Sacerdócio universal dos crentes

Sacerdócio universal dos crentesDesde quando chamou o caldeu Abrão, Deus demonstrou claramente Seu interesse em salvar a todos os que, pela fé, à semelhança do patriarca, atenderiam ao Seu chamado (Gênesis 12.1-3; 22.17,18; Gálatas 3.6-9). Esta promessa nutriu, durante quatro séculos, o povo que foi se formando a partir da família de Jacó, neto de Abraão. E quando Deus chama Moisés e o envia ao Egito para libertar os hebreus, antes mesmo de fornecer-lhes as leis, diz que a nação a ser formada seria sua “propriedade peculiar” além de “reino sacerdotal e povo santo” (Êxodo 19.5,6 cf. Deuteronômio 7.6). As leis, portanto, visavam ser uma forma de contracultura, pois o povo precisava de uma identidade. Não obstante, a ideia de igualdade está muito clara. Não há uma casta especial ou superior, mas todos são “sacerdotes”. Até este momento, não há instituição sacerdotal entre os hebreus, mas apenas menções a Melquisedeque e Jetro, respectivamente (Gênesis 14.18; Êxodo 2.16; 18.1).

As primeiras instruções acerca do sacrifício, juntamente com o Decálogo, não especificavam quem o oficiaria (Êxodo 20.22-26). É bem verdade que, após o conselho de Jetro, Moisés elegera anciãos em Israel (Êxodo 18.9-27), e estes 70, juntamente com Arão, Nadabe e Abiú, foram designados a subir com Moisés ao monte para receberem a Lei (Êxodo 24.1). Observe-se, porém, que na presença de Deus só Moisés poderia se achegar; os demais mantinham distância (Êxodo 24.1,2). Mesmo sendo impossível que todos oficiassem e, por isso mesmo, Arão e seus filhos tivessem sido designados pelo Senhor e, posteriormente, a tribo de Levi (Êxodo 28.1-3; Números 3.11-13; 8.5-26), é interessante notar que Moisés, quando da orientação divina, “enviou certos jovens dos filhos de Israel, os quais ofereceram holocaustos e sacrificaram ao Senhor sacrifícios pacíficos de bezerros” (Êxodo 24.5).

Certa vez, Deus pediu que Moisés renovasse seu grupo de 70 anciãos e assim eles o ajudassem (Êxodo 11.16-25). Os dois homens que ficaram no acampamento – e de quem Josué sentiu ciúmes pelo fato de profetizarem, querendo até mesmo que Moisés os proibisse (Números 11.26-28) –, motivaram um pronunciamento do legislador que é emblemático: “Tomara que todo o povo do Senhor fosse profeta, que o Senhor lhes desse o seu Espírito” (Números 11.29b).

No cimo da história veterotestamentária, a situação da classe sacerdotal é degradante (Malaquias 1-4). O período intertestamentário certamente não sinaliza grandes melhorias para a classe. Ao adentrar os dias de Jesus, tem-se o ápice da falência do grupo, tanto pela Nova Aliança que foi instituída (Mateus 26.28 cf. Hebreus 8.6-13) quanto pela situação degradante em que se encontrava. E que situação era esta? A de não ter escrúpulos para condenar um inocente em um processo suspeitíssimo (João 18.12-24) e de usar a influência obtida com o status religioso para incitar a turba para pressionar um político, e assim levar o Mestre à pena capital (João 19.12). A falência definitiva do sacerdócio levítico se dá na reunião em que o sacerdote e o sumo sacerdote decidem que Jesus deveria morrer (João 12.9-11), não por ter dito que era o Messias, mas pelas provas de que Ele, de fato, é o Messias (João 11.45-57).

Evocando os profetas, é possível verificar que a instituição sacerdotal não acabaria, mas seria muito diferente da que ora o povo experimentava (Isaías 2.1-5; Ezequiel 40-44; Miqueias 4.1-3 etc.). O ápice, porém, de tal sacerdócio convergia com o reinado messiânico ansiado pelos judeus. As coisas não se deram exatamente conforme a expectativa judaica, mas a epístola aos Hebreus garante que eles tinham um Sumo Sacerdote – Jesus Cristo – que transcendia a ordem levítica, pois era da “ordem de Melquisedeque” (Hubreus 6.13-7.19), cumprindo o Salmo 110.4. Portanto, este sacerdócio cumpria a promessa messiânica que, lógico, ninguém poderia cumprir. Todavia, enquanto este Sumo Sacerdote não retorna, ainda resta o trabalho de anunciar o Reino e discipular pessoas. Um trabalho digno de uma mediação sacerdotal. Na verdade, conforme instrui Vanhoye, “por trás da dimensão sacerdotal do mistério de Cristo, está a qualificação sacerdotal do povo cristão”.1 Em outros termos, somente através dos méritos de Cristo os Seus discípulos são tornados sacerdotes reais.

