Razões para a rejeição de Esaú na sucessão patriarcal

Na história da salvação, a aprovação ou a reprovação de uma pessoa ou de um ministério perante Deus é realizado por meio de princípios, os princípios divinos. Esaú foi rejeitado por Deus para ascender ao patriarcado. Descubramos, pois, as razões para a rejeição de Esaú pelo Senhor para que o mesmo não sucedesse a Isaque, seu pai, no patriarcado. Ei-las:

1 – Esaú não se portou por modo digno da promessa (Hebreus 12.16-17). Na essência do patriarcado, há uma constituição de princípios a serem seguidos, pois no patriarcado foram propostos os pactos (Romanos 9.5; Efésios 2.12). Sabemos que uma vida agradável a Deus é regida por meio dos princípios divinos. Os princípios divinos coincidem com a santificação (Hebreus 12.14). Esaú rejeitou os princípios divinos da santificação ao preferir viver em estado de impureza e profanação (Hebreus 12.16-17). Uma sólida vida espiritual não nos é transmitida por geração natural, ela é fruto de uma comunhão pessoal com Deus. De igual modo, a vocação ministerial não se configura meramente pelo processo da hereditariedade (1 Samuel 2.27-36).

2 – Esaú não tinha Deus e Suas promessas em primeiro plano para sua vida (Gênesis 25.31-34). A passagem bíblica de Gênesis 25.23 deve ser interpretada pelo prisma da onisciência divina. O Senhor conhece todos os homens de antemão por meio de Sua infinita onisciência (Romanos 8.29-30). Deus criou uns para a bênção eterna e outros para o dano eterno,  o que seria atribuir a injustiça a Javé, algo antibíblico, imoral e blasfemo. A menção de Paulo em Romanos 9.12-13 deve ser compreendida como correção de Deus no plano funcional, tendo como causa a Sua onisciência, para adequação dos projeto aos princípios divinos, e não uma determinação ontológico-fatídica, ou uma indução compulsória. Da insuficiência do primeiro pacto (a Lei – Hebreus 7.18-19; 8.13) decorreu sua sub-rogação e, de igual modo, da desqualificação de Esaú decorreu sua rejeição, e não de atos arbitrários da parte de Deus. A Palavra de Deus é categórica: “Mas buscai primeiro o Reino de Deus, e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas” (Mateus 6.33). Isso foi o que faltou a Esaú. Relegar Deus e Seus projetos relevantes para nós para um segundo plano significa perdê-los (Lucas 17.26-30; Hebreus 12.16-17). Não podemos perscrutar as profundezas da mente divina, mas podemos com segurança rejeitar a doutrina que atribua injustiça a Deus. Ele escolhe e reprova, sim, mas escolhe e reprova dentro do Seu plano judicial ad intra, isto é, em seu intratrinitário onisciente, infinito e justo.

3 – Esaú não estava disposto a lutar por tal promessa (Gênesis 25.31-34). Viver no centro da vontade divina é participar de um conflito que só terminará na intervenção final de Deus na história (Apocalipse 20-22). Nosso Senhor participou desse conflito (Hebreus 5.7). Paulo reconhece com nitidez a existência de um conflito entre o Reino de Deus e o reino das trevas, no qual o homem está no centro (Efésios 6.10-18). O Reino de Deus na Terra é tomado por esforço. Esaú não compartilhava essa visão de luta. Por um prato de guisado, vendeu o seu direito de sucessão patriarcal. Portanto, não tinha condição moral para levar avante o projeto de Deus, razão pela qual foi preterido.

4 – Esaú era um homem sem visão do futuro (Gênesis 25.31-34). Ora, a história da salvação é um ministério: o ministério da salvação. Esse ministério está em processo, e aqui só finalizado com a intervenção final de Deus na história humana. Portanto, sua culminação está no futuro, daí decorre que o homem de Deus deve visualizar o futuro.

5 – Esaú não foi homem de fé (Gênesis 25.31-34). A história do povo de Deus é a história da fé, tanto no Antigo como no Novo Pacto a fé é de capital importância para o relacionamento com Deus. A galeria dos heróis da fé listados em Hebreus 11 é, efetivamente, a história da fé do povo de Deus sob o Antigo Pacto. Sem fé é impossível agradar a Deus (Hebreus 11.6). Portanto. um dos quesitos para a rejeição de Esaú como futuro sucessor de Isaque foi sua falta de fé. A rejeição dos Israelitas que caíram prostrados no deserto decorreu da ausência de fé (Números 14.26-37). Esaú não herdou a fé de seu avô, logo aborreceu o Senhor (Malaquias 1.2-3).

6 – Esaú foi um homem do arco e não da tenda (Gênesis 27.3). Arco sugere violência, derramamento de sangue, guerra, morte e está em oposição à tenda. Tenda, por sua vez sugere, oração, comunhão, dependência. Nosso Senhor é chamado de a “Tenda de Deus” (João 1.14). O aparato do caçador é incomparável com o aparato do pastor. Logo, no plano espiritual, Esaú não estava habilitado para suceder seu pai no patriarcado.

7 – Esaú era homem de emoção e não da razão (Gênesis 25.32-33). Um homem sem controle emocional não está apto a representar o Senhor diante do povo. Assim como um homem doente emocionalmente não está apto a assumir um ofício relevante como o ministério da Palavra. Portanto, da ausência da razão decorre a impossibilidade da ascensão de Esaú ao ministério patriarcal.

8- Esaú era homem imediatista, era homem da santificação já (Genesis 25.31-34). A continência é um dado necessário àqueles que são vocacionados para ministrarem perante Deus. Todos os homens verdadeiramente chamados por Deus têm exercido a abstinência com objetivo de viverem em estado de continência perante o Senhor. Aos homens de Deus compete rejeitar os impulsos da sensações psicossomáticas imediatistas e experimentar um morrer contínuo pelo poder do Espírito Santo (Romanos 8.13). Muitos têm ido parar nas mais densas trevas espirituais em razão de darem vazões a impulsos imediatistas pecaminosos. Foi o que aconteceu com Esaú.

9 – Esaú era possuidor de espírito frio (Gênesis 27.41). Esaú contraiu casamentos com mulheres vizinhas contrariando as orientações de seu avô Abraão (Gênesis 24.3; 26.35). Esaú vendeu seu direito de primogenitura (Gênesis 25.31-34). Esaú guardava rancor contra seu irmão, não o perdoando ((Gênesis 27.41). Esaú tencionava matar seu irmão em tempo mais breve possível (Gênesis 27.4). Esaú tinha o espírito de caçador e não de pastor.

10 – Esaú foi um comercializador das coisas sagradas ((Gênesis 25.31-35). Esaú sabia que estava inserido no projeto salvífico por ser descendente de Abraão, a quem foi feita a promessa (Gênesis 12.3). Deus mesmo se auto manifestaria através desse projeto de salvação para a humanidade (João 1.14, 18; 4.22; Romanos 9.5), mas Esaú não deu a mínima importância desse projeto de tamanha grandeza e cedo comercializou o seu direito de primogenitura. Esaú é o protótipo daqueles que hoje estão comercializando os dons recebidos pela infinita misericórdia divina. É também o protótipo daqueles que estão comercializando a fé das ovelhinhas do Senhor através de promessas irrealizáveis em nome de Deus.

Por Francisco Gonçalves.

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