Sola Fide: Somente a fé

Sola Fide - Somente a féA doutrina da justificação pela fé, ensinada por Lutero, não era tratada trivialmente como apenas mais uma doutrina. Em sua ótica, esse ensino era o resumo da doutrina cristã e por meio dele a Igreja se mantém.

Lendo Romanos 1.17, o que chamou a atenção de Lutero foi a expressão “Justiça de Deus”, isso porque ele era um homem em crise, que estava buscando paz para sua alma, por isso praticava orações, jejuns, boas obras, vigílias, mas mesmo se dedicando à prática dessas coisas, a paz que tanto sua alma almejava não vinha.

Nessa sua busca transcendental por Deus, sem encontrar o que desejava, havia uma oscilação interna em Lutero, que por vezes amava e odiava a Deus, pois entendia que Ele castigava os pecadores. Ao ler as cartas de Paulo, ainda por vezes manifestando um sentimento de crítica, foi em uma noite, ao estar na torre, que ele pôde compreender que a justiça é algo que o homem vive pela fé.

Em um dos escritos Latinos de Lutero (Wa 54, p. 179-187, 1545), ele deixou claro que a justiça de Deus é revelada pelo Evangelho, uma justiça passiva com a qual o Deus misericordioso justifica a todos por meio da fé. “Como está escrito: Aquele que pela fé é justo, viverá. Aqui, senti que estava nascendo completamente de novo e havia entrado no próprio paraíso através dos portões abertos”.

Foi em contato com o texto de Romanos 1.17 que Lutero deixou de ser um monge agostiniano para transformar-se em um verdadeiro reformador protestante. Pelos escritos de Lutero, os quais se seguiram posteriormente, ele entenderia que o homem é justificado e perdoado por Deus não por méritos e obras humanas, mas somente pela fé em Cristo Jesus.

Evidentemente, logo se percebe que Lutero seguirá sua defesa em favor apenas da fé, não seguindo os vieses escolásticos, mas todos os seus argumentos se alicerçarão plenamente nas Sagradas Escrituras.

Toda essa mudança de entendimento em Lutero se deu simplesmente por causa de novas análises que ele fez de Romanos 1.17. Nas exposições de seus sermões em Romanos (15.15), primeiramente ele faz um sermão contendo 18 linhas, firmando na expressão “a justiça de Deus é revelada”. Nessa primeira parte, ele cita Agostinho e Aristóteles. Na segunda frase “de fé em fé”, contendo 24 linhas, ainda fazendo menção a Agostinho, ele explica a justificação progressiva, que é um crescimento para a retidão, ou seja, o cristão vive sua vida neste mundo sempre buscando ser justo perante Deus.

Mas, pela leitura que fazemos dos escritos de Lutero, foi em 1518 que ele fez uma nova exposição sobre Romanos 1.17. No entanto, agora sua ênfase não está pautada em qualquer esforço ou mérito humano. É a partir desse momento que a célebre frase brota do coração de Lutero: Solas fides justificate (Só a fé justifica).

A razão de Lutero expressar que a justificação é alcançada somente pela fé se dá pelo fato de ele ter entendido que o homem estava enfermo no pecado, que no mesmo não havia qualquer justiça própria que pudesse lhe conduzir à justificação, mas que o homem enfermo é curado por causa da justiça de Cristo, a qual Deus aceita. Deus não aceita nossas justiças para promover nossa justificação, o perdão dos nossos pecados.

Podemos dizer que o texto de Romanos 1.17 levou Lutero a ter a fé que iria abalar seu coração, mas diversos ensinos impactaram sua mente, de maneira que ele teve que fazer um filtro nisso tudo, para que de fato pudesse falar o que a Bíblia realmente trazia sobre a doutrina da justificação pela fé. Ao expressar que Cristo é a nossa justiça, e que todos somos pecadores carentes da salvação, a fonte disso foi a Palavra de Deus.

Por meio dessa nova filtragem Lutero está colocando no eixo da verdade o que realmente era o Lógos divino, não mais em uma conotação grega, mas total e puramente paulina.

Acima mostramos como Lutero percorreu diversos caminhos, os quais ensinavam como algo tornaria o homem justo, mas o reformador deixa claro que somente Deus, em Cristo Jesus, é que pode legalmente declarar o homem Justo (Romanos 5.1).

Purificado das diversas teologias que encaravam a doutrina da justificação como algo que se tornava, Lutero agora compreende imputação da justiça de Cristo como algo que vem de fora, deixando claro que no homem não existe qualquer capacidade de promover a cura do pecado, mas tudo dependia exclusivamente do sacrifício de Cristo Jesus na cruz do calvário.

A partir de então, a nova interpretação de Lutero é que aquele que crê na justiça de Cristo com certeza a terá. Ele afirma discricionariamente que não existe relação de obras humanas com a justificação, o homem só é justificado e feito santo através da graça de Deus.