E é exatamente aqui que reside a alegria, mas também a responsabilidade, dos discípulos de Cristo. Se os tempos messiânicos não se iniciaram para os judeus, posto que não reconhecem Jesus como Messias, para a Igreja tal é uma realidade. Vanhoye destaca que enquanto a “frase do Êxodo está no futuro e se dirige aos israelitas, opondo-os às nações pagãs, e está precedida por uma proposição condicional, a frase de Pedro [2 Pedro 2.9, que evoca Êxodo 19.5,6] aplica-se ao presente, está dirigida a pessoas procedentes de nações pagãs e não é condicional”. É uma mudança radical de perspectiva: Êxodo aponta para o futuro ao passo que o de Pedro está no presente, sendo praticamente uma aclamação. Em Êxodo, a promessa era condicional; em Pedro, uma realidade dada.

O texto em que Martinho Lutero desenvolve a doutrina do sacerdócio geral dos crentes trata originalmente de uma questão eminentemente política de sua realidade. Trata-se da obra À Nobreza Cristã da Nação Alemã, Acerca da Melhoria do Estamento Cristão, publicada em 1520, que faz uma crítica à organização política e estrutural em forma de estamento da Alemanha de então. Nela, em determinado momento, como resume Alister McGrath, Lutero afirma que “todos os cristãos são chamados para serem sacerdotes, e esse chamado se estende ao mundo cotidiano”.2 O metodismo no século 18 e o pentecostalismo desde o século passado foram importantíssimos para o fortalecimento e o melhor desenvolvimento desta doutrina, ao reconhecer, a exemplo da Igreja Primitiva, a importância do trabalho leigo ao lado do dos oficiais.

Conforme observa Kenneth Collins, “Wesley vai além de seus colegas morávios e pietistas em seu extenso uso de pregadores leigos, com frequência, chamados ‘ajudadores’, e também uma quantidade de ‘assistentes’ que ajudavam na supervisão desses pregadores”.3 Não obstante, Wesley fazia uma “distinção entre mensageiros comuns e extraordinários”,4 visando mostrar a diferença entre o povo todo e um Filipe, por exemplo (Atos 8.1-8, 26-40). Semelhantemente se deu com as Assembleias de Deus no Brasil. Há vários paralelos entre o metodismo e o pentecostalismo. A valorização do trabalho leigo é um deles. Outro é que a “ascensão do pentecostalismo”, como diz Collins, “em termos de herança wesleyana e do reavivamento que o precedeu, é marcada por muitos impulsos reformistas”.5 Harvey Cox afirma que a expansão do pentecostalismo por todo o Hemisfério Sul é algo “tão extraordinário que, na verdade, [pode até ser considerado como] uma nova reforma que está em andamento”.6 Isso porque, “à luz de recente trabalho minucioso de peritos em sondar a opinião pública e de demógrafos, fica claro que, no século 21, a fé cristã se manifesta de novas formas que premiam a atividade capacitadora do Espírito Santo tanto na vida pessoal como corporativa”.7

É possível dizer, sem paixão alguma, que “o metodismo do século 18 e o pentecostalismo moderno, vitais e novos movimentos do Espírito, com frequência são considerados ‘desestabilizadores’”, pois “eles desafiam os poderes vigentes, abrem caminho, por assim dizer, a fim de pavimentar a estrada para a nova vida e a genuína liberdade, a vida de um coração libertado para a graça do Espírito e pelo amor profundo, curador e satisfatório”.8 Não é isto que tem acontecido há mais de um século no Brasil? A palavra e o púlpito franqueados às pessoas das camadas mais simples e populares da sociedade? Tudo por causa da igualdade produzida pelo Espírito de Deus que age indistintamente? Foi assim na Igreja Primitiva (Atos 4.13). O pentecostalismo, ao lado do metodismo do século 18, são as únicas expressões cristãs a levar totalmente a efeito o sacerdócio universal dos crentes.

NOTAS

1 VANHOYE, A. Sacerdotes Antigos e Sacerdote Novo. Segundo o Novo Testamento. 1.ed. São Paulo: Academia Cristã, 2007, pp.377-78.
2 MCGRATH, A. O Pensamento da Reforma. Ideias que iluminaram o mundo e continuam a moldar a sociedade. 1.ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2014, p. 289.
3 COLLINS, K. J. Teologia de John Wesley. O amor santo e a forma da graça. 1.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2010, p.332.
4 Ibid., p. 328.
5 Ibid., p. 201.
6 Ibid., p. 202.
7 Ibid., p. 202.
8 COLLINS, K. J. Op. Cit., p.203.

Por, César Moisés Carvalho.

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