Relacionamento do crente com o mundo

Relacionamento do crente com o mundoA palavra “mundo”, do grego kosmus, surge cento e dezoito vezes no Antigo Testamento e duzentos e vinte e cinco vezes em o Novo Testamento (Almeida Corrigida e Revisada Fiel). O verbete está relacionado à “criação” (universos, astros celestiais, planeta Terra); também refere-se à “humanidade”; e, por fim ao “pecado”.

Perante Pilatos, Jesus afirma: “… Eu não sou deste mundo” (João 8.23). Por esta afirmação entendemos, claramente, que existem duas dimensões: uma de cunho material e outra de cunho espiritual. À dimensão material chamamos “mundo” e à espiritual chamamos “céu”. Notamos isso quando Jesus diz: “Pai nosso que estais nos céus…” (Mateus 6.9). Ainda observamos que as Sagradas Escrituras fazem esta distinção ao mencionar “Reino de Deus”, referindo-se à esfera espiritual.

Neste viés, chegamos a uma conclusão simples: estamos aqui de passagem. Posto que esta vida terrena se finda com a morte, projetando o ser humano para a vida eterna.

Afirma o poeta da Harpa Cristã que somos peregrinos na terra. Assertiva respaldada na primeira epístola de Pedro 1.17: “E, se invocais por Pai aquele que sem acepção de pessoas, julga segundo a obra de cada um, andai em temor, durante o tempo da vossa peregrinação”.

O tempo da nossa “peregrinação” é o tempo que vivemos neste mundo. A transitoriedade da vida é patente a todo ser humano. Todos nós sabemos que um dia a morte nos conduzirá ao Pai celestial. Uns para a vida eterna e outros para a vergonha e desprezo eternos (Daniel 12.2).

Em que pese a promessa de alguns serem arrebatados sem ver a morte, a exemplo de Enoque (Gênesis 5.24).

Esclarecidos tais aspectos neste introito, resta-nos abordar a relação do cristão com o mundo ao longo de sua jornada. O versículo supra, assevera: “andai em temor”. Ainda o texto em Hebreus 12.1 diz: “Portanto nós também, pois que estamos rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas, deixemos todo o embaraço, e o pecado que tão de perto nos rodeia, e corramos com paciência a carreira que nos está proposta”.

O “mundo” (sociedade) nos observa e busca em nós qualquer espécie de “embaraço” ou “pecado” para nos lançar em rosto. O diabo, nosso adversário, é nosso acusador e assim o faz de dia e de noite (Apocalipse 12.10).

Por vezes, nos esquecemos que somos embaixadores de Deus na Terra e que um dia Ele virá nos buscar. Por isso, amados, aguardando estas coisas, procuremos ser achados imaculados e irrepreensíveis em paz (2 Pedro 3.14).

Aprove a Deus não nos deixar em uma situação de conforto neste mundo. Não poucas vezes somos afligidos, perseguidos, tentados, provados e humilhados. Muitos são, até mesmo, torturados, e mortos por causa do Evangelho da Salvação. Mas não há surpresa nisso. Jesus nos alertou: “No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” (João 16.36).

Na verdade o mundo nos aborrece, mas aborreceu ao Senhor Jesus primeiramente: “Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós, me odiou a mim. Se vós fosseis do mundo, o mundo amaria o que era seu, mas porque não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos odeia” (João 15.18, 19) – Grifo meu).

É impactante dizermos que não somos deste mundo. Certa irmã testificou que quando trabalhava na limpeza de um condomínio luxuoso foi abordada por adolescentes que lhe perguntaram o motivo dela ser tão diferente das demais pessoas que por ali passaram. Nem as músicas que ela cantarolava eram conhecidas. Ela afirmou que não pertencia a este mundo. Tal diálogo, ao chegar aos ouvidos dos pais (condôminos) causou um frenesi tal que culminou com a demissão da irmã que passou a ser chamada de E. T. (extra-terrestre), um ser de outro planeta. Neste episódio tragicômico, podemos louvar a Deus pela postura dessa abnegada serva do Altíssimo. Perdeu um bom emprego, mas não perdeu a oportunidade de testificar do Reino de Deus e Sua justiça.

