Reforma e pentecostalismo

Reforma e pentecostalismoTradicionalmente remonta-se a origem do pentecostalismo ao avivamento norte-americano do século 20. No entanto, esta assertiva falha coma história e falta com a verdade. O Movimento Pentecostal tem analogia com o evento registrado no livro de Atos dos Apóstolos. Cinquenta dias após a ressurreição de Cristo, ao cumprir-se o dia da Festa do Pentecostes, os discípulos reunidos no cenáculo “foram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas” (Atos 2.4). Portanto, o pentecostalismo nasceu concomitantemente com a Igreja.

Em relação ao legado da Reforma, os antecedentes da redescoberta do pentecostalismo estão relacionados com o puritanismo inglês e o pietismo alemão. Já no século 16, os ingleses desejavam “purificar” a Igreja protestante da Inglaterra. Requeriam um culto sem pompa, mais simples, espiritualizado e centrado na pregação da Palavra. O maior pregador foi Jonathan Edwards (1703-1758) que se tornou conhecido pelo sermão “Pecadores nas mãos de um Deus irado”. Na Alemanha dos séculos 17 e 18, o pietismo “reiterava o tema de que a reforma doutrinária iniciada por Lutero precisava ser consumada por uma nova reforma da vida”.1 Os petistas ressaltavam a experiência pessoal com Deus e a busca pela santificação. Em 1675, o pastor luterano Philipp Spener (1635-1705) publicou a obra “Pia Desideria” (“Desejos Piedosos”), cujo título originou o termo “petistas”. Spener denunciava o formalismo e o cristianismo nominal e condenava a falta de crença na iluminação divina do Espírito Santo. Tais movimentos influenciaram a vida e a teologia do inglês John Wesley (1703-1791) e deram origem ao metodismo. Liderados por Wesley os metodistas ensinavam a necessidade da santificação e a existência de uma segunda obra da graça que mais tarde passou a ser identificada como sendo o batismo no Espírito Santo.2

Acerca da contribuição desses movimentos para o protestantismo, pode ser considerado que “o cristianismo evangélico contemporâneo nos Estados Unidos e os movimentos se originaram dele”.3 Na América do Norte, a partir de 1776, surgiram avivamentos diversos e o fenômeno foi descrito como “arminianização da América”. Por fim, o metodismo do século 18 deu origem ao “Holiness Movement” (Movimento da Santidade) do século 19, considerado berço do pentecostalismo nos Estados Unidos.

O movimento pentecostal norte-americano permaneceu em ascensão até o final do século 19. Os pentecostais ensinavam que o “falar em línguas” era a evidência inicial do batismo no Espírito Santo. No início do século 20, dezenas de estudantes da Escola Bíblica fundada pelo pastor Charles Parham (1873-1929) falaram línguas desconhecidas como sinal do batismo no Espírito Santo. A partir daí, seguiram-se outros avivamentos que atraíram milhares de cristãos. Esse avivamento recebeu o nome de Movimento da Fé Apostólica.4 Tal movimento, bem como o da Rua Azusa, em Los Angeles, com o pastor William Joseph Seymour (1870-1922), são estudados como os precursores de um despertamento mundial ocorrido no século 20 e que atingiu também a pátria brasileira.

Os pioneiros das Assembleias de Deus no Brasil, os suecos Gunnar Vingren (1879-1932) e Daniel Berg (1884-1963), mantiveram contato simultâneo como pentecostalismo nos Estados Unidos e na Suécia. Vingren foi batizado no Espírito Santo em novembro de 1909 em uma conferência na 1ª Igreja Batista sueca em Chicago. Berg também foi batizado em 1909, em terras americanas, provavelmente ainda embarcado em um navio quando retornava de uma viagem à Suécia, depois de inteirado acerca da doutrina com o seu amigo sueco pastor Lewi Pethrus (1884-1974).5

Nos primeiros anos de Assembleia de Deus no Brasil, foram amplamente divulgados a teologia e os costumes das igrejas escandinavas. Em fins dos anos 1940, as ministrações dos missionários escandinavos começaram a diminuir. Com a chegada de missionários norte-americanos, iniciou-se um novo período na teologia assembleiana. Não obstante, a fusão dos movimentos de santidade e despertamentos pentecostais escandinavos e norte-americanos culminaram nos artigos 10, 11 e 12 do “Cremos” (credo menor) assembleiano que professa crer: “Na necessidade e na possibilidade de termos vida santa e irrepreensível por obra do Espírito Santo, que nos capacita a viver como fiéis testemunhas de Jesus Cristo (Hebreus 9.14; 1 Pedro 1.15). No batismo no Espírito Santo, conforme as Escrituras, que nos é dado por Jesus Cristo, demonstrado pela evidência física do falar em outras línguas, conforme a sua vontade (Atos 1.5; 2.4; 10.44-46; 19.1-7). Na atualidade dos dons espirituais distribuídos pelo Espírito Santo à Igreja para sua edificação, conforme sua soberana vontade para o que for útil (1 Coríntios 12.1-12)”.6

Como nos demais pontos do Cremos, a nossa Declaração de Fé (credo maior) das Assembleias de Deus apresenta a doutrina do batismo no Espírito Santo e dos dons espirituais de maneira detalhada e aprofundada: “Na experiência da salvação, o Espírito Santo passa a habitar no novo crente […]Todos os crentes em Jesus já têm o Espírito Santo […] O batismo no Espírito Santo é algo distinto do novo nascimento; significa o recebimento de poder espiritual para realizar a obra da expansão do Evangelho em todo o mundo, para uma vida cristã vitoriosa e também uma adoração mais profunda […] Ensinamos que os dons do Espírito Santo são atuais e presentes na vida da Igreja […] Os dons espirituais são vários, e nenhuma lista deles no Novo Testamento pretende ser exaustiva”.7

Pode-se então claramente notar que o credo assembleiano ratifica a atualidade do batismo no Espírito Santo e a contemporaneidade dos espirituais com ênfase na capacitação para o serviço cristão e vida santificada. Sendo estas as duas proeminentes doutrinas pentecostais sem, contudo, anular ou desconsiderar as demais doutrinas da Reforma. Assim, embora o pentecostalismo tenha origem na Igreja Primitiva de Atos, o pentecostalismo contemporâneo é resultado dos movimentos de Reforma da Igreja e dos que se seguiram a estes. Portanto, os pentecostais são protestantes, embora algumas igrejas queiram deter para si a exclusividade e o monopólio deste conceito. Aliás, é de bom alvitre lembrar que o pentecostalismo é o maior representante do protestantismo em tempos hodiernos, e que as Assembleias de Deus estão na vanguarda da mensagem pentecostal: “Jesus Cristo salva, cura, batiza no Espírito Santo e breve voltará!”.

Notas

(1) OLSON, Roger. História da Teologia Cristã. Editora Vida, 200. p. 485.
(2) BAPTISTA, Douglas R. A. História das Assembleias de Deus: o grande movimento pentecostal do Brasil., Intersaberes, 2017. p. 39-43.
(3) OLSON, Ibid., p. 528-529.
(4) BAPTISTA, Ibid., p. 59.
(5) ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. CPAD, 2007. p. 122-123.
(6) CGADB. Declaração de Fé. CPAD, 2017. p. 13
(7) CGADB. Declaração de Fé..Cap XIX e XX. p. 92-95.

Por, Douglas Baptista.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Google Translate »