Para Lutero, o homem estava sujo diante de Deus (Isaías 64.6) e para limpar-se dessa sujeira o mesmo teria de se agarrar à bendita graça, assim seria declarado justo, isso tão somente por meio da fé. Falando da fé como fidúcia, palavra que está na primeira declinação latina, que quer dizer “certeza”, “confiança”, “ousadia”. Ela também fala de uma crença pessoal. Teologicamente, seu sentido é de alguém procurar plenamente agarrar-se a ela para segurar-se a Cristo Jesus.

A fidúcia, na concepção teológica de Lutero, não era algo simplório, não estava apenas no nível que era apresentada pela igreja na Idade Média, atrelada às três virtudes teológicas: fé, esperança e amor. Ele via a fé como um tipo de relacionamento que a pessoa desenvolvia com Deus.

Para Lutero, a fé não justificava, pois nesse caso ela poderia carregar algum tipo de mérito. Por isso que Paulo disse que nós somos salvos por meio dela (Efésios 2.8,9); na verdade, ela é um elemento que ajuda o pecador a receber a justificação. A fé não cria a graça nem a salvação, ela conscientiza o homem de que a verdadeira justificação existe em Cristo Jesus.

Por meio da fé, o pecador aceita a Cristo e, claro, essa fé não nasce dele mesmo, vem por meio da Palavra e ação direta do Espírito Santo (Romanos 10.17). O novo entendimento da fé que Lutero teve, rejeitando a concepção de Agostinho, é que agora o homem em Cristo é um pecador justificado, e não mais parte pecador e parte justo.

Lutero era consciente de que o homem neste mundo é pecador, porém o verdadeiro cristão tem consciência que, devido à fé na justiça creditada em Cristo, o mesmo já foi julgado e absolvido, de modo que essa justiça fala mais alto; sendo assim, pode viver em santidade e vitorioso neste mundo, conforme disse João, que a vitória que vence o mundo é nossa fé (1 João 5.4).

O ensino de Lutero da justificação pela fé colocou por terra o que a Igreja Católica ensinava, enfatizando que os méritos, sacrifícios e esforços dos homens poderiam lhe conceder a salvação. O teólogo reformador categoricamente afirmava que a união da alma do homem com Cristo só era possível única e exclusivamente pela fé.

Para alguns estudiosos e defensores da Igreja Católica, era por demais caricato o ensino de Lutero, pois Jesus unir-se à alma do pecador, sendo essa união vista como um matrimônio, era algo absurdo, porque nesse caso seria como se uma alma prostituta, adúltera, estivesse se unindo a Cristo. Mas o que Lutero estava falando seguia coadunadamente com a visão de Paulo, o qual afirmou que é Deus quem justifica os pecadores (Romanos 4.5).

Mas diante das acusações que partiam daqueles que não aceitavam a justificação somente pela fé, Lutero afirmava que, segundo a Palavra de Deus, os méritos das boas obras não justificam o pecador; na verdade, tais obras deveriam acompanhar a fé como sendo a síntese de sua verdade: os seus frutos.

Portanto, podemos dizer que o ensino da justificação somente pela fé não foi algo criado por Lutero ou qualquer outro reformador. Nas páginas do Velho Testamento homens, se agarravam a essa fé na busca de sua salvação, isso aconteceu com Abraão e Davi (Romanos 4.3,7,8).

O aspecto forense da justificação pela fé está óbvio e plausível em Paulo (Romanos 5.1), o que fica patente que o homem não tem nada que chame a atenção de Deus para promover sua própria salvação. Aliás, no mesmo não existe algo que possa barganhar com o Senhor, o que ele precisa é crer na justiça de Cristo.

Jakob Heerbrand está certíssimo quando diz que a fé é somente a forma, a mão que recebe o benefício oferecido e presenteado por Jesus Cristo. Portanto, o instrumento que recebe e se apega ao benefício oferecido no Evangelho.

O cristão tem em sua vida a justiça de Cristo, a qual lhe foi imputada, a qual foi recebida mediante a fé, ou melhor, somente pela fé. Doravante, a justiça de Cristo é nossa justiça. Quando eu creio em Cristo, Sua justiça é imputada em mim. Nós todos estávamos em Adão, por isso pecamos, mas agora estamos em Cristo pela fé, por isso Sua justiça está em nós.

Conclusivamente, podemos afirmar mais uma vez que a fé, conforme preconizado na Bíblia, é o único meio através do qual o homem pode desfrutar da justiça de Cristo. A igreja do presente século deve continuar pregando e ensinando que a justificação é somente pela fé em Cristo Jesus, não existe outro meio pelo qual alguém possa alcançar esse maravilhoso benefício.

Por, Osiel Gomes.

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