Não tenho dúvidas que muitos chamarão o “arrebatamento” de “abdução” em massa. Todavia, não mudaremos de planeta ou de galáxia. Teremos o nosso corpo transformado em corpo glorioso, tal qual o corpo de Jesus, após sua ascensão aos céus. Teremos sim, novos céus e nova Terra, porém espirituais e não físicos.

O que nos chama a atenção é que seria bem mais fácil se todo os cristãos se refugiassem em uma ilha distante, se afastando do resto mundo para ali ficar adorando a Deus diuturnamente. Mas não é este o objetivo do Pai. Ele nos comissionou para anunciar as Boas Novas do Evangelho. Em que se pese o desejo que sentimos de nos isolar, temos que frequentar escolas, faculdades, eventos festivos, trabalho e etc. Em fim, temos que conviver neste mundo em vários círculos sociais. Não é inerente ao cristão o ser anti-social ou ermitão.

Jesus nos mostra isso ao aceitar o convite para as bodas de casamento em Caná da Galiléia. Ali teve uma ótima oportunidade de operar o milagre da transformação da água em vinho (João 2.6, 7).

Aprendemos com isso que devemos conviver com eventos e atividades seculares, porém sem ser influenciados pelos costumes do mundo. Na contramão da via, devemos ser luz em meio às trevas. Não devemos nos conformar com este mundo, mas sim buscarmos uma transformação para que possamos experimentar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus (Romanos 12.2).

O apóstolo Paulo nos diz que todas as coisas são lícitas, mas nem todas convêm, todas as coisas são lícitas, mas não podemos nos deixar dominar por nenhuma delas (1 Coríntios 6.12).

Eis o motivo pelo qual somos chamados de “santos”. Significando que somos “separados” do mundo. Não quanto ao convívio, mas sim quanto às práticas mundanas. Devemos saber que ao nos aproximarmos demasiadamente do mundo, corremos o risco de perder as características de um viver cristão. Contudo, se permanecermos em Jesus, nós teremos dEle o cumprimento das ricas promessas. Somos enviados como ovelhas ao matadouro, por amor ao Amantíssimo Senhor Jesus.

Muito embora sejamos uma nova criatura, é de bom tom lembrar que o “velho eu” sempre estará à espreita, aguardando uma oportunidade, um deslize para se levantar em nossa vida. Há uma luta constante do espírito contra a carne e um se opõe ao outro em uma batalha que só termina quando chegarmos na glória (Gálatas 5.17). Por isso devemos andar em espírito para não cumprir os desejos da carne.

Há uma antiga história em que os anciãos da tribo indígena norte-americana dos Cherokee estavam preocupados com um dos garotos da tribo que, por se sentir injustiçado tornou-se agressivo. O avô do menino o traz para perto de si e diz:

– Eu entendo sua raiva. Há uma batalha terrível entre dois lobos que vivem dentro de cada ser humano. Esses dois lobos lutam constantemente tentando nos dominar. Um é mau e o outro bom.

O neto pensou nessa luta e perguntou ao avô:

– Qual lobo será, por fim, vitorioso?

O velho índio respondeu:

– Aquele que foi mais alimentado!

O pequeno indiozinho entendeu que não devia mais guardar rancor, ódio ou revolta em seu coração. Passou a cultivar o perdão, a solidariedade e tolerância. Mais tarde veio a se tornar o líder dessa tribo.

Qual destes “lobos” tem sido mais alimentado?

Andemos neste mundo com sabedoria sabendo a diferença entre “convivência” e “contaminação”. Que Deus sempre nos mostre que os prazeres que acodem aqui são vãos terrestres esplendores, mas o crente fiel contempla seu lar celestial.

Por, Marco Antônio Polidoro.

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