, CPAD, p. 260; LOHSE, Bernhard, A Fé Cristã Através dos Tempos, 1972, Editora Sinodal, p. 172.
(4) HORTON, Ibid., p. 260.
(5) HORTON, Ibid., p. 260.
(6) COLLIN, Kenneth, ATeologia de John Wesley, 2010, CPAD, p. 220.
(7) ARMÍNIO, Ibid., p. 330.
(8) PINNOCK, Clark H. e WAGNER, John D. (editores), Graça para Todos: a dinâmica arminiana da salvação, 2016, Editora Reflexão, p. 23.
(9) COLLIN, Ibid., p. 221

Por, Silas Daniel.

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