À semelhança do Mestre Jesus

À semelhança do Mestre JesusO cristianismo tem como peculiaridade a possibilidade de identificação com aquEle que abriu um novo e vivo caminho para o céu. As características mais sublimes reveladas na pessoa de Jesus podem ser experimentadas pelos Seus seguidores.

Não resta dúvida que todo o cristão se indagado sobre a necessidade de identificação com o Senhor da sua fé, irá destacar que empreende um esforço especial para se parecer com Ele. A identidade de um sujeito se dá pelas características mais evidentes da sua personalidade e do seu caráter. Quando a referência é algum herói da mídia, do esporte, do teatro ou da política não há nenhuma garantia de que algumas anomalias na alma não ocorram (2 Timóteo 3.1ss).

Quando o apóstolo Paulo diz: “de sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” (Filipenses.2.5), ele revela a mais importante virtude demonstrada pelo Verbo de Deus. A identificação por semelhança com Ele não tem possibilidade jamais de ocorrer por aspectos culturais, visto que orientais e ocidentais têm suas distinções e especificidades. Não é relevante a identificação pela cor da pele, pela maneira de falar ou outra característica que seja do contexto biofísico-social. O sentimento que houve em Cristo Jesus é o que nos faz parecidos ou não com Sua pessoa. Este sentimento chama-se “compaixão”.

Nem a oração pelos enfermos, nem a evangelização por intermédio dos vários meios tecnológicos, nem os eficientes trabalhos de congressos e outras atividades religiosas farão alguém se identificar com Jesus. A comunicação verbal, escrita ou simbólica pode transmitir profundos conhecimentos e os mais secretos pensamentos, mas jamais poderão transmitir sentimentos. Em um mundo que oferece opções de vida diferente de pouco tempo atrás, no conforto da comunicação, transporte, pesquisa, etc., percebemos também o empobrecimento dos afetos e o constante embotamento dos sentimentos humanos, que os distancia do altruísmo de Jesus que veio para servir e não para ser servido.

Quando Jesus olhava a multidão que lhe seguia Ele era movido de íntima compaixão” porque as via como ovelhas sem pastor. Quando contou a parábola do homem assaltado e semimorto à beira do caminho, questionou ao doutor da lei sobre a atitude do samaritano que movido de “intima compaixão” (Lucas 10.33) medicou as suas feridas, atendendo suas necessidades. A Parábola do Filho Pródigo, que faz alusão ao amor de Deus pelo pecador que se volta a Ele, destaca que quando o filho ainda estava longe, “viu-o seu pai, e se moveu de íntima compaixão, e, correndo lançou-se-lhe ao pescoço, e o beijou” (Lucas 15.20c).

Compaixão é um sentimento moral que revela a capacidade de altruísmo resultante da empatia com o próximo, bem como do senso cristão.

Os filósofos Adam Smith e Schopenhauer definem a compaixão como forma específica de simpatia, que por sua vez é definida como afinidade com toda a paixão. Trata-se da capacidade de sentir o que o outro está sentindo. Segundo o dicionário Houaiss, é a capacidade de compenetrar-se das ideias ou sentimentos de outrem.

O conceito de simpatia no geral e de forma coloquial transmite um sentido mais comum de pessoa agradável. Porém, o filósofo conceitua a simpatia como algo que corresponda a uma dimensão afetiva, onde a própria alma possa vibrar quando percebe e comove-se com o sentimento alheio. Penso nas muitas vezes que Jesus foi movido pelos sentimentos de pessoas como o cego de Jericó, a mulher Siro-Fenícia, o príncipe da sinagoga chamado Jairo, a mulher adúltera, o paralítico em Betesda, Marta e Maria, a viúva em Naim e tantos outros.

Schopenhauer afirma que a compaixão, então, é a capacidade de sensibilizar-se pela dor alheia, seja ela realmente experimentada, tal como a compaixão por alguém que perdeu tudo; ou virtual, que é a compaixão por alguém que pode vir a perder. Assim entendendo esta questão tanto pode empreender-se esforço para ajudar o sofredor, quanto antecipar-se e socorrer alguém para que o mesmo não sofra um dano ou experimente a dor que se avizinha. Desencadeando boas ações e evitando as más livrando o próximo de crueldades que porventura lhe sejam ameaçadoras. Somente a compaixão motiva ações justas e generosas.

A compaixão é mais do que a justiça, pois lutar por um direito adquirido e exigir-se o cumprimento desse direito seria sem dúvida uma atitude moral. Porém, aí não estaria presente o altruísmo, como objetivo do bem estar de outrem.

Yves de La Taille propõe um exemplo disso quando argumenta que se alguém percebesse uma criança chorando por lhe ter sido tirado um sorvete, certamente sentiria compaixão da criança, mas se imaginarmos que o que chora pela perda do sorvete seja um adulto, em vez de nos comovermos pela sua dor, é provável que o avaliemos como ridículo e até desprezível. Em vez de o ajudarmos certamente lhe viraremos as costas.

Por que julgamos que é legítimo uma criança chorar a perda de um sorvete e ilegítimo um adulto fazer o mesmo? A situação seria diferente se soubéssemos que esse adulto está com muita fome e a única comida que lhe dispuseram foi o sorvete. Ou se percebêssemos que o estado psicológico dessa pessoa é deplorável e que o mesmo não tem estrutura para suportar o mínimo de frustrações. Em outras palavras, naturalmente sentimos compaixão somente por aquilo que julgamos digno de despertá-la. Mas quando cultivamos em nós mesmos o sentimento que houve em Cristo Jesus, a visão da realidade da vida e das pessoas é focalizada por um prisma diferente da cosmovisão desprovida do interesse altruísta.

Diz o salmista: “Tira-me do lamaçal e não me deixes atolar; seja eu livre dos que me aborrecem e das profundezas das águas. Não me leve a corrente das águas e não me sorva o abismo, nem o poço cerre a sua boca sobre mim. Ouve-me Senhor pois boa é a tua misericórdia; olha para mim segundo a tua muitíssima piedade. E não escondas o teu rosto do teu servo, porque estou angustiado; ouve-me depressa […] afrontas me quebrantaram o coração, e estou fraquíssimo; esperei por alguém que tivesse compaixão, mas não houve nenhum; e por consoladores mas não os achei” (Salmos 69.14-17, 20).

Por, Paulo Gonçalves.